Chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, Malês
Chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, Malês

É hora de comentar os sambas de enredo das escolas do Grupo Especial do Carnaval do Rio em 2019. Até porque estamos a uma semana dos desfiles competitivos na Passarela do Samba Professor Darcy Ribeiro – vulgarmente conhecida como “Marquês de Sapucaí”, nome da rua onde o espetáculo acontece no bairro da Cidade Nova, ao lado do Estácio, na região central do Rio de Janeiro. (Saiba mais no link https://goo.gl/1zyCXR ). Como tenho feito há alguns anos, comento samba a samba equilibrando a minha percepção mais intuitiva de ouvinte e amante do carnaval com algumas informações que podem ajudar aos leitores a se situar melhor em relação à história recente da festa. Não tenho a pretensão e nem a qualificação necessária para formular críticas mais elaboradas sobre composição, arranjo de bateria e nem sobre o enredo propriamente dito – deixo esta tarefa para os amigos e amigas especialistas e profissionais do carnaval. Reforço, portanto, de que se trata apenas de um prazeroso exercício de um ouvinte que é apaixonado pela música e pelo carnaval. Nesta publicação para o Facebook vou compilar alguns breves comentários. A ordem dos desfiles é a seguinte: DOMINGO, 3 de março: 1) Império Serrano 2) Viradouro 3) Acadêmicos do Grande Rio 4) Salgueiro 5) Beija-flor de Nilópolis 6) Imperatriz Leopoldinense e 7) Unidos da Tijuca. SEGUNDA, 4 de março: 1) São Clemente 2) Unidos de Vila Isabel 3) Portela 4) União da Ilha do Governador 5) Paraíso do Tuiuti 6) Estação Primeira de Mangueira e 7) Mocidade Independente de Padre Miguel. Optei aqui por seguir a mesma ordem do disco oficial da Liesa e que é definida pela classificação das escolas no desfile do ano anterior.
BEIJA-FLOR
A campeã de 2018 vem com um bom samba, levada irresistível, e com o sempre competente Neguinho da Beija-Flor noutra excelente interpretação. Ainda que distante da beleza e da força do samba campeão de 2018, vai fazer bonito. Um dos refrões diz: “Abre a senzala! Abre a senzala! Nesse terreiro o samba é a voz que não cala”. E a última estrofe, de linda melodia, emociona. Assista no link: https://goo.gl/4Mr9Nb
Oh Deusa!
Tem festa no meu coração
Desfilo toda gratidão
Razão do meu cantar
A luz do meu viver
O que seria de mim sem você?
Nascido feito rei menino
Em ninho de amor e humildade
Meu Pai direcionou o meu destino
Voar nas asas da felicidade
E arrisquei um voo nesse lindo azul
Um mundo encantado pude recordar
Em fábulas bordei a fantasia
Ê saudade que mareja o meu olhar
Herdeiro dessa terra me tornei
Cantei nossos recantos, tradições
Sou eu aquele festival de prata
Que na pista arrebata tantos corações
Ôôô Axé que no sangue herdei
No meu quilombo, todo negro é rei
Abre a senzala! Abre a senzala!
Nesse terreiro o samba é a voz que não cala
Cresci, ouvindo acordes entre doces melodias
A bela dama retratada em poesia e o canto de cristal
A simplicidade no amor, aquele beijo na flor
Fez mais um sonho real
Pátria amada da ganância
Eu pedi socorro pelos filhos teus
Algoz da intolerância
Mesmo proibido, fui a voz de Deus
Toda essa grandeza, vem da nossa gente
Que esquece a dor e só quer sambar
É por esse amor
E o meu valor me faz brilhar
Comunidade me ensinou
A ser apaixonado como eu sou
Ontem, hoje, sempre Beija-Flor
PARAÍSO DO TUIUTI
O Tuiuti vem com uma boa levada e com um segundo refrão que poderia ser premonitório se o relacionarmos a Brumadinho: “Vendeu-se o Brasil num palanque da praça | E ao homem serviu ferro, lodo e mordaça | Vendeu-se o Brasil do sertão até o mangue | E o homem servil verteu lágrimas de sangue”. Nem de longe, no entanto, se aproxima do emocionante samba de 2018 – que foi potencializado na avenida pela sensibilidade e criatividade do carnavalesco Jack Vasconcelos. Assista no link: https://goo.gl/CWpPFu
O meu bode tem cabelo na venta
O Tuiuti me representa
Meu Paraíso escolheu o Ceará
Vou bodejar lá iá lá iá
Vendeu-se o Brasil num palanque da praça
E ao homem serviu ferro, lodo e mordaça
Vendeu-se o Brasil do sertão até o mangue
E o homem servil verteu lágrimas de sangue
Do nada um bode vindo lá do interior
Destino pobre, nordestino sonhador
Vazou da fome, retirante ao Deus dará
Soprou as chamas do dragão do mar
Passava o dia ruminando poesia
Batendo cascos no calor dos mafuás
Bafo de bode perfumando a boemia
Levou no colo Iracema até o cais
Com luxo não! Chão de capim!
Nasceu muderna Fortaleza pro bichim
Pega na viola, diz um verso pra iô iô
O salvador! O salvador! (da pátria)
Ora meu patrão!
Vida de gado desse povo tão marcado
Não precisa de dotô
Quando clareou o resultado
Tava o bode ali sentado
Aclamado o vencedor
Nem berrar, berrou, sequer assumiu
Isso aqui iô iô é um pouquinho de Brasil
ACADÊMICOS DO SALGUEIRO
Forte! Forte! Seguindo sua tradição de cânticos afro, o Salgueiro traz um samba arrebatador numa gira pra Xangô. O primeiro refrão é matador: “Mora na pedreira, é a lei na Terra | Vem de Aruanda pra vencer a guerra | Eis o justiceiro da Nação Nagô |Samba corre gira, gira pra Xangô”. E trata da justiça quando canta “Machado desce e o terreiro treme | Ojuobá! Quem não deve não teme”. A invocação “Olori Xangô eieô | Kabesilé, meu padroeiro | Traz a vitória pro meu Salgueiro “ tem poder. Gostei muito. E a bateria Furiosa é espetacular. Axé!
Assista no link: https://goo.gl/V8Eygr
Olori Xangô eieô
Olori Xangô eieô
Kabesilé, meu padroeiro
Traz a vitória pro meu Salgueiro
Vai trovejar!
Abram caminhos pro grande Obá
É força, é poder, o Aláàfin de Oyó
Oba Ko so! Ao Rei Maior
É pedra quando a justiça pesa
O Alujá carrega a fúria do tambor
No vento, a sedução (Oyá)
O verdadeiro amor (Oraiêiêô)
E no sacrifício de Obà (Obà Xi Obà)
Lá vem Salgueiro!
Mora na pedreira, é a lei na Terra
Vem de Aruanda pra vencer a guerra
Eis o justiceiro da Nação Nagô
Samba corre gira, gira pra Xangô
Rito sagrado, ariaxé
Na igreja ou no candomblé
A bênção, meu Orixá!
É água pra benzer, fogueira pra queimar
Com seu oxê, chama pra purificar
Bahia, meus olhos ainda estão brilhando
Hoje marejados de saudade
Incorporados de felicidade
Fogo no gongá, salve o meu protetor
Canta pra saudar, Opanixé kaô!
