Tempus fugit

Início » 2019 » março

Arquivo mensal: março 2019

Chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, Malês

Marielle Grafitti

É hora de comentar os sambas de enredo das escolas do Grupo Especial do Carnaval do Rio em 2019. Até porque estamos a uma semana dos desfiles competitivos na Passarela do Samba Professor Darcy Ribeiro – vulgarmente conhecida como “Marquês de Sapucaí”, nome da rua onde o espetáculo acontece no bairro da Cidade Nova, ao lado do Estácio, na região central do Rio de Janeiro. (Saiba mais no link https://goo.gl/1zyCXR ). Como tenho feito há alguns anos, comento samba a samba equilibrando a minha percepção mais intuitiva de ouvinte e amante do carnaval com algumas informações que podem ajudar aos leitores a se situar melhor em relação à história recente da festa. Não tenho a pretensão e nem a qualificação necessária para formular críticas mais elaboradas sobre composição, arranjo de bateria e nem sobre o enredo propriamente dito – deixo esta tarefa para os amigos e amigas especialistas e profissionais do carnaval. Reforço, portanto, de que se trata apenas de um prazeroso exercício de um ouvinte que é apaixonado pela música e pelo carnaval. Nesta publicação para o Facebook vou compilar alguns breves comentários. A ordem dos desfiles é a seguinte: DOMINGO, 3 de março: 1) Império Serrano 2) Viradouro 3) Acadêmicos do Grande Rio 4) Salgueiro 5) Beija-flor de Nilópolis 6) Imperatriz Leopoldinense e 7) Unidos da Tijuca. SEGUNDA, 4 de março: 1) São Clemente 2) Unidos de Vila Isabel 3) Portela 4) União da Ilha do Governador 5) Paraíso do Tuiuti 6) Estação Primeira de Mangueira e 7) Mocidade Independente de Padre Miguel. Optei aqui por seguir a mesma ordem do disco oficial da Liesa e que é definida pela classificação das escolas no desfile do ano anterior.

BEIJA-FLOR

A campeã de 2018 vem com um bom samba, levada irresistível, e com o sempre competente Neguinho da Beija-Flor noutra excelente interpretação. Ainda que distante da beleza e da força do samba campeão de 2018, vai fazer bonito. Um dos refrões diz: “Abre a senzala! Abre a senzala! Nesse terreiro o samba é a voz que não cala”. E a última estrofe, de linda melodia, emociona. Assista no link: https://goo.gl/4Mr9Nb

Oh Deusa!
Tem festa no meu coração
Desfilo toda gratidão
Razão do meu cantar
A luz do meu viver
O que seria de mim sem você?

Nascido feito rei menino
Em ninho de amor e humildade
Meu Pai direcionou o meu destino
Voar nas asas da felicidade
E arrisquei um voo nesse lindo azul
Um mundo encantado pude recordar
Em fábulas bordei a fantasia
Ê saudade que mareja o meu olhar
Herdeiro dessa terra me tornei
Cantei nossos recantos, tradições
Sou eu aquele festival de prata
Que na pista arrebata tantos corações

Ôôô Axé que no sangue herdei
No meu quilombo, todo negro é rei

Abre a senzala! Abre a senzala!
Nesse terreiro o samba é a voz que não cala

Cresci, ouvindo acordes entre doces melodias
A bela dama retratada em poesia e o canto de cristal
A simplicidade no amor, aquele beijo na flor
Fez mais um sonho real
Pátria amada da ganância
Eu pedi socorro pelos filhos teus
Algoz da intolerância
Mesmo proibido, fui a voz de Deus
Toda essa grandeza, vem da nossa gente
Que esquece a dor e só quer sambar
É por esse amor
E o meu valor me faz brilhar
Comunidade me ensinou
A ser apaixonado como eu sou
Ontem, hoje, sempre Beija-Flor

 

