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O DIA EM QUE CONHECI OLAVO DE CARVALHO ou “OLAVO, DEFINA UM TRIÂNGULO”

Não lembro ao certo o ano, nem vou me dar ao trabalho de pesquisar porque o fato se deu, com certeza, entre 1996 e 1999 – ou seja, numa era pré-Wikipedia e outros utilitários cibernéticos contemporâneos. Foi durante um painel com autores promovido pela então gigantesca e prestigiada Feira do Livro de Porto Alegre – hoje muito combalida. O evento aconteceu no Clube do Comércio – prédio histórico localizado na Praça da Alfândega. Por essa época, Olavo tinha lançado “O imbecil coletivo: atualidades inculturais brasileiras”; era colunista em alguns dos principais jornais do Brasil e Porto Alegre o aguardava, acreditem, como uma celebridade emergente.

Me interessava pelo estilo provocador de Olavo como articulista,a la Paulo Francis (aquele sujeito das trevas). Assim como o próprio Francis, Olavo fazia questão de usar como marketing pessoal o fato (fato?) de ter sido um militante comunista na juventude, ligado ao PCB. Eu, como a plêiade de jovens leitores que eram meus amigos à época, ou como a turba de jovens leitores que depois de ler Olavo acreditam terem visto “a luz” hoje em dia, não ligava muito para método científico, formação política clássica ou mesmo o pensamento crítico. Ou seja, ingênuo era uma presa fácil para o charlatão.

Tive a sorte de estar, naquela tarde, na agradável companhia do saudoso amigo José Otávio Ferlauto, o conhecido jornalista ‘das antiga’ Dedé Ferlauto – este sim, um intelectual. Dedé se animou com a ideia de assistir ao painel de Olavo, mas por motivos diferentes do meu interesse de espectador adestrado pela mídia local.

Após ouvirmos cerca de uma hora e meia de asneiras e platitudes do Olavo de Carvalho – e de assisti-lo ser grosseiro com os demais componentes da mesa, numa mistura de soberba, messianismo e histrionismo, Dedé ergueu o braço e o interpelou, da plateia: “Olavo, por favor, defina um triângulo”. Nem Olavo de Carvalho, nem a plateia entendeu direito. – Como é? Pode repetir. “Apenas eu gostaria de ouvir você definindo o que é um triângulo”, confirmou Dedé Ferlauto, diante de rostos atônitos e de um Olavo de Carvalho estupefato. Olavo gaguejou, depois resmungou, maneou com cabeça para a plateia numa tentativa de ridicularizar o interlocutor (conseguiu alguns risinhos cúmplices de seu fã clube) e, tentando encerrar, disse: – Desculpe, não entendi qual é o ponto. Alguém mais… “O ponto”, continuou Dedé, “é que você critica a imbecilidade mas não conseguiu definir rapidamente um mero triângulo”.

Diante do evidente desconforto no local, Dedé levanta e sai da sala com aquele sorriso sacana de quem tinha feito o renomado “filósofo” cair numa armadilha de koan. Esta lição eu nunca esqueci: diga o que disser, tudo que o vem de Olavo de Carvalho é elaborado, pensado, empacotado e vendido sob medida para convencer.

Olavo não é um filósofo, é apenas um propagandista da extrema-direita. Quem o enfrenta e o instiga a pensar “fora de caixa” só encontra nele ressentimento, reação sarcástica, violência verbal ou terminologia chula. De raciocínio lento e com baixa capacidade cognitiva, Olavo de Carvalho é um guru que não consegue “definir um triângulo” – um simples polígono de três lados – se o triângulo não estiver no seu script.


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