
O escandaloso recorte dado pelas vozes do Mercado para criar intrigas no governo Lula
*Por Henri Figueiredo
RIO DE JANEIRO – No café da manhã que promoveu com jornalistas no dia de seu aniversário de 78 anos, no último 27 de outubro, no Palácio do Planalto, em Brasília, Lula falou, ao menos, sobre duas dezenas de assuntos diferentes.
O evento durou 1 hora e 22 minutos. Começou com um pronunciamento de Lula, teve 6 perguntas de jornalistas respondidas – pela ordem de veículos: Valor Econômico, Brasil 247, Agência Reuters, Diário do Centro do Mundo (DCM), Grupo Globo e Folha de S.Paulo. Horas depois, nos sites da mídia comercial vinculada ao mercado financeiro, especialmente G1, Uol, Folha, Estadão e Valor Econômico começou um bombardeio com vistas a indispor Lula com seu ministro da Fazenda Fernando Haddad e a equipe econômica. O Deus Mercado, chamado por Lula de “ganancioso” por pressionar pela meta fiscal com déficit zero para 2024 (mesmo em detrimento de investimentos prioritários para o país), mostrou sua articulação midiática que foi refletida, ao fim do dia, na queda da bolsa e numa leve elevação do dólar. O título do cínico editorial da Folha, no dia seguinte, foi: “LULA SABOTA O PAÍS”, com chamada na capa, inclusive.
Assisti na íntegra e transcrevi vários trechos do evento para demonstrar o tamanho do desserviço que a mídia comercial comete no Brasil. Especialmente aqueles veículos midiáticos em internet, rádio, TV, jornais e revistas diretamente vinculados ao mercado financeiro, às teles, à indústria automotiva, à indústria farmacêutica e ao agronegócio.
Em seu pronunciamento, Lula tratou de geopolítica, de energia verde como um ativo importante para o desenvolvimento do país e para colocar o Brasil no centro dos investimentos mundiais nesse campo; fez um apanhado da série de programas sociais que foram retomados em 10 meses; discorreu sobre o volume de investimentos em apenas dez meses (em especial no Transporte) que foi maior do que em 4 anos do governo anterior; falou da retomada de investimentos em escolas, universidades, creches; tratou da questão da relação com o Congresso e da necessidade de se fazer concessões para garantir a governabilidade. O presidente Lula foi firme mas diplomático ao comentar os laivos golpistas nas Forças Armadas; desmascarou a narrativa midiática de que a proposta de trégua humanitária na guerra Israel-Hamas, feita pelo Brasil no Conselho de Segurança da ONU, teria sido um “fracasso”; criticou o poder de veto dos cinco membros permanentes daquele conselho; tratou da questão das mulheres na composição do governo e das indicações para vagas importantes como a da Procuradoria-Geral da República (PGR) e a do(a) próximo(a) ministro(a) do STF.
BRUNCH CIVILIZADO, EDITORES RAIVOSOS
Na verdade, o “café da manhã” com jornalistas foi um “brunch”: começou pouco antes do meio dia com uma fala de cerca de 6 minutos do ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), o deputado federal e jornalista Paulo Pimenta. Ele fez o registro de que todos os programas sociais criados nos governos do PT e que tinham sido interrompidos desde 2016, mas especialmente no governo do miliciano, foram retomados – o último a ser relançado foi o “Luz para Todos”.
Pimenta também lembrou do protagonismo e da responsabilidade que o Brasil volta a ter na geopolítica, atualmente presidindo o Mercosul e com Lula, a partir de dezembro, assumindo a presidência do G-20. Também foi destacada a escolha de Belém, capital do Pará, para sediar a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30) em novembro 2025. Além disso, o ministro da Secom falou sobre a importância do recente discurso de Lula na abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova York – além dos 50 pedidos de reuniões bilaterais de outras nações com o Brasil.
Paulo Pimenta ainda lembrou que o Brasil é, no momento, o país Presidente do Conselho de Segurança da ONU e tem um papel central como promotor de alternativas de paz no conflito entre o (grupo militante fundamentalista islâmico) Hamas e o Estado de Israel (sob um governo genocida de extrema-direita) – os parênteses são meus. O ministro lembrou também os esforços do governo federal em trazer de volta brasileiros e brasileiras que se encontram na zona de conflito. Ufa! Só para começar.