PARAÍSO DO TUIUTI

O Tuiuti vem com uma boa levada e com um segundo refrão que poderia ser premonitório se o relacionarmos a Brumadinho: “Vendeu-se o Brasil num palanque da praça | E ao homem serviu ferro, lodo e mordaça | Vendeu-se o Brasil do sertão até o mangue | E o homem servil verteu lágrimas de sangue”. Nem de longe, no entanto, se aproxima do emocionante samba de 2018 – que foi potencializado na avenida pela sensibilidade e criatividade do carnavalesco Jack Vasconcelos. Assista no link: https://goo.gl/CWpPFu

O meu bode tem cabelo na venta
O Tuiuti me representa
Meu Paraíso escolheu o Ceará
Vou bodejar lá iá lá iá

Vendeu-se o Brasil num palanque da praça
E ao homem serviu ferro, lodo e mordaça
Vendeu-se o Brasil do sertão até o mangue
E o homem servil verteu lágrimas de sangue

Do nada um bode vindo lá do interior
Destino pobre, nordestino sonhador
Vazou da fome, retirante ao Deus dará
Soprou as chamas do dragão do mar

Passava o dia ruminando poesia
Batendo cascos no calor dos mafuás
Bafo de bode perfumando a boemia
Levou no colo Iracema até o cais
Com luxo não! Chão de capim!
Nasceu muderna Fortaleza pro bichim

Pega na viola, diz um verso pra iô iô
O salvador! O salvador! (da pátria)

Ora meu patrão!
Vida de gado desse povo tão marcado
Não precisa de dotô
Quando clareou o resultado
Tava o bode ali sentado
Aclamado o vencedor

Nem berrar, berrou, sequer assumiu
Isso aqui iô iô é um pouquinho de Brasil

 

ACADÊMICOS DO SALGUEIRO

Forte! Forte! Seguindo sua tradição de cânticos afro, o Salgueiro traz um samba arrebatador numa gira pra Xangô. O primeiro refrão é matador: “Mora na pedreira, é a lei na Terra | Vem de Aruanda pra vencer a guerra | Eis o justiceiro da Nação Nagô |Samba corre gira, gira pra Xangô”. E trata da justiça quando canta “Machado desce e o terreiro treme | Ojuobá! Quem não deve não teme”. A invocação “Olori Xangô eieô | Kabesilé, meu padroeiro | Traz a vitória pro meu Salgueiro “ tem poder. Gostei muito. E a bateria Furiosa é espetacular. Axé!

Assista no link: https://goo.gl/V8Eygr

Olori Xangô eieô
Olori Xangô eieô
Kabesilé, meu padroeiro
Traz a vitória pro meu Salgueiro

Vai trovejar!
Abram caminhos pro grande Obá
É força, é poder, o Aláàfin de Oyó
Oba Ko so! Ao Rei Maior
É pedra quando a justiça pesa
O Alujá carrega a fúria do tambor
No vento, a sedução (Oyá)
O verdadeiro amor (Oraiêiêô)
E no sacrifício de Obà (Obà Xi Obà)
Lá vem Salgueiro!

Mora na pedreira, é a lei na Terra
Vem de Aruanda pra vencer a guerra
Eis o justiceiro da Nação Nagô
Samba corre gira, gira pra Xangô

Rito sagrado, ariaxé
Na igreja ou no candomblé
A bênção, meu Orixá!
É água pra benzer, fogueira pra queimar
Com seu oxê, chama pra purificar
Bahia, meus olhos ainda estão brilhando
Hoje marejados de saudade
Incorporados de felicidade
Fogo no gongá, salve o meu protetor
Canta pra saudar, Opanixé kaô!
Machado desce e o terreiro treme
Ojuobá! Quem não deve não teme

Olori Xangô eieô
Olori Xangô eieô
Kabesilé, meu padroeiro
Traz a vitória pro meu Salgueiro

 

