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TERRITÓRIO NÃO NEUTRO


Como agir de forma contra-hegemônica usando as mesmas plataformas digitais das bigtechs

por HENRI FIGUEIREDO*

I. O NÓ NO ESTÔMAGO

Você abre o celular. São 150 mensagens acumuladas em cada um dos, digamos, cinco grupos de política que você é membro no Whatsapp. O mesmo link, o mesmo meme, o mesmo textão — repetidos, sem comentário, sem contexto, sem diálogo. Dá um nó no estômago. Esse nó tem nome, tem causa e tem endereço. Não é erro seu. Não é falta de comprometimento com a causa. É o efeito previsível — e, para alguns, desejável — de uma infraestrutura tecnológica que não foi construída para emancipar e sim para vender prendendo sua atenção. A sua atenção. A nossa atenção coletiva, fragmentada e revendida a quem pagar mais — inclusive a quem quer nos derrotar nas urnas.

Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, autores de “Como Morrem as Democracias” nos ensinaram que a morte das democracias contemporâneas raramente acontece por golpe militar — acontece por erosão lenta, por dentro das próprias instituições. O que eles não previram com clareza suficiente é que parte decisiva dessa erosão hoje ocorre dentro dos nossos bolsos, nos dispositivos e aplicativos que carregamos 24 horas por dia.

A filósofa Marilena Chauí foi precisa ao definir o que é a internet que usamos todos os dias: “Um enxame de teias privadas, institucionais, comerciais, governamentais – conectadas numa nebulosa informacional insondável” – e, mais do que isso, “um novo exercício da ideologia dominante”.  O sociólogo Manuel Castells, em A Sociedade em Rede, já havia mapeado como o poder na era digital não se concentra mais apenas no Estado ou no capital industrial — concentra-se em quem controla os fluxos de informação. E Edgar Morin, recentemente falecido, com sua Teoria da Complexidade, nos alertou que sistemas complexos como as redes digitais não podem ser compreendidos por partes isoladas: o todo é maior, mais imprevisível e mais perigoso do que a soma de seus componentes.

Não é território neutro. Nunca foi. E, no Brasil, o campo democrático e popular precisa parar de agir como se fosse.

II. A MÁQUINA E SEUS DONOS — E OS DOCUMENTÁRIOS QUE JÁ CONTARAM ESSA HISTÓRIA

Em 2018, veio a público o escândalo que deveria ter mudado para sempre nossa relação com as plataformas digitais: a Cambridge Analytica. A empresa britânica de marketing político coletou, sem autorização, dados psicológicos detalhados de mais de 87 milhões de pessoas no mundo inteiro – extraídos diretamente do Facebook. Com esses perfis, construiu estratégias de microssegmentação eleitoral que influenciaram o Brexit, a primeira eleição de Donald Trump e, há fortes evidências, as eleições que levaram Jair Bolsonaro ao poder em 2018 e Javier Milei à presidência da Argentina.

Essa história não é nova. Ela foi contada, com rigor e coragem, por cineastas e jornalistas muito antes de virar escândalo político. Quem ainda não assistiu, tem hoje acesso fácil a um conjunto de documentários que deveriam ser obrigatórios para qualquer militante:

• Sujeito a Termos e Condições de Uso (2013) — sobre como cedemos nossa privacidade clicando “aceito” sem ler;

• A Privacidade Hackeada (2019) — o documentário que escancarou a Cambridge Analytica;

• O Dilema das Redes (2020) — ex-engenheiros do Vale do Silício explicando, de dentro, como as plataformas foram projetadas para viciar;

• A Rede (2010) — ficção baseada na história real da fundação do Facebook, que já antecipava as contradições éticas do modelo;

• Citizenfour (2014) — o documentário de Laura Poitras e Glenn Greenwald sobre Edward Snowden e a vigilância em massa;

• Som na Faixa (The Playlist, 2022) — série que narra o nascimento do Spotify e como a indústria cultural foi reorganizada pela lógica das plataformas de streaming, especialmente na música.