Machado desce e o terreiro treme
Ojuobá! Quem não deve não teme
Olori Xangô eieô
Olori Xangô eieô
Kabesilé, meu padroeiro
Traz a vitória pro meu Salgueiro
PORTELA
“Lá vem Portela com as bênçãos de Oxalá” cantando a guerreira Clara, filha de Ogum com Iansã. A minha azul e branco de Oswaldo Cruz e Madureira homenageia a grande cantora portelense Clara Nunes – que era da Umbanda, religião nativa que melhor define o sincretismo religioso brasileiro. Faz uma deferência indireta ao mangueirense Paulo César Pinheiro (viúvo de Clara e um dos maiores compositores da música brasileira, autor de “Portela na Avenida” e “Canto das Três Raças”)> “Nos versos de um cantador | O canto das raças a me chamar”. O sincretismo da Portela revela-se, por exemplo, quando canta a “padroeira” (Nossa Senhora Aparecida) e “a avenida em procissão”. Noutro momento, o samba faz referências diretas ao grande Paulo da Portela, ao compositor Natal da Portela, e ao gênio do samba Candeia. É, como a própria letra diz, um samba “saudosista”. Bonita melodia! Faz jus à tradição de respeito que a Portela tem com sua própria história. Eparrei Oyá (Iansã)! P.S.: Também tem uma referência indireta a Paulinho da Viola quando canta: “Mais uma vez deixei levar meu coração”. Assista no link: https://goo.gl/2m23zM
Eparrei Oyá, Eparrei
Sopra o vento, me faz sonhar
Deixa o povo se emocionar
Sua filha voltou, minha mãe
Axé, sou eu
Mestiça, morena de Angola, sou eu
No palco, no meio da rua, sou eu
Mineira, faceira, sereia a cantar, deixa serenar
Que o mar de Oswaldo Cruz a Madureira
Mareia, a brasilidade do meu lugar
Nos versos de um cantador
O canto das raças a me chamar
De pé descalço no templo do samba estou
É rosa, é renda, pra Águia se enfeitar
Folia, furdunço, ijexá
Na festa de Ogum Beira-mar
É ponto firmado pros meus orixás
Eparrei Oyá, Eparrei
Sopra o vento, me faz sonhar
Deixa o povo se emocionar
Sua filha voltou, minha mãe
Pra ver a Portela tão querida
E ficar feliz da vida
Quando a Velha Guarda passar
A negritude aguerrida em procissão
Mais uma vez deixei levar meu coração
A Paulo, meu professor
Natal, nosso guardião
Candeia que ilumina o meu caminhar
Voltei à Avenida saudosista
Pro Azul e Branco modernista eternizar
Voltei, fiz um pedido à Padroeira
Nas cinzas desta quarta-feira, comemorar
Nossas estrelas no céu estão em festa
Lá vem Portela com as bênçãos de Oxalá
No canto de um sabiá
Sambando até de manhã
Sou Clara Guerreira, a filha de Ogum com Iansã
MANGUEIRA
E chegamos ao mais lindo samba-enredo do Carnaval de 2019. Obra-prima. Além de citar, com grandeza, Leci Brandão e Jamelão e mostrar que sabe bem do seu tamanho e significado no Brasil (“São verde-rosa as multidões”), a Mangueira traz um samba que é a um só tempo afetivo (Meu dengo, a Mangueira chegou) e contundente na denúncia da injustiça social brasileira. É de Esquerda e mais: humanista, antirracista, feminista. Por dois momentos é claríssima a referência à resistência contra a ditadura civil-militar: 1) “Mangueira, tira a poeira dos porões” e 2) “Salve os Caboclos de Julho | Quem foi de aço nos anos de chumbo”. Pelo que vi dos ensaios técnicos, deve ter paradona da bateria para a Mangueira e as arquibancadas cantarem, a capella: “Brasil, chegou a vez | De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, Malês”. Poeticamente, o samba da Mangueira é um dos mais bonitos da história dos samba de enredo. A estrutura poética desse samba é inigualável. É um clássico que me emociona tanto quanto “Kizomba, a festa da raça” da Vila, em 1988. Assista no link: https://goo.gl/e4m6kZ
Saiba mais sobre o samba aqui: https://goo.gl/95PbS7
Mangueira, tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasis que se faz um país de Lecis, Jamelões
São verde e rosa as multidões
Brasil, meu nego
Deixa eu te contar
A história que a história não conta
O avesso do mesmo lugar
Na luta é que a gente se encontra
Brasil, meu dengo
A Mangueira chegou
Com versos que o livro apagou
Desde 1500
Tem mais invasão do que descobrimento
Tem sangue retinto pisado
Atrás do herói emoldurado
Mulheres, tamoios, mulatos
Eu quero um país que não está no retrato
Brasil, o teu nome é Dandara
E a tua cara é de Cariri
Não veio do céu
Nem das mãos de Isabel
A liberdade é um dragão no mar de Aracati
Salve os Caboclos de Julho
Quem foi de aço nos anos de chumbo
Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, Malês
MOCIDADE INDEPENDENTE DE PADRE MIGUEL
Bonito samba e que interpretação do Wander Pires! Fiquei com aquela sensação de que a performance do cantor é metade da beleza desse samba-enredo. E a belíssima abertura de Elza Soares já nos coloca numa situação de atenção reverencial ao que virá. A bateria me autoriza a dizer, numa palavra: sonzera. Tá na minha playlist. Aliás, a Mocidade vem com sambas-enredo muito bons nos últimos anos. Assista no link: https://goo.gl/mByZiY
“Padre Miguel, o teu guri já não caminha tão depressa
Mas nunca é tarde pra sonhar
Vamos lá
A hora é essa!”
Senhor da razão, a luz que me guia
Nos trilhos da vida escolhi amar
Estrela maior, paixão que inebria
Eu conto o tempo pra te ver passar
Olha lá, menino tempo
Tenho tanto pra contar
Era eu, guri pequeno
Pés descalços, meu lugar
Quando um toco de verso (ôôô)
Semeou a poesia (ê láiá)
Eu colhi a flor da idade
Vi na minha Mocidade
O raiar de um novo dia
Baila no vento, deixa o tempo marcar
Nas viradas dessa vida
Vou seguir meu caminhar
Ah! Quem me dera o ponteiro voltar
E reencontrar o mestre na avenida
Desmedido coração
No contratempo dessa ilusão
Ora machuca, ora cura dor
Do meu destino, compositor
Tempo que faz a vida virar saudade
Guarda minha identidade
Independente relicário da memória
Padre Miguel, o teu guri já não caminha tão depressa
Mas nunca é tarde pra sonhar
Vamos lá, a hora é essa!
UNIDOS DA TIJUCA
Tenho uma relação afetiva com a comunidade do Borel – morei mais de três na Conde de Bonfim próximo ao morro. A Tijuca traz uma belíssima melodia. E como é uma escola de samba exxxperta, alinha com os católicos nesta guerra santa que virou o Carnaval do Rio de Janeiro sob o comando da Prefeitura nas mãos de um “bispo” evangélico neopentecostal que persegue a cultura afro. Tem um refrão que me lembra muito o lindo samba da Beija-flor em 2018 mas no refrão seguinte a Tijuca lacra: “Só existe um caminho… (por favor!) | Cada um faz seu destino (meu senhor!) | As migalhas do poder que o diabo amassou | Estão dentro de você”. Eu gostei muito. Assista ao vídeo do Pavão no link: https://goo.gl/KMLdg4
Hoje a Tijuca pede em oração
Veste a fantasia pra fazer o bem
Multiplica o sagrado pão
Amém (amém)
Meu filho
Como é lindo o amanhecer
Reflete o sol, a criação
Um bom dia a renascer
Pelos olhos do Pavão
Sou a fé na vida
Esperança da massa
Aquele que na dor te abraça
Sou eu, a verdade pra quem pede luz
Carregando a sua cruz
O alimento em comunhão
Princípio da salvação
Ouço chamar Meu nome
Ouço um clamor de prece
Choro ao te ver com fome
Sou o cordeiro que a alma fortalece
Só existe um caminho (por favor)
Cada um faz seu destino (meu senhor)
As migalhas do poder que o diabo amassou
Estão dentro de você
As mãos unidas vem pedindo o perdão
Gente sofrida com a paz no coração
Dividem o pouco que tem pra comer
Ó meu pai o seu amor é a receita
Iluminai, que não me falte o pão na mesa
Derrame igualdade, prosperidade
As bênçãos do céu
Se Deus é por nós, escute a voz
Que vem do meu Borel
IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE
A Imperatriz apela para o refrão de uma marchinha de Carnaval clássica e traz um samba divertido e crítico – bem ao estilo, de novo, das marchinhas que são crônicas sociais. Aliás, acho que é o samba mais cinicamente divertido desse Carnaval. Sacaneia a política, o capitalismo e o jogo de interesses mas também se auto-sacaneia desde a primeira estrofe – e, consigo, todo o mundo do carnaval carioca. Apesar de dizer que tem “pixulé” também zoa o “pato mergulhado no dinheiro”. Não tenho como não aplaudir passagens como essa, por exemplo: “Troca-troca ê na beira da praia | Um espelho por cocar, o negócio é um pecado | Ouro no mercado negro, negro é ouro no mercado | Tempos modernos, onde vidas valem menos | Boas ações não representam dividendos” || Salve, Imperatriz! Assista no link: https://goo.gl/hJQdgH
Me dá, me dá, me dá, me dá um dinheiro aí
Gostei da comissão, me dá meu faz-me rir
Pra investir no sonho e vestir a fantasia
Quero renda na baiana, nota10 na bateria
A tentação seduziu a poesia
Da volta todo dia é a oferta e a demanda
Pecado capital da humanidade
Senhor da desigualdade
Sempre diz quem é que manda
O arqueiro ergueu, aquela gente oprimida e sem paz
Perdeu meu bem, pobre fortuna, nobres ideais
Midas com o seu dedo de ouro
Condenou a própria filha a viver numa prisão
Prata, pixulé, papel moeda e o homem escorrega
Mete o pé na ambição
Troca-troca ê na beira da praia
Troca-troca ê na beira da praia
Um espelho por cocar, o negócio é um pecado
Ouro no mercado negro, negro é ouro no mercado
Tempos modernos, onde vidas valem menos
Boas ações não representam dividendos
A roda gira pro mais forte, poucos tem a sorte
De virar o jogo que o destino fez
Tem pato mergulhado no dinheiro
E o povo brasileiro nada por migalhas outra vez
Se é pra poupar
O porquinho pode até ser virtual
Hashtag no infinito, com cascalho
Eu to bonito no espaço sideral
Imperatriz, sentimento não tem preço, tem valor
Eu não vendo e não empresto
O meu eterno amor
UNIDOS DE VILA ISABEL
Poxa, Vila… que samba ruim. A Vila Isabel, escola de Noel, em 1988 apresentou aquele que é, na minha irrelevante opinião, o maior samba-enredo de todos os tempos: “Kizomba – A Festa da Raça”, do grande e saudoso Luiz Carlos da Vila. Neste ano, o samba merece o troféu “Pai João 2019”, ou “Pai Tomás” – o que vocês preferirem. Confundiram tradição com rendição. “Viva a princesa” e “meu sangue azul” é o cacete, Vila. E você que chegou até aqui achando que só iria ler elogios e comentários laudatórios, né? Então segura que vem mais crítica. Assista aqui: https://goo.gl/8ZJsfL
Viva a princesa!
