
FOTO: FRANCISCO PRONER | FARPA FOTOCOLETIVO
Eu não estou acima da Justiça. Se eu não acreditasse na Justiça eu não tinha feito um partido político. Eu tinha proposto uma revolução nesse país. Mas eu acredito na Justiça. Numa Justiça justa. Numa justiça que vota um processo baseado nos autos do processo, baseado nas informações das acusações, das defesas, na prova concreta que tem a arma do crime.
O que eu não posso admitir é um procurador que fez um Power Point e foi para a televisão dizer que o PT é uma organização criminosa que nasceu para roubar o Brasil. E que o Lula, por ser a figura mais importante desse partido, o Lula é o chefe. E portanto, se o Lula é o chefe, diz o procurador: “eu não preciso de provas, eu tenho convicção”. Eu quero que ele guarde a convicção dele para os comparsas deles, para os asseclas deles e não para mim. Não para mim. Certamente um ladrão não estaria exigindo provas. Estaria de rabo preso, de boca fechada, torcendo para a imprensa não falar o nome dele.
Eu tenho mais de 70 horas de Jornal Nacional me triturando. Eu tenho mais de 70 capas de revista me atacando. Eu tenho mais de milhares de páginas de jornais e matérias me atacando. Eu tenho mais a Record me atacando. Eu tenho mais a Bandeirantes me atacando. Eu tenho mais as rádios do interior, rádios de outros estados. E o que eles não se dão conta é que quanto mais eles me atacam, mais cresce a minha relação com o povo brasileiro.
Eu não tenho medo deles. (…) E eu, às vezes, tenho a impressão e tenho a impressão porque eu sou um construtor de sonhos, eu há muito tempo atrás, eu sonhei que era possível governar esse país envolvendo milhões e milhões de pessoas pobres na economia, envolvendo milhões de pessoas nas universidades, criando milhões e milhões de empregos nesse país. Eu sonhei que era possível um metalúrgico, sem diploma da universidade, cuidar mais da educação do que os diplomados e concursados que governaram esse país e cuidar da educação. Eu sonhei que era possível a gente diminuir a mortalidade infantil, levando leite, feijão e arroz para que as crianças pudessem comer todo dia. Eu sonhei que era possível pegar os estudantes da periferia e colocá-los nas melhores universidades desse país para que a gente não tenha, para que a gente não tenha juízes e procuradores só da elite. Daqui a pouco nós vamos ter juízes e procuradores nascidos na favela de Heliópolis, nascido em Itaquera, nascido na periferia. Nós vamos ter muita gente dos Sem Terra, do MTST da CUT formada. Esse crime eu cometi. Eu cometi e é esse crime que eles não querem que eu cometa mais. É por conta desse crime que já tem uns dez processos contra mim. E se for por esse crime de colocar pobre na universidade, negro na universidade, pobre comer carne, pobre comprar carro, pobre viajar de avião, pobre fazer sua pequena agricultura, ser microempreendedor, ter sua casa própria. Se esse é o crime que eu cometi, eu quero dizer: eu vou continuar sendo criminoso nesse país porque vou fazer muito mais. Vou fazer muito mais.
(…) Pois bem, nós agora estamos num trabalho delicado. Eu talvez viva o momento de maior indignação que um ser humano vive. Não é fácil o que sofre a minha família. Não é fácil o que sofrem os meus filhos. Não é fácil o que sofreu a Marisa e eu quero dizer que a antecipação da morte da Marisa foi a safadeza e a sacanagem que a imprensa e o Ministério Público fizeram contra ela. Tenho certeza. Porque essa gente eu acho que não tem filho, não tem alma e não tem noção do que sente uma mão ou um pai quando vê um filho massacrado, quando vê um filho sendo atacado. E eu, então, companheiros, resolvi levantar a cabeça.
Não pensem que eu sou contra a Lava Jato, não. A Lava Jato, se pegar bandido, tem que pegar bandido mesmo, que roubou, e prender. Todos nós queremos isso. Todos nós, a vida inteira, dizíamos, só prende pobre não prende rico. Todos nós dizíamos. E eu quero que continue prendendo rico. Eu quero. Agora, qual é o problema? É que você não pode fazer julgamento subordinado à imprensa, porque no fundo, no fundo, você destrói as pessoas na sociedade, na imagem das pessoas e depois os juízes vão julgar e falam: “eu não posso ir contra a opinião pública porque a opinião pública está pedindo para cassar”. Quem quiser votar com base na opinião pública, largue a toga e vá ser candidato a deputado. Escolha um partido político e vá ser candidato. (…)
Pois bem, eu acho que tanto do TRF4 quanto Moro, a Lava Jato e a Globo, elas têm um sonho de consumo. O sonho de consumo é que, primeiro, o golpe não terminou com a Dilma. O golpe só vai concluir quando eles conseguirem convencer que o Lula não possa ser candidato a Presidente da República em 2018. Eles não querem, não é porque eu vá ser eleito. Eles não querem que eu participe. Apenas porque existe a possibilidade de cada um de nós se eleger. Eles não querem o Lula de volta porque pobre, na cabeça deles, não pode ter direito. Pobre não pode comer carne de primeira. Pobre não pode andar de avião. Pobre não pode fazer universidade. Pobre nasceu, segundo a lógica deles, para comer e ter coisas de segunda categoria.