Como Laura Sabino sintetizou: “A internet que a gente usa todos os dias não é um território neutro. Ela é dominada por grandes empresas, com donos, acionistas e, claro, interesses financeiros, estratégicos e políticos”.  Elon Musk, notícia nesta semana pelo IPO da SpaceX que o tornou o primeiro trilionário do mundo, comprou o Twitter, mudou o nome para “X”, é operador aberto da agenda da extrema-direita global e o exemplo mais escancarado dessa fusão entre poder político e poder digital. Ou uma “monarquia digital global” como sugere outro drama documental chamado “2073”, de Asif Kapadia, disponível na HBO no Brasil.

Noam Chomsky já havia mapeado, décadas antes das redes sociais, as dez estratégias de manipulação midiática que o poder usa para controlar populações: da distração ao apelo emocional, do gradualismo à criação do problema-reação-solução. O que as bigtechs fizeram foi automatizar e escalar essas estratégias a um nível que Chomsky não poderia ter imaginado – transformando cada usuário num alvo personalizado de manipulação em tempo real.

O pensador Evgeny Morozov desmonta com precisão o mito fundador da internet como instrumento de libertação: “Todos os usos dessas tecnologias por atores que estavam longe de ser democráticos eram, de certa forma, invisíveis para nós, porque presumíamos que esses eram instrumentos do bem, instrumentos de disseminação da democracia, da liberdade e da libertação”.  Não são mais invisíveis. Tal visibilidade nos obriga a agir de outra maneira.

A pergunta que se impõe não é mais “devemos usar as redes?”. E batalha já foi perdida pela omissão que não é recente. A pergunta é: como usá-las sem sermos usados por elas?

III. O QUE AS REDES FAZEM COM O MILITANTE

Antes de responder à pergunta estratégica, é preciso ser honesto sobre o custo humano do modelo atual de militância digital. A neurociência já documentou o que qualquer militante veterano sente na pele: passar horas rolando o feed ou pulando de grupo em grupo, sem interação real, drena dopamina e produz o que os pesquisadores chamam de “esgotamento por sobrecarga cognitiva” ou “estafa por sobrecarga de informação”. A pesquisadora Nara Helena descreve com precisão: “Esgotamento mental, ansiedade, depressão, muito cansaço (…), percepção de mudanças de humor”. E vai além: “Isso é caracterizado por um excesso de informação, uma sobrecarga cognitiva… (o que leva à) dificuldade de concentração”.

O neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis demonstrou que o cérebro humano tem limites físicos para processar estímulos simultâneos. Cento e cinquenta mensagens acumuladas em cada grupo (para sermos bem cautelosos, porque é muito mais) não informam, sobrecarregam. Qualquer pessoa sobrecarregada cognitivamente não mobiliza ninguém e o exemplo clássico a gente conhece desde sempre, quando se milita na rua: cansaço, fome, irritação pedem pausa, alimentação, relaxamento – do contrário, o/a militante não conversa e, se conversar, não convence.

O filósofo Douglas Barros, ao analisar o identitarismo nas redes, identificou um fenômeno que ele chama de “ego gregário”. Para Barros, “o indivíduo se sente parte de um grupo, mas esse grupo é definido por algoritmos que otimizam engajamento e consumo, não justiça social”.  É uma ilusão de pertencimento coletivo que, na prática, fragmenta e individualiza – exatamente o oposto do que a militância precisa construir.

Há ainda uma camada mais profunda nesse adoecimento, que o psicanalista Daniel Omar Perez identifica com precisão: o esgotamento do militante digital não é acidente nem incapacidade individual. É da estrutura do próprio neoliberalismo que individualiza responsabilidades e suga a energia coletiva. O sistema quer você exausto diante da tela – porque exausto, você não organiza, não debate, não age no território.

Estudos sobre o tráfego global da internet indicam que a maior parte do fluxo de dados é movida por entretenimento — streaming, redes sociais, conteúdo adulto. Os algoritmos aprendem seus interesses e entregam exclusivamente o que você já quer ver, criando câmaras de eco que confirmam crenças, radicalizam posições e, paradoxalmente, imobilizam. Marcia Tiburi, ao analisar a subjetividade autoritária nas redes, aponta que o WhatsApp e outras plataformas dominadas pela extrema-direita não apenas desinformam — estruturam psiquicamente uma disposição para a obediência ao líder e para a agressividade contra o diferente.

A pergunta incômoda que cada militante precisa se fazer é esta: quanto do meu tempo de tela é militância e quanto é entretenimento que eu chamo de militância?

