IN TENTO
Que nesse novo ano, eu continue percebendo todas as diferenças das paisagens tomadas da mesma janela – cujo tempo já vai chegando ao fim
Que nesse ano novo, eu seja louco o suficiente para atacar (e devorar) qualquer um que acue a fera
Finda a autocomiseração ressentida que me rebaixa à estatura dos vassalos
Que a energia do dia limpo, claro e quente que emerge abasteça para o combate justo dos que não dobram a espinha e não tem senhores, mestres nem feitores
Que o novo ciclo me empurre a dizer verdades, a arrancar máscaras e não temer censuras
Que se findem as mesuras pra corte e que as metralhadoras verbais estejam prontas para as rajadas – cairão os que merecem: por maduros ou podres. Não os puros – estes têm o dom da boa interpretação de coração leve e mente aberta
Que eu nunca esqueça que flores não vencem canhões – até o poeta sabia e fez disso uma crítica à indecisão dos cordões marchando ilusões
Que, no entanto, enquanto nos armarmos possamos também nos amarmos
E que eu possa ser lido não como perigo… sim como o terror dos hipócritas, como a bigorna que esfacela o martelo dos Torquemadas e como a espada que transpassa a garganta dos injuriosos
E, antes de nada dever a ninguém, acertar as contas comigo mesmo por ter vendido meu tempo de vida a fantoches
Assumir as causas, os casos e os causos. Viver de defender a verdade factual contra as narrativas dos oportunistas e carreiristas
Ser quem sou e pagar o preço
“Nada a temer senão o correr da luta, nada a fazer senão esquecer o medo”
O REI ESTÁ NU!
Acordei de um sonho estranho, como o Milton em San Vicente. Escrevo logo antes da alvorada porque os sonhos às vezes parecem reflexão especular – e as lembranças do meu último ainda não se esfumaram. O que eu disse no sonho, disseram pra mim. O que disseram pra mim, disse eu. Todos no meu sonho sou eu próprio conversando comigo mesmo entre reações químicas neurais numa área que se convencionou chamar de subconsciente. A medida em que passam os minutos já não sei direito se o que lembro era sonho ou um novo constructo psíquico. Afinal tudo é química e não há matéria, só energia se organizando em diferentes camadas e frequências. Mas interrompo por aqui antes de começar elucubrações sobre física quântica e espiritualidade.
Um amigo filósofo me fez, na noite de domingo, uma provocação impertinente – como só os bons amigos são capazes e autorizados: “Você vai agora fazer poética sentida ou política esclarecida?” Eu ri porque a elaboração foi boa mas trata-se de um falso dilema. Se alguma coisa trago ainda dos meus primeiros anos nos bancos universitários – onde os conteúdos eram extremamente generalistas – são boas noções de lógica. Me foi proposto, neste caso, uma falácia lógica, uma falsa dicotomia. Nicolau Maquiavel, por exemplo, anotou que mais vale ser temido que ser amado. Ernesto Guevara, por outro lado, disse que é preciso endurecer-se mas sem, jamais, perder a ternura. O florentino crava uma dicotomia; o argentino propõe uma quebra dela.
A política é, no mais das vezes, um terreno árido em que quem não afirma certezas não tem vez. Cultivar a dúvida pode fazer de ti um intelectual reflexivo, um cientista cético de tudo que não se adequa aos métodos de aferição, mas não faz de ti um “bom político” – este precisa estar investido do cinismo necessário para falar a língua do povo, dizer o que o povo quer ouvir, comunicar-se com as massas com paixão oratória e, sempre, afirmar certezas: de altruísmo desprendido, de que outro mundo é possível, de que os adversários são os vilões e de que o nosso grupo é mais preparado que outros para a transformação social. Mais do que vender esperança, a comunicação política bem-sucedida é a que identifica o que o povo quer ouvir, não o que o povo precisa saber.
