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“1983” | TRAMA DE SÉRIE POLONESA FICCIONA CRIMES DA DITADURA ARGENTINA

 

1983

Foto: Krzysztof Wiktor

Série distópica da Netflix, produzida na Polônia, tem como plot os sequestros de filhos de militantes de Esquerda durante a ditadura na Argentina. | Primeiro vamos lembrar da história. No início da década de 1980, o mundo tinha o primeiro Papa polonês, Karol Wojtyła (João Paulo II) que foi decisivo, junto com Lech Wałęsa, líder do Sindicato Solidariedade – e com a CIA e a OTAN – para o enfraquecimento da influência soviética e, ao fim da década, para a queda da Cortina de Ferro.

A série original da Netflix ‘1983’ propõe uma “distopia” em que ao invés da “mudança de regime”, o Partido Comunista acaba aumentando a vigilância e o controle sobre a população.

A história se passa em 2003, com muitas voltas no tempo a 1983, e mostra a atividade de um grupo revolucionário formado por filhos de opositores que foram executados. As crianças foram “adotadas” por famílias ligadas ao partido após o extermínio da oposição. O grupo revolucionário se autodenomina Brigada Ligeira e seu modus operandi é recrutar os jovens que tiveram seus pais biológicos mortos para que eles, infiltrados no establishment, promovam atos terroristas, desestabilizem o governo e cometam assassinatos de lideranças do regime, a começar pelos seus pais adotivos.

Vejam como a Indústria Cultural (nos termos conceituais da Escola de Frankfurt) é amoral e pode ser cruel. Quem conhece a história da América Latina sabe bem que o genocídio de 30 mil opositores da ditadura argentina (1976-1983) se deu por um regime fascista que perseguiu diretamente militantes socialistas e comunistas. Ainda que se entenda que (quase) tudo é legítimo em ficção; que, filtrados todos os componentes relativos às diferenças ideológicas entre a história argentina e essa distopia televisiva polonesa, é importante contar sobre os crimes de regimes totalitários; e que, num dos episódios, o personagem que é comandante da polícia política faça textualmente a relação da trama com o que houve na Argentina… ainda que, ainda que, ainda que… me incomoda demais essa mistura, essa confusão, essa pasteurização de fatos históricos em dramaturgia televisiva.

Os regimes da Cortina de Ferro eram, de fato, totalitários. No entanto, me perturba a transfusão de um episódio monstruoso como o que houve com as famílias de militantes de Esquerda da Argentina para um negativo sociopolítico ficcional polonês, onde tudo se dá ao contrário. Na ficção polonesa, os vilões são os “comunistas”, os filhos sequestrados são de famílias anticomunistas, católicas e democratas.

Há documentários importantes sobre os crimes da ditadura argentina. Para citar apenas dois recentes: “500” e “Hijos”. Me dói, como latino-americano, que tudo esteja tão invertido nesta ficção. Mais uma vez tento filtrar essa crítica imaginando que a correlação faça algum sentido para o povo polonês, que sofreu com os russos, com os nazistas, depois sob o tal “socialismo real” e com a ingerência de Moscou.

Feitas todas as ressalvas, há alguns aspectos interessantes que merecem registro. Primeiro, é claro, o fato de se ouvir polonês na TV – qual foi a última vez que você ouviu essa língua no cinema ou na TV, se é que já ouviu? O outro ponto a se destacar é que a série é bem escrita, com boas atuações e fotografia excelente. E, apesar de aparente contradição, a narrativa é batida e vem da clássica escola norte-americana: detetive de meia idade atormentado e fracassado começa a investigar um suposto suicídio e vai descobrindo que a “estória” é mais complexa.

E a história é ainda bem mais complexa que a série ‘1983’.


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