PORTELA

“Lá vem Portela com as bênçãos de Oxalá” cantando a guerreira Clara, filha de Ogum com Iansã. A minha azul e branco de Oswaldo Cruz e Madureira homenageia a grande cantora portelense Clara Nunes – que era da Umbanda, religião nativa que melhor define o sincretismo religioso brasileiro. Faz uma deferência indireta ao mangueirense Paulo César Pinheiro (viúvo de Clara e um dos maiores compositores da música brasileira, autor de “Portela na Avenida” e “Canto das Três Raças”)> “Nos versos de um cantador | O canto das raças a me chamar”. O sincretismo da Portela revela-se, por exemplo, quando canta a “padroeira” (Nossa Senhora Aparecida) e “a avenida em procissão”. Noutro momento, o samba faz referências diretas ao grande Paulo da Portela, ao compositor Natal da Portela, e ao gênio do samba Candeia. É, como a própria letra diz, um samba “saudosista”. Bonita melodia! Faz jus à tradição de respeito que a Portela tem com sua própria história. Eparrei Oyá (Iansã)! P.S.: Também tem uma referência indireta a Paulinho da Viola quando canta: “Mais uma vez deixei levar meu coração”. Assista no link: https://goo.gl/2m23zM

Eparrei Oyá, Eparrei
Sopra o vento, me faz sonhar
Deixa o povo se emocionar
Sua filha voltou, minha mãe

Axé, sou eu
Mestiça, morena de Angola, sou eu
No palco, no meio da rua, sou eu
Mineira, faceira, sereia a cantar, deixa serenar
Que o mar de Oswaldo Cruz a Madureira
Mareia, a brasilidade do meu lugar
Nos versos de um cantador
O canto das raças a me chamar
De pé descalço no templo do samba estou
É rosa, é renda, pra Águia se enfeitar
Folia, furdunço, ijexá
Na festa de Ogum Beira-mar
É ponto firmado pros meus orixás

Eparrei Oyá, Eparrei
Sopra o vento, me faz sonhar
Deixa o povo se emocionar
Sua filha voltou, minha mãe

Pra ver a Portela tão querida
E ficar feliz da vida
Quando a Velha Guarda passar
A negritude aguerrida em procissão
Mais uma vez deixei levar meu coração
A Paulo, meu professor
Natal, nosso guardião
Candeia que ilumina o meu caminhar
Voltei à Avenida saudosista
Pro Azul e Branco modernista eternizar
Voltei, fiz um pedido à Padroeira
Nas cinzas desta quarta-feira, comemorar

Nossas estrelas no céu estão em festa
Lá vem Portela com as bênçãos de Oxalá
No canto de um sabiá
Sambando até de manhã
Sou Clara Guerreira, a filha de Ogum com Iansã

 

MANGUEIRA

E chegamos ao mais lindo samba-enredo do Carnaval de 2019. Obra-prima. Além de citar, com grandeza, Leci Brandão e Jamelão e mostrar que sabe bem do seu tamanho e significado no Brasil (“São verde-rosa as multidões”), a Mangueira traz um samba que é a um só tempo afetivo (Meu dengo, a Mangueira chegou) e contundente na denúncia da injustiça social brasileira. É de Esquerda e mais: humanista, antirracista, feminista. Por dois momentos é claríssima a referência à resistência contra a ditadura civil-militar: 1) “Mangueira, tira a poeira dos porões” e 2) “Salve os Caboclos de Julho | Quem foi de aço nos anos de chumbo”. Pelo que vi dos ensaios técnicos, deve ter paradona da bateria para a Mangueira e as arquibancadas cantarem, a capella: “Brasil, chegou a vez | De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, Malês”. Poeticamente, o samba da Mangueira é um dos mais bonitos da história dos samba de enredo. A estrutura poética desse samba é inigualável. É um clássico que me emociona tanto quanto “Kizomba, a festa da raça” da Vila, em 1988. Assista no link: https://goo.gl/e4m6kZ

