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LEMBRE-SE, LEMBRE-SE DO 5 DE NOVEMBRO!

Por Henri Figueiredo*
Certa mídia televisiva brasileira achou “meia boca” o discurso de Kamala Harris, mas não conseguiu contextualizar nem o roteiro da última noite da Convenção Nacional do Partido Democrata, em Chicago, neste 22 de agosto de 2024.
Ainda me recuperando de uma virose qualquer (há tantas!), tive ânimo de assistir por horas na noite e início da madrugada desta quinta (22) para sexta-feira (23) a transmissão do encerramento da Convenção Nacional do Partido Democrata, direto de Chicago, pela CNN Internacional – em que a vice-presidente dos Estados Unidos da América, Kamala Harris, encerrou com um discurso de cerca de 40 minutos. De maneira protocolar, aceitou sua indicação para a Presidência – cuja eleição será em 5 de novembro.
“Remember, remember the 5th of November!” – os fãs dos grandes Alan Moore e David Lloyd vão lembrar de “V for Vendetta” publicada pela DC Comics, em 1988, sob a sua marca Vertigo. Os cinéfilos mais jovens vão lembrar de “V de Vingança” de 2005, dirigido por James McTeigue e produzido por Joel Silver e pelas irmãs Wachowski – criadoras de obras-primas como o longa Matrix (1999) e da série Sense8 (2015). Aliás, permitam-me esse ‘nariz de cera’ (deem um Google, crianças), não tenho dúvidas de que a máscara de Salvador Dalí na sensacional “La Casa de Papel”, recuperada na Espanha e feita um sucesso global pela Netflix, bebeu muito da máscara de Guy Fawkes (1605), uma figura histórica lembrada até hoje na Inglaterra, onde o 5 de novembro é a celebração anual da “Noite das Fogueiras”.
Quando era um jovem repórter, fui doutrinado a detestar narizes de cera. A medida que fui envelhecendo, passei a achá-los necessários para situar quem lê – já que, apesar de me gabar de gostar de editar, cada vez mais sinto falta da contextualização no jornalismo.
Enfim, volto ao lead, ao mais importante, ao ponto que precisa ser discutido. E não é, definitivamente, o discurso em si que a atual VP dos USA e agora oficialmente candidata à Presidência fez: o importante foi o ROTEIRO da última noite.
Comecei a assistir à transmissão ao vivo da DNC, em Chicago, pela CNN Internacional, ancorada pelo Anderson Cooper, sem tradução, sem legenda, enfim, me desafiando na audição do inglês dos estadunidenses naquele ritmo frenético e com sua prosódia absolutamente diversa entre cada comentarista ou orador. Foi um bom exercício. Mas o melhor foi acompanhar a maior parte do roteiro e linha discursiva dos que usaram o microfone.
Daí, eu pergunto: onde estavam, nessa hora, os comentaristas da CNN Brasil e da GloboNews, especialmente – que foram os canais nacionais que eu acompanhei. Pareceu-me, ao fim do discurso de Kamala, que estavam trocando ideias aleatórias no cafezinho – perdoem-me a leviandade, mas depois de tentar ouvir os comentários pós-encerramento, só posso reagir como leviano às asneiras que ouvi, como se fossem análises jornalísticas, focadas apenas no discurso da candidata democrata. Foi como se, tanto na CNN Brasil, quanto na GloboNews, não houvera horas de roteiro bem escrito, de estratégia de comunicação política elaborada (bem ou mal, mas elaborada), numa sequência de tirar o fôlego de quem assistia. Tudo o que importou para os, sejamos justos, bem remunerados “analistas” de TV por assinatura (falo especialmente destes dois canais pagos) foi o último discurso.
Eu não vou aqui perder meu tempo elencando tudo de incrível que eu ouvi, em inglês – e, portanto, perdendo ao menos uns 30% de entendimento preciso, confesso – e que não foi sequer mencionado pelos comentaristas ao fim do discurso de Kamala Harris.
Desde jovem eu construí minha trajetória no jornalismo profissional e, também, na militância política. Embora seja um ativista político desde os 16 anos de idade, quando votei pela primeira vez para presidente – junto com meus pais, aliás –, em 1989, só me filiei ao meu partido desde sempre quando decidi assumir e ajudar a construir e a colaborar, publicamente, para narrativa do meu campo democrático. Até então, passei mais de duas décadas de vida cumprindo o Código de Ética do meu ofício e, de fato, verificando as várias verdades, investigando e publicando as várias verdades que se aparecem para quem é repórter de fato. Vivi e morro repórter e militante. Este breve texto, por exemplo, não passa de uma reles crítica da mídia – um dos meus esportes favoritos desde criança.