E o tambor que se não cala
É o canto do povo mais fiel
Ecoa meu samba no alto da serra
Na passarela com os herdeiros de Isabel
Vila
Te empresto meu nome
Fonte de tanta nobreza
Por Deus e todos os santos
Honre a tua grandeza
E subindo pertinho do céu
A névoa formava um véu
Lembrei de meu pai, minha fortaleza
Esculpida em pedras
Pedros e coroados
Com os seus guardiões
Protetores de raro esplendor
Luar do imperador
Meu olhar lacrimejou
Em águas tão cristalinas
Uma cidade divina
Bordada em nobre metal
A joia imperial
Petrópolis nasce com ar de Versalhes
Adorna a imensidão
A luz assentou o dormente
Fez incandescente a imigração
No Baile de Cristal o tom foi redentor
Em noite imortal
Floresceu um novo dia
Liberdade enfim raiou
Não vi a sorte voar ao sabor do cassino
“Segundo o dom” que teceu o destino
Meu sangue azul no branco desse pavilhão
O morro desce em prova de amor
Encontro da gratidão
UNIÃO DA ILHA DO GOVERNADOR
O Ceará tá com tudo este ano com Tuiuti e União da Ilha cantando o estado. Mas, “vixi Maria”, União da Ilha, que samba mais engessado no enredo, né? Parece que seguiu o briefing da diretoria. E só. Pena. Assista aqui: https://goo.gl/cpJUog
Vixi Maria! A ilha a cantar
Traçando em meus versos a minha alegria
Menina rendeira me ensina a bordar
No céu emoção, no chão simpatia
O Sol
Onde aquece a inspiração é luz
Meu sonho
É vida, vento, brisa à beira mar
Ouvindo poesias de Raquel
Suspiro nas histórias de Alencar
E hoje desfolhando meu cordel
Das lendas que ouvi no Ceará
É doce, é fogo, sabor e prazer
Aroma no ar, plantar e colher
Eu moldei no barro
As recordações que vivi com você
Violeiro toca moda à luz do luar
Sanfoneiro puxa o fole e
Convida a dançar
Vou pedir a Padim Ciço
Abençoe nosso povo
Essa fé a nos guiar
Chão rachado, meu sertão
Peço a Deus pra alumiar
Terra seca que não seca a esperança
Arretada vocação de te amar
O sal da terra segue o meu destino
Sangue nordestino sempre a me orgulhar
A natureza cantada em meus versos
Traduz a beleza desse meu lugar
Linda morena vestiu-se de amor
Teceu a vida com fios dourados
Eu de chapéu de couro e gibão
Enfeitei o meu coração
E a moda desfilou ao seu lado
SÃO CLEMENTE
São Clemente, sua louca! Adorei a crítica mas, fala sério, você mesmo é uma das responsáveis por este estado de coisas, não é mesmo, nega? Pra algum desavisado, parece que a São Clemente é um baluarte da tradição do melhor samba do Rio. Será mesmo? Eu gostei do samba, mas pra mim soa muito estranho saber que é a São Clemente que está criticando um estado de coisas no mundo do samba e do carnaval com o qual (quase) sempre compactuou. Assista aqui: https://goo.gl/JQCgmZ
“Que saudade da Praça Onze e dos grandes carnavais
Antigo reduto de bambas
Onde todos curtiam
O verdadeiro samba”
Vejam só
O jeito que o samba ficou (e sambou)
Nosso povão ficou fora da jogada
Nem lugar na arquibancada
Ele tem mais pra ficar
Abram espaço nesta pista
E por favor não insistam
Em saber quem vem aí
O mestre-sala foi parar em outra escola
Carregado por cartolas
Do poder de quem dá mais
E o puxador vendeu seu passe novamente
Quem diria, minha gente
Vejam o que o dinheiro faz
É fantástico
Virou Hollywood isso aqui (isso aqui)
Luzes, câmeras e som
Mil artistas na Sapucaí
Mas o show tem que continuar
E muita gente ainda pode faturar
“Rambo-sitores”, mente artificial
Hoje o samba é dirigido com sabor comercial
Carnavalescos e destaques vaidosos
Dirigentes poderosos criam tanta confusão
E o samba vai perdendo a tradição (bis)
Que saudade
Da Praça Onze e dos grandes carnavais
Antigo reduto de bambas (bis)
Onde todos curtiram o verdadeiro samba
ACADÊMICOS DO GRANDE RIO
O segundo melhor samba do ano, depois do da Mangueira. Aplaudo de pé este samba sensacional da Grande Rio, nos seus 30 anos! Parabéns aos compositores e à bateria Invocada! Carrega uma melodia tocante e é um samba que atinge a pleura, uma pancada, um sacode na alma: “Atire a primeira pedra aquele que não erra | Quem nunca se arrependeu do que fez? | Na vida, todo mundo escorrega | Melhor se machucar só uma vez”. Obrigado, Grande Rio por um dos samba mais contemporâneos dos últimos tempos. E é sempre bom lembrar: “Quem nunca sorriu da desgraça alheia? | Quem nunca chorou de barriga cheia?”. Uma beleza de samba-enredo! E eu registrei: “ E a cisma de atender o celular | Pra curtir, compartilhar | Zombar do perigo largar o amigo | Perder o pudor”. E como não compreender e simpatizar com os versos: “Quem aí tá podendo julgar? | Não consegue ouvir outra voz | Cada um foi pensando em si | Olha o que fizemos de nós | Então, pegue seu filho nas mãos | Educar é um desafio | Se errei, peço perdão | Renasce a Grande Rio”. Tá perdoada, Grande Rio! Vai e arrasa! Assista no link: https://goo.gl/v2vUTn
Tá errado, não importa quem errou
O pecado e o pecador sempre estão do mesmo lado
Tá errado, sem lição, nem professor
O espinho fere a flor, o amor é maculado
No jeitinho que impera nessas bandas
É mais fácil o mau caminho pra jogar no tabuleiro
Na verdade do espelho, quando a razão desanda
Vai seguindo em desalinho, mesmo com sinal vermelho
Atire a primeira pedra aquele que não erra
Quem nunca se arrependeu do que fez?
Na vida, todo mundo escorrega
Melhor se machucar só uma vez
Atire a primeira pedra aquele que não erra
Quem nunca se arrependeu do que fez?
Na vida, todo mundo escorrega
Melhor se machucar só uma vez
(Cardume de garrafas pelo mar)
Cardume de garrafas pelo mar
Nem tarrafa nem puçá alimentam o pescador
E a cisma de atender o celular
Pra curtir, compartilhar
Zombar do perigo largar o amigo
Perder o pudor
Quem aí tá podendo julgar?
Não consegue ouvir outra voz
Cada um foi pensando em si
Olha o que fizemos de nós
Então, pegue seu filho nas mãos
Educar é um desafio
Se errei, peço perdão
Renasce a Grande Rio
Quem nunca sorriu da desgraça alheia?
Quem nunca chorou de barriga cheia?
Eu sou Caxias de tantos carnavais
Falam de mim, eu falo de paz
Tá errado, não importa quem errou
O pecado e o pecador sempre estão do mesmo lado
Tá errado, sem lição, nem professor
O espinho fere a flor, o amor é maculado
No jeitinho que impera nessas bandas
É mais fácil o mau caminho pra jogar no tabuleiro
Na verdade do espelho, quando a razão desanda
Vai seguindo em desalinho, mesmo com sinal vermelho
Atire a primeira pedra aquele que não erra
Quem nunca se arrependeu do que fez?
Na vida, todo mundo escorrega
Melhor se machucar só uma vez
Cardume de garrafas pelo mar
Nem tarrafa nem puçá alimentam o pescador
E a cisma de atender o celular
Pra curtir, compartilhar
Zombar do perigo largar o amigo
Perder o pudor
Quem aí tá podendo julgar?
Não consegue ouvir outra voz
Cada um foi pensando em si
Olha o que fizemos de nós
Então, pegue seu filho nas mãos
Educar é um desafio
Se errei, peço perdão
Renasce a Grande Rio
Quem nunca sorriu da desgraça alheia?
Quem nunca chorou de barriga cheia?
Eu sou Caxias de tantos carnavais
Falam de mim, eu falo de paz
Falam de mim, eu falo de paz
Falam de mim, eu falo de paz
IMPÉRIO SERRANO
Como amante do samba, e portelense. tenho um imenso carinho pelo Império Serrano. Por isso, vou também respeitar a opção da escola em levar para a avenida o samba clássico “O que é o que é”, do grande Gonzaguinha, lançado em 1982. O samba foi anunciado em abril de 2018 e certamente já larga como o mais conhecido de todo o Grupo Especial. Eu gosto muito Gonzaguinha e este samba, é claro, marca a vida de muita gente Brasil a fora. Vai fundo, Império. Principalmente pelo que significa hoje e sempre cantar: “Eu só sei que confio na moça | E na moça eu ponho a força da fé | Somos nós que fazemos a vida | Como der, ou puder, ou quiser”. Sucesso!
Assista aqui: https://goo.gl/AUM6xN
Viver e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ah meu Deus!
Eu sei, eu sei
Que a vida devia ser
Bem melhor e será
Mas isso não impede
Que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita
E a vida
E a vida o que é?
Diga lá, meu irmão
Ela é a batida de um coração
Ela é uma doce ilusão
Êh! Ôh!
E a vida
Ela é maravilha ou é sofrimento?