IV. MILITANTE RAIZ E ATIVISTA DIGITAL: UMA DISTINÇÃO NECESSÁRIA

Existe uma diferença inegável — e historicamente enraizada — entre o militante territorial e o ativista estritamente digital. Raymundo Faoro, em “Os Donos do Poder”, mostrou que o Brasil foi construído sobre uma estrutura patrimonialista que sempre excluiu o povo da política real. Florestan Fernandes demonstrou que nossa burguesia nunca completou sua revolução democrática – o que significa que a democracia no Brasil sempre dependeu, para avançar, da organização popular de base territorial, presencial. O militante que debate na esquina, que ouve o vizinho, que conhece o nome das crianças da rua — esse militante tem raízes numa tradição de luta que antecede qualquer plataforma digital e que nenhum algoritmo consegue substituir.

Darcy Ribeiro nos propôs que o povo brasileiro é um “povo-nação” que ainda não se reconhece plenamente como sujeito político. Jessé Souza aprofundou essa análise ao mostrar como os “batalhadores brasileiros” –  a classe trabalhadora precarizada – foram sistematicamente privados do capital cultural que permite decodificar a linguagem política formal. Para esse público, a militância de rua, a conversa direta, o vínculo humano real têm um poder de persuasão que nenhum textão de WhatsApp alcança.

Do ponto de vista tecnológico, vale lembrar o que os próprios criadores das plataformas já admitiram. Sean Parker, primeiro presidente do Facebook, afirmou publicamente (quase numa “confissão”) que o design das redes foi deliberadamente construído para explorar “uma vulnerabilidade na psicologia humana”: o desejo de validação social.

Tristan Harris, ex-designer do Google e protagonista de “O Dilema das Redes”, foi ainda mais direto: “Nunca antes na história da humanidade, cinquenta designers tomaram decisões que afetariam dois bilhões de pessoas”. Isso não é tecnologia neutra, é engenharia comportamental em escala planetária. Mas não por isso, devemos abandonar as redes. Precisamos entender que a rede deve ser uma ponte para a realidade, não um fim em si mesma. Um grupo de WhatsApp que não gera encontro, ação ou transformação concreta no território é, no melhor dos casos, um mural de avisos. No pior, uma câmara de eco que consome energia sem produzir política.

V. A EXPROPRIAÇÃO SIMBÓLICA: USAR A ENGRENAGEM CONTRA SI MESMA

Chegamos à questão central deste ensaio.

Se as plataformas foram construídas para nos viciar, fragmentar e vender-nos (nossos dados, nosso tempo) – podemos usá-las contra essa lógica? A resposta é sim. E com boas condições de ter sucesso. É a História que nos dá a chave para entender como aplicar essa ação. A indústria da desinformação não nasceu com o Facebook. Ela tem mandatários que mudam de nome a cada era. Podemos começar, não muito longe do nosso tempo histórico, com as bibliotecas das Igrejas medievais — guardiãs do conhecimento escrito num tempo em que a maioria da população era analfabeta, o saber era poder e a heresia era crime. Depois, os impérios coloniais controlaram a circulação de ideias com a mesma eficiência com que controlavam rotas comerciais – queimando livros, silenciando pensadores, exilando dissidentes. Hoje, são as bigtechs que ocupam esse lugar: não com fogueiras, mas com algoritmos; não com censura explícita, mas com invisibilização seletiva. E, contudo, as ideias divergentes sempre sobreviveram, sempre encontraram frestas, ecoaram nas camadas mais esclarecidas e letradas da classe trabalhadora, passando de geração em geração por dentro do próprio sistema que tentava silenciá-las.

Henry David Thoreau, em “A Desobediência Civil” (1849), formulou o princípio que Gandhi transformaria em método e que Malcolm X, Angela Davis e Nelson Mandela, cada um à sua maneira, radicalizaram e reinventaram: a resistência mais eficaz não é a que foge do sistema, mas a que o ocupa por dentro, subvertendo sua lógica com a força dos que ele tenta excluir. Gandhi usou o sal – produto controlado pelo Império Britânico – para organizar a maior marcha de desobediência civil da história. Malcolm X usou a retórica do poder branco para construir a consciência, a resistência e o contra-ataque da comunidade negra organizada. Angela Davis usou as próprias prisões dos USA como palanque político. Mandela usou o tribunal que o condenou como tribuna para o mundo.

