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Uma edição muito particular da poesia de Renato Russo no álbum “Dois”, de 1986

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Numa tarde de sábado, entre 1986 e 1987, eu passeava na Redenção, em Porto Alegre, quando encontrei Renato Russo que estava na cidade para uma apresentação no ginásio Gigantinho. Ele me deu autógrafo em que grafou vários ícones e só uma palavra: Força! Assinou “Russo”. Para muitos da minha geração e das gerações seguintes que teimam em não ouvir e não ler o que Russo escreveu na vida (e sobre a vida), eu fiz essa transcrição das letras do álbum “Dois”, de 1986 – que é um marco na minha trajetória e um dos maiores discos da história da música brasileira. Renato Russo tinha, à época, 26 anos. Me dei conta que ouvindo o álbum do fim para o início há ali uma prosa poética ao estilo (perdoem-me os puristas) de Walt Whitman. Percebam como eu considero o Walt Whitman. [Contém ironia]. Só não transcrevi três faixas do álbum – uma delas, o maior sucesso radiofônico; e outra que foi faixa bônus. Uma quarta também ficou de fora por ser apenas instrumental. Fica o desafio para os admiradores (ou mesmo detratores) do Legião identificar quais as que deixei de fora e o motivo – com a dica fica fácil, né? E relembrem o porquê da lírica do profético Russo ser considerada a maior entre os roqueiros da geração dele. P.S.: Outro motivo que me levou a este exercício de edição foi constatar o quanto o filme “Bohemian Rhapsody” tem servido para criar uma nova geração de fãs do Queen e de Freddie Mercury – que foi outro grande. Mas, crianças, vejam só o que temos em casa e muita gente não ouve por puro preconceito estético.

“Quem me dera, ao menos uma vez, ter volta todo o ouro que entreguei a quem me convenceu que era prova de amizade se alguém levasse embora até o que eu não tinha. Quem me dera ao menos uma vez explicar o que ninguém consegue entender, que o que aconteceu ainda está por vir e o futuro não é mais como era antigamente. Quem me dera ao menos uma vez provar que quem tem mais do que precisa ter quase sempre se convence que não tem o o bastante e fala demais por não ter nada a dizer. Quem me dera ao menos uma vez que o mais simples fosse visto como o mais importante. Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.

Nosso dia vai chegar. Teremos nossa vez. Não é pedir demais. Quero justiça. Deve haver algum lugar onde o mais forte não consegue escravizar quem não tem chance. De onde vem a indiferença, temperada a ferro e fogo? Quem guarda os portões da fábrica? O céu já foi azul mas agora é cinza. E o que era verde aqui já não existe mais. Quem me dera acreditar que não acontece nada! De tanto brincar com fogo, que venha o fogo então!

Às vezes parecia que, de tanto acreditar em tudo que achávamos tão certo, teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais. Faríamos floresta do deserto e diamantes de pedaços de vidro. Mas percebo agora que o teu sorriso vem diferente, quase parecendo te ferir. Às vezes parecia que era só improvisar e o mundo então seria um livro aberto. Até chegar o dia em que tentamos ter demais vendendo fácil o que não tinha preço. Eu sei… é tudo sem sentido. Quero ter alguém com quem conversar. Alguém que, depois, não use o que eu disse contra mim. Nada mais vai me ferir, é que eu já me acostumei com a estrada errada que eu segui, com a minha própria lei. Tenho o que ficou. E tenho sorte até demais; como sei que tens também.

Em cima dos telhados, as antenas de TV tocam música urbana. Nas ruas, os mendigos com esparadrapos podres cantam música urbana. Motocicletas querendo atenção às 3 da manhã é só música urbana. Os PMs armados e as tropas de choque vomitam música urbana. E nas escolas as crianças aprendem a repetir a música urbana. Nos bares, os viciados sempre tentam conseguir a música urbana. O vento forte, seco e sujo em cantos de concreto parece música urbana. E a matilha de crianças sujas no meio da rua, música urbana. E nos pontos de ônibus, estão todos ali: música urbana. Os uniformes, os cartazes, cinemas e os lares, favelas, coberturas, quase todos os lugares… e mais uma criança nasceu! Não há mentiras nem verdades aqui, só há música urbana.