Ela é alegria ou lamento?
O que é? O que é? Meu irmão
Há quem fale que a vida da gente
É um nada no mundo
É uma gota, é um tempo
Que nem dá um segundo
Há quem fale que é um divino mistério profundo
É o sopro do criador
Numa atitude repleta de amor
Você diz que é luta e prazer
Ele diz que a vida é viver
Ela diz que melhor é morrer
Pois amada não é
E o verbo é sofrer
Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida
Como der, ou puder, ou quiser
Sempre desejada
Por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte
Só saúde e sorte
E a pergunta roda
E a cabeça agita
Eu fico com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita
E é bonita
UNIDOS DO VIRADOURO
Foi o primeiro samba-enredo que eu ouvi do Grupo Especial de 2019. E recebi como uma mensagem pessoal. “Quem me viu chorar, vai me ver sorrir | Pode acreditar, o amor está aqui”. Bonito samba, Viradouro! Justo com o enredo, mas não engessado nele. Vira Viradouro!
Assista no link: https://goo.gl/z12UqR
Quem me viu chorar, vai me ver sorrir
Pode acreditar, o amor está aqui
Viraviradouro iluminou
O brilho no olhar voltou
Se tem magia, encanto no ar
Eu vou viajar ouvindo histórias
De um livro secreto, mistérios sem fim
Vovó desperta a infância em mim
Em cada verso sou mais um menino
Que muda a sorte e sela o destino
Lançado o feitiço pra vida virar
Pro bem ou pro mal é carnaval
E na fantasia a minha alegria é um sonho real
No reino da ilusão o amor seduz o vilão
Num conto de fadas, a felicidade
Invade o meu coração pra cantar
Deixando a tristeza do lado de lá
E quem ousou desafiar a ira divina
Vagou no mar
Cego pela sede da ambição
Carregando a sina dessa maldição
Seres da sombria madrugada
O medo caminhou na escuridão
Mas a coragem que me faz lutar
É a esperança, razão de sonhar
Imaginar e renascer no sol de cada amanhecer
Das cinzas voltar
Nas cinzas vencer
Quem me viu chorar, vai me ver sorrir
Pode acreditar, o amor está aqui
Viraviradouro iluminou
O brilho no olhar voltou
Para conhecer os autores dos sambas acesse: http://liesa.globo.com/2019/por/03-carnaval/sambasenredo/sambasenredo.html
SERENDIPITIA, por Henri Figueiredo
Nesta manhã de 4 de janeiro de 2019, nasce a coluna “Serendipitia” – que significa “descobertas afortunadas feitas, aparentemente, por acaso”. Ou nem tanto porque, com mais precisão, aqui também será apresentado o resultado de um minucioso “garimpo” nas redes e no conjunto da web. A costura será com tópicos, artigos ou breves ensaios meus sobre política, comportamento e arte – em especial música, literatura, cinema e TV. Sejam bem-vindos.
“Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café , deixou o tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.”
[Ensinamento | Adélia Prado]
O FUTURO JÁ COMEÇOU | “Antonio Gramsci está mais atual do que nunca, a julgar pelo que se ouviu em alguns pontos da Esplanada dos Ministérios na jornada de quarta-feira. Se antes estabelecer uma hegemonia cultural não era um objetivo claro de um grupo político no poder, agora é. Nos governos Lula e Dilma havia muita gente com uma visão leninista da condução da política e de aparelhamento do Estado, mas a unidade estratégica se perdeu em meio a disputas internas e ao surgimento de outras referências para a construção do poder”. Parágrafo de abertura da matéria de CÉSAR FELICIO no jornal VALOR de 4 de janeiro de 2019. Estou, francamente, rindo por dentro e por fora lembrando de quantos vezes fui interrompido nos debates por companheiros que simplesmente puseram Gramsci no lixo em nome de um “empirismo” que lhes conferia uma aura quase heroica quando não divina, ó líderes supremos da Esquerda ignara! Só vós, que exercestes o poder, conheceis o caminho, a verdade e a vida! Se nós não aprendemos com os nossos maiores pensadores, bom… os ideólogos da extrema-direita aprenderam bem.
DO FACEBOOK
Do professor da UnB Luiz Felipe Miguel: “O novo governo é regido pela lógica do inimigo interno. Mais, até, do que o foi a própria ditadura militar. As posses do presidente e dos ministros confirmaram isso. Ser oposição a ele exige entender esse dado. É um governo que constrói qualquer negociação como fragilidade, que recusa qualquer concessão e que não vê outra saída que não seja nosso extermínio”. [4 de janeiro de 2019]
O RISO É O TEMOR DOS TOTALITÁRIOS
Assim como costuma ser pela Cultura (ou pelo combate a ela) que se alcança a hegemonia numa sociedade (obrigado, Gramsci), é ridicularizando as simbologias deste governo protofascista que teremos mais inserção e eco entre os descontentes. De boa, quem acha que vai ser falando do salário mínimo ou das privatizações das refinarias da Petrobras que vamos reverter a simpatia do eleitorado pelo Bolsoasno, não entendeu nada de psicologia das massas. Isso é recurso para conscientização política e formação ideológica – ambas matérias abandonadas pelo PT, infelizmente, desde 2003, em nome do pragmatismo governamental. Então, creio que, simultaneamente a gente reconstrói os espaços de consciência política e de formação ideológica enquanto se detona, brinca, ironiza e escracha os símbolos deles. Todos os símbolos: os religiosos (como a submissão feminina ao macho); os ideológicos (como a aversão aos vermelhos socialistas/comunistas);os bélicos (como a questão do armamento como saída para a insegurança); e os de doutrinação/reprogramação mental (como o Escola Sem Partido). É preciso rir da cara deles, enquanto se organiza a luta da Realpolitik.
Reproduzo abaixo artigo da professora de jornalismo Sylvia Moretzsohn: “Vejo muita gente dizendo que ridicularizar ou ironizar o festival de sandices dos representantes desse governo (a mais recente foi a da ministra do pé de goiaba sobre meninos de azul e meninas de rosa) é cair na armadilha deles, é não perceber a cortina de fumaça que eles promovem para nos distrair, enquanto avançam na destruição de tudo o que foi duramente conquistado ao longo das últimas décadas.
Discordo radicalmente disso. Antes de mais nada, porque não somos tão ingênuos assim para ignorar cortinas de fumaça. Mas sobretudo por outras duas razões: primeiro, porque não estamos desconsiderando a avalanche de ataques contra esses direitos; pelo contrário, cansamos de denunciá-la cotidianamente (e o grave é que é praticamente tudo o que podemos fazer, o que não basta para enfrentar e impedir essa violência. Ou seja: de fato podemos muito pouco, na atual correlação de forças). Segundo, e talvez mais importante: porque essas sandices não são apenas cortina de fumaça, elas fazem parte da campanha ideológica desse pessoal, que continua a investir, agora com mais ênfase ainda do que o fez durante a campanha, na temática moralista que enaltece os valores tradicionais da religião e da família. Isso tem um peso enorme e é parte fundamental da estratégia de discursos e práticas na sedimentação da estupidez dessa massa de gente que elegeu esse governo”.
ALERTA DE SPOILER: ESTE TÓPICO É POLITICAMENTE INCORRETO, CONTÉM IRONIA E LINGUAGEM IMPRÓPRIA PARA MENORES DE 35 ANOS PELAS NOVAS NORMAS DO MINISTÉRIO DA FAMÍLIA | Estamos apenas entrando no quinto dia do novo governo federal e eu já me sinto livre do jugo do socialismo que me forçava a ser politicamente correto! Portanto, Bolsoasno e seus apoiadores de merda, vão tomar no meio do cu de vocês todos! Aqui tem resistência! [Sinto que também regredi muito em boa educação, mas enfim, deve ser isso que chamam de “egrégora” não é mesmo? Principalmente quando a escolha da maioria do eleitorado que votou válido foi por abraçar a estupidez.]
A MÍDIA COMERCIAL (MAL)TRATADA COMO NO REGIME MILITAR
Relato da veterana jornalista Mônica Bergamo da Folha de S.Paulo.
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“É uma posse diferenciada e todos têm que entender isso.
Com essas palavras, a assessora do Palácio do Planalto que acompanhava jornalistas num ônibus rumo ao Congresso Nacional, na manhã desta terça (1º), procurava acalmar veteranos da profissão (esta colunista entre eles) que não conseguiam, digamos, entender os novos tempos —e o tratamento reservado à imprensa na posse de Jair Bolsonaro na Presidência da República.
Foi, de fato, algo jamais visto depois da redemocratização do país, em que a estreia de um novo governo eleito era sempre uma festa acompanhada de perto, e com quase total liberdade de locomoção, pelos profissionais da imprensa.
O sufoco começou dias antes, no credenciamento.
Os jornalistas foram informados de que não poderiam ter acesso livre, por exemplo, ao salão nobre do Palácio do Planalto, onde o presidente sobe a rampa, dá posse aos seus ministros e recebe cumprimentos de autoridades internacionais.
Na posse de Lula, em 2003, repórteres chegavam a se aglomerar em torno dele e de Fernando Henrique Cardoso, misturando-se entre a equipe recém-empossada e a que deixava o governo.
Um dos repórteres lembrava, no ônibus, que chegou a subir no elevador do Planalto com Lula, furando um esquema nada rigoroso de segurança.