Saiba mais sobre o samba aqui: https://goo.gl/95PbS7

Mangueira, tira a poeira dos porões

Ô, abre alas pros teus heróis de barracões

Dos Brasis que se faz um país de Lecis, Jamelões

São verde e rosa as multidões

Brasil, meu nego

Deixa eu te contar

A história que a história não conta

O avesso do mesmo lugar

Na luta é que a gente se encontra

Brasil, meu dengo

A Mangueira chegou

Com versos que o livro apagou

Desde 1500

Tem mais invasão do que descobrimento

Tem sangue retinto pisado

Atrás do herói emoldurado

Mulheres, tamoios, mulatos

Eu quero um país que não está no retrato

Brasil, o teu nome é Dandara

E a tua cara é de Cariri

Não veio do céu

Nem das mãos de Isabel

A liberdade é um dragão no mar de Aracati

Salve os Caboclos de Julho

Quem foi de aço nos anos de chumbo

Brasil, chegou a vez

De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, Malês

 

MOCIDADE INDEPENDENTE DE PADRE MIGUEL

Bonito samba e que interpretação do Wander Pires! Fiquei com aquela sensação de que a performance do cantor é metade da beleza desse samba-enredo. E a belíssima abertura de Elza Soares já nos coloca numa situação de atenção reverencial ao que virá. A bateria me autoriza a dizer, numa palavra: sonzera. Tá na minha playlist. Aliás, a Mocidade vem com sambas-enredo muito bons nos últimos anos. Assista no link: https://goo.gl/mByZiY

“Padre Miguel, o teu guri já não caminha tão depressa

Mas nunca é tarde pra sonhar

Vamos lá

A hora é essa!”

Senhor da razão, a luz que me guia
Nos trilhos da vida escolhi amar
Estrela maior, paixão que inebria
Eu conto o tempo pra te ver passar

Olha lá, menino tempo
Tenho tanto pra contar
Era eu, guri pequeno
Pés descalços, meu lugar
Quando um toco de verso (ôôô)
Semeou a poesia (ê láiá)

Eu colhi a flor da idade
Vi na minha Mocidade
O raiar de um novo dia

Baila no vento, deixa o tempo marcar
Nas viradas dessa vida
Vou seguir meu caminhar
Ah! Quem me dera o ponteiro voltar
E reencontrar o mestre na avenida

Desmedido coração
No contratempo dessa ilusão
Ora machuca, ora cura dor
Do meu destino, compositor
Tempo que faz a vida virar saudade
Guarda minha identidade
Independente relicário da memória
Padre Miguel, o teu guri já não caminha tão depressa
Mas nunca é tarde pra sonhar
Vamos lá, a hora é essa!

 

UNIDOS DA TIJUCA

Tenho uma relação afetiva com a comunidade do Borel – morei mais de três na Conde de Bonfim próximo ao morro. A Tijuca traz uma belíssima melodia. E como é uma escola de samba exxxperta, alinha com os católicos nesta guerra santa que virou o Carnaval do Rio de Janeiro sob o comando da Prefeitura nas mãos de um “bispo” evangélico neopentecostal que persegue a cultura afro. Tem um refrão que me lembra muito o lindo samba da Beija-flor em 2018 mas no refrão seguinte a Tijuca lacra: “Só existe um caminho… (por favor!) | Cada um faz seu destino (meu senhor!) | As migalhas do poder que o diabo amassou | Estão dentro de você”. Eu gostei muito. Assista ao vídeo do Pavão no link: https://goo.gl/KMLdg4

Hoje a Tijuca pede em oração
Veste a fantasia pra fazer o bem
Multiplica o sagrado pão
Amém (amém)

Meu filho
Como é lindo o amanhecer
Reflete o sol, a criação
Um bom dia a renascer
Pelos olhos do Pavão
Sou a fé na vida
Esperança da massa
Aquele que na dor te abraça
Sou eu, a verdade pra quem pede luz
Carregando a sua cruz
O alimento em comunhão
Princípio da salvação

