EU SOU MAIS O SAMBA
*por HENRI FIGUEIREDO

RIO DE JANEIRO – Como quase todo guri gaúcho da minha geração, eu cresci junto com o iníco da cena pop-rock brasileira. No RS, especialmente, com o punk-rock. Sempre gostei da MPB que dominava as rádios do RS no fim dos anos 70 e início dos 80 – acreditem, crianças. Claro, sempre houve jabá, mas um jabá que promovia Elis Regina, Chico Buarque, Gil, Caetano, MPB4, Alceu Valença, Zé Ramalho, Fagner, Belchior, Leila Pinheiro, Zizi Possi, Marina Silva e, claro, toda aquela cena pop rock da qual a minha banda favorita, até hoje, é a LEGIÃO URBANA.
Antes mesmo de chegar ao Rio, em 1993, com 20 anos recém-feitos, eu já estava com o ouvido apurado para a Bossa Nova – influência de amigos como Nando d´Ávila, Zé Caradípia, Evania Reichert, Marcel Gusmão e da minha turma que batizamos de a “Tribo das Quartas”. Era muito menino quando surgiu, em fins dos 70, a chamada Música Popular Gaúcha (MPG) que deveria, na minha irrelevante opinião chamar-se Música Urbana Gaúcha (MUG) com Bebeto Alves (que chegou da fronteira fazendo a fusão dos ritmos cisplatinos com o rock e o pop); Nelson Coelho de Castro (cujo violão, a lírica e o compasso ficava entre a bossa nova, o Clube da Esquina e a vanguarda paulista de Arrigo Barnabé, Ná Ozetti, Zé Miguel Wisnik, Tatit e outros); Gelson Oliveira, com seu timbre de negro, inigualável,seu violão excelente e sua também fusão mais para a MPB; e Totonho Villeroy (depois Antonio por ser um nome mais “internacional” quando assinou com gravadora no Rio). Villeroy é o maior hitmaker da Ana Carolina mas muito, muito mais que isso. Lembro dele desde garoto nas belas noites boêmias na maior casa de samba da Cidade Baixa, em Porto Alegre – um bairro roqueiro por natureza.
Cheguei, enfim, ao samba – e foi no Rio, justamente no Carnaval de 93 que meu coração explodiu de alegria e êxtase ao ver o Setor 1 inteiro cantar com o Salgueiro, que seria campeão naquele ano: ô sorte!, como diria o grande e saudoso baterista Wilson das Neves, o preferido de Chico Buarque e meia MPB.
Depois dos anos tristes e graves de pandemia e bolsonarismo, que mancharam de silêncio, luto e caos nossas vidas, vem chegando, enfim, o Carnaval Redentor de 2023. Eu, de volta ao Rio de Janeiro desde 30 de dezembro de 2020, tenho agora a possibilidade de exorcisar os fantasmas destes anos “em que só os ratos” conheceram fartura, como escreveu a roqueira baiana Pitty – outra grande mulher, magnífica cantautora de nossa época. E, se desde 2020, eu venho dando um aperto de saudade no meu tamborim, agora meu tamborim ecoa alto junto com os amigues de Santa Teresa, nos ensaios do Bloco Carmelitas (um dos mais tradicionais da cidade) e no qual eu ainda preciso melhorar muito, mas muito, para fazer jus aos bambas que por lá tocam – ainda que de maneira muito carinhosa (e arriscada
)eu tenha sido convidado para os ensaios.
No sábado, dia 21 de janeiro, participei do primeiro ensaio do Bloco Aconteceu, também de Santa Teresa. Dessa vez, eu cheguei no início e achei que me adaptei melhor à levada. Mas venho pisando nesse chão devagarinho, com humildade, respeito e muito ensaio em casa no meu tamborim de estudo – presente do querido Kléber Komká cujo Batuque Digital foi minha escola no instrumento.
Tenho seguido a opinão dos mestres de tamborim por onde arrisco levar meu instrumento: pratique, participe de ensaio de todos os blocos que puder, toque em casa todos os dias. E tenho usado meu tamborim de estudo feito de naylon perfurado, que quase não emite som e é patenteado pelo Batuque Digital do Kléber e do meu saudoso amigo DJ Goody.
Agora, ensaiando, treinando, batucando achei uma canção de 1971 de Candeia que expressa bem o meu momento. Pra quem nunca abandonou o rock, a MPB, a boa música, a época é de samba. E diz o mestre Candeia, uma das estrelas-guia da minha águia portelense, fundamental para a negritude brasileira, num partido alto que, SEM NEGAR AS ORIGENS, diz que “OS BLAKCS DE HOJE EM DIA SÃO OS SAMBISTAS DE AMANHÔ (com o áudio no primeiro comentário):
Eu não sou africano, eu não
Nem norte-americano!
Ao som da viola e pandeiro
sou mais o samba brasileiro!
Menino, tome juízo
escute o que vou lhe dizer
o Brasil é um grande samba
que espera por você
podes crer, podes crer!
À juventude de hoje
dou meu conselho de vez:
quem não sabe o be-a-bá
não pode cantar inglês
aprenda o português!
Este som que vem de fora
não me apavora nem rock nem rumba
pra acabar com o tal de soul
basta um pouco de macumba!