A colunista chegou a entrar em salas privadas com o então vice-presidente dos EUA Joe Biden na posse de Dilma Rousseff, em 2014.
Desta vez, tudo seria diferente. Apenas um jornalista de cada veículo poderia entrar no palácio, e com acesso restrito às autoridades.
Os outros ficariam do lado de fora, na portaria ou num corredor aberto no meio da população. E a assessoria alertava: neste local, era preciso evitar movimentos bruscos. Fotógrafos não deveriam erguer suas máquinas. Qualquer movimento suspeito poderia levar um sniper [atirador de elite] a abater o “alvo”.
Uma jornalista voltou apavorada para a redação. Avisou à chefia que preferia não cobrir a posse. Não queria morrer. Foi convencida do contrário.
Os organizadores da cerimônia também distribuíram orientações por escrito à imprensa: os jornalistas credenciados deveriam chegar ao CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil), no dia 1º, às 7 horas da manhã.
Como é que é?
Era isso mesmo: embora a posse no Congresso estivesse marcada para as 15 horas, os jornalistas teriam que se concentrar desde cedo, embarcar nos ônibus às 8 horas, chegar no Congresso pouco depois e esperar, sem fazer nada, por mais de seis horas, para ver Bolsonaro entrar no parlamento.
Era preciso levar lanche pois não haveria comida. Tudo precisava ser embalado em sacos de plástico transparente.
“Garrafas não são permitidas. Haverá água potável disponível nas áreas de imprensa”, dizia o comunicado.
Os veículos providenciaram kits de sobrevivência para seus profissionais. No caso da Folha, bolachas Club Social, biscoitos Bis, castanhas de caju, barrinhas de cereal, gomas de mascar, um sanduíche de queijo e salame e suco de caixinha.
Na terça (1º), logo cedo, os jornalistas, seguindo as regras, chegaram cedo no CCBB.
Foram todos divididos em grupos, em cercadinhos com grades de ferro: os que iriam para o Congresso sairiam primeiro, depois os do Palácio do Planalto e, por fim, os do Itamaraty.
“Pessoal, vocês vão em 13 ônibus. Às 17 horas, nós traremos vocês de volta”, gritava um assessor que se apresentou como Tiago.
E quem quisesse ficar mais?
“Pessoal, [os seguranças] não vão deixar vocês passarem [nas ruas]. O direito de ir e vir dos jornalistas tá assim!”.
Os repórteres caíram na risada.
Apesar da situação, considerada um tanto surreal, havia motivo para risos. Um deles era a proibição de levar maçã inteira na merenda. Só picada, em pedacinhos.
“Razões de segurança: acham que alguém pode jogar uma delas na cabeça do Bolsonaro. E maçã machuca”, explicava um dos profissionais.
Em fila, todos começaram a embarcar nos ônibus.
“Bem-vindos à rodoviária do CCBB”, dizia o assessor que iria em um dos veículos.
Os alertas eram muitos. “Não tentem subir na Esplanada [dos Ministérios, avenida que leva à Praça dos Três Poderes]. Não tentem passar de uma área à outra. E, mais importante: não tentem pular uma cerca. Não façam isso!”
“A gente tem que avisar. Porque depois alguém toma um tiro…”, completava outra assessora.
“O que nós viramos?”, questionava um veterano jornalista. “Fizemos tudo o que já fizemos para terminar aqui?”
Pouco depois das 8 horas, o comboio de ônibus sai até o Congresso, onde novas surpresas nos esperavam. Ao chegar no parlamento, os repórteres passaram por detectores de metais.
E foram levados ao salão verde da Câmara dos Deputados, na entrada do plenário.
“É surreal!”, reagiu um jornalista ao ver a cena: todas as cadeiras e poltronas do local haviam sido retiradas. Não havia onde sentar. Os profissionais tinham que se acomodar no chão.
Eram centenas de jornalistas, mas só havia um banheiro disponível.
Alguns se dirigiram ao setor do cafezinho. Um segurança logo orientou as copeiras: “Não é para servir nada à imprensa”.
Os profissionais foram convidados a se retirar do local.
Teriam que ficar confinados no salão, separados por um cordão da passarela com tapete vermelho por onde passariam as autoridades.
“É preciso um pouco de dignidade!”, reclamava um repórter.
Um deles conseguiu um banquinho para se sentar. E logo começaram as brincadeiras: era preciso fazer rodízio para que todos pudessem descansar um pouco.
Na mesma situação no Itamaraty, correspondentes internacionais chegaram a se retirar do prédio.
Jornalistas com larga experiência em coberturas de governo prognosticavam: essa postura do governo durará pouco. Até a primeira crise.”
DIZ QUE AMA A PÁTRIA, MAS…
Diz que ama “a Pátria” mas vira a cara pra criança famélica pedindo trocado na rua. Na verdade bolsonarista ama é o pano da bandeira e símbolos como os hinos oficiais – seu amor é só pela simbologia aprendida na doutrinação Moral e Cívica da ditadura, não pelos compatriotas. Por isso, não têm vergonha de bater continência submissa aos EUA. O mais chocante é que têm a orgulhosa ignorância de comparar seu comportamento lambe-botas do Império com a relação altiva que tínhamos com países soberanos como Cuba – que é uma pequena ilha que resiste heroicamente há 60 de bloqueio imperialista. Eles se jactam de serem umas bestas quadradas!
SEM TRÉGUA PARA PROTOFASCISTA | UM BREVE MANIFESTO
Nenhum(a) fascista ou evangélico(a) fundamentalista bolsonarista merece trégua! Combatam, discutam, os destrua com argumentos, fatos e escancarem que são todos e todas cúmplices dos assassinatos políticos, raciais e pelos massacres armados que virão. Façam as listas, não esqueçam seus nomes, printem suas postagens mentirosas e cheias de ódio nas redes sociais. Recolham provas do colaboracionismo com o governo teocrático totalitário do ex-militar terrorista. Conheça o adversário, monitore o inimigo, saiba seus pontos fracos e planeje a revanche. Não se combate os que desprezam a democracia usando palavras de amor e tolerância. Endureça, mantenha a ternura que nos faz humanos, mas prepare-se para a guerra. O mal está disseminado entre familiares, vizinhos, colegas de trabalho. Nem por um minuto pense em aliviar o combate. Resista mas, principalmente, aja. Não permita calado e sem lutar nenhum retrocesso nas liberdades civis. Eles querem nos calar, nos dizimar fisicamente, vão perseguir. Por isso, nenhum bolsonarista merece trégua.
SOM E FÚRIA | Alguns amigos e companheiros de luta ficaram um tanto incomodados com o artigo-manifesto acima, publicado originalmente nas redes sociais na quarta-feira, 2 de janeiro de 2019. Dentro da tradição dialógica e dialética, eles poderiam ter dito que não gostaram, escrito um contraponto, discutido e, quem sabe, desmanchado com as minhas razões. O amigo que fez o comentário mais sintético e elegante, disse que eu acertara na “diretriz” mas pecara “no tom”. Noutras palavras, “é isso mesmo, mas não se diz assim”. Desculpem-me carxs amigxs, hoje eu cito William Shakespeare: “A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, sem sentido algum”.
Ontem vivi um dia de som e fúria. Hoje estou mais ponderado e, por isso, vou apenas fazer a analogia do que vivemos no Brasil da atualidade com a história do sapo na panela. Vocês certamente já ouviram (e os mais cruéis devem ter feito a experiência) que um sapo jogado num panela de água fervendo vai bater e, no mesmo segundo, pular fora daquele ambiente inóspito e mortal. Mas se o sapo for colocado vivo numa panela de água fria e esta panela levada ao fogo, o sapo primeiro vai ficar anestesiado e depois vai ser cozido no caldeirão. O quanto nós, que estamos dentro da vida pública, imersos na construção sindical, em comitês pró-democracia, no ativismo político, na militância partidária, não percebemos que a panela já esquentou e está quase no ponto de fervura? Eu tenho lido, ouvido e prestado atenção em alguns amigos, amigas e conhecidos que são intelectuais e ermitões – estão fora desse circuito sociopolítico há tempos – mas se puseram em alarme. Eu não gosto muito de me sentir “culpado” porque isso carrega também um sentido religioso; prefiro me dizer “responsável”, o que é laico.
Eu comecei a escrever para leitores, leitoras, para uma audiência, enfim, aos 22 anos, no jornal diário de Novo Hamburgo – lá se vão 24 anos ininterruptos de escrita, entrevistas, reportagens, artigos, crônicas e ensaios políticos. Ainda que hoje em dia grande parte dos meus escritos tenham circulação restrita, nunca perdi o gosto (e a necessidade) de me manifestar “urbi et orbi”, ou seja, para as gentes. E tenho um gosto especial pela polêmica; infelizmente, as pessoas desaprenderam de polemizar. Por isso, me agarro aqui à corda salva-vidas que o amigo mais elegante me atirou para me salvar do mar da polêmica, mas não subo no bote. O meu “pecado” teria sido o tom. Ora, vejam, novamente um conceito religioso sobre um artigo que discutia ferozmente o fundamentalismo cristão que quer estabelecer uma teocracia na nossa república. A gente tende, realmente, a usar a terminologia de quem ascendeu ao poder. Espero não começar a desejar bom dia, boa tarde e boa noite com “Louvado Seja!” ou “Glória a Deus”. Isso também já é o sintoma da panela fervente.
