
Todas as cartas de amor são ridículas, escreveu Álvaro de Campos.
“As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.”
Aí Luis Fernando Verissimo disse (e não é falsa atribuição porque conheço a citação há quase trinta anos, antes da popularização da internet no Brasil): “Mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, é a que não tem medo do ridículo”.
Continuo assim: foram 2.318 dias, o que dá 331 semanas (e 1 dia), ou 6 anos, quatro meses e 5 dias que eu e Hellen escolhemos ser um casal – não, nunca contei os dias: este site ajudou. A partir deste 15 de outubro, passamos a viver em casas diferentes e, assim, jogamos luz no recôndito ao anunciar ao círculo de amigos e amigas a nossa “separação” – essa senhora tão vetusta quanto anúncios de tal natureza. Mas ao inverso do “comunicado à sociedade” de noivados e bodas, publicado nos jornais do passado (que, por acaso, continuam a circular até hoje), é na internet que publico este ridículo e, portanto, amoroso aviso. Como na cultura mexicana, desejo una buena muerte a esta fase de nossas vidas para que dela a gente se reinvente pelo caminho. E que o caminho seja iluminado.
Herbert Vianna, na saudade irremediável de Lucy, escreveu: “Se eu não te amasse tanto assim | Talvez perdesse os sonhos | Dentro de mim | E vivesse na escuridão | Se eu não te amasse tanto assim | Talvez não visse flores | Por onde eu vim | Dentro do meu coração | Hoje eu sei, eu te amei | No vento de um temporal | Mas fui mais, muito além | Do tempo do vendaval”.
Gilberto Gil escreveu para Sandra: “O amor da gente é como um grão | Uma semente de ilusão | Tem que morrer pra germinar | Plantar nalgum lugar | Ressuscitar no chão | Nossa semeadura | Quem poderá fazer aquele amor morrer | Nossa caminhadura | Dura caminhada | Pela noite escura (…) | Não pense na separação | Não despedace o coração | O verdadeiro amor é vão | Estende-se infinito | Imenso monolito | Nossa arquitetura”.
Hellen Miranda foi o desafogo, o ardor, o desafio e a dor aplacada de ter me dado, por sem quem é, as coordenadas pra eu retomar o rumo quando estava à deriva. Depois, tornou-se em mim a felicidade da madurez na escolha adulta de construir um lar. Agora é família – daquela natureza linda dos amores e amizades que não se fazem, e sim se reconhecem. Sendo família, é para sempre. Sendo escolha, é o orgulho de lhe ter tido como companheira e de merecer estar do lado dela noutras caminhaduras no futuro.
Seja feliz, meu amor, minha amiga. Se merecemos a zombaria por sermos ridículos, também merecemos cada lágrima de despedida, cada riso nervoso mas também de alívio e expectativa pelo que nos espera ali adiante. Cada arfada que oxigena e cura, cada lufada de novos ares, cada hálito desejado que nos fará daqui a pouco relembrar e reviver o quanto é bom ser querido e querer livremente.
Sem cinismos nem abandonos. Não precisamos de clemência, explicações nem indulgências. Sempre admitimos: fomos culpados, sim. Amar continua sendo subversivo quando acontece na pele, na carne e na alma – fora da sacralização das palavras rituais. É preciso morrer pra germinar. Ou, como disse Adélia Prado no final de um poema chamado “Leitura”:
“Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.”