Acordei de um sonho estranho, como o Milton em San Vicente. Escrevo logo antes da alvorada porque os sonhos às vezes parecem reflexão especular – e as lembranças do meu último ainda não se esfumaram. O que eu disse no sonho, disseram pra mim. O que disseram pra mim, disse eu. Todos no meu sonho sou eu próprio conversando comigo mesmo entre reações químicas neurais numa área que se convencionou chamar de subconsciente. A medida em que passam os minutos já não sei direito se o que lembro era sonho ou um novo constructo psíquico. Afinal tudo é química e não há matéria, só energia se organizando em diferentes camadas e frequências. Mas interrompo por aqui antes de começar elucubrações sobre física quântica e espiritualidade.
Um amigo filósofo me fez, na noite de domingo, uma provocação impertinente – como só os bons amigos são capazes e autorizados: “Você vai agora fazer poética sentida ou política esclarecida?” Eu ri porque a elaboração foi boa mas trata-se de um falso dilema. Se alguma coisa trago ainda dos meus primeiros anos nos bancos universitários – onde os conteúdos eram extremamente generalistas – são boas noções de lógica. Me foi proposto, neste caso, uma falácia lógica, uma falsa dicotomia. Nicolau Maquiavel, por exemplo, anotou que mais vale ser temido que ser amado. Ernesto Guevara, por outro lado, disse que é preciso endurecer-se mas sem, jamais, perder a ternura. O florentino crava uma dicotomia; o argentino propõe uma quebra dela.
A política é, no mais das vezes, um terreno árido em que quem não afirma certezas não tem vez. Cultivar a dúvida pode fazer de ti um intelectual reflexivo, um cientista cético de tudo que não se adequa aos métodos de aferição, mas não faz de ti um “bom político” – este precisa estar investido do cinismo necessário para falar a língua do povo, dizer o que o povo quer ouvir, comunicar-se com as massas com paixão oratória e, sempre, afirmar certezas: de altruísmo desprendido, de que outro mundo é possível, de que os adversários são os vilões e de que o nosso grupo é mais preparado que outros para a transformação social. Mais do que vender esperança, a comunicação política bem-sucedida é a que identifica o que o povo quer ouvir, não o que o povo precisa saber.
Aprendi cedo a importância de Karl Marx na história do pensamento humano – causa de terror nos políticos profissionais que, mesmo sem se dar conta, são discípulos tardios da escola filosófica do cinismo de Antístenes. Em Marx, não basta identificar cientificamente as causas da estratificação social e das desigualdades se você não se organizar e lutar para transformar a realidade. E isso significa, ao fim e ao cabo, revoluções no pensamento, na economia, na cultura e no comportamento humano. Por isso ainda hoje, 170 anos depois de seu mais importante livro, Marx é combatido e demonizado pelos donos do poder e seus lacaios. E o combate às ideias emancipatórias do indivíduo e da sociedade passa pela pasteurização da educação – que nada mais é do que um sistema de programação mental das novas gerações para que se adequem à engrenagem. Como disse Paulo Freire, quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor. E isso ocorre em qualquer modelo societário – inclusive naqueles que se reivindicam “marxistas”, como bem mostraram as distopias de George Orwell, por exemplo.
Perdoem-me a longa digressão sobre filosofia política, logo de mim, um leigo. Hão, contudo, os fatos: a política esclarecida é mais perturbadora, incômoda e intragável do que o rebanho imagina. Ela é iconoclasta, derruba igualmente líderes supremos e mitos. E, no entanto, a política esclarecida diz a verdade com a pureza da criança do conto dinamarquês de Hans Christian Andersen. Um malandro chega ao reino e convence o monarca de que consegue tecer uma roupa que somente os inteligentes conseguem ver. O rei o faz seu novo alfaiate e lhe enche de riquezas como ouro e seda para tecer a nova roupa. O esperto fica com as riquezas e leva semanas tecendo o nada. Ao receber as vestes, o rei (para não passar por estúpido) suspira de admiração pelo trabalho; sua corte (para não contrariar sua majestade) aplaude a genialidade do costureiro; mas uma criança exclama: “O rei está nu!”. Ao que Caetano Veloso comentou, numa canção: “Mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que o rei é mais bonito nu”. Eis a beleza da poética sentida.
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