Em que pese a minha amarga ironia nesses dias, mais importante do que ser lido é ser, de verdade, criticado – porque aí sim, quando mobilizamos o desejo de contraponto, tivemos algum sucesso em provocar a reflexão. Mesmo que de maneira brusca, como ao dar um safanão na panela fervente. Vamos nos queimar com alguns respingos, é certo. Mas ninguém esperava que saíssemos completamente ilesos desta discussão.
SERIAL WATCHER
Se você gosta de maratonar mas, nessa época, não quer exatamente “fugir da realidade”, a dica é “The Handmaid’s Tale” – O Conto da Aia. Acho que melhor traduzido seria “O Conto da Serva”. Em cinco madrugadas e uma tarde, cheguei ao final dos 23 episódios, divididos nas duas primeiras temporadas – o que me custou grande desgaste emocional.
A distopia é fielmente baseada no romance da canadense Margaret Atwood, de 1985. Um governo teocrático cristão, mulheres servas dos homens, estupros sistemáticos, ritualizados e institucionalizados para que as mulheres cumpram o “destino biológico” de engravidar, enforcamentos públicos de LGBTQ+ (chamados de ‘traidores de gênero’), execuções de intelectuais e a Bíblia no lugar da Constituição. Parece, de fato, o aprofundamento prático das teses defendidas pelos fundamentalistas evangélicos que são a principal base de apoio popular deste governo que assumiu no Brasil de 2019.
ATÉ A PRÓXIMA “SERENDIPITIA”, AINDA SEM DATA DE LANÇAMENTO.
IN TENTO
Que nesse novo ano, eu continue percebendo todas as diferenças das paisagens tomadas da mesma janela – cujo tempo já vai chegando ao fim
Que nesse ano novo, eu seja louco o suficiente para atacar (e devorar) qualquer um que acue a fera
Finda a autocomiseração ressentida que me rebaixa à estatura dos vassalos
Que a energia do dia limpo, claro e quente que emerge abasteça para o combate justo dos que não dobram a espinha e não tem senhores, mestres nem feitores
Que o novo ciclo me empurre a dizer verdades, a arrancar máscaras e não temer censuras
Que se findem as mesuras pra corte e que as metralhadoras verbais estejam prontas para as rajadas – cairão os que merecem: por maduros ou podres. Não os puros – estes têm o dom da boa interpretação de coração leve e mente aberta
Que eu nunca esqueça que flores não vencem canhões – até o poeta sabia e fez disso uma crítica à indecisão dos cordões marchando ilusões
Que, no entanto, enquanto nos armarmos possamos também nos amarmos
E que eu possa ser lido não como perigo… sim como o terror dos hipócritas, como a bigorna que esfacela o martelo dos Torquemadas e como a espada que transpassa a garganta dos injuriosos
E, antes de nada dever a ninguém, acertar as contas comigo mesmo por ter vendido meu tempo de vida a fantoches
Assumir as causas, os casos e os causos. Viver de defender a verdade factual contra as narrativas dos oportunistas e carreiristas
Ser quem sou e pagar o preço
“Nada a temer senão o correr da luta, nada a fazer senão esquecer o medo”
O REI ESTÁ NU!
Acordei de um sonho estranho, como o Milton em San Vicente. Escrevo logo antes da alvorada porque os sonhos às vezes parecem reflexão especular – e as lembranças do meu último ainda não se esfumaram. O que eu disse no sonho, disseram pra mim. O que disseram pra mim, disse eu. Todos no meu sonho sou eu próprio conversando comigo mesmo entre reações químicas neurais numa área que se convencionou chamar de subconsciente. A medida em que passam os minutos já não sei direito se o que lembro era sonho ou um novo constructo psíquico. Afinal tudo é química e não há matéria, só energia se organizando em diferentes camadas e frequências. Mas interrompo por aqui antes de começar elucubrações sobre física quântica e espiritualidade.
Um amigo filósofo me fez, na noite de domingo, uma provocação impertinente – como só os bons amigos são capazes e autorizados: “Você vai agora fazer poética sentida ou política esclarecida?” Eu ri porque a elaboração foi boa mas trata-se de um falso dilema. Se alguma coisa trago ainda dos meus primeiros anos nos bancos universitários – onde os conteúdos eram extremamente generalistas – são boas noções de lógica. Me foi proposto, neste caso, uma falácia lógica, uma falsa dicotomia. Nicolau Maquiavel, por exemplo, anotou que mais vale ser temido que ser amado. Ernesto Guevara, por outro lado, disse que é preciso endurecer-se mas sem, jamais, perder a ternura. O florentino crava uma dicotomia; o argentino propõe uma quebra dela.
A política é, no mais das vezes, um terreno árido em que quem não afirma certezas não tem vez. Cultivar a dúvida pode fazer de ti um intelectual reflexivo, um cientista cético de tudo que não se adequa aos métodos de aferição, mas não faz de ti um “bom político” – este precisa estar investido do cinismo necessário para falar a língua do povo, dizer o que o povo quer ouvir, comunicar-se com as massas com paixão oratória e, sempre, afirmar certezas: de altruísmo desprendido, de que outro mundo é possível, de que os adversários são os vilões e de que o nosso grupo é mais preparado que outros para a transformação social. Mais do que vender esperança, a comunicação política bem-sucedida é a que identifica o que o povo quer ouvir, não o que o povo precisa saber.
Aprendi cedo a importância de Karl Marx na história do pensamento humano – causa de terror nos políticos profissionais que, mesmo sem se dar conta, são discípulos tardios da escola filosófica do cinismo de Antístenes. Em Marx, não basta identificar cientificamente as causas da estratificação social e das desigualdades se você não se organizar e lutar para transformar a realidade. E isso significa, ao fim e ao cabo, revoluções no pensamento, na economia, na cultura e no comportamento humano. Por isso ainda hoje, 170 anos depois de seu mais importante livro, Marx é combatido e demonizado pelos donos do poder e seus lacaios. E o combate às ideias emancipatórias do indivíduo e da sociedade passa pela pasteurização da educação – que nada mais é do que um sistema de programação mental das novas gerações para que se adequem à engrenagem. Como disse Paulo Freire, quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor. E isso ocorre em qualquer modelo societário – inclusive naqueles que se reivindicam “marxistas”, como bem mostraram as distopias de George Orwell, por exemplo.
Perdoem-me a longa digressão sobre filosofia política, logo de mim, um leigo. Hão, contudo, os fatos: a política esclarecida é mais perturbadora, incômoda e intragável do que o rebanho imagina. Ela é iconoclasta, derruba igualmente líderes supremos e mitos. E, no entanto, a política esclarecida diz a verdade com a pureza da criança do conto dinamarquês de Hans Christian Andersen. Um malandro chega ao reino e convence o monarca de que consegue tecer uma roupa que somente os inteligentes conseguem ver. O rei o faz seu novo alfaiate e lhe enche de riquezas como ouro e seda para tecer a nova roupa. O esperto fica com as riquezas e leva semanas tecendo o nada. Ao receber as vestes, o rei (para não passar por estúpido) suspira de admiração pelo trabalho; sua corte (para não contrariar sua majestade) aplaude a genialidade do costureiro; mas uma criança exclama: “O rei está nu!”. Ao que Caetano Veloso comentou, numa canção: “Mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que o rei é mais bonito nu”. Eis a beleza da poética sentida.
MINICONTO FAKEBOOKIANO
Poderia ser café e cigarros, se cigarros houvesse. As coisas findam em torno mas o que nele se consome é volátil: o rosto no espelho se transforma como chama que treme e estala com os gravetos finais. O forte está sob ataque há meses e resiste por inércia – cada ação para evitar a queda acaba acelerando-a. A situação não é lhe estranha, ao contrário – é circular, cíclica, em eterno retorno. Lê com amarga ironia cards com frases de autoajuda que, no feed, servem como lava-mãos. Afinal, sabe há décadas que “os próximos” mantêm distância profilática quando a conta das batalhas chega. O comportamento antes tratado com lisonjas de “coragem”, “destemor” e “entrega” agora já não serve porque a história não é só escrita pelos vencedores mas também pelos burocratas que os cercam. A roda da fortuna gira enquanto o forte arde, estala e desmorona – talvez a ventura seja a próxima estaca. E os vencedores serão outros e os burocratas terão outros senhores. E os escribas cuja narrativa, ontem, era a oficial, hoje se adequam ou viram párias. Na cela dos últimos dias, réstias de luz entram pelos vãos da persiana e, do fosso da escada, chega a hora vespertina em que o sol reflete no concreto e ilumina a pequena biblioteca já não mais tão usada porque, hoje, a preferência é pelas legendas amarelas das séries franqueadas pelo Império. É assim que se acabam os dias? Com os cigarros que disfarçam suspiros, com a cafeína, com o simulacro de vida útil que é possível se ter nas redes. Como a heroína atormentada de Sharp Objects escreve na própria carne, ele corta laços. E sangra pelas madrugadas até os vínculos, todos, estarem derramados, esvaídos, desamarrados. Continuar em frente é deixar pra trás. A única carga é a dos livros e discos, nada mais.
E então, que quereis?

Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.
Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.