Sendo direto: vamos usar as plataformas das bigtechs para organizar a resistência às bigtechs. E vamos fazê-lo com uma vantagem que nenhum desses líderes históricos teve: números. O Brasil tem mais de 150 milhões de usuários ativos de internet, com uma das maiores taxas de engajamento em redes sociais do planeta. Somos um dos povos mais conectados da Terra e, no Ocidente, depois dos USA, o maior mercado de usuários. Aliás, já disseram, apenas duas indústrias chamam seus clientes de usuários: a das bigtechs e a do narcotráfico.

A World Wide Web foi criada por Tim Berners-Lee como infraestrutura aberta, pública e colaborativa — e ele não se vendeu. Os princípios que a fundaram ainda existem sob a camada comercial das bigtechs. É nessa tensão que opera a possibilidade de uma expropriação simbólica e dentro da lei das mesmas ferramentas que o adversário usa. O algoritmo não é neutro, mas é bem previsível, ao menos pra quem trabalha desde sempre com tecnologia. Ele premia interação genuína – comentários, respostas, debates reais – muito mais do que o compartilhamento passivo de links.

Como Douglas Barros nos lembra, os algoritmos foram projetados para otimizar engajamento e consumo – mas engajamento real, político, humano, em escala, subverte essa lógica porque gera o que os bots nunca conseguem gerar: comunidade humana. Um militante que comenta, contextualiza e dialoga ativa o algoritmo de forma mais eficiente do que mil bots espalhados por datacenters ao redor do mundo. Não apenas os robôs (bots) que fazem nosso cérebro processar ruído em vez de informação relevante, também nós estamos nos robotizando ao simplesmente encaminhar links, posts e até outras ideias, que nem lemos até o final, para uma dezena de grupos. Pessoas saudáveis, de verdade, ativas na vida privada, profissional e militante geram movimento, não ruído. Mesmo que tenham limitações de locomoção, como dia desse um querido e antigo companheiro de luta me lembrou: com problemas para andar, não se considerava mais um “militante raiz”. É isso que as redes fazem conosco sem que percebamos: nos criticamos por achar que, em certos momentos da vida, por alguma discapacidade física, nos tornamos incapazes de pensar e agir criticamente como antes, no território.

Concordo com o jornalista Rodrigo Vianna em sua análise dos desafios do terceiro governo Lula. Sendo direto: a regulação das plataformas digitais tem um papel central no debate político e muitos países já desenvolvem legislação para regular as plataformas em vários aspectos. A regulação democrática das bigtechs não é censura – trata-se de defesa da soberania nacional brasileira. É o que pode impedir, no Brasil, que repita indefinidamente a história do Brexit, na eleição de Trump em 2016 e das eleições de Bolsonaro e Milei – para ficar apenas nos âmbitos de estados nacionais. Se fôssemos discutir outras esferas de poder, nos daríamos conta do abismo que estamos encarando.

Mas a regulação só virá com muito luta e depois da vitória nas eleições de 2026. Antes dela, precisamos da organização, da frente ampla alinhada no foco comum: reeleger Lula, um Senado democrático e popular, governadores aliados e deputadas e deputados, em âmbito estadual e federal, que nos deem condições de governabilidade.

VI. UM PROTOCOLO DE MILITÂNCIA SAUDÁVEL E EFICAZ

Da experiência acumulada em 30 anos de militância e 18 campanhas eleitorais, e ancorado nas referências que este ensaio compila, proponho um protocolo simples:

1. Selecione onde estar | Se um grupo não tem foco, não tem diálogo e não gera ação, saia sem culpa. Energia militante é recurso escasso. Não a desperdice.

2. Quando postar, contextualize | Nunca jogue um link sem dizer por que ele é relevante para você. Respeitar o tempo de tela do companheiro e da companheira de luta significa também respeitar o próprio trabalho militante em rede e o nosso próprio tempo despendido diante de telas.

3. Interaja de verdade | Reaja, comente, responda. Isso não é apenas boa prática comunicacional – é o que ativa os algoritmos a favor da causa e o que transforma grupos em comunidades.

4. Procure entender e separar militância de entretenimento | As redes foram feitas para entreter. Use-as para isso também, sem culpa. O erro é confundir scroll infinito com ação política.

