
Manifestantes na avenida Presidente Vargas, no Rio, em 15 de maio, no #TsunamiDaEducação #15M / Foto: Pedro Rocha | Brasil de Fato
Por Henri Figueiredo | Twitter: @henrifigueiredo
Neste maio de 2019 percebemos não apenas o ressurgimento das manifestações de rua de uma ampla frente de Esquerdas e Centro-Esquerda como, também, de uma produção teórica e analítica afiada. O pensamento crítico resiste, alimenta a rua e dela se alimenta na renovação dos protagonistas, na maneira de (re) organizar os atos públicos de protesto e de como fazer a leitura da conjuntura. Na minha percepção, as melhores análises de conjuntura têm partido de gente da academia: sociólogxs, antropólogxs, historiadores e um(a) ou outro(a) jornalista da contra corrente.
Apresento aqui uma seleção de excertos que compõem um bom panorama dessa produção intelectual entre os dias 11 e 17 de maio de 2019. Ao final, os leitores poderão encontrar os links para a íntegra dos textos e, quando houver, a indicação da conta de Twitter dos autores.
SABRINA FERNANDES¹, SOCIÓLOGA, youtuber do Canal Tese Onze
“Não há prática revolucionária sem teoria revolucionária, como a tradição leninista nos lembra, e essa relação é uma relação dolorosa de reflexão e reorganização contínua. (…) é possível encaminhar a autocrítica como uma norma organizativa e estratégica para esquerda e não como algo derrogatório. A esquerda precisa parar de ter medo de admitir seus erros para que enfim possa celebrar seus acertos de forma mais frequente e reocupar o lugar na história e no campo político que tanto a extrema-direita quanto os liberais do ‘nem esquerda nem direita’ tentam lhe negar”.
ELIANE BRUM², JORNALISTA E ESCRITORA, COLUNISTA DO EL PAÍS
Desculpa, mas não há desculpa. Não basta você ficar no sofá tuitando ou feicibucando enquanto os direitos são apagados e o autoritarismo se instala no Brasil. Não dá para terceirizar luta e posição na vida. O problema também é seu. O que está em curso não acaba em quatro anos. O que se destrói hoje levou décadas para ser construído. As consequências são rápidas, algumas imediatas. Destroem primeiro os mais frágeis, depois (quase) todos. E, a não ser que você concorde com o que o presidente contra o Brasil está fazendo em seu nome, é com você ser +um e chamar +um.
(…)
Já escrevi no passado recente que acreditava que as redes sociais eram ruas também. Ruas de bytes era como eu me referia a elas. Percebo que estava equivocada. As redes sociais não são ruas. Para ser rua é preciso corpo. O que se passa nas redes sociais é importante e têm definido nosso cotidiano. O que se passa nas redes sociais têm muitos impactos sobre a vida e sobre a percepção da vida. Já podemos criar uma biblioteca inteira de livros que refletem sobre esse fenômeno. É necessário investigar o que as redes sociais são, em seus múltiplos significados. Tanto quanto saber o que não são. E as redes sociais não são rua.
O que se passa nas redes sociais tem efeitos sobre o corpo de cada um. Mas o corpo de cada um não está lá. Ir para a rua, ocupar as ruas, o imperativo ético deste momento, só é possível com encontro. A rua pressupõe encontro real. Pressupõe se arriscar ao outro. Pressupõe conviver de corpo encarnado. Pressupõe negociação de conflitos para dividir o espaço público. A rua é onde estamos com nossos fluidos, enfiados na nossa própria pele, carregando nossas fragilidades diante do outro sem nenhum botão de curtir ou de raiva para acionar. A rua é onde nos arriscamos a nos refletir no olhar do outro e nos reconhecer num corpo que não é o nosso. Nos reconhecer na humanidade e também na diferença.
(…)
Há várias hipóteses e algumas razões (de não irmos pra rua), uma delas o medo. Da polícia, que em vez de proteger os corpos, destrói os corpos. Outra o medo do contágio, já que o outro foi convertido num inimigo. Mas a melhor hipótese que escutei nestes últimos dias foi proposta pelo jornalista Bruno Torturra, em seu “Boletim do Fim do Mundo”, de 9 de maio. Ele faz uma analogia entre a libido sexual e a libido política. O que faríamos todos, ao despejarmos nossa revolta nas redes sociais, seria uma espécie de masturbação. Não falta material na internet para excitarmos e darmos vazão a essa libido política, como não falta material na internet para darmos vazão à libido sexual 24 horas por dia.