UM PRONUNCIAMENTO HUMANO. E DE ESTADISTA
Em seguida, Lula começa cumprimentando as jornalistas e os jornalistas presentes, brinca que pela primeira vez, por ideia de seu fotógrafo pessoal Ricardo Stuckert, os fotógrafos também tinham assento no café da manhã. Falou um pouco dos seus 78 anos. Confessou o receio, por medo de anestesia, em fazer a cirurgia pela qual passou para implantar uma prótese de ligação entre o fêmur e a bacia. Detalhou como foi o processo de recuperação. Informou que está cumprindo ordens médicas de não viajar de avião neste período pelo risco de trombose e que sua próxima viagem será para COP-28, nos Emirados Árabes Unidos e, talvez, antes, para apresentar o modelo do PAC na Arábia Saudita. De acordo com Lula, 2024 será um ano inteiro de viagens dele pelo Brasil para inaugurar obras, escolas, universidades. Falou da disposição em atrair investimentos para que o Brasil se desenvolva e “dê um salto de qualidade”.
Lula lembrou como se comportou ao assumir pela primeira vez a Presidência, em 2003 – com o país em crise de confiança e numa situação péssima na economia. Pontuou que não queria fazer um balanço dos dez primeiros meses deste seu terceiro mandato: o que deverá acontecer em dezembro. No entanto, registrou que nesse período já anunciou mais políticas públicas do que nos seus quatro primeiros anos de governo, entre 2003 e 2006. O motivo, segundo ele, é o fato de que a maioria dos programas foram apenas reativados e era preciso recolocar “a casa em ordem”. Lembrou que, apenas na área do Transporte, já foi investido R$ 23 bilhões em dez meses contra R$ 20 bilhões de todo governo Bolsonaro. E frisou que essa comparação pode ser feita em todas as outras áreas do governo federal e o resultado será proporcionalmente parecido.
Mencionou as secas em grandes rios do Brasil e mais enchentes no Sul, causadas por sucessivos ciclones: consequência das mudanças climáticas e as tragédias humanitárias decorrentes.
Disse que, por outro lado, está otimista porque a previsão é de crescimento de 3% no PIB brasileiro em 2023. Avisou que, em 2024, deve ser mais difícil em função de questões geopolíticas.
Encaminhou o pronunciamento falando dos mais de 21 mil médicos no Programa Mais Médicos e que a meta é alcançar 28 mil médicos. E ainda lembrou que nem ele nem a ministra da Saúde fizeram publicidade em nenhum dos mais de 4,2 mil municípios que receberam esses profissionais da Saúde – muitas cidades que estão tendo seus primeiros médicos fixos. Falou que está comprometido em estabelecer convênios do SUS com uma rede de médicos especialistas para fazer a fila andar quando são requeridos exames mais complexos.
Lembrou que o Brasil tem, a partir de 2024, um potencial de entrar no mundo da energia verde e pode produzir e vender mais do que qualquer outro país do mundo. “O Brasil será o berçário desse novo mundo de investimento chamado ‘energia verde’”, disse. Continuou informando que o país tem 40 milhões de hectares de terras degradadas que podem ser recuperadas para a agricultura sem precisar derrubar mais nenhuma árvore.
“O Brasil já garantiu estabilidade social, estabilidade fiscal e estabilidade jurídica e previsibilidade. Então esse país se apresenta imbatível para quem quiser fazer investimento construindo parcerias para que venham produzir e não apenas, com seus fundos, explorar as taxas de juros altas”, comentou com uma nem tão sutil alfinetada no comando do Banco Central e nos especuladores financeiros.
Provocou os jornalistas: “Vocês não lembram mais de quando o Brasil cresceu 3% ao ano”. E arrematou: “Quando eu deixei o meu segundo governo, em 2010, o Brasil estava crescendo a 7,5% ao ano”.
Afirmou que vai viver muito porque tem uma causa: o Brasil e o povo brasileiro. Que precisa tirar da cabeça das pessoas a ideia de que seu governo “gosta de pobre”, o que quer, disse, é que as pessoas deixem de ser pobres, quer criar uma sociedade de classe média. “As pessoas querem vencer e o papel do governo é dar oportunidade para as pessoas vencerem, crescerem e melhorarem de vida. Por isso, vamos investir muito em educação”, discorreu.