Na noite de 22 de agosto de 2024 até o início da madrugada de 23, no Brasil, eu acompanhei várias verdades desfilarem pelo palco do United Center, de onde eu costumava assistir um búfalo soldier, chamado Jordan, vestindo uma camisa com o número 23, destruir seus adversários com talento, força e lealdade. Foi algo assim que eu assisti hoje e que os analistas perderam ou não tiveram liberdade, tempo, coragem ou inteligência (foi mal, mas é isso aí mesmo) pra falar.
Vou elencar de memória o que lembro ter ouvido de alguns cidadãos e cidadãs dos USA falarem no palco. Bora lá, não necessariamente nesta ordem:
1) Professora que perdeu mais de duas dezenas de alunos, alunas e colegas em ataque com armas de assalto na sua escola – coisa que Trump, mesmo depois do tiro que rasgou como gilete sua orelha, continua defendendo como de livre comércio. Mãe de aluno que foi morto por atirador com arma de assalto em escola. Estudante sobrevivente de ataque por arma de assalto em escola.
2) Xerife de condado de interior relatando que as comunidades foram contaminadas pelo ódio e que o papel da polícia, numa democracia, é proteger, servir e – principalmente – fazer cumprir a Constituição, ao contrário do que fez o bilionário que quer voltar à Presidência, dividindo o país e incitando uma tentativa de golpe de Estado em 21 que deixou mortos e feridos. E, aponto eu, que serviu de modelo para a tentativa terrorista de golpe no Brasil, em 8 de janeiro de 23.
3) Ex-chefe da CIA (e de outros altos postos de comando de inteligência) afirmando que o adversário mente, não é confiável e não tem moral nem virtude para governar.
4) Governador e general reformado, afirmando que o adversário não respeita as forças armadas do Império, não tem preocupação nenhuma com quem serve ao país deles com armas nas mãos em guerras globais.
5) Deputado republicano, veterano da Força Aérea, lamentando o sequestro que seu partido teve com a chegada desse líder populista (evitou dizer “fascista”, mas aí seria um tapa na cara dos seus próprios correligionários); denunciando as mentiras do candidato do seu próprio partido e exortando os verdadeiros republicanos a votarem em Kamala Harris.
6) Irmã, afilhada, sobrinha e enteada falando sobre quem é a mulher, o ser humano, a pessoa Kamala Harris.
Bem, teve mais, é claro. Isso tudo não para “defender” Kamala que, aliás, foi muito mal ao dar a ênfase que deu ao ataque terrorista sofrido pelo povo de Israel, pelo Hamas, que resultou em condenáveis 1,2 mil assassinatos de israelenses e cuja resposta absolutamente desproporcional e criminosa, com armas fornecidas, inclusive, pelos USA, causou o genocídio de mais de 40 mil palestinos e palestinas – a imensa maioria de mulheres e crianças residentes na Faixa de Gaza.
Eu não vou repetir aqui, por óbvio, o que todos há horas se ativeram – o discurso, em si, de Kamala. Só fiz questão de fazer o registro acima porque, para mim, foi o mais que mais me enojou, visceralmente. No entanto, dizer que a fala da mulher, na noite em que ela aceita a tarefa de enfrentar o neofascismo em solo americano, foi… “razoável”, “mediana”, “não empolgante”, “focada na pauta identitária” não é apenas reducionista e simplificador, é burro. E incompetente – eu não sou pago para acompanhar a íntegra do último dia da convenção do Partido Democrata dos USA. Francamente, evitando ser pernóstico, tive nesta noite mais um exemplo escancarado de que o nosso jornalismo está, em sua maioria, tocado por gente ou muito preguiçosa ou muito subalterna à ordem da diretoria.
Entendo os limites da programação que impediram que se transmitisse toda a programação da noite. Isso faz e sempre fez parte da grade. O que eu não engulo, não mesmo, é o recorte fácil, apressado, cansado e, portanto, de baixo nível – feito por gente que tem qualidade para fazer melhor. É uma pena. Aliás, de penas a Kamala entende bem.
*Jornalista profissional desde 1995. Ativista político desde 1988.
Dez estratégias de manipulação midiática
❝O linguista estadunidense Noam Chomsky elaborou a lista das “10 estratégias de manipulação” através da mídia:
1- A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO.
O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.
2- CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES.
Este método também é chamado “problema-reação-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.
3- A ESTRATÉGIA DA GRADAÇÃO.
Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.
