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Arquivo mensal: novembro 2018

A FUGA DISSOCIATIVA DO “NÃO PREOCUPAR-SE”, por Henri Figueiredo

jim carrey

O ator canadense Jim Carrey no documentário “Jim & Andy – The Great Beyond”

“O que as pessoas querem? O que eles querem?”, atormentava-se em determinado momento da carreira o ator canadense Jim Carrey. Até que numa madrugada acordou de um sono profundo e sentou na cama: “Eles querem não se preocupar!”.

Um Jim maduro, elaboradíssimo, articulado e sereno é quem encontramos no documentário “Jim & Andy: The Great Beyond” dirigido por Chris Smith. O filme segue o ator Jim Carrey enquanto se prepara para reviver Andy Kaufman no filme de 1999, Man on the Moon, dirigido por Milos Forman. O lançamento foi no dia 17 de novembro de 2017, na Netflix. Mais de um ano depois, assisti ao documentário e, mais do que conhecer Andy Kaufman, reencontrei Jim Carrey – a quem comecei a prestar atenção, em 1998, com o filme “The Truman Show”. Fiquei fã assumido de Jim Carrey em 2004 com um filme que já nasceu clássico: Eternal Sunshine of the Spotless Mind (Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças), dirigido por Michel Gondry e com roteiro escrito por Charlie Kaufman.

Essa introdução é para registrar que o documentário “Jim & Andy” merece ser visto. Se você é artista cênico precisa vê-lo: o processo criativo (quase de ‘incorporação espiritual’) de Jim Carrey é perturbador.

No entanto, o insight de Jim Carrey, com o qual abri este breve comentário, é sobre o que realmente eu vou escrever.

Ninguém quer se preocupar. E, no entanto, nos preocupamos. Vivemos na gangorra do egoísmo e do altruísmo. Às vezes, a gangorra emperra num dos lados e negligenciamos o outro aspecto da nossa persona social.

Uma saída rápida de sucesso, de aceitação social, como diz Jim, no documentário, “é fingir que se é aquele que não se preocupa e que não preocupa os outros”. Pura representação. Mas “o público” adora parar de se preocupar, precisa escapes, precisa dessa “fuga dissociativa” da realidade.

As redes sociais, em especial quando se trabalha nelas – para além do mero entretenimento –, revela de maneira crua essa tendência à fuga dissociativa da realidade. Um texto conjuntural (pessoal ou impessoal) tanto mais terá interação quanto mais “leve” for. Problematizações, análises que não se concluem nem dão respostas fáceis, o cultivo da dúvida e não das certezas, tudo isso “pré-ocupa”. E, portanto, tem um público restrito.

Jogos, divinações, brincadeiras, passatempos “desopilam” – que vem, exatamente, de ‘deixar fluir do fígado a bile negra que causaria a melancolia’. O que acontece se não conseguirmos mais conectar e lidar com nada denso?

Em seu ensaio “Tudo o que é sólido desmancha no ar”, Marshall Berman – além, é claro, da referência direta a Marx e Engels – anota: “Tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade sua posição social e suas relações recíprocas”.

Se eu faço, portanto, das redes sociais um megafone cibernético para as minhas aflições estou sendo leviano, sincero, egoísta ou corajoso? Se, das redes, eu busco apenas os “likes” – a droga do século –, a popularidade, a influência “leve” dos passatempos e curiosidades de almanaque, estou sendo sincero, egoísta, corajoso ou leviano?

Tudo o que é sólido se ressignifica nas redes.

E a sociedade do espetáculo, como no Show de Truman, nos exige tamanha (e acrítica) entrega que vão se formando as fissuras e as lacunas no que realmente somos. Mas o que realmente somos? Uma mente com lembranças? Um brilho eterno? Uma faísca, um reflexo num átimo de pó?

O DIA EM QUE CONHECI OLAVO DE CARVALHO ou “OLAVO, DEFINA UM TRIÂNGULO”

Não lembro ao certo o ano, nem vou me dar ao trabalho de pesquisar porque o fato se deu, com certeza, entre 1996 e 1999 – ou seja, numa era pré-Wikipedia e outros utilitários cibernéticos contemporâneos. Foi durante um painel com autores promovido pela então gigantesca e prestigiada Feira do Livro de Porto Alegre – hoje muito combalida. O evento aconteceu no Clube do Comércio – prédio histórico localizado na Praça da Alfândega. Por essa época, Olavo tinha lançado “O imbecil coletivo: atualidades inculturais brasileiras”; era colunista em alguns dos principais jornais do Brasil e Porto Alegre o aguardava, acreditem, como uma celebridade emergente.

Me interessava pelo estilo provocador de Olavo como articulista,a la Paulo Francis (aquele sujeito das trevas). Assim como o próprio Francis, Olavo fazia questão de usar como marketing pessoal o fato (fato?) de ter sido um militante comunista na juventude, ligado ao PCB. Eu, como a plêiade de jovens leitores que eram meus amigos à época, ou como a turba de jovens leitores que depois de ler Olavo acreditam terem visto “a luz” hoje em dia, não ligava muito para método científico, formação política clássica ou mesmo o pensamento crítico. Ou seja, ingênuo era uma presa fácil para o charlatão.

Tive a sorte de estar, naquela tarde, na agradável companhia do saudoso amigo José Otávio Ferlauto, o conhecido jornalista ‘das antiga’ Dedé Ferlauto – este sim, um intelectual. Dedé se animou com a ideia de assistir ao painel de Olavo, mas por motivos diferentes do meu interesse de espectador adestrado pela mídia local.

Após ouvirmos cerca de uma hora e meia de asneiras e platitudes do Olavo de Carvalho – e de assisti-lo ser grosseiro com os demais componentes da mesa, numa mistura de soberba, messianismo e histrionismo, Dedé ergueu o braço e o interpelou, da plateia: “Olavo, por favor, defina um triângulo”. Nem Olavo de Carvalho, nem a plateia entendeu direito. – Como é? Pode repetir. “Apenas eu gostaria de ouvir você definindo o que é um triângulo”, confirmou Dedé Ferlauto, diante de rostos atônitos e de um Olavo de Carvalho estupefato. Olavo gaguejou, depois resmungou, maneou com cabeça para a plateia numa tentativa de ridicularizar o interlocutor (conseguiu alguns risinhos cúmplices de seu fã clube) e, tentando encerrar, disse: – Desculpe, não entendi qual é o ponto. Alguém mais… “O ponto”, continuou Dedé, “é que você critica a imbecilidade mas não conseguiu definir rapidamente um mero triângulo”.

Diante do evidente desconforto no local, Dedé levanta e sai da sala com aquele sorriso sacana de quem tinha feito o renomado “filósofo” cair numa armadilha de koan. Esta lição eu nunca esqueci: diga o que disser, tudo que o vem de Olavo de Carvalho é elaborado, pensado, empacotado e vendido sob medida para convencer.

Olavo não é um filósofo, é apenas um propagandista da extrema-direita. Quem o enfrenta e o instiga a pensar “fora de caixa” só encontra nele ressentimento, reação sarcástica, violência verbal ou terminologia chula. De raciocínio lento e com baixa capacidade cognitiva, Olavo de Carvalho é um guru que não consegue “definir um triângulo” – um simples polígono de três lados – se o triângulo não estiver no seu script.