Aprendi cedo a importância de Karl Marx na história do pensamento humano – causa de terror nos políticos profissionais que, mesmo sem se dar conta, são discípulos tardios da escola filosófica do cinismo de Antístenes. Em Marx, não basta identificar cientificamente as causas da estratificação social e das desigualdades se você não se organizar e lutar para transformar a realidade. E isso significa, ao fim e ao cabo, revoluções no pensamento, na economia, na cultura e no comportamento humano. Por isso ainda hoje, 170 anos depois de seu mais importante livro, Marx é combatido e demonizado pelos donos do poder e seus lacaios. E o combate às ideias emancipatórias do indivíduo e da sociedade passa pela pasteurização da educação – que nada mais é do que um sistema de programação mental das novas gerações para que se adequem à engrenagem. Como disse Paulo Freire, quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor. E isso ocorre em qualquer modelo societário – inclusive naqueles que se reivindicam “marxistas”, como bem mostraram as distopias de George Orwell, por exemplo.
Perdoem-me a longa digressão sobre filosofia política, logo de mim, um leigo. Hão, contudo, os fatos: a política esclarecida é mais perturbadora, incômoda e intragável do que o rebanho imagina. Ela é iconoclasta, derruba igualmente líderes supremos e mitos. E, no entanto, a política esclarecida diz a verdade com a pureza da criança do conto dinamarquês de Hans Christian Andersen. Um malandro chega ao reino e convence o monarca de que consegue tecer uma roupa que somente os inteligentes conseguem ver. O rei o faz seu novo alfaiate e lhe enche de riquezas como ouro e seda para tecer a nova roupa. O esperto fica com as riquezas e leva semanas tecendo o nada. Ao receber as vestes, o rei (para não passar por estúpido) suspira de admiração pelo trabalho; sua corte (para não contrariar sua majestade) aplaude a genialidade do costureiro; mas uma criança exclama: “O rei está nu!”. Ao que Caetano Veloso comentou, numa canção: “Mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que o rei é mais bonito nu”. Eis a beleza da poética sentida.
MINICONTO FAKEBOOKIANO
Poderia ser café e cigarros, se cigarros houvesse. As coisas findam em torno mas o que nele se consome é volátil: o rosto no espelho se transforma como chama que treme e estala com os gravetos finais. O forte está sob ataque há meses e resiste por inércia – cada ação para evitar a queda acaba acelerando-a. A situação não é lhe estranha, ao contrário – é circular, cíclica, em eterno retorno. Lê com amarga ironia cards com frases de autoajuda que, no feed, servem como lava-mãos. Afinal, sabe há décadas que “os próximos” mantêm distância profilática quando a conta das batalhas chega. O comportamento antes tratado com lisonjas de “coragem”, “destemor” e “entrega” agora já não serve porque a história não é só escrita pelos vencedores mas também pelos burocratas que os cercam. A roda da fortuna gira enquanto o forte arde, estala e desmorona – talvez a ventura seja a próxima estaca. E os vencedores serão outros e os burocratas terão outros senhores. E os escribas cuja narrativa, ontem, era a oficial, hoje se adequam ou viram párias. Na cela dos últimos dias, réstias de luz entram pelos vãos da persiana e, do fosso da escada, chega a hora vespertina em que o sol reflete no concreto e ilumina a pequena biblioteca já não mais tão usada porque, hoje, a preferência é pelas legendas amarelas das séries franqueadas pelo Império. É assim que se acabam os dias? Com os cigarros que disfarçam suspiros, com a cafeína, com o simulacro de vida útil que é possível se ter nas redes. Como a heroína atormentada de Sharp Objects escreve na própria carne, ele corta laços. E sangra pelas madrugadas até os vínculos, todos, estarem derramados, esvaídos, desamarrados. Continuar em frente é deixar pra trás. A única carga é a dos livros e discos, nada mais.
E então, que quereis?

Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.
Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.