Falando de improviso, fez chistes com suas já clássicas metáforas futebolísticas para, em seguida, falar da responsabilidade de aprovar a política tributária e mudar a relação capital-trabalho, dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras das empresas de aplicativo, por exemplo. E falou da preocupação com os jovens, que precisavam voltar a sonhar, acreditar e ter esperança. Assim finalizou seu pronunciamento inicial.
PERGUNTAS MAIS ESPINHOSAS SÃO DA MÍDIA CONTRA-HEGEMÔNICA. AS MAIS CAPCIOSAS, DA MÍDIA DO MERCADO
Na sequência, um assessor lembrou que estavam presentes 38 jornalistas e que talvez já houvesse 76 perguntas engatilhadas. Lula ainda retomou a palavra para informar que conversou com muita gente sobre a guerra entre Israel e Hamas. “Comecei falando com o presidente de Israel, falei com o presidente da Autoridade Palestina, depois com o presidente do Irã, da Turquia, do Egito, dos Emirados Árabes, da França, com Conselho Europeu, com o emir do Catar; ainda tenho de falar com o presidente Xi Jinping (da China)… e com presidente da União Europeia Pedro Sánchez, com ele para discutir os acordos com o Mercosul”.
Em seguida, começou, de fato, a entrevista coletiva. A ideia aqui não é transcrever na íntegra, mas destacar algumas respostas. No final do texto, o link para o vídeo do evento.
1) A primeira pergunta foi do jornalista do Valor Econômico que questionou se ele, com o ministro Haddad, selaram os nomes dos indicados para o Banco Central e, em seguida, cutucou dizendo que a tentativa do Brasil em mediar a guerra entre Rússia e Ucrânia não deu certo. Ainda perguntou qual a prioridade de Lula.
Da longa resposta de Lula, a melhor frase, na minha opinião, foi: “Alguém tem de falar em paz. Então eu vou continuar falando em paz”.
2) A segunda pergunta foi de Tereza Cruvinel, para o Brasil 247, que questionou sobre o crescente poder do Legislativo sobre atribuições do Executivo. Lembrou da entrega da Presidência da Caixa para garantir votos na Câmara, com o Centrão; do Senado rejeitando o nome indicado por Lula para a Defensoria Pública da União; aprovação do Marco Temporal contrariando, inclusive, decisão do Supremo – e o litígio entre o Senado e o STF. Perguntou: “Como o senhor pretende administrar esse avanço crescente do Poder Legislativo sobre o futuro do seu governo? Qual é o limite das negociações ou concessões para garantir a governabilidade?
Lula, na resposta, foi de uma diplomacia aterradora que revelou, mais uma vez, todo o seu traquejo político em driblar perguntas difíceis e bem elaboradas no que pode ser resumido nas sentenças: “Tereza, o que você está assistindo é o exercício da democracia em sua total plenitude. O Congresso Nacional existe pra isso”.
3) A terceira pergunta foi feita pela jornalista Lisandra Paraguassu, da Agência Reuters. Ela voltou ao tema do envolvimento de Lula na questão da Ucrânia. “E agora parte da sociedade diz que o governo não estava condenando o Hamas o suficiente. E como o Brasil pode negociar uma trégua e como fazer para retirar os brasileiros que ainda estão na zona de guerra?”
Lula respondeu algo que é absolutamente omitido pela mídia do mercado financeiro no Brasil. “Primeiro, o Brasil só reconhece como organização terrorista o que o Conselho de Segurança da ONU reconhece. E o Hamas não é, para o Conselho de Segurança da ONU, considerado uma organização terrorista: disputou eleições e ganhou na Faixa de Gaza. O que nós dissemos é que o ato do Hamas foi terrorista. Da mesma forma não podemos concordar com o governo de Israel que trata a guerra como se, em Gaza, só houvesse soldados do Hamas e não civis, mulheres e crianças. Essa é a posição do Brasil que foi reconhecida e elogiada nas Nações Unidas. Vi manchete de jornal dizendo que a proposta do Brasil foi rejeitada. É mentira, não foi rejeitada. Havia 15 votos em jogo, a posição do Brasil foi aprovada por 12 votos, 2 abstenções e 1 voto contra. Nossa proposta não foi “rejeitada”, ela foi VETADA por uma loucura chamada “direito de veto” dos cinco países titulares no Conselho de Segurança da ONU. O que somos radicalmente contra, isso não é democrático! E veja que nossa proposta foi apoiada por dois países que têm direito de veto: a França e a China. E duas abstenções de países com direito de veto: Rússia e Inglaterra. E os Estados Unidos assumiram a responsabilidade de vetar.