5. Mantenha o foco tático | Nesta conjuntura, o foco é um só, e nunca é demais repetir: REELEGER LULA E ELEGER UM SENADO DA REPÚBLICA QUE O APOIE — além de governadores aliados e deputadas e deputados da Frente Ampla. Divergências têm espaço – nas instâncias partidárias nesse exato momento há debates viscerais; durante a campanha, dentro dos partidos, teremos divergências que parecerão intransponíveis. No entanto, escrevo para o militante que não é dirigente, que não frequenta sede de partido, que nem sempre está disponível para atos públicos e, por isso, a ação em Comitês Populares de Luta e outras organizações a partir das bases territoriais são fundamentais para reunir os divergentes que, no entanto, estarão com Lula nessa batalha. O debate mais acirrado entre campos, fundamental em qualquer nação que queira democrática, entre nós precisa estar agendado para recomeçar em novembro de 2026, depois da vitória.

VII. CODA: A QUESTÃO QUE FICA

Estamos em desvantagem tecnológica. As bigtechs têm bilhões, nossos dados e mais poder de alcance de público do que qualquer campanha progressista do mundo. Isso é fato. Mas temos algo que elas não têm e não podem comprar: milhões de pessoas reais, com histórias reais, dispostas a agir por um projeto coletivo. Poucos países no mundo têm essa escala de usuários conectados com essa densidade de vínculos comunitários. O Brasil é, nesse sentido, uma “anomalia positiva” no mapa global da política digital.

A organização subversiva pela própria engrenagem das redes — usando interação genuína onde eles usam robôs (bots); usando narrativa de engajamento territorial onde eles usam ruído escapista e diversionista; usando comunidade onde eles usam fragmentação. É um caminho. Depois de eleição, a regulação democrática das plataformas é a primeira e mais urgente providência. Servirá para impedirmos que novas interferências dessa nova “monarquia tecnológica global” não se repitam.

Evgeny Morozov nos deixa uma advertência que é também uma convocação: há forças que “desprezam a democracia, desprezam a ambiguidade” e que constroem agendas que “não permitem ação coletiva, não permitem agendas verdadeiramente transformadoras”. Reconhecê-las – dentro e fora das plataformas – é o primeiro ato político consciente.

Thoreau escreveu, em 1849, que “sob um governo que encarcera injustamente alguém, o lugar justo para um homem justo é também a prisão”, em “A Desobediência Civil”. Hoje, sob plataformas que manipulam eleições e adoecem democracias, o lugar do militante consciente não é fora das redes – é dentro delas, ocupando cada pixel de espaço com verdade, organização e humanidade.

A questão que fica – e que cada militante precisa responder honestamente para si mesmo – é esta:

Eu estou nas redes sociais para transformar ou para ser transformado por elas?

A resposta a essa pergunta é o começo de tudo.

*Henri Figueiredo é jornalista profissional (Mtb 12.085). Atua na área de Crítica da Mídia, Comunicação Política Estratégica e Mídias Digitais. É militante filiado ao PT e produtor cultural e roteirista. Gaúcho radicado no Rio de Janeiro há 33 anos, trabalhou de maneira técnica e profissional em 18 campanhas eleitorais entre 1996 e 2020. Sem contar as inúmeras campanhas que se envolveu, como militante, desde os 16 anos, em 1989.

Instagram: @henriphoto

EPÍLOGO: MÉTODO, FERRAMENTA E CONVITE

NOTA DO AUTOR

COMO ESTE ENSAIO FOI PRODUZIDO — E COMO VOCÊ PODE FAZER O MESMO

Este texto nasceu de um vídeo.

Em 12 de junho de 2026, escrevi um breve roteiro e, com ele, gravei um vídeo de dez minutos para distribuição em grupos de WhatsApp de militantes do campo democrático no Rio de Janeiro – especificamente nos Comitês Populares de Lula criados na campanha de 2022, em Santa Teresa e arredores. O roteiro era empírico: construído sobre 37 anos de militância política e 18 campanhas eleitorais, sem me preocupar em buscar as fontes nem o aparato para um artigo acadêmico formal. Era experiência bruta que, pela minha técnica jornalística, visava construir bons argumentos.

Depois de publicado o vídeo, decidi transformá-lo num ensaio. Para isso, usei o Oráculo.