Ouço chamar Meu nome
Ouço um clamor de prece
Choro ao te ver com fome
Sou o cordeiro que a alma fortalece

Só existe um caminho (por favor)
Cada um faz seu destino (meu senhor)
As migalhas do poder que o diabo amassou
Estão dentro de você
As mãos unidas vem pedindo o perdão
Gente sofrida com a paz no coração

Dividem o pouco que tem pra comer

Ó meu pai o seu amor é a receita
Iluminai, que não me falte o pão na mesa
Derrame igualdade, prosperidade
As bênçãos do céu
Se Deus é por nós, escute a voz
Que vem do meu Borel

 

IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE

A Imperatriz apela para o refrão de uma marchinha de Carnaval clássica e traz um samba divertido e crítico – bem ao estilo, de novo, das marchinhas que são crônicas sociais. Aliás, acho que é o samba mais cinicamente divertido desse Carnaval. Sacaneia a política, o capitalismo e o jogo de interesses mas também se auto-sacaneia desde a primeira estrofe – e, consigo, todo o mundo do carnaval carioca. Apesar de dizer que tem “pixulé” também zoa o “pato mergulhado no dinheiro”. Não tenho como não aplaudir passagens como essa, por exemplo: “Troca-troca ê na beira da praia | Um espelho por cocar, o negócio é um pecado | Ouro no mercado negro, negro é ouro no mercado | Tempos modernos, onde vidas valem menos | Boas ações não representam dividendos” || Salve, Imperatriz! Assista no link: https://goo.gl/hJQdgH

Me dá, me dá, me dá, me dá um dinheiro aí
Gostei da comissão, me dá meu faz-me rir
Pra investir no sonho e vestir a fantasia
Quero renda na baiana, nota10 na bateria

A tentação seduziu a poesia
Da volta todo dia é a oferta e a demanda
Pecado capital da humanidade
Senhor da desigualdade
Sempre diz quem é que manda
O arqueiro ergueu, aquela gente oprimida e sem paz
Perdeu meu bem, pobre fortuna, nobres ideais
Midas com o seu dedo de ouro
Condenou a própria filha a viver numa prisão
Prata, pixulé, papel moeda e o homem escorrega
Mete o pé na ambição

Troca-troca ê na beira da praia
Troca-troca ê na beira da praia
Um espelho por cocar, o negócio é um pecado
Ouro no mercado negro, negro é ouro no mercado

Tempos modernos, onde vidas valem menos
Boas ações não representam dividendos
A roda gira pro mais forte, poucos tem a sorte
De virar o jogo que o destino fez
Tem pato mergulhado no dinheiro
E o povo brasileiro nada por migalhas outra vez
Se é pra poupar
O porquinho pode até ser virtual
Hashtag no infinito, com cascalho
Eu to bonito no espaço sideral
Imperatriz, sentimento não tem preço, tem valor
Eu não vendo e não empresto
O meu eterno amor

 

UNIDOS DE VILA ISABEL

Poxa, Vila… que samba ruim. A Vila Isabel, escola de Noel, em 1988 apresentou aquele que é, na minha irrelevante opinião, o maior samba-enredo de todos os tempos: “Kizomba – A Festa da Raça”, do grande e saudoso Luiz Carlos da Vila. Neste ano, o samba merece o troféu “Pai João 2019”, ou “Pai Tomás” – o que vocês preferirem. Confundiram tradição com rendição. “Viva a princesa” e “meu sangue azul” é o cacete, Vila. E você que chegou até aqui achando que só iria ler elogios e comentários laudatórios, né? Então segura que vem mais crítica. Assista aqui: https://goo.gl/8ZJsfL

Viva a princesa!
E o tambor que se não cala
É o canto do povo mais fiel
Ecoa meu samba no alto da serra
Na passarela com os herdeiros de Isabel