4) Leandro Fortes, do Diário do Centro do Mundo (DCM) discutiu a potencialização da tutela militar nos eventos de 8 de janeiro e antes, com os acampamentos golpistas diante dos quartéis – o que deixou claro o envolvimento das Forças Armadas em ações antidemocráticas. Pergunta se há uma estratégia nacional de defesa que intervenha na formação das escolas militares brasileiras, para praças e oficiais, para retirar o enorme contingente que está congelado na Guerra Fria, na Doutrina de Segurança Nacional, no anticomunismo, no golpismo. “O senhor acha que a reformatação da Comissão Nacional da Verdade pode ajudar nisso?”
Lula rebateu dizendo que não considerava o termo “intervenção” o mais correto. “A gente trabalha a ideia de que militar não é melhor que civil, civil não é melhor que militar. Os militares têm é de cumprir sua função constitucional. O que aconteceu, no 8 de janeiro, foi um desvio pela existência de um governante que não sabia governar e que achava que podia utilizar as instituições como instrumento dele para fazer política. Enquanto eu for presidente não tem GLO (sigla para Garantia da Lei e da Ordem – instrumento de intervenção militar). Temos uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) no Congresso que diz que o militar que quiser entrar na política que entre, mas para isso ele vai precisar deixar as Forças Armadas.”
5) Delis Ortiz, da Globo, fez a quinta pergunta. “O senhor tinha três mulheres no governo que foram substituídas por homens, dentro dessa negociação que o senhor não abre mão.” Lula interrompeu, sorrindo: “Isso não é um a pergunta, é uma afirmação verdadeira.” Na sequência, Delis, pergunta: “E as vagas na PGR e no Supremo, vão ficar para 2024, já que o senhor não tem pressa?”
Lula responde que lamenta profundamente não poder indicar mais mulheres do que homens no governo. “Mas quando a gente estabelece aliança com um partido político, nem sempre ele tem uma mulher para indicar, ainda que eu tenha pedido para fazer esse esforço. Eu quero passar a ideia de que a mulher veio para a política para ficar. Tenho disposição política de indicar mais mulheres. A segunda coisa, não é que eu não tenho pressa para fazer as indicações – é que eu estava com dores, precisando da cirurgia. Eu vou escolher as pessoas certas e adequadas em função da realidade política. (…) Talvez eu termine meu governo com mais mulheres no governo porque muita gente vai sair para concorrer no ano que vem”.
6) A repórter da Folha de S.Paulo fez a pergunta número seis. “Ainda na seara do Supremo, objetivamente, o que senhor acha do nome de Flavio Dino – que é colocado como preferencial – e se o senhor teme uma reação do Senado ao nome dele. E eu também queria saber se o senhor considera que a meta fiscal já é considerada irreal para o ano que vem. Já que o senhor disse que o ano que vem vai ser difícil, o senhor acha que o déficit zero é irreal OU A GENTE AINDA PODE CONTAR COM ISSO?
Agora, eu vou transcrever, em duas partes, a íntegra a resposta de Lula, depois de uma brincadeira dele sobre que o seu medo, pelo que ele conhece do Flavio Dino, é que a manchete de jornal seja: “Lula tem preferência por Flavio Dino”.