(…) Que o primeiro protesto de rua significativo contra o governo de Bolsonaro tenha partido das universidades, segundo Torturra, é revelador. É no espaço das universidades que os estudantes, e também os professores e funcionários, convivem com seus corpos, entre corpos. Ali há compartilhamento real, há negociação, há debate. Há conversa. E há, principalmente, relação. E, assim, há também movimento. É também por essa razão que Bolsonaro e seu ministro contra a Educação decidiram usar o poder conferido pelo voto para destruir a universidade e, assim, perverter o poder conferido pelo voto ao perverter a própria democracia. Qual é o projeto de educação dessa antipresidência? O mesmo projeto que busca transformar a floresta em pastagem, lavoura de soja transgênica e cratera de mineração. O projeto neoliberal. O um.
É preciso resistir também ao esgotamento da libido política nas redes sociais. Ou, dito de outro modo, é preciso manter seu desejo pulsante para se arriscar ao convívio das ruas. É preciso sair do umbigo de si e alcançar o vasto corpo do outro. É preciso estar junto. Não se dê desculpas. ²
ROBERTO DAMATTA³, 82 anos, ANTROPÓLOGO, articulista d’O GLOBO
(…) O coração ideológico da consciência política da minha geração, formada no final dos anos 50, foi o marxismo. Um marxismo lido em traduções de edições russas censuradas. Lembro que essa geração da Guerra Fria — condescendentemente chamada de “geração Coca-Cola” — não falava apenas de “direita” e “esquerda”. Ela ia além, classificando as pessoas como “conscientizadas” e “alienadas”. Os pais eram alienados, as mães — católicas e preocupadas com os pobres — pré-conscientizadas. Fui contaminado por Karl Marx e pelo pouco falado Friedrich Engels quando entrei na faculdade. Quem, aos 20 anos, não tem o direito de se deslumbrar com o Manifesto Comunista e vibrar com o fim da opressão encontrando, de quebra, a chave-mestra da História da Humanidade?
Foi o protomarxismo mais evolucionista do que funcionalista (o Marx do 18 Brumário e o da Questão Judaica) que me levou a perceber o Brasil que gravitava em minha volta. Brasil com o qual, como aprendiz de antropólogo do Museu Nacional, entrei em contato quando vi o seu lado mais fundo e dramático — suas sociedades indígenas que, mesmo com a tal “proteção oficial”, estavam sendo dizimadas enquanto os sertanejos reclamavam de injustiça.
Foi, pois, o altruísmo contido no “comunismo” que me levou a essa identificação com um Brasil a ser transformado. Não abandonei esse comunismo até hoje entrelaçado ao meu amor pelo Brasil.
O que abandonei foi a infantilidade dos radicalismos. Do “esquerdismo” nas suas versões radicais e patologicamente malandras e populistas. Um posicionamento cujo pendor acusatório e condescendente, ressentido e repleto de má-fé (aos nossos, tudo; aos inimigos, o berro, a negação, a mentira e a calúnia!) reproduz o autoritarismo fascistoide do regime militar. A prova do pudim foi (como ocorre em todo lugar) a chegada ao poder, pois nada é mais revelador do que o poder.
(…) O que não pode ocorrer é a tentativa de eliminação suicida da esquerda pela direita. Deveríamos ter aprendido que a democracia tanto como um regime político e, acima de tudo, como um estilo de vida, precisa dos dois lados que nela concordam em discordar. Direitas e esquerdas perfeitas — que deixam saudade! — só ocorrem nas ditaduras que, lamentavelmente, conhecemos bem demais.
FERNANDO HORTA4, graduado em História pela UFRGS e com mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília, onde também faz doutorado. ARTICULISTA DO JORNAL GGN
(…) O custo das reformas que o “mercado” quer é altíssimo. A destruição da previdência social brasileira (vendida enganosamente como apenas uma “reforma”), o aprofundamento da destruição de todas as leis de seguridade do trabalho e a implosão do sistema público de educação e saúde do Brasil são muito “bem-vindos” pelo mercado. Como se sabe, o “mercado” não preza nem respeita ninguém. É o lucro pelo lucro e ponto final. A aposta do setor financeiro nacional e internacional era em Temer. Um político velho e velhaco, corrupto fisiológico, apavorado pela possibilidade de passar seus poucos anos de vida preso, e oriundo de um partido que virtualmente dominava o parlamento brasileiro desde o final do regime militar.
