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ATRAVESSANDO A FUMAÇA | Reflexões políticas na madrugada bolsonarista

69394161_2505672279471811_3393107241392406528_nPor Henri Figueiredo*

Quando passar a longa noite bolsonarista repleta de fumaça, ódio e fogo, o povo brasileiro verá a terra arrasada da quebra de direitos como ao da aposentadoria – cujos valores, se não chegavam a ser “justos”, ao menos tiveram aumentos anuais reais nos governos do PT, assim como o salário mínimo teve.

Bolsonaro com suas asneiras, estupidez e incapacidade mental tragicômica é cortina de fumaça perfeita para a pilhagem do Pré-sal pelos EUA; para o desmonte veloz da rede de proteção social afirmada pela Constituição de 88 e pelas políticas públicas criadas de lá pra cá; para a liberação descontrolada do capitalismo mais selvagem e predatório e, agora, sem a proteção de leis e fiscalização trabalhista ou ambiental.

O Brasil é roubado, saqueado, desmontado sob um governo de entreguistas. A prestidigitação dos donos do poder econômico se deu por meio de seus veículos de comunicação de massas – primeiro para convencer os analfabetos políticos a saírem às ruas não apenas contra “o petê” mas contra os seus próprios direitos. Depois, para instrumentalizar, com financiamento empresarial milionário, uma rede de mentiras dirigidas a partir da tecnologia da informação e das redes sociais na Internet.

Nessa conjuntura absolutamente distópica em que vivemos, a Resistência não é apenas por democracia – é também por sanidade física e mental, porque somos inundados de veneno desde a comida até o bombardeio diário do discurso de ódio que nos fazer querer reagir e partir pra guerra civil.

A guerra perfeita para o Império seria a de brasileiros(as) contra seu próprio povo – “matem-se entre vocês”, ri-se Trump emulando como farsa o “Divide et impera” do César romano.

O componente neofascista e, às vezes, abertamente nazista da história me parece que vem justamente das classes médias vinculadas ao patrimonialismo nacional. E de certos setores do Judiciário, em todas as esferas. Minha intuição sempre avisou, por mais subjetivo e arriscado possa isso ser para um jornalista registrar, que nunca foi à toa ou por casualidade que Moro se apresentou nos seus primeiros anos midiáticos de camisa negra – assim como seus colaboradores no serviço judiciário. Ouvi de reconhecido jurista que, nas classes de magistrados e promotores, o Poder Judiciário e o Ministério Público já estão amplamente tomados de fascistas. Vi pessoalmente este fenômeno ser gestado nos anos 90, quando no Movimento Estudantil Universitário. Alguns mestres alimentavam seus pupilos no curso de Direito com obras do integralista Plínio Salgado, por exemplo.

O antropólogo Darcy Ribeiro disse certa vez que “a crise da educação no Brasil não é crise, é projeto”. Também a escalada fascista que tomou de assalto cargos chaves da República é um projeto.

O “LAWFARE” é a guerra em que a lei é usada como arma. Os soldados diletos do lawfare no Brasil são os doutrinados ultraliberais de matriz cristã norte-americana, com cursos nos EUA ou em programas de formação espalhados pela periferia do Império. Especialmente “operadores do Direito”.

Foi o lawfare que deu sustentação ao Golpe de 2016 em Dilma, que perseguiu as principais lideranças de Esquerda e encarcerou Lula para tentar destruir moral e eticamente sua imensa liderança mundial em defesa da classe trabalhadora. Este lawfare vai se transformando em guerra híbrida com o uso da cibernética e da ação de milícias de intimidação física aos divergentes – como nos casos recentes e cada vez mais constantes de ataques a artistas durante espetáculos, volta da censura e da autocensura do jornalismo comercial. A cruel sutileza das patrulhas comportamentais do bolsonarismo é que elas são muitas vezes, sim, “espontâneas”. Noutra época chamaríamos o método de “brainwash”.

Quando passar a cortina de fumaça bolsonarista, para conter a revolta da maioria (que vai acordar da hipnose e do engano jogada de volta à pobreza ou à miséria) será necessária a “pacificação do país” – esse é outro eufemismo clássico da direita mundial para justificar a repressão aberta e o estrangulamento dos direitos e liberdades civis.

Mourão parece ideal para esse papel de “pacificador” repressivo. Toffoli, um traidor talvez mais vil do que Temer, já manifestou publicamente que a própria Constituição deveria ser “desidratada”. Logo ele, presidente do tribunal que, Supremo, deveria ser o guardião da Constituição Democrática.

Outra saída das oligarquias brasileiras, cuja aceitação pelas classes médias vai sendo testada na mídia de massas, é a transição para um regime parlamentarista ou “semi-parlamentarista”, como já li.

Não importa, o plano parece ser transferir o máximo de poder da República para os representantes do Boi (“agro é tudo”, diz o slogan a la “Brasil, ame-o ou deixe-o” dos anos 70); da Bala (porque só com força armada, ao fim e ao cabo, se sustentam golpes contra a vontade popular); e da Bíblia (porque o que seria das almas, se depois da miséria e exploração nesta vida não tivéssemos a garantia da felicidade no Reino dos Céus ou, por outra, se não acreditassem que a prosperidade é a recompensa do Deus Mamom aos fiéis que pagam em dia o dízimo e não contestam “as obras”).

No final, tudo é controle. Ou tentativa.

No meio, a vida corre e, pra ser vívida, precisa ser rebelde.

Diz-se que a ignorância é uma bênção. Pra mim a bênção também é saber junto, questionar junto, investigar junto, andar junto, conhecer e conquistar junto.

Só a vida política me faz aceitar-me como espécie gregária. Não fosse a paixão pela política, seria um eremita – como meu xará Thoreau foi no século XIX, quando escreveu “A Desobediência Civil”. (Ao dizer, antes, “paixão”, de fato ocorreu-me primeiro o sofrimento.)

São reflexões na cortina de fumaça. Etimologicamente, o que pode refletir em meio a essa névoa bolsonarista? Suponho que só o que temos mesmo dentro de nós mesmos e nos mantêm de pé, dia a dia, numa luta que, no fundo, queria ser prazer. Mas fosse só prazer não daria muito sentido à vida. Por isso, tenho lado e tento equilibrar-me no caminho do meio.

*Henri F. é jornalista.
São Leopoldo, 2 de setembro de 2019


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