PARTE A – DINO E INDICAÇÃO AO SUPREMO
“Eu tenho em mente pessoas da mais alta qualificação política desse país. Muitas, não apenas uma. Obviamente que sou obrigado a reconhecer que o Flavio Dino é uma pessoa altamente qualificada do ponto de vista do conhecimento jurídico, altamente qualificada do ponto vista político, e é uma pessoa que pode contribuir muito. Mas eu fico pensando aonde é que o Flavio Dino será mais justo e melhor para o Brasil? É na Suprema Corte ou é no Ministério da Justiça? Aí tem outra pessoa que eu fico pensando: onde será mais justo, no lugar onde ele está ou na Suprema Corte? Isso é uma dúvida que eu tenho e que vou conversar com muita gente ainda, até a hora de escolher. Tá chegando a hora de escolher e vou escolher a pessoa certa. Eu tive o prazer de indicar… acho que fui o presidente que mais indicou ministros da Suprema Corte. Nunca pedi nenhum favor a eles, nunca pedi para votar alguma coisa a meu favor. Porque eu não escolho pelo critério da amizade: botar um amigo para votar o que eu preciso. Não quero isso. (A jornalista faz uma nova pergunta mas fica inaudível). Lula prossegue: “Pode, pode tudo. Pode ser homem, mulher, negro, negra. Mas tenho muito tranquilidade pelo meu acúmulo de experiência na indicação de gente. Agora que estou recuperado está chegando a hora de tomar a decisão, então logo vocês saber quem vou indicar.”
NESTE MOMENTO UM ASSESSOR ENCAMINHA O ENCERRAMENTO DA COLETIVA, MAS A REPÓRTER INSISTE NA SEGUNDA PERGUNTA SOBRE A META FISCAL
PARTE B – META FISCAL, DÉFICIT ZERO E AMBIÇÃO DO MERCADO
Lula: “Deixa eu dizer pra vocês uma coisa. Tudo o que a gente puder fazer para cumprir a meta fiscal a gente vai cumprir. O que eu posso te dizer é que ela não precisa ser zero. O país não precisa disso. Eu não vou estabelecer uma meta fiscal que me obrigue a começar o ano fazendo corte de bilhões nas obras que são prioritárias para esse país. Sabe? Então, eu acho que muitas vezes O MERCADO É GANANCIOSO DEMAIS E FICA COBRANDO UMA META QUE ELE SABE QUE NÃO VAI SER CUMPRIDA. Eu sei da disposição do Haddad, sei da vontade do Haddad, sei da minha disposição e quero dizer pra vocês que nós, dificilmente, chegaremos à meta zero. Até porque eu não quero fazer cortes de investimento em obras. E se o Brasil tiver um déficit de 0,5%? O que é? 0,25 o que é? NADA! Praticamente nada! Então nós vamos tomar a decisão correta e fazer aquilo que é melhor para o Brasil.”
Até aqui foram 1 hora e 18 minutos de transmissão.
Lula falou ainda mais poucos minutos agradecendo a presença dos jornalistas e lamentou que foi impossível que todos fizessem perguntas. Assegurou que até o fim do ano ainda fará um balanço de governo noutro encontro com os jornalistas. No final, Lula brincou com o ministro Paulo Pimenta que “a imprensa está com tão boa cabeça que achava que chegaria e teria um monte de presentes”. “Não vi um!”, riu. O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Márcio Macedo, foi profético num breve comentário: “O presente será a repercussão!” Lula ainda teve a grandeza de, sutilmente, vetar a proposta de um “Parabéns pra você!” feita por Pimenta dizendo que o mundo está mais pra tristeza do que para a alegria com a morte de tantas crianças na guerra. Mesmo assim, o “parabéns” foi puxado e saiu xoxo.
No mesmo dia, nos sites de notícias da mídia comercial vinculada ao mercado financeiro, Lula recebeu muitos presentes… “de grego”. Todos reproduzidos, no dia seguinte, 28 de outubro, em manchetes dos principais jornais da mídia que é a voz do mercado financeiro. Sem exceção, recortaram apenas a fala final do presidente sobre a não necessidade de “déficit zero”, passaram recibo pela crítica feita por ele sobre a “ganância do mercado” em editoriais raivosos, artigos de “jornalistas” que são as vozes dos donos e de “especialistas” que são oposição declarada ao programa de governo vitorioso nas urnas nas eleições de exato um ano atrás.
Depois, disso tudo, acho que não resta dúvida sobre quem, de fato, sabota o país e a sua principal liderança política.
*Jornalista
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