Temer, contudo, não esteve à altura do desafio. O estado de desarranjo político que impeachment deixou, mais a obsessão e necessidade do ex-vice em proteger seus telhados de vidro (Eliseu Padilha, Moreira Franco e etc.) foram alvejados de morte com a prisão de Geddel Vieira. Todo este reboliço enfraqueceu o governo e as “reformas” não vieram. Ainda que Temer conseguiu se segurar no poder com a compra de votos e a aprovação das leis que destruíram a CLT. Mas foi só.
Diante do fracasso deste plano e da ascensão da extrema-direita, a aposta foi renovar a dobradinha que tinha dado certo no final dos anos 20 e dos anos 30, na Europa. Um autoritário insano e ignorante “apoiado” por liberais, a privatizarem tudo o que tinha pela frente. Aos que não sabem, Hitler foi um privatizador contumaz nos seus primeiros anos de governo. Ao contrário do que fazia o resto da Europa, o nazista chegou a privatizar serviços básicos de água e esgoto em algumas cidades alemãs. A aposta da época era que o populismo insano de Hitler se dobraria ao capital e a regra do “lucro pelo lucro” mandou os capitalistas seguirem em frente com o apoio ao nazismo.
(…) Bolsonaro será descartado como fralda plástica de bebê. Pesado de “cocô e xixi”. Sem serventia. Ele e os filhos. O mercado, que é o cérebro por trás de tudo, já viu que o custo-capitão é altíssimo. Cada asneira dele ou dos filhos e o PIB cai. Cada insanidade dita em linguagem de latrina pública pelo “guru” de Richmond e investidores se afastam. Ninguém, de qualquer espectro político, atura um indigente mental no comando de um país. Especialmente um país do tamanho do Brasil.
Ocorre que Bolsonaro ainda é necessário até a aprovação das reformas. É ele que precisa ser queimado na pira da opinião pública para que o “mercado” atinja seus objetivos. E a escolha foi mais que perfeita. Nenhum político com alguma inteligência aceitaria este papel. Bolsonaro nunca mais será eleito para nada, seus filhos serão escorraçados e até o exército já se deu conta que pode ser tragado neste buraco negro de impopularidade.
(…) Assim que aprovar as reformas, Bolsonaro cai. Mourão assume com o lustro dos coturnos e o tilintar dos fuzis. O Brasil será “pacificado” da mesma forma que foi com o Duque de Caxias, no século XIX. Quem não se adaptar morre. Fuzilado, se for preciso.
O mercado ficará feliz. O Capitão, não. É exatamente isto que seus filhos, dois milímetros mais inteligentes que o pai, estão preocupados. Duvido que eles consigam entender o que está acontecendo, mas estão ouvindo o “zumbido do mosquito”. Seria interessante eles lerem a biografia de Mussolini, especialmente a parte final dela. Assim saberiam o que acontece com líderes fascistas quando o capital lhes abandona a retaguarda.
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LINKS PARA A ÍNTEGRA DOS TEXTOS
1 – Leia a entrevista da socióloga Sabrina Fernandes em Carta Capital. 11 de maio de 2019
https://www.cartacapital.com.br/?p=71515 | Twitter de Sabrina Fernandes: @safbf
2 – “ EU + UM + UM + UM+ | A responsabilidade de cada um na luta contra a destruição do Brasil”, artigo da jornalista e escritora Eliane Brum no EL PAÍS em 16 de maio de 2019. Twitter de Eliane Brum : @brumelianebrum
https://brasil.elpais.com/brasil/2019/05/15/politica/1557921007_146962.html
3 – Artigo Sobre o ‘marxismo cultural’ publicado em 15 de maio n’O Globo.
https://oglobo.globo.com/opiniao/sobre-marxismo-cultural-23665833
4 – “Bolsonaro, o descartável”, artigo do historiador e mestre em Relações Internacionais Fernando Hora. | Twitter de Horta: @FernandoHortaOf