Uma edição muito particular da poesia de Renato Russo no álbum “Dois”, de 1986

Numa tarde de sábado, entre 1986 e 1987, eu passeava na Redenção, em Porto Alegre, quando encontrei Renato Russo que estava na cidade para uma apresentação no ginásio Gigantinho. Ele me deu autógrafo em que grafou vários ícones e só uma palavra: Força! Assinou “Russo”. Para muitos da minha geração e das gerações seguintes que teimam em não ouvir e não ler o que Russo escreveu na vida (e sobre a vida), eu fiz essa transcrição das letras do álbum “Dois”, de 1986 – que é um marco na minha trajetória e um dos maiores discos da história da música brasileira. Renato Russo tinha, à época, 26 anos. Me dei conta que ouvindo o álbum do fim para o início há ali uma prosa poética ao estilo (perdoem-me os puristas) de Walt Whitman. Percebam como eu considero o Walt Whitman. [Contém ironia]. Só não transcrevi três faixas do álbum – uma delas, o maior sucesso radiofônico; e outra que foi faixa bônus. Uma quarta também ficou de fora por ser apenas instrumental. Fica o desafio para os admiradores (ou mesmo detratores) do Legião identificar quais as que deixei de fora e o motivo – com a dica fica fácil, né? E relembrem o porquê da lírica do profético Russo ser considerada a maior entre os roqueiros da geração dele. P.S.: Outro motivo que me levou a este exercício de edição foi constatar o quanto o filme “Bohemian Rhapsody” tem servido para criar uma nova geração de fãs do Queen e de Freddie Mercury – que foi outro grande. Mas, crianças, vejam só o que temos em casa e muita gente não ouve por puro preconceito estético.
“Quem me dera, ao menos uma vez, ter volta todo o ouro que entreguei a quem me convenceu que era prova de amizade se alguém levasse embora até o que eu não tinha. Quem me dera ao menos uma vez explicar o que ninguém consegue entender, que o que aconteceu ainda está por vir e o futuro não é mais como era antigamente. Quem me dera ao menos uma vez provar que quem tem mais do que precisa ter quase sempre se convence que não tem o o bastante e fala demais por não ter nada a dizer. Quem me dera ao menos uma vez que o mais simples fosse visto como o mais importante. Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
Nosso dia vai chegar. Teremos nossa vez. Não é pedir demais. Quero justiça. Deve haver algum lugar onde o mais forte não consegue escravizar quem não tem chance. De onde vem a indiferença, temperada a ferro e fogo? Quem guarda os portões da fábrica? O céu já foi azul mas agora é cinza. E o que era verde aqui já não existe mais. Quem me dera acreditar que não acontece nada! De tanto brincar com fogo, que venha o fogo então!
Às vezes parecia que, de tanto acreditar em tudo que achávamos tão certo, teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais. Faríamos floresta do deserto e diamantes de pedaços de vidro. Mas percebo agora que o teu sorriso vem diferente, quase parecendo te ferir. Às vezes parecia que era só improvisar e o mundo então seria um livro aberto. Até chegar o dia em que tentamos ter demais vendendo fácil o que não tinha preço. Eu sei… é tudo sem sentido. Quero ter alguém com quem conversar. Alguém que, depois, não use o que eu disse contra mim. Nada mais vai me ferir, é que eu já me acostumei com a estrada errada que eu segui, com a minha própria lei. Tenho o que ficou. E tenho sorte até demais; como sei que tens também.
Em cima dos telhados, as antenas de TV tocam música urbana. Nas ruas, os mendigos com esparadrapos podres cantam música urbana. Motocicletas querendo atenção às 3 da manhã é só música urbana. Os PMs armados e as tropas de choque vomitam música urbana. E nas escolas as crianças aprendem a repetir a música urbana. Nos bares, os viciados sempre tentam conseguir a música urbana. O vento forte, seco e sujo em cantos de concreto parece música urbana. E a matilha de crianças sujas no meio da rua, música urbana. E nos pontos de ônibus, estão todos ali: música urbana. Os uniformes, os cartazes, cinemas e os lares, favelas, coberturas, quase todos os lugares… e mais uma criança nasceu! Não há mentiras nem verdades aqui, só há música urbana.
Sente o desafio! E provoque o desempate! Desarme a armadilha e desmonte o disfarce. Se afaste do abismo. Faça do bom senso a nova ordem. Não deixe a guera começar. Pense só um pouco: não há nada de novo. Você vive insatisfeito e não confia em ninguém. E não acredita em nada, e agora é só cansaço e falta de vontade. Mas faça do bom-senso a nova ordem.
Todos os dias quando acordo não tenho mais o tempo que passou. Mas tenho muito tempo. Temos todo o tempo do mundo. Todos os dias antes de dormir, lembro-esqueço como foi o dia. Sempre em frente. Não temos tempo a perder. Nosso suor sagrado é bem mais belo que esse sangue amargo. E tão sério e selvagem. Selvagem! Veja o sol dessa manhã tão cinza – a tempestade que chega é da cor dos teus olhos: castanhos. Então me abraça forte e diz mais uma vez que já estamos distantes de tudo. Temos nosso próprio tempo. Não tenho medo do escuro mas deixe as luzes acesas – agora! O que foi escondido é o que se escondeu e o que foi prometido ninguém prometeu. Nem foi tempo perdido: somos tão jovens, tão jovens, tão jovens!
É saudade então e mais uma vez. De você fiz o desenho mais perfeito que se fez. Os traços copiei do que não aconteceu. As cores que escolhi, entre as tintas que inventei, misturei com a promessa que nós dois nunca fizemos de um dia sermos três. Trabalhei você em luz e sombra. E era sempre: “Não foi por mal. Eu juro que nunca quis deixar você tão triste”. Sempre as mesmas desculpas e desculpas nem sempre são sinceras – quase nunca são. Preparei a minha tela com pedaços de lençóis que não chegamos a sujar. A armação fiz com madeira da janela do seu quarto; do portão da sua casa, fiz paleta e cavalete. E com lágrimas que não brincaram com você, destilei óleo de linhaça. Da sua cama arranquei pedaços que talhei em estiletes de tamanhos diferentes. E fiz, então, pincéis com seus cabelos. Fiz carvão do batom que roubei de você e com ele marquei dois pontos de fuga, e rabisquei meu horizonte. Mas, então, por que eu finjo que acredito no que invento? Nada disso aconteceu assim, não foi desse jeito. Ninguém sofreu. É só você que me provoca essa saudade vazia, tentando pintar essas flores com o nome de amor-perfeito e não-te-esqueças-de-mim.
Tenho andado distraído, impaciente e indeciso. E ainda estou confuso, só que agora é diferente: estou tão tranquilo e tão contente. Quantas chances desperdicei quando o que eu mais queria era provar pra todo mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém. Me fiz em mil pedaços pra você juntar e queria sempre achar explicação pra o que eu sentia. Como um anjo caído fiz questão de esquecer que mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira. Mas não sou mais tão criança a ponto de saber tudo. Já não me preocupo se eu não sei por que às vezes o eu vejo quase ninguém vê. E eu sei que você sabe, quase sem querer, que eu vejo (que eu quero) o mesmo que você. Tão correto e tão bonito, o infinito é realmente um dos deuses mais lindos. Sei que às vezes uso palavras repetidas mas quais são as palavras que nunca são ditas? Me disseram que você estava chorando e foi então que percebei como lhe quero tanto.
Aquele gosto amargo do teu corpo ficou na minha boca por mais tempo. De amargo, então salgado ficou doce – assim que o teu cheiro forte e lento fez casa nos meus braços. E ainda leve, forte, cego e tenso fez saber que ainda era muito e muito pouco. Faço nosso o meu segredo mais sincero e desafio o instinto dissonante. A insegurança não me ataca quando erro e o teu momento passa a ser o meu instante. E o teu medo de ter medo de ter medo não faz da minha força confusão. Teu corpo é meu espelho e em ti navego. E eu sei que a tua correnteza não tem direção. Mas, tão certo quanto o erro de ser barco a motor e insistir em usar os remos, é o mal que a água faz quando se afoga – e o salva-vidas não está lá porque não vemos.”
Renato Russo
Legião Urbana
“DOIS” – 1986
“1983” | TRAMA DE SÉRIE POLONESA FICCIONA CRIMES DA DITADURA ARGENTINA

Foto: Krzysztof Wiktor
Série distópica da Netflix, produzida na Polônia, tem como plot os sequestros de filhos de militantes de Esquerda durante a ditadura na Argentina. | Primeiro vamos lembrar da história. No início da década de 1980, o mundo tinha o primeiro Papa polonês, Karol Wojtyła (João Paulo II) que foi decisivo, junto com Lech Wałęsa, líder do Sindicato Solidariedade – e com a CIA e a OTAN – para o enfraquecimento da influência soviética e, ao fim da década, para a queda da Cortina de Ferro.
A série original da Netflix ‘1983’ propõe uma “distopia” em que ao invés da “mudança de regime”, o Partido Comunista acaba aumentando a vigilância e o controle sobre a população.
A história se passa em 2003, com muitas voltas no tempo a 1983, e mostra a atividade de um grupo revolucionário formado por filhos de opositores que foram executados. As crianças foram “adotadas” por famílias ligadas ao partido após o extermínio da oposição. O grupo revolucionário se autodenomina Brigada Ligeira e seu modus operandi é recrutar os jovens que tiveram seus pais biológicos mortos para que eles, infiltrados no establishment, promovam atos terroristas, desestabilizem o governo e cometam assassinatos de lideranças do regime, a começar pelos seus pais adotivos.