Então, companheiros e companheiras, o outro sonho de consumo deles é a fotografia do Lula preso. Eu fico imaginando a tesão da Veja colocando a capa minha preso. Eu fico imaginando a tesão da Globo colocando uma fotografia minha preso. Eles vão ter orgasmos múltiplos.
Eles, eles decretaram a minha prisão. E deixa eu contar uma coisa pra vocês: eu vou atender o mandado deles. E vou atender porque eu quero fazer a transferência de responsabilidade. Eles acham que tudo que acontece neste país acontece por minha causa. Eu já fui condenado a 3 anos de cadeia porque um juiz de Manaus entendeu que eu não preciso de arma, eu tenho uma língua ferina, então era preciso fazer o Lula calar, porque se ele não calar, ele vai continuar falando frases como eu falei: “está chegando a hora da onça beber água” e os camponeses mataram um fazendeiro e eles acharam que essa frase minha era a senha.
O que que eu quero transferir de responsabilidade? Eles já tentaram me prender por obstrução de justiça, não deu certo. Eles agora querem me pegar numa prisão preventiva, que é uma coisa mais grave, porque não tem habeas corpus. O Vaccari já tá preso há três anos. O Marcelo Odebrecht gastou 400 milhões e não teve habeas corpus. Eu não vou gastar um tostão. Mas eu vou lá com a seguinte crença: eles vão descobrir, pela primeira vez, o que eu tenho dito todo dia. Eles não sabem. Eles não sabem que o problema deste país não chama-se Lula, o problema deste país chama-se vocês, a consciência do povo, o Partido dos Trabalhadores, o PCdoB, o MST, o MTST, eles sabem que tem muita gente. E aquilo que a nossa pastora diz, e eu tenho dito todo discurso, não adianta tentar evitar que eu ande por este país, porque tem milhões e milhões de Lulas, de Boulos, de Manuela, de Dilma Rousseff para andar por mim. Não adianta tentar acabar, sabe, com as minhas ideias, elas já estão pairando no ar e não tem como prendê-las. Não adianta tentar parar o meu sonho, porque quando eu parar de sonhar, eu sonharei pela cabeça de vocês e pelos sonhos de vocês. Não adianta achar que tudo vai parar o dia que o Lula tiver um enfarte, é bobagem, porque o meu coração baterá pelo coração de vocês e são milhões de corações.
Não adianta eles acharem que vão fazer com que eu pare, eu não pararei porque eu não mais sou um ser humano, sou uma ideia, uma ideia misturada com a ideia de vocês, e eu tenho certeza que companheiros como os sem-terra, o MTST, os companheiros da CUT e do movimento sindical sabem, e esta é uma prova, esta é uma prova, eu vou cumprir o mandado e vocês, vocês vão ter que se transformar, cada um de vocês, vocês não vão mais se chamar Chiquinha, Joãozinho, Zezinho, Albertinho. Todos vocês, daqui pra frente, vão virar Lula e vão andar por este país fazendo o que você tem que fazer. E é todo dia! É todo dia! Eles têm que saber que a morte de um combatente não para a revolução. Eles têm que saber. Eles têm que saber que nós vamos fazer, definitivamente, uma regulação dos meios de comunicação para que o povo não seja vítima das mentiras todo santo dia. Eles têm de saber que vocês, quem sabe, são até mais inteligentes do que eu, e poderão queimar os pneus que vocês tanto queimam, fazer as passeatas que tanto vocês queiram, fazer as ocupações no campo e na cidade. Parecia difícil a ocupação de São Bernardo, e amanhã vocês vão receber a notícia de que ganharam o terreno que vocês invadiram.
Portanto companheiros, eu tive chance agora. Eu estava no Uruguai, entre Livramento e Rivera, e as pessoas diziam assim: “Lula, você dá uma voltinha ali. É só atravessar a rua. Finge que