Vila
Te empresto meu nome
Fonte de tanta nobreza
Por Deus e todos os santos
Honre a tua grandeza
E subindo pertinho do céu
A névoa formava um véu
Lembrei de meu pai, minha fortaleza
Esculpida em pedras
Pedros e coroados
Com os seus guardiões
Protetores de raro esplendor
Luar do imperador

Meu olhar lacrimejou
Em águas tão cristalinas
Uma cidade divina
Bordada em nobre metal
A joia imperial

Petrópolis nasce com ar de Versalhes
Adorna a imensidão
A luz assentou o dormente
Fez incandescente a imigração
No Baile de Cristal o tom foi redentor
Em noite imortal
Floresceu um novo dia
Liberdade enfim raiou
Não vi a sorte voar ao sabor do cassino
“Segundo o dom” que teceu o destino
Meu sangue azul no branco desse pavilhão
O morro desce em prova de amor
Encontro da gratidão

 

UNIÃO DA ILHA DO GOVERNADOR

O Ceará tá com tudo este ano com Tuiuti e União da Ilha cantando o estado. Mas, “vixi Maria”, União da Ilha, que samba mais engessado no enredo, né? Parece que seguiu o briefing da diretoria. E só. Pena. Assista aqui: https://goo.gl/cpJUog

Vixi Maria! A ilha a cantar
Traçando em meus versos a minha alegria
Menina rendeira me ensina a bordar
No céu emoção, no chão simpatia

O Sol
Onde aquece a inspiração é luz
Meu sonho
É vida, vento, brisa à beira mar
Ouvindo poesias de Raquel
Suspiro nas histórias de Alencar
E hoje desfolhando meu cordel
Das lendas que ouvi no Ceará
É doce, é fogo, sabor e prazer
Aroma no ar, plantar e colher
Eu moldei no barro
As recordações que vivi com você

Violeiro toca moda à luz do luar
Sanfoneiro puxa o fole e
Convida a dançar
Vou pedir a Padim Ciço
Abençoe nosso povo
Essa fé a nos guiar

Chão rachado, meu sertão
Peço a Deus pra alumiar
Terra seca que não seca a esperança
Arretada vocação de te amar
O sal da terra segue o meu destino
Sangue nordestino sempre a me orgulhar
A natureza cantada em meus versos
Traduz a beleza desse meu lugar
Linda morena vestiu-se de amor
Teceu a vida com fios dourados
Eu de chapéu de couro e gibão
Enfeitei o meu coração
E a moda desfilou ao seu lado

 

SÃO CLEMENTE

São Clemente, sua louca! Adorei a crítica mas, fala sério, você mesmo é uma das responsáveis por este estado de coisas, não é mesmo, nega? Pra algum desavisado, parece que a São Clemente é um baluarte da tradição do melhor samba do Rio. Será mesmo? Eu gostei do samba, mas pra mim soa muito estranho saber que é a São Clemente que está criticando um estado de coisas no mundo do samba e do carnaval com o qual (quase) sempre compactuou. Assista aqui: https://goo.gl/JQCgmZ

“Que saudade da Praça Onze e dos grandes carnavais

Antigo reduto de bambas

Onde todos curtiam

O verdadeiro samba”

Vejam só
O jeito que o samba ficou (e sambou)
Nosso povão ficou fora da jogada
Nem lugar na arquibancada
Ele tem mais pra ficar
Abram espaço nesta pista
E por favor não insistam
Em saber quem vem aí
O mestre-sala foi parar em outra escola
Carregado por cartolas
Do poder de quem dá mais
E o puxador vendeu seu passe novamente
Quem diria, minha gente
Vejam o que o dinheiro faz

É fantástico
Virou Hollywood isso aqui (isso aqui)
Luzes, câmeras e som
Mil artistas na Sapucaí

Mas o show tem que continuar
E muita gente ainda pode faturar
“Rambo-sitores”, mente artificial
Hoje o samba é dirigido com sabor comercial
Carnavalescos e destaques vaidosos
Dirigentes poderosos criam tanta confusão