Vejam como a Indústria Cultural (nos termos conceituais da Escola de Frankfurt) é amoral e pode ser cruel. Quem conhece a história da América Latina sabe bem que o genocídio de 30 mil opositores da ditadura argentina (1976-1983) se deu por um regime fascista que perseguiu diretamente militantes socialistas e comunistas. Ainda que se entenda que (quase) tudo é legítimo em ficção; que, filtrados todos os componentes relativos às diferenças ideológicas entre a história argentina e essa distopia televisiva polonesa, é importante contar sobre os crimes de regimes totalitários; e que, num dos episódios, o personagem que é comandante da polícia política faça textualmente a relação da trama com o que houve na Argentina… ainda que, ainda que, ainda que… me incomoda demais essa mistura, essa confusão, essa pasteurização de fatos históricos em dramaturgia televisiva.
Os regimes da Cortina de Ferro eram, de fato, totalitários. No entanto, me perturba a transfusão de um episódio monstruoso como o que houve com as famílias de militantes de Esquerda da Argentina para um negativo sociopolítico ficcional polonês, onde tudo se dá ao contrário. Na ficção polonesa, os vilões são os “comunistas”, os filhos sequestrados são de famílias anticomunistas, católicas e democratas.
Há documentários importantes sobre os crimes da ditadura argentina. Para citar apenas dois recentes: “500” e “Hijos”. Me dói, como latino-americano, que tudo esteja tão invertido nesta ficção. Mais uma vez tento filtrar essa crítica imaginando que a correlação faça algum sentido para o povo polonês, que sofreu com os russos, com os nazistas, depois sob o tal “socialismo real” e com a ingerência de Moscou.
Feitas todas as ressalvas, há alguns aspectos interessantes que merecem registro. Primeiro, é claro, o fato de se ouvir polonês na TV – qual foi a última vez que você ouviu essa língua no cinema ou na TV, se é que já ouviu? O outro ponto a se destacar é que a série é bem escrita, com boas atuações e fotografia excelente. E, apesar de aparente contradição, a narrativa é batida e vem da clássica escola norte-americana: detetive de meia idade atormentado e fracassado começa a investigar um suposto suicídio e vai descobrindo que a “estória” é mais complexa.
E a história é ainda bem mais complexa que a série ‘1983’.
A FUGA DISSOCIATIVA DO “NÃO PREOCUPAR-SE”, por Henri Figueiredo

O ator canadense Jim Carrey no documentário “Jim & Andy – The Great Beyond”
“O que as pessoas querem? O que eles querem?”, atormentava-se em determinado momento da carreira o ator canadense Jim Carrey. Até que numa madrugada acordou de um sono profundo e sentou na cama: “Eles querem não se preocupar!”.
Um Jim maduro, elaboradíssimo, articulado e sereno é quem encontramos no documentário “Jim & Andy: The Great Beyond” dirigido por Chris Smith. O filme segue o ator Jim Carrey enquanto se prepara para reviver Andy Kaufman no filme de 1999, Man on the Moon, dirigido por Milos Forman. O lançamento foi no dia 17 de novembro de 2017, na Netflix. Mais de um ano depois, assisti ao documentário e, mais do que conhecer Andy Kaufman, reencontrei Jim Carrey – a quem comecei a prestar atenção, em 1998, com o filme “The Truman Show”. Fiquei fã assumido de Jim Carrey em 2004 com um filme que já nasceu clássico: Eternal Sunshine of the Spotless Mind (Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças), dirigido por Michel Gondry e com roteiro escrito por Charlie Kaufman.
Essa introdução é para registrar que o documentário “Jim & Andy” merece ser visto. Se você é artista cênico precisa vê-lo: o processo criativo (quase de ‘incorporação espiritual’) de Jim Carrey é perturbador.
No entanto, o insight de Jim Carrey, com o qual abri este breve comentário, é sobre o que realmente eu vou escrever.
Ninguém quer se preocupar. E, no entanto, nos preocupamos. Vivemos na gangorra do egoísmo e do altruísmo. Às vezes, a gangorra emperra num dos lados e negligenciamos o outro aspecto da nossa persona social.
Uma saída rápida de sucesso, de aceitação social, como diz Jim, no documentário, “é fingir que se é aquele que não se preocupa e que não preocupa os outros”. Pura representação. Mas “o público” adora parar de se preocupar, precisa escapes, precisa dessa “fuga dissociativa” da realidade.
As redes sociais, em especial quando se trabalha nelas – para além do mero entretenimento –, revela de maneira crua essa tendência à fuga dissociativa da realidade. Um texto conjuntural (pessoal ou impessoal) tanto mais terá interação quanto mais “leve” for. Problematizações, análises que não se concluem nem dão respostas fáceis, o cultivo da dúvida e não das certezas, tudo isso “pré-ocupa”. E, portanto, tem um público restrito.
Jogos, divinações, brincadeiras, passatempos “desopilam” – que vem, exatamente, de ‘deixar fluir do fígado a bile negra que causaria a melancolia’. O que acontece se não conseguirmos mais conectar e lidar com nada denso?
Em seu ensaio “Tudo o que é sólido desmancha no ar”, Marshall Berman – além, é claro, da referência direta a Marx e Engels – anota: “Tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade sua posição social e suas relações recíprocas”.
Se eu faço, portanto, das redes sociais um megafone cibernético para as minhas aflições estou sendo leviano, sincero, egoísta ou corajoso? Se, das redes, eu busco apenas os “likes” – a droga do século –, a popularidade, a influência “leve” dos passatempos e curiosidades de almanaque, estou sendo sincero, egoísta, corajoso ou leviano?
Tudo o que é sólido se ressignifica nas redes.
E a sociedade do espetáculo, como no Show de Truman, nos exige tamanha (e acrítica) entrega que vão se formando as fissuras e as lacunas no que realmente somos. Mas o que realmente somos? Uma mente com lembranças? Um brilho eterno? Uma faísca, um reflexo num átimo de pó?
O DIA EM QUE CONHECI OLAVO DE CARVALHO ou “OLAVO, DEFINA UM TRIÂNGULO”
Não lembro ao certo o ano, nem vou me dar ao trabalho de pesquisar porque o fato se deu, com certeza, entre 1996 e 1999 – ou seja, numa era pré-Wikipedia e outros utilitários cibernéticos contemporâneos. Foi durante um painel com autores promovido pela então gigantesca e prestigiada Feira do Livro de Porto Alegre – hoje muito combalida. O evento aconteceu no Clube do Comércio – prédio histórico localizado na Praça da Alfândega. Por essa época, Olavo tinha lançado “O imbecil coletivo: atualidades inculturais brasileiras”; era colunista em alguns dos principais jornais do Brasil e Porto Alegre o aguardava, acreditem, como uma celebridade emergente.
Me interessava pelo estilo provocador de Olavo como articulista,a la Paulo Francis (aquele sujeito das trevas). Assim como o próprio Francis, Olavo fazia questão de usar como marketing pessoal o fato (fato?) de ter sido um militante comunista na juventude, ligado ao PCB. Eu, como a plêiade de jovens leitores que eram meus amigos à época, ou como a turba de jovens leitores que depois de ler Olavo acreditam terem visto “a luz” hoje em dia, não ligava muito para método científico, formação política clássica ou mesmo o pensamento crítico. Ou seja, ingênuo era uma presa fácil para o charlatão.
Tive a sorte de estar, naquela tarde, na agradável companhia do saudoso amigo José Otávio Ferlauto, o conhecido jornalista ‘das antiga’ Dedé Ferlauto – este sim, um intelectual. Dedé se animou com a ideia de assistir ao painel de Olavo, mas por motivos diferentes do meu interesse de espectador adestrado pela mídia local.
Após ouvirmos cerca de uma hora e meia de asneiras e platitudes do Olavo de Carvalho – e de assisti-lo ser grosseiro com os demais componentes da mesa, numa mistura de soberba, messianismo e histrionismo, Dedé ergueu o braço e o interpelou, da plateia: “Olavo, por favor, defina um triângulo”. Nem Olavo de Carvalho, nem a plateia entendeu direito. – Como é? Pode repetir. “Apenas eu gostaria de ouvir você definindo o que é um triângulo”, confirmou Dedé Ferlauto, diante de rostos atônitos e de um Olavo de Carvalho estupefato. Olavo gaguejou, depois resmungou, maneou com cabeça para a plateia numa tentativa de ridicularizar o interlocutor (conseguiu alguns risinhos cúmplices de seu fã clube) e, tentando encerrar, disse: – Desculpe, não entendi qual é o ponto. Alguém mais… “O ponto”, continuou Dedé, “é que você critica a imbecilidade mas não conseguiu definir rapidamente um mero triângulo”.
Diante do evidente desconforto no local, Dedé levanta e sai da sala com aquele sorriso sacana de quem tinha feito o renomado “filósofo” cair numa armadilha de koan. Esta lição eu nunca esqueci: diga o que disser, tudo que o vem de Olavo de Carvalho é elaborado, pensado, empacotado e vendido sob medida para convencer.
Olavo não é um filósofo, é apenas um propagandista da extrema-direita. Quem o enfrenta e o instiga a pensar “fora de caixa” só encontra nele ressentimento, reação sarcástica, violência verbal ou terminologia chula. De raciocínio lento e com baixa capacidade cognitiva, Olavo de Carvalho é um guru que não consegue “definir um triângulo” – um simples polígono de três lados – se o triângulo não estiver no seu script.