Uma edição muito particular da poesia de Renato Russo no álbum “Dois”, de 1986

Numa tarde de sábado, entre 1986 e 1987, eu passeava na Redenção, em Porto Alegre, quando encontrei Renato Russo que estava na cidade para uma apresentação no ginásio Gigantinho. Ele me deu autógrafo em que grafou vários ícones e só uma palavra: Força! Assinou “Russo”. Para muitos da minha geração e das gerações seguintes que teimam em não ouvir e não ler o que Russo escreveu na vida (e sobre a vida), eu fiz essa transcrição das letras do álbum “Dois”, de 1986 – que é um marco na minha trajetória e um dos maiores discos da história da música brasileira. Renato Russo tinha, à época, 26 anos. Me dei conta que ouvindo o álbum do fim para o início há ali uma prosa poética ao estilo (perdoem-me os puristas) de Walt Whitman. Percebam como eu considero o Walt Whitman. [Contém ironia]. Só não transcrevi três faixas do álbum – uma delas, o maior sucesso radiofônico; e outra que foi faixa bônus. Uma quarta também ficou de fora por ser apenas instrumental. Fica o desafio para os admiradores (ou mesmo detratores) do Legião identificar quais as que deixei de fora e o motivo – com a dica fica fácil, né? E relembrem o porquê da lírica do profético Russo ser considerada a maior entre os roqueiros da geração dele. P.S.: Outro motivo que me levou a este exercício de edição foi constatar o quanto o filme “Bohemian Rhapsody” tem servido para criar uma nova geração de fãs do Queen e de Freddie Mercury – que foi outro grande. Mas, crianças, vejam só o que temos em casa e muita gente não ouve por puro preconceito estético.
“Quem me dera, ao menos uma vez, ter volta todo o ouro que entreguei a quem me convenceu que era prova de amizade se alguém levasse embora até o que eu não tinha. Quem me dera ao menos uma vez explicar o que ninguém consegue entender, que o que aconteceu ainda está por vir e o futuro não é mais como era antigamente. Quem me dera ao menos uma vez provar que quem tem mais do que precisa ter quase sempre se convence que não tem o o bastante e fala demais por não ter nada a dizer. Quem me dera ao menos uma vez que o mais simples fosse visto como o mais importante. Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
Nosso dia vai chegar. Teremos nossa vez. Não é pedir demais. Quero justiça. Deve haver algum lugar onde o mais forte não consegue escravizar quem não tem chance. De onde vem a indiferença, temperada a ferro e fogo? Quem guarda os portões da fábrica? O céu já foi azul mas agora é cinza. E o que era verde aqui já não existe mais. Quem me dera acreditar que não acontece nada! De tanto brincar com fogo, que venha o fogo então!
Às vezes parecia que, de tanto acreditar em tudo que achávamos tão certo, teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais. Faríamos floresta do deserto e diamantes de pedaços de vidro. Mas percebo agora que o teu sorriso vem diferente, quase parecendo te ferir. Às vezes parecia que era só improvisar e o mundo então seria um livro aberto. Até chegar o dia em que tentamos ter demais vendendo fácil o que não tinha preço. Eu sei… é tudo sem sentido. Quero ter alguém com quem conversar. Alguém que, depois, não use o que eu disse contra mim. Nada mais vai me ferir, é que eu já me acostumei com a estrada errada que eu segui, com a minha própria lei. Tenho o que ficou. E tenho sorte até demais; como sei que tens também.
Em cima dos telhados, as antenas de TV tocam música urbana. Nas ruas, os mendigos com esparadrapos podres cantam música urbana. Motocicletas querendo atenção às 3 da manhã é só música urbana. Os PMs armados e as tropas de choque vomitam música urbana. E nas escolas as crianças aprendem a repetir a música urbana. Nos bares, os viciados sempre tentam conseguir a música urbana. O vento forte, seco e sujo em cantos de concreto parece música urbana. E a matilha de crianças sujas no meio da rua, música urbana. E nos pontos de ônibus, estão todos ali: música urbana. Os uniformes, os cartazes, cinemas e os lares, favelas, coberturas, quase todos os lugares… e mais uma criança nasceu! Não há mentiras nem verdades aqui, só há música urbana.
Sente o desafio! E provoque o desempate! Desarme a armadilha e desmonte o disfarce. Se afaste do abismo. Faça do bom senso a nova ordem. Não deixe a guera começar. Pense só um pouco: não há nada de novo. Você vive insatisfeito e não confia em ninguém. E não acredita em nada, e agora é só cansaço e falta de vontade. Mas faça do bom-senso a nova ordem.
Todos os dias quando acordo não tenho mais o tempo que passou. Mas tenho muito tempo. Temos todo o tempo do mundo. Todos os dias antes de dormir, lembro-esqueço como foi o dia. Sempre em frente. Não temos tempo a perder. Nosso suor sagrado é bem mais belo que esse sangue amargo. E tão sério e selvagem. Selvagem! Veja o sol dessa manhã tão cinza – a tempestade que chega é da cor dos teus olhos: castanhos. Então me abraça forte e diz mais uma vez que já estamos distantes de tudo. Temos nosso próprio tempo. Não tenho medo do escuro mas deixe as luzes acesas – agora! O que foi escondido é o que se escondeu e o que foi prometido ninguém prometeu. Nem foi tempo perdido: somos tão jovens, tão jovens, tão jovens!
É saudade então e mais uma vez. De você fiz o desenho mais perfeito que se fez. Os traços copiei do que não aconteceu. As cores que escolhi, entre as tintas que inventei, misturei com a promessa que nós dois nunca fizemos de um dia sermos três. Trabalhei você em luz e sombra. E era sempre: “Não foi por mal. Eu juro que nunca quis deixar você tão triste”. Sempre as mesmas desculpas e desculpas nem sempre são sinceras – quase nunca são. Preparei a minha tela com pedaços de lençóis que não chegamos a sujar. A armação fiz com madeira da janela do seu quarto; do portão da sua casa, fiz paleta e cavalete. E com lágrimas que não brincaram com você, destilei óleo de linhaça. Da sua cama arranquei pedaços que talhei em estiletes de tamanhos diferentes. E fiz, então, pincéis com seus cabelos. Fiz carvão do batom que roubei de você e com ele marquei dois pontos de fuga, e rabisquei meu horizonte. Mas, então, por que eu finjo que acredito no que invento? Nada disso aconteceu assim, não foi desse jeito. Ninguém sofreu. É só você que me provoca essa saudade vazia, tentando pintar essas flores com o nome de amor-perfeito e não-te-esqueças-de-mim.
Tenho andado distraído, impaciente e indeciso. E ainda estou confuso, só que agora é diferente: estou tão tranquilo e tão contente. Quantas chances desperdicei quando o que eu mais queria era provar pra todo mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém. Me fiz em mil pedaços pra você juntar e queria sempre achar explicação pra o que eu sentia. Como um anjo caído fiz questão de esquecer que mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira. Mas não sou mais tão criança a ponto de saber tudo. Já não me preocupo se eu não sei por que às vezes o eu vejo quase ninguém vê. E eu sei que você sabe, quase sem querer, que eu vejo (que eu quero) o mesmo que você. Tão correto e tão bonito, o infinito é realmente um dos deuses mais lindos. Sei que às vezes uso palavras repetidas mas quais são as palavras que nunca são ditas? Me disseram que você estava chorando e foi então que percebei como lhe quero tanto.
Aquele gosto amargo do teu corpo ficou na minha boca por mais tempo. De amargo, então salgado ficou doce – assim que o teu cheiro forte e lento fez casa nos meus braços. E ainda leve, forte, cego e tenso fez saber que ainda era muito e muito pouco. Faço nosso o meu segredo mais sincero e desafio o instinto dissonante. A insegurança não me ataca quando erro e o teu momento passa a ser o meu instante. E o teu medo de ter medo de ter medo não faz da minha força confusão. Teu corpo é meu espelho e em ti navego. E eu sei que a tua correnteza não tem direção. Mas, tão certo quanto o erro de ser barco a motor e insistir em usar os remos, é o mal que a água faz quando se afoga – e o salva-vidas não está lá porque não vemos.”
Renato Russo
Legião Urbana
“DOIS” – 1986
“1983” | TRAMA DE SÉRIE POLONESA FICCIONA CRIMES DA DITADURA ARGENTINA

Foto: Krzysztof Wiktor
Série distópica da Netflix, produzida na Polônia, tem como plot os sequestros de filhos de militantes de Esquerda durante a ditadura na Argentina. | Primeiro vamos lembrar da história. No início da década de 1980, o mundo tinha o primeiro Papa polonês, Karol Wojtyła (João Paulo II) que foi decisivo, junto com Lech Wałęsa, líder do Sindicato Solidariedade – e com a CIA e a OTAN – para o enfraquecimento da influência soviética e, ao fim da década, para a queda da Cortina de Ferro.
A série original da Netflix ‘1983’ propõe uma “distopia” em que ao invés da “mudança de regime”, o Partido Comunista acaba aumentando a vigilância e o controle sobre a população.
A história se passa em 2003, com muitas voltas no tempo a 1983, e mostra a atividade de um grupo revolucionário formado por filhos de opositores que foram executados. As crianças foram “adotadas” por famílias ligadas ao partido após o extermínio da oposição. O grupo revolucionário se autodenomina Brigada Ligeira e seu modus operandi é recrutar os jovens que tiveram seus pais biológicos mortos para que eles, infiltrados no establishment, promovam atos terroristas, desestabilizem o governo e cometam assassinatos de lideranças do regime, a começar pelos seus pais adotivos.
Vejam como a Indústria Cultural (nos termos conceituais da Escola de Frankfurt) é amoral e pode ser cruel. Quem conhece a história da América Latina sabe bem que o genocídio de 30 mil opositores da ditadura argentina (1976-1983) se deu por um regime fascista que perseguiu diretamente militantes socialistas e comunistas. Ainda que se entenda que (quase) tudo é legítimo em ficção; que, filtrados todos os componentes relativos às diferenças ideológicas entre a história argentina e essa distopia televisiva polonesa, é importante contar sobre os crimes de regimes totalitários; e que, num dos episódios, o personagem que é comandante da polícia política faça textualmente a relação da trama com o que houve na Argentina… ainda que, ainda que, ainda que… me incomoda demais essa mistura, essa confusão, essa pasteurização de fatos históricos em dramaturgia televisiva.
Os regimes da Cortina de Ferro eram, de fato, totalitários. No entanto, me perturba a transfusão de um episódio monstruoso como o que houve com as famílias de militantes de Esquerda da Argentina para um negativo sociopolítico ficcional polonês, onde tudo se dá ao contrário. Na ficção polonesa, os vilões são os “comunistas”, os filhos sequestrados são de famílias anticomunistas, católicas e democratas.
Há documentários importantes sobre os crimes da ditadura argentina. Para citar apenas dois recentes: “500” e “Hijos”. Me dói, como latino-americano, que tudo esteja tão invertido nesta ficção. Mais uma vez tento filtrar essa crítica imaginando que a correlação faça algum sentido para o povo polonês, que sofreu com os russos, com os nazistas, depois sob o tal “socialismo real” e com a ingerência de Moscou.
Feitas todas as ressalvas, há alguns aspectos interessantes que merecem registro. Primeiro, é claro, o fato de se ouvir polonês na TV – qual foi a última vez que você ouviu essa língua no cinema ou na TV, se é que já ouviu? O outro ponto a se destacar é que a série é bem escrita, com boas atuações e fotografia excelente. E, apesar de aparente contradição, a narrativa é batida e vem da clássica escola norte-americana: detetive de meia idade atormentado e fracassado começa a investigar um suposto suicídio e vai descobrindo que a “estória” é mais complexa.
E a história é ainda bem mais complexa que a série ‘1983’.