Sente o desafio! E provoque o desempate! Desarme a armadilha e desmonte o disfarce. Se afaste do abismo. Faça do bom senso a nova ordem. Não deixe a guera começar. Pense só um pouco: não há nada de novo. Você vive insatisfeito e não confia em ninguém. E não acredita em nada, e agora é só cansaço e falta de vontade. Mas faça do bom-senso a nova ordem.

Todos os dias quando acordo não tenho mais o tempo que passou. Mas tenho muito tempo. Temos todo o tempo do mundo. Todos os dias antes de dormir, lembro-esqueço como foi o dia. Sempre em frente. Não temos tempo a perder. Nosso suor sagrado é bem mais belo que esse sangue amargo. E tão sério e selvagem. Selvagem! Veja o sol dessa manhã tão cinza – a tempestade que chega é da cor dos teus olhos: castanhos. Então me abraça forte e diz mais uma vez que já estamos distantes de tudo. Temos nosso próprio tempo. Não tenho medo do escuro mas deixe as luzes acesas – agora! O que foi escondido é o que se escondeu e o que foi prometido ninguém prometeu. Nem foi tempo perdido: somos tão jovens, tão jovens, tão jovens!

É saudade então e mais uma vez. De você fiz o desenho mais perfeito que se fez. Os traços copiei do que não aconteceu. As cores que escolhi, entre as tintas que inventei, misturei com a promessa que nós dois nunca fizemos de um dia sermos três. Trabalhei você em luz e sombra. E era sempre: “Não foi por mal. Eu juro que nunca quis deixar você tão triste”. Sempre as mesmas desculpas e desculpas nem sempre são sinceras – quase nunca são. Preparei a minha tela com pedaços de lençóis que não chegamos a sujar. A armação fiz com madeira da janela do seu quarto; do portão da sua casa, fiz paleta e cavalete. E com lágrimas que não brincaram com você, destilei óleo de linhaça. Da sua cama arranquei pedaços que talhei em estiletes de tamanhos diferentes. E fiz, então, pincéis com seus cabelos. Fiz carvão do batom que roubei de você e com ele marquei dois pontos de fuga, e rabisquei meu horizonte. Mas, então, por que eu finjo que acredito no que invento? Nada disso aconteceu assim, não foi desse jeito. Ninguém sofreu. É só você que me provoca essa saudade vazia, tentando pintar essas flores com o nome de amor-perfeito e não-te-esqueças-de-mim.

Tenho andado distraído, impaciente e indeciso. E ainda estou confuso, só que agora é diferente: estou tão tranquilo e tão contente. Quantas chances desperdicei quando o que eu mais queria era provar pra todo mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém. Me fiz em mil pedaços pra você juntar e queria sempre achar explicação pra o que eu sentia. Como um anjo caído fiz questão de esquecer que mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira. Mas não sou mais tão criança a ponto de saber tudo. Já não me preocupo se eu não sei por que às vezes o eu vejo quase ninguém vê. E eu sei que você sabe, quase sem querer, que eu vejo (que eu quero) o mesmo que você. Tão correto e tão bonito, o infinito é realmente um dos deuses mais lindos. Sei que às vezes uso palavras repetidas mas quais são as palavras que nunca são ditas? Me disseram que você estava chorando e foi então que percebei como lhe quero tanto.

Aquele gosto amargo do teu corpo ficou na minha boca por mais tempo. De amargo, então salgado ficou doce – assim que o teu cheiro forte e lento fez casa nos meus braços. E ainda leve, forte, cego e tenso fez saber que ainda era muito e muito pouco. Faço nosso o meu segredo mais sincero e desafio o instinto dissonante. A insegurança não me ataca quando erro e o teu momento passa a ser o meu instante. E o teu medo de ter medo de ter medo não faz da minha força confusão. Teu corpo é meu espelho e em ti navego. E eu sei que a tua correnteza não tem direção. Mas, tão certo quanto o erro de ser barco a motor e insistir em usar os remos, é o mal que a água faz quando se afoga – e o salva-vidas não está lá porque não vemos.”

Renato Russo
Legião Urbana
“DOIS” – 1986


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