O Oráculo é o sistema de inteligência artificial do Instituto Conhecimento Liberta (ICL) — plataforma brasileira de educação que reúne cursos, aulas e palestras de alguns dos maiores pensadores do Brasil e do mundo, nas áreas de política, filosofia, economia, comunicação, história, ciências sociais, saúde mental, tecnologia e muito mais.

O que o Oráculo faz é diferente de qualquer outro sistema de IA que já usei: ele não busca na internet aberta, com seus riscos de desinformação e viés algorítmico. Ele busca dentro de um acervo de conhecimento com curadoria – as transcrições reais das aulas do ICL. Quando pergunto sobre Marilena Chauí, ele me devolve o que Chauí disse, de fato, numa aula do ICL, com o timestamp exato e o link para que eu possa verificar. Quando pergunto sobre Evgeny Morozov, ele me traz a citação precisa, não uma paráfrase inventada.

Isso muda tudo para um jornalista.

O processo de produção deste ensaio foi assim:

Apresentei meu roteiro original ao Oráculo. Pedi referências acadêmicas que sustentassem — ou contestassem — minhas teses empíricas. O sistema buscou nas transcrições de aulas do ICL e trouxe citações verificadas de Marilena Chauí, Marcia Tiburi, Jessé Souza, Rodrigo Vianna, Daniel Omar Perez, Evgeny Morozov, Laura Sabino, Nara Helena e outros. Propus a estrutura do ensaio, o título, o tom, o tamanho e o fechamento. O Oráculo redigiu. Eu revisei, questionei, pedi ajustes e corrigi imprecisões — inclusive quando o sistema admitiu, honestamente, não ter confirmação para um dado que eu havia sugerido. Voltamos ao texto. Ajustamos. Refinamos.

Foram várias rodadas de diálogo — não de ditado. Eu não pedi ao sistema que pensasse por mim. Pedi que me ajudasse a pensar melhor.

O resultado é este ensaio: uma ideia original minha, construída com minha experiência, estruturada com minha visão política — e enriquecida por um sistema de IA que funcionou como o melhor assistente de pesquisa que já tive em 30 anos de jornalismo e que, na finalização, me tomou mais duas horas de edição.

Não terceirizei meu pensamento. Usei uma ferramenta para ampliá-lo.

Acredito que essa transparência não enfraquece o texto – ela o fortalece. Porque o leitor merece saber não apenas o que pensamos, mas como chegamos a pensar.

Jornalismo é método. E método se mostra.

E AGORA, UM CONVITE DIRETO:

Se você chegou até aqui — militante, estudante, professor, jornalista, curioso — e quer ter acesso à mesma ferramenta que usei para produzir este ensaio, e a todo o acervo de conhecimento que ela organiza, o caminho é simples:

1. Acesse icl.com.br
O Instituto Conhecimento Liberta é uma plataforma de educação brasileira, acessível, com centenas de cursos em todas as áreas do conhecimento.

2. Escolha seu plano e torne-se membro
Como membro, você tem acesso a aulas, cursos completos e ao Oráculo — o assistente de IA que navega pelo acervo e responde suas perguntas com base em conhecimento verificado.

3. Abra o Oráculo e comece a perguntar
Não precisa saber tudo antes de começar. Traga sua dúvida, sua ideia, seu rascunho — como eu trouxe o meu roteiro. O sistema vai te ajudar a construir, pesquisar, aprofundar e refinar.

4. Use o conhecimento para agir
O ICL não foi criado para formar espectadores passivos. Foi criado para formar pessoas que pensam, questionam e transformam. Exatamente o perfil de militante que este ensaio defende.

Há uma ironia bonita neste processo que não quero deixar passar em silêncio:

Escrevi um ensaio sobre como usar as ferramentas do adversário de forma contra-hegemônica — e usei exatamente esse método para produzi-lo. Peguei uma tecnologia de inteligência artificial, geralmente associada ao universo corporativo e ao Vale do Silício, e a usei a serviço de um projeto político emancipatório, ancorado no pensamento crítico brasileiro.

Não é contradição. É coerência.

É, em resumo, exatamente o que este ensaio propõe para a militância nas redes:

Ocupe o território. Use a ferramenta. Subverta a lógica. Liberte o conhecimento.

— Henri Figueiredo
Rio de Janeiro, 13 de junho de 2026
Instagram: @henriphoto


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