E o samba vai perdendo a tradição (bis)

Que saudade
Da Praça Onze e dos grandes carnavais

Antigo reduto de bambas (bis)
Onde todos curtiram o verdadeiro samba

 

ACADÊMICOS DO GRANDE RIO

O segundo melhor samba do ano, depois do da Mangueira. Aplaudo de pé este samba sensacional da Grande Rio, nos seus 30 anos! Parabéns aos compositores e à bateria Invocada! Carrega uma melodia tocante e é um samba que atinge a pleura, uma pancada, um sacode na alma: “Atire a primeira pedra aquele que não erra | Quem nunca se arrependeu do que fez? | Na vida, todo mundo escorrega | Melhor se machucar só uma vez”. Obrigado, Grande Rio por um dos samba mais contemporâneos dos últimos tempos. E é sempre bom lembrar: “Quem nunca sorriu da desgraça alheia? | Quem nunca chorou de barriga cheia?”. Uma beleza de samba-enredo! E eu registrei: “ E a cisma de atender o celular | Pra curtir, compartilhar | Zombar do perigo largar o amigo | Perder o pudor”. E como não compreender e simpatizar com os versos: “Quem aí tá podendo julgar? | Não consegue ouvir outra voz | Cada um foi pensando em si | Olha o que fizemos de nós | Então, pegue seu filho nas mãos | Educar é um desafio | Se errei, peço perdão | Renasce a Grande Rio”. Tá perdoada, Grande Rio! Vai e arrasa! Assista no link: https://goo.gl/v2vUTn

Tá errado, não importa quem errou
O pecado e o pecador sempre estão do mesmo lado
Tá errado, sem lição, nem professor
O espinho fere a flor, o amor é maculado
No jeitinho que impera nessas bandas
É mais fácil o mau caminho pra jogar no tabuleiro
Na verdade do espelho, quando a razão desanda
Vai seguindo em desalinho, mesmo com sinal vermelho

Atire a primeira pedra aquele que não erra
Quem nunca se arrependeu do que fez?
Na vida, todo mundo escorrega
Melhor se machucar só uma vez

Atire a primeira pedra aquele que não erra
Quem nunca se arrependeu do que fez?
Na vida, todo mundo escorrega
Melhor se machucar só uma vez

(Cardume de garrafas pelo mar)
Cardume de garrafas pelo mar
Nem tarrafa nem puçá alimentam o pescador
E a cisma de atender o celular
Pra curtir, compartilhar
Zombar do perigo largar o amigo
Perder o pudor
Quem aí tá podendo julgar?
Não consegue ouvir outra voz
Cada um foi pensando em si
Olha o que fizemos de nós
Então, pegue seu filho nas mãos
Educar é um desafio
Se errei, peço perdão
Renasce a Grande Rio

Quem nunca sorriu da desgraça alheia?
Quem nunca chorou de barriga cheia?
Eu sou Caxias de tantos carnavais
Falam de mim, eu falo de paz

Tá errado, não importa quem errou
O pecado e o pecador sempre estão do mesmo lado
Tá errado, sem lição, nem professor
O espinho fere a flor, o amor é maculado
No jeitinho que impera nessas bandas
É mais fácil o mau caminho pra jogar no tabuleiro
Na verdade do espelho, quando a razão desanda
Vai seguindo em desalinho, mesmo com sinal vermelho

Atire a primeira pedra aquele que não erra
Quem nunca se arrependeu do que fez?
Na vida, todo mundo escorrega
Melhor se machucar só uma vez

Cardume de garrafas pelo mar
Nem tarrafa nem puçá alimentam o pescador
E a cisma de atender o celular
Pra curtir, compartilhar
Zombar do perigo largar o amigo
Perder o pudor
Quem aí tá podendo julgar?
Não consegue ouvir outra voz
Cada um foi pensando em si
Olha o que fizemos de nós
Então, pegue seu filho nas mãos
Educar é um desafio
Se errei, peço perdão
Renasce a Grande Rio
Quem nunca sorriu da desgraça alheia?
Quem nunca chorou de barriga cheia?
Eu sou Caxias de tantos carnavais
Falam de mim, eu falo de paz
Falam de mim, eu falo de paz
Falam de mim, eu falo de paz

 

IMPÉRIO SERRANO

Como amante do samba, e portelense. tenho um imenso carinho pelo Império Serrano. Por isso, vou também respeitar a opção da escola em levar para a avenida o samba clássico “O que é o que é”, do grande Gonzaguinha, lançado em 1982. O samba foi anunciado em abril de 2018 e certamente já larga como o mais conhecido de todo o Grupo Especial. Eu gosto muito Gonzaguinha e este samba, é claro, marca a vida de muita gente Brasil a fora. Vai fundo, Império. Principalmente pelo que significa hoje e sempre cantar: “Eu só sei que confio na moça | E na moça eu ponho a força da fé | Somos nós que fazemos a vida | Como der, ou puder, ou quiser”. Sucesso!

Assista aqui: https://goo.gl/AUM6xN

Viver e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz

Ah meu Deus!
Eu sei, eu sei
Que a vida devia ser
Bem melhor e será
Mas isso não impede
Que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita

E a vida
E a vida o que é?
Diga lá, meu irmão
Ela é a batida de um coração
Ela é uma doce ilusão
Êh! Ôh!

E a vida
Ela é maravilha ou é sofrimento?
Ela é alegria ou lamento?
O que é? O que é? Meu irmão

Há quem fale que a vida da gente
É um nada no mundo
É uma gota, é um tempo
Que nem dá um segundo

Há quem fale que é um divino mistério profundo
É o sopro do criador
Numa atitude repleta de amor

Você diz que é luta e prazer
Ele diz que a vida é viver
Ela diz que melhor é morrer
Pois amada não é
E o verbo é sofrer

Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida
Como der, ou puder, ou quiser

Sempre desejada
Por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte
Só saúde e sorte

E a pergunta roda
E a cabeça agita
Eu fico com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita
E é bonita

 

UNIDOS DO VIRADOURO

Foi o primeiro samba-enredo que eu ouvi do Grupo Especial de 2019. E recebi como uma mensagem pessoal. “Quem me viu chorar, vai me ver sorrir | Pode acreditar, o amor está aqui”. Bonito samba, Viradouro! Justo com o enredo, mas não engessado nele. Vira Viradouro!

Assista no link: https://goo.gl/z12UqR

Quem me viu chorar, vai me ver sorrir
Pode acreditar, o amor está aqui
Viraviradouro iluminou
O brilho no olhar voltou

Se tem magia, encanto no ar
Eu vou viajar ouvindo histórias
De um livro secreto, mistérios sem fim
Vovó desperta a infância em mim
Em cada verso sou mais um menino
Que muda a sorte e sela o destino
Lançado o feitiço pra vida virar
Pro bem ou pro mal é carnaval
E na fantasia a minha alegria é um sonho real

No reino da ilusão o amor seduz o vilão
Num conto de fadas, a felicidade
Invade o meu coração pra cantar
Deixando a tristeza do lado de lá

E quem ousou desafiar a ira divina
Vagou no mar
Cego pela sede da ambição
Carregando a sina dessa maldição
Seres da sombria madrugada
O medo caminhou na escuridão
Mas a coragem que me faz lutar
É a esperança, razão de sonhar
Imaginar e renascer no sol de cada amanhecer
Das cinzas voltar
Nas cinzas vencer

Quem me viu chorar, vai me ver sorrir
Pode acreditar, o amor está aqui
Viraviradouro iluminou
O brilho no olhar voltou

Para conhecer os autores dos sambas acesse: http://liesa.globo.com/2019/por/03-carnaval/sambasenredo/sambasenredo.html