Eu não sou africano!
O samba é a nossa alegria
de muita harmonia ao som de pandeiro
quem presta à roda de samba
não fica imitando estrangeiro
somos brasileiros!
Calma, calma, minha gente
pra que tanto bambambam
pois os blacks de hoje em dia
são os sambistas de amanhã!
Eu não sou africano!
“NADA A TEMER SENÃO O CORRER DA LUTA”

Por Henri Figueiredo
RIO DE JANEIRO | Começo ouvindo “Caçador de Mim”, de 1981, canção de Sérgio Magrão e Luiz Carlos Sá, eternizada na voz do gênio Milton Nascimento, em pleno regime militar. Diz o refrão: “Nada a temer senão o correr da luta | Nada a fazer senão esquecer o medo | Abrir o peito a força, numa procura | Fugir às armadilhas da mata escura (…) Longe se vai sonhando demais | Mas onde se chega assim?”
Escrevo na manhã de terça-feira, 10 de janeiro de 2023, depois de dois dias intensos acompanhando pelas mídias comerciais, digitais e alternativas de Esquerda os acontecimentos e desdobramentos da tentativa frustrada de golpe de Estado perpetrada por seguidores extremistas de Jair Bolsonaro. Eram oriundos de todos os cantos do país e, em Brasília, vandalizaram os três principais marcos da República: o prédio do STF, o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional.
Entre a indignação pelo vandalismo terrorista da massa de manobra (que foi carreada literalmente como gado ao Distrito Federal), com a inédita e veemente condenação midiática de praticamente todos os veículos comerciais, que são a voz dessa entidade chamada “O Mercado”, veio também uma certa euforia pela ‘flopada’ histórica da tentativa de instauração de um novo Estado de Exceção no Brasil – a mais grave tentativa desde a promulgação da Constituição de 1988. De outra parte, li e leio intelectuais a quem respeito profundamente demonstrando um pessimismo que eu diria mais serve para paralisar do que para mobilizar os democratas. Explico: os temerosos consideram que, ao contrário de arrefecer o movimento golpista, as imagens de “demonstração de força bolsonarista” servirão para acirrar mais ainda os ânimos, dividir e incendiar a Nação.
Data venia, discordo com veemência. Nada a temer senão o correr da luta. Por isso, foi importante o povo democrata, em todas as regiões do Brasil, em dezenas de importantes cidades além das capitais dos Estados da federação, sair às ruas para gritar “Sem anistia!”. O Brasil tem, enfim, a grande oportunidade de acertar as contas com sua própria história. E nunca houve um evento que tivesse o poder de unificar os divergentes, mas democratas, como o que o ocorreu no fatídico domingo 8 de janeiro, dois anos e 2 dias depois da invasão do Capitólio por extremistas trumpistas nos EUA e cuja referência, correlação e articulação internacional é mais que evidente.
Nada a fazer senão esquecer o medo. A hora, companheiros e companheiras, amigues (lidem com a novilíngua de gênero neutro) é enfrentamento duro, diário, constante contra os golpistas. Li de uma amiga de Porto Alegre, Ana Vilk, a seguinte informação, plena de ironia, nas redes: “Moro num condomínio gigante. Fui dormir havia várias janelas com bandeiras do Brasil. Fui contar agora, há três. Devem estar viajando”. O principal âncora do Jornal Nacional chamou os radicais bolsonaristas de “vergonha de suas famílias”. A sociedade cobra exemplar punição, apesar da leniência das polícias bolsonarizadas que permitem presos acusados de terrorismo e golpe de Estado portarem seus celulares como se estivem apenas num refúgio público após uma tragédia natural. As autoridades policiais da União, comandadas pelo ministro da Justiça Flávio Dino, ex-juiz federal, ex-governador do Maranhão (além de ser senador eleito), já rastrearam os financiadores dos ônibus. Começarão as intimações e pedidos de prisões temporárias ou preventivas, como ele mesmo informou.
Bem apontou um documento interno da tendência petista Democracia Socialista cujo trecho reproduzo: ““Após nove anos de resistência — iniciada com a ofensiva neoliberal contra o segundo governo Dilma, prosseguida com o governo Temer e aprofundada com o governo Bolsonaro — a vitória democrática e popular com a eleição de Lula inaugura um novo período da luta de classes no Brasil. Repõe em novas condições e com novos (e velhos) desafios a possibilidade da luta pela transformação democrática e socialista no Brasil com amplo impacto internacional.” E é, amigues, esse apoio internacional à Lula e à democracia brasileira, amplamente divulgado pela mídia de todo mundo, é o fiador de que a normalidade democrática será restaurada. Mas não por inércia. Só o povo na rua garantirá o sufocamento, a vergonha, a criminalização do ódio terrorista e o recuo miliciano.
Temo, de um lado, ter apenas repetido platitudes. Por outro lado, longe se vai sonhando demais. E sonho que se sonha junto, realidade torna-se. Por isso, às ruas. Estejamos atentos e vigilantes. O medo não é mau, em si – nos faz medir os riscos. Neste momento, porém, a coragem se impõe como a caçadores que na mata escura sabem que a besta fera é violenta, mas precisa ser abatida. Atentos às armadilhas fascistas. Não passarão!