*Por Henri Figueiredo
RIO DE JANEIRO | No próximo 7 de abril, meu site completa 10 anos – o lancei, em 2013, porque sentia na eletricidade do ar a disrupção de uma maneira de comunicar e o surgimento de outra: o que, de fato, aconteceu nas famosas jornadas de junho e julho de 2013. Politicamente fui, no início, a favor – ainda que o repórter em mim farejasse algo podre no ar. Antes de julho chegar ao fim, estava completamente no combate àquele tipo de (des)organização “horizontal” que foi tomada, por dentro e por fora, pelos fascistas e serviu de massa de manobra de multidões (alguns, inclusive, sinceramente ‘bem intencionados’) contra o governo federal. No entanto, a comunicação digital, o poder de um(a) jovem ativista com uma câmera e uma boa banda de internet deixou claro que as águas estavam divididas. Dilma, enfim, à época, com erros e acertos, confrontava o tal “mercado financeiro”. Nunca foi por vinte centavos. Mas a luta contra o rentismo, os juros escorchantes e a brutal desigualdade a que isso leva hoje, uma década depois, nos vemos na premência de ressuscitar, reviver e vencer para que a combalida soberania do Brasil sobreviva.
Bem, vou dando voltas, digressão a digressão, mas retomo o ponto inicial: escolhi 7 de abril por ser o “Dia do Jornalista”, estabelecido pela ABI em homenagem a Badaró – que manteve um jornal crítico ao Império. O nome, em latim, “Tempus fugit”, o tempo foge, sempre me tocou e mesmo sabendo que já era o nome do site do saudoso Rubem Alves, ainda assim o adotei para o meu blog pelo tanto de significado que encerra pra mim e pra muitos. Algum vetusto editor do século XX chamaria esse meu longo intróito de “nariz de cera”: “-Ora bola, vamos direto ao ponto. O que, quando, onde, como e por que! O lead, diabos! O LEAD!”
A técnica do texto jornalístico se aprende em meses até entrarmos no automático. Há décadas considero as faculdades de jornalismo meras oficinas preparatórias para funcionáros das empresas da mídia comercial e para o exército de reserva, os desempregados, que estarão ali, com seu diploma debaixo do braço, assinando seus textículos como “jornalista diplomado”… e desempregado, como a maioria deveria acrescentar. Falta consciência de classe nessa turma. Sobra soberba. Bela profissão liberal que, ao contrário das outras nascidas ou renascidas no Iluminismo, hoje forma uma tropa dispersa, dividida pelas ideologias, pelo corporativismo mais tacanho e pelo dogmatismo míope da maioria das “lideranças” nacionais da categoria.
Se você chegou até aqui, obrigado. Foi tudo também para relembrar o belíssimo texto de Ricardo Gondim que viralizou (ah, adoro neologismos) quando Abujamra o disse, como quem nos fere a punhal, em seu programa “Provocações” na TV Cultura, hoje à cargo de um velho repórter Ernesto Varela, digo, Marcelo Tas – que pelo bem do pensamento e do humor nacional jamais ter deveria ter saído do personagem Varela. Que falta faz Antonio Abujamra para o pensamento nacional na televisão aberta.
O Tempo Que Foge
Eu contei meus anos.
E descobri que tenho menos tempo para viver daqui pra frente do que já vivi ate agora.
Eu tenho muito mais passado do que futuro.
Então já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Eu não quero reuniões em que desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos cobiçando lugar de quem eles admiram.
Eu já não tenho tempo para conversas inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Eu já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas idosas, mas ainda imaturas.
Eu detesto pessoas que não debatem conteúdos, mas apenas rótulos.
Eu quero viver ao lado de gente que sabe rir, sabe rir de seus tropeços. Não se encanta com triunfos. Não se considera eleita antes da hora. Não foge de sua mortalidade.
Eu quero caminhar perto de coisas e pessoas de verdade.
Apenas o essencial faz a vida valer a pena, e para mim, basta o essencial. [Ricardo Gondim]
30 de março de 2023