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MINICONTO FAKEBOOKIANO

Poderia ser café e cigarros, se cigarros houvesse. As coisas findam em torno mas o que nele se consome é volátil: o rosto no espelho se transforma como chama que treme e estala com os gravetos finais. O forte está sob ataque há meses e resiste por inércia – cada ação para evitar a queda acaba acelerando-a. A situação não é lhe estranha, ao contrário – é circular, cíclica, em eterno retorno. Lê com amarga ironia cards com frases de autoajuda que, no feed, servem como lava-mãos. Afinal, sabe há décadas que “os próximos” mantêm distância profilática quando a conta das batalhas chega. O comportamento antes tratado com lisonjas de “coragem”, “destemor” e “entrega” agora já não serve porque a história não é só escrita pelos vencedores mas também pelos burocratas que os cercam. A roda da fortuna gira enquanto o forte arde, estala e desmorona – talvez a ventura seja a próxima estaca. E os vencedores serão outros e os burocratas terão outros senhores. E os escribas cuja narrativa, ontem, era a oficial, hoje se adequam ou viram párias. Na cela dos últimos dias, réstias de luz entram pelos vãos da persiana e, do fosso da escada, chega a hora vespertina em que o sol reflete no concreto e ilumina a pequena biblioteca já não mais tão usada porque, hoje, a preferência é pelas legendas amarelas das séries franqueadas pelo Império. É assim que se acabam os dias? Com os cigarros que disfarçam suspiros, com a cafeína, com o simulacro de vida útil que é possível se ter nas redes. Como a heroína atormentada de Sharp Objects escreve na própria carne, ele corta laços. E sangra pelas madrugadas até os vínculos, todos, estarem derramados, esvaídos, desamarrados. Continuar em frente é deixar pra trás. A única carga é a dos livros e discos, nada mais.


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