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SERENDIPITIA, por Henri Figueiredo

Nesta manhã de 4 de janeiro de 2019, nasce a coluna “Serendipitia” – que significa “descobertas afortunadas feitas, aparentemente, por acaso”. Ou nem tanto porque, com mais precisão, aqui também será apresentado o resultado de um minucioso “garimpo” nas redes e no conjunto da web. A costura será com tópicos, artigos ou breves ensaios meus sobre política, comportamento e arte – em especial música, literatura, cinema e TV. Sejam bem-vindos.

“Minha mãe achava estudo

a coisa mais fina do mundo.

Não é.

A coisa mais fina do mundo é o sentimento.

Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,

ela falou comigo:

“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.

Arrumou pão e café , deixou o tacho no fogo com água quente.

Não me falou em amor.

Essa palavra de luxo.”

[Ensinamento | Adélia Prado]

O FUTURO JÁ COMEÇOU | “Antonio Gramsci está mais atual do que nunca, a julgar pelo que se ouviu em alguns pontos da Esplanada dos Ministérios na jornada de quarta-feira. Se antes estabelecer uma hegemonia cultural não era um objetivo claro de um grupo político no poder, agora é. Nos governos Lula e Dilma havia muita gente com uma visão leninista da condução da política e de aparelhamento do Estado, mas a unidade estratégica se perdeu em meio a disputas internas e ao surgimento de outras referências para a construção do poder”. Parágrafo de abertura da matéria de CÉSAR FELICIO no jornal VALOR de 4 de janeiro de 2019. Estou, francamente, rindo por dentro e por fora lembrando de quantos vezes fui interrompido nos debates por companheiros que simplesmente puseram Gramsci no lixo em nome de um “empirismo” que lhes conferia uma aura quase heroica quando não divina, ó líderes supremos da Esquerda ignara! Só vós, que exercestes o poder, conheceis o caminho, a verdade e a vida! Se nós não aprendemos com os nossos maiores pensadores, bom… os ideólogos da extrema-direita aprenderam bem.

DO FACEBOOK

Do professor da UnB Luiz Felipe Miguel: “O novo governo é regido pela lógica do inimigo interno. Mais, até, do que o foi a própria ditadura militar. As posses do presidente e dos ministros confirmaram isso. Ser oposição a ele exige entender esse dado. É um governo que constrói qualquer negociação como fragilidade, que recusa qualquer concessão e que não vê outra saída que não seja nosso extermínio”. [4 de janeiro de 2019]

O RISO É O TEMOR DOS TOTALITÁRIOS

Assim como costuma ser pela Cultura (ou pelo combate a ela) que se alcança a hegemonia numa sociedade (obrigado, Gramsci), é ridicularizando as simbologias deste governo protofascista que teremos mais inserção e eco entre os descontentes. De boa, quem acha que vai ser falando do salário mínimo ou das privatizações das refinarias da Petrobras que vamos reverter a simpatia do eleitorado pelo Bolsoasno, não entendeu nada de psicologia das massas. Isso é recurso para conscientização política e formação ideológica – ambas matérias abandonadas pelo PT, infelizmente, desde 2003, em nome do pragmatismo governamental. Então, creio que, simultaneamente a gente reconstrói os espaços de consciência política e de formação ideológica enquanto se detona, brinca, ironiza e escracha os símbolos deles. Todos os símbolos: os religiosos (como a submissão feminina ao macho); os ideológicos (como a aversão aos vermelhos socialistas/comunistas);os bélicos (como a questão do armamento como saída para a insegurança); e os de doutrinação/reprogramação mental (como o Escola Sem Partido). É preciso rir da cara deles, enquanto se organiza a luta da Realpolitik.

Reproduzo abaixo artigo da professora de jornalismo Sylvia Moretzsohn: “Vejo muita gente dizendo que ridicularizar ou ironizar o festival de sandices dos representantes desse governo (a mais recente foi a da ministra do pé de goiaba sobre meninos de azul e meninas de rosa) é cair na armadilha deles, é não perceber a cortina de fumaça que eles promovem para nos distrair, enquanto avançam na destruição de tudo o que foi duramente conquistado ao longo das últimas décadas.

Discordo radicalmente disso. Antes de mais nada, porque não somos tão ingênuos assim para ignorar cortinas de fumaça. Mas sobretudo por outras duas razões: primeiro, porque não estamos desconsiderando a avalanche de ataques contra esses direitos; pelo contrário, cansamos de denunciá-la cotidianamente (e o grave é que é praticamente tudo o que podemos fazer, o que não basta para enfrentar e impedir essa violência. Ou seja: de fato podemos muito pouco, na atual correlação de forças). Segundo, e talvez mais importante: porque essas sandices não são apenas cortina de fumaça, elas fazem parte da campanha ideológica desse pessoal, que continua a investir, agora com mais ênfase ainda do que o fez durante a campanha, na temática moralista que enaltece os valores tradicionais da religião e da família. Isso tem um peso enorme e é parte fundamental da estratégia de discursos e práticas na sedimentação da estupidez dessa massa de gente que elegeu esse governo”.

ALERTA DE SPOILER: ESTE TÓPICO É POLITICAMENTE INCORRETO, CONTÉM IRONIA E LINGUAGEM IMPRÓPRIA PARA MENORES DE 35 ANOS PELAS NOVAS NORMAS DO MINISTÉRIO DA FAMÍLIA | Estamos apenas entrando no quinto dia do novo governo federal e eu já me sinto livre do jugo do socialismo que me forçava a ser politicamente correto! Portanto, Bolsoasno e seus apoiadores de merda, vão tomar no meio do cu de vocês todos! Aqui tem resistência! [Sinto que também regredi muito em boa educação, mas enfim, deve ser isso que chamam de “egrégora” não é mesmo? Principalmente quando a escolha da maioria do eleitorado que votou válido foi por abraçar a estupidez.]

A MÍDIA COMERCIAL (MAL)TRATADA COMO NO REGIME MILITAR

Relato da veterana jornalista Mônica Bergamo da Folha de S.Paulo.

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“É uma posse diferenciada e todos têm que entender isso.

Com essas palavras, a assessora do Palácio do Planalto que acompanhava jornalistas num ônibus rumo ao Congresso Nacional, na manhã desta terça (1º), procurava acalmar veteranos da profissão (esta colunista entre eles) que não conseguiam, digamos, entender os novos tempos —e o tratamento reservado à imprensa na posse de Jair Bolsonaro na Presidência da República.

Foi, de fato, algo jamais visto depois da redemocratização do país, em que a estreia de um novo governo eleito era sempre uma festa acompanhada de perto, e com quase total liberdade de locomoção, pelos profissionais da imprensa.

O sufoco começou dias antes, no credenciamento.

Os jornalistas foram informados de que não poderiam ter acesso livre, por exemplo, ao salão nobre do Palácio do Planalto, onde o presidente sobe a rampa, dá posse aos seus ministros e recebe cumprimentos de autoridades internacionais.

Na posse de Lula, em 2003, repórteres chegavam a se aglomerar em torno dele e de Fernando Henrique Cardoso, misturando-se entre a equipe recém-empossada e a que deixava o governo.

Um dos repórteres lembrava, no ônibus, que chegou a subir no elevador do Planalto com Lula, furando um esquema nada rigoroso de segurança.

A colunista chegou a entrar em salas privadas com o então vice-presidente dos EUA Joe Biden na posse de Dilma Rousseff, em 2014.

Desta vez, tudo seria diferente. Apenas um jornalista de cada veículo poderia entrar no palácio, e com acesso restrito às autoridades.

Os outros ficariam do lado de fora, na portaria ou num corredor aberto no meio da população. E a assessoria alertava: neste local, era preciso evitar movimentos bruscos. Fotógrafos não deveriam erguer suas máquinas. Qualquer movimento suspeito poderia levar um sniper [atirador de elite] a abater o “alvo”.

Uma jornalista voltou apavorada para a redação. Avisou à chefia que preferia não cobrir a posse. Não queria morrer. Foi convencida do contrário.

Os organizadores da cerimônia também distribuíram orientações por escrito à imprensa: os jornalistas credenciados deveriam chegar ao CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil), no dia 1º, às 7 horas da manhã.

Como é que é?

Era isso mesmo: embora a posse no Congresso estivesse marcada para as 15 horas, os jornalistas teriam que se concentrar desde cedo, embarcar nos ônibus às 8 horas, chegar no Congresso pouco depois e esperar, sem fazer nada, por mais de seis horas, para ver Bolsonaro entrar no parlamento.

Era preciso levar lanche pois não haveria comida. Tudo precisava ser embalado em sacos de plástico transparente.

“Garrafas não são permitidas. Haverá água potável disponível nas áreas de imprensa”, dizia o comunicado.

Os veículos providenciaram kits de sobrevivência para seus profissionais. No caso da Folha, bolachas Club Social, biscoitos Bis, castanhas de caju, barrinhas de cereal, gomas de mascar, um sanduíche de queijo e salame e suco de caixinha.

Na terça (1º), logo cedo, os jornalistas, seguindo as regras, chegaram cedo no CCBB.

Foram todos divididos em grupos, em cercadinhos com grades de ferro: os que iriam para o Congresso sairiam primeiro, depois os do Palácio do Planalto e, por fim, os do Itamaraty.

“Pessoal, vocês vão em 13 ônibus. Às 17 horas, nós traremos vocês de volta”, gritava um assessor que se apresentou como Tiago.

E quem quisesse ficar mais?

“Pessoal, [os seguranças] não vão deixar vocês passarem [nas ruas]. O direito de ir e vir dos jornalistas tá assim!”.

Os repórteres caíram na risada.

Apesar da situação, considerada um tanto surreal, havia motivo para risos. Um deles era a proibição de levar maçã inteira na merenda. Só picada, em pedacinhos.

“Razões de segurança: acham que alguém pode jogar uma delas na cabeça do Bolsonaro. E maçã machuca”, explicava um dos profissionais.

Em fila, todos começaram a embarcar nos ônibus.

“Bem-vindos à rodoviária do CCBB”, dizia o assessor que iria em um dos veículos.

Os alertas eram muitos. “Não tentem subir na Esplanada [dos Ministérios, avenida que leva à Praça dos Três Poderes]. Não tentem passar de uma área à outra. E, mais importante: não tentem pular uma cerca. Não façam isso!”

“A gente tem que avisar. Porque depois alguém toma um tiro…”, completava outra assessora.

“O que nós viramos?”, questionava um veterano jornalista. “Fizemos tudo o que já fizemos para terminar aqui?”

Pouco depois das 8 horas, o comboio de ônibus sai até o Congresso, onde novas surpresas nos esperavam. Ao chegar no parlamento, os repórteres passaram por detectores de metais.

E foram levados ao salão verde da Câmara dos Deputados, na entrada do plenário.

“É surreal!”, reagiu um jornalista ao ver a cena: todas as cadeiras e poltronas do local haviam sido retiradas. Não havia onde sentar. Os profissionais tinham que se acomodar no chão.

Eram centenas de jornalistas, mas só havia um banheiro disponível.

Alguns se dirigiram ao setor do cafezinho. Um segurança logo orientou as copeiras: “Não é para servir nada à imprensa”.

Os profissionais foram convidados a se retirar do local.

Teriam que ficar confinados no salão, separados por um cordão da passarela com tapete vermelho por onde passariam as autoridades.

“É preciso um pouco de dignidade!”, reclamava um repórter.

Um deles conseguiu um banquinho para se sentar. E logo começaram as brincadeiras: era preciso fazer rodízio para que todos pudessem descansar um pouco.

Na mesma situação no Itamaraty, correspondentes internacionais chegaram a se retirar do prédio.

Jornalistas com larga experiência em coberturas de governo prognosticavam: essa postura do governo durará pouco. Até a primeira crise.”

 

DIZ QUE AMA A PÁTRIA, MAS…

Diz que ama “a Pátria” mas vira a cara pra criança famélica pedindo trocado na rua. Na verdade bolsonarista ama é o pano da bandeira e símbolos como os hinos oficiais – seu amor é só pela simbologia aprendida na doutrinação Moral e Cívica da ditadura, não pelos compatriotas. Por isso, não têm vergonha de bater continência submissa aos EUA. O mais chocante é que têm a orgulhosa ignorância de comparar seu comportamento lambe-botas do Império com a relação altiva que tínhamos com países soberanos como Cuba – que é uma pequena ilha que resiste heroicamente há 60 de bloqueio imperialista. Eles se jactam de serem umas bestas quadradas!

SEM TRÉGUA PARA PROTOFASCISTA | UM BREVE MANIFESTO

Nenhum(a) fascista ou evangélico(a) fundamentalista bolsonarista merece trégua! Combatam, discutam, os destrua com argumentos, fatos e escancarem que são todos e todas cúmplices dos assassinatos políticos, raciais e pelos massacres armados que virão. Façam as listas, não esqueçam seus nomes, printem suas postagens mentirosas e cheias de ódio nas redes sociais. Recolham provas do colaboracionismo com o governo teocrático totalitário do ex-militar terrorista. Conheça o adversário, monitore o inimigo, saiba seus pontos fracos e planeje a revanche. Não se combate os que desprezam a democracia usando palavras de amor e tolerância. Endureça, mantenha a ternura que nos faz humanos, mas prepare-se para a guerra. O mal está disseminado entre familiares, vizinhos, colegas de trabalho. Nem por um minuto pense em aliviar o combate. Resista mas, principalmente, aja. Não permita calado e sem lutar nenhum retrocesso nas liberdades civis. Eles querem nos calar, nos dizimar fisicamente, vão perseguir. Por isso, nenhum bolsonarista merece trégua.

SOM E FÚRIA | Alguns amigos e companheiros de luta ficaram um tanto incomodados com o artigo-manifesto acima, publicado originalmente nas redes sociais na quarta-feira, 2 de janeiro de 2019. Dentro da tradição dialógica e dialética, eles poderiam ter dito que não gostaram, escrito um contraponto, discutido e, quem sabe, desmanchado com as minhas razões. O amigo que fez o comentário mais sintético e elegante, disse que eu acertara na “diretriz” mas pecara “no tom”. Noutras palavras, “é isso mesmo, mas não se diz assim”. Desculpem-me carxs amigxs, hoje eu cito William Shakespeare: “A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, sem sentido algum”.

Ontem vivi um dia de som e fúria. Hoje estou mais ponderado e, por isso, vou apenas fazer a analogia do que vivemos no Brasil da atualidade com a história do sapo na panela. Vocês certamente já ouviram (e os mais cruéis devem ter feito a experiência) que um sapo jogado num panela de água fervendo vai bater e, no mesmo segundo, pular fora daquele ambiente inóspito e mortal. Mas se o sapo for colocado vivo numa panela de água fria e esta panela levada ao fogo, o sapo primeiro vai ficar anestesiado e depois vai ser cozido no caldeirão. O quanto nós, que estamos dentro da vida pública, imersos na construção sindical, em comitês pró-democracia, no ativismo político, na militância partidária, não percebemos que a panela já esquentou e está quase no ponto de fervura? Eu tenho lido, ouvido e prestado atenção em alguns amigos, amigas e conhecidos que são intelectuais e ermitões – estão fora desse circuito sociopolítico há tempos – mas se puseram em alarme. Eu não gosto muito de me sentir “culpado” porque isso carrega também um sentido religioso; prefiro me dizer “responsável”, o que é laico.

Eu comecei a escrever para leitores, leitoras, para uma audiência, enfim, aos 22 anos, no jornal diário de Novo Hamburgo – lá se vão 24 anos ininterruptos de escrita, entrevistas, reportagens, artigos, crônicas e ensaios políticos. Ainda que hoje em dia grande parte dos meus escritos tenham circulação restrita, nunca perdi o gosto (e a necessidade) de me manifestar “urbi et orbi”, ou seja, para as gentes. E tenho um gosto especial pela polêmica; infelizmente, as pessoas desaprenderam de polemizar. Por isso, me agarro aqui à corda salva-vidas que o amigo mais elegante me atirou para me salvar do mar da polêmica, mas não subo no bote. O meu “pecado” teria sido o tom. Ora, vejam, novamente um conceito religioso sobre um artigo que discutia ferozmente o fundamentalismo cristão que quer estabelecer uma teocracia na nossa república. A gente tende, realmente, a usar a terminologia de quem ascendeu ao poder. Espero não começar a desejar bom dia, boa tarde e boa noite com “Louvado Seja!” ou “Glória a Deus”. Isso também já é o sintoma da panela fervente.

Em que pese a minha amarga ironia nesses dias, mais importante do que ser lido é ser, de verdade, criticado – porque aí sim, quando mobilizamos o desejo de contraponto, tivemos algum sucesso em provocar a reflexão. Mesmo que de maneira brusca, como ao dar um safanão na panela fervente. Vamos nos queimar com alguns respingos, é certo. Mas ninguém esperava que saíssemos completamente ilesos desta discussão.

SERIAL WATCHER

Se você gosta de maratonar mas, nessa época, não quer exatamente “fugir da realidade”, a dica é “The Handmaid’s Tale” – O Conto da Aia. Acho que melhor traduzido seria “O Conto da Serva”. Em cinco madrugadas e uma tarde, cheguei ao final dos 23 episódios, divididos nas duas primeiras temporadas – o que me custou grande desgaste emocional.

A distopia é fielmente baseada no romance da canadense Margaret Atwood, de 1985. Um governo teocrático cristão, mulheres servas dos homens, estupros sistemáticos, ritualizados e institucionalizados para que as mulheres cumpram o “destino biológico” de engravidar, enforcamentos públicos de LGBTQ+ (chamados de ‘traidores de gênero’), execuções de intelectuais e a Bíblia no lugar da Constituição. Parece, de fato, o aprofundamento prático das teses defendidas pelos fundamentalistas evangélicos que são a principal base de apoio popular deste governo que assumiu no Brasil de 2019.

 

ATÉ A PRÓXIMA “SERENDIPITIA”, AINDA SEM DATA DE LANÇAMENTO.


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