
O ator canadense Jim Carrey no documentário “Jim & Andy – The Great Beyond”
“O que as pessoas querem? O que eles querem?”, atormentava-se em determinado momento da carreira o ator canadense Jim Carrey. Até que numa madrugada acordou de um sono profundo e sentou na cama: “Eles querem não se preocupar!”.
Um Jim maduro, elaboradíssimo, articulado e sereno é quem encontramos no documentário “Jim & Andy: The Great Beyond” dirigido por Chris Smith. O filme segue o ator Jim Carrey enquanto se prepara para reviver Andy Kaufman no filme de 1999, Man on the Moon, dirigido por Milos Forman. O lançamento foi no dia 17 de novembro de 2017, na Netflix. Mais de um ano depois, assisti ao documentário e, mais do que conhecer Andy Kaufman, reencontrei Jim Carrey – a quem comecei a prestar atenção, em 1998, com o filme “The Truman Show”. Fiquei fã assumido de Jim Carrey em 2004 com um filme que já nasceu clássico: Eternal Sunshine of the Spotless Mind (Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças), dirigido por Michel Gondry e com roteiro escrito por Charlie Kaufman.
Essa introdução é para registrar que o documentário “Jim & Andy” merece ser visto. Se você é artista cênico precisa vê-lo: o processo criativo (quase de ‘incorporação espiritual’) de Jim Carrey é perturbador.
No entanto, o insight de Jim Carrey, com o qual abri este breve comentário, é sobre o que realmente eu vou escrever.
Ninguém quer se preocupar. E, no entanto, nos preocupamos. Vivemos na gangorra do egoísmo e do altruísmo. Às vezes, a gangorra emperra num dos lados e negligenciamos o outro aspecto da nossa persona social.
Uma saída rápida de sucesso, de aceitação social, como diz Jim, no documentário, “é fingir que se é aquele que não se preocupa e que não preocupa os outros”. Pura representação. Mas “o público” adora parar de se preocupar, precisa escapes, precisa dessa “fuga dissociativa” da realidade.
As redes sociais, em especial quando se trabalha nelas – para além do mero entretenimento –, revela de maneira crua essa tendência à fuga dissociativa da realidade. Um texto conjuntural (pessoal ou impessoal) tanto mais terá interação quanto mais “leve” for. Problematizações, análises que não se concluem nem dão respostas fáceis, o cultivo da dúvida e não das certezas, tudo isso “pré-ocupa”. E, portanto, tem um público restrito.
Jogos, divinações, brincadeiras, passatempos “desopilam” – que vem, exatamente, de ‘deixar fluir do fígado a bile negra que causaria a melancolia’. O que acontece se não conseguirmos mais conectar e lidar com nada denso?
Em seu ensaio “Tudo o que é sólido desmancha no ar”, Marshall Berman – além, é claro, da referência direta a Marx e Engels – anota: “Tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade sua posição social e suas relações recíprocas”.
Se eu faço, portanto, das redes sociais um megafone cibernético para as minhas aflições estou sendo leviano, sincero, egoísta ou corajoso? Se, das redes, eu busco apenas os “likes” – a droga do século –, a popularidade, a influência “leve” dos passatempos e curiosidades de almanaque, estou sendo sincero, egoísta, corajoso ou leviano?
Tudo o que é sólido se ressignifica nas redes.
E a sociedade do espetáculo, como no Show de Truman, nos exige tamanha (e acrítica) entrega que vão se formando as fissuras e as lacunas no que realmente somos. Mas o que realmente somos? Uma mente com lembranças? Um brilho eterno? Uma faísca, um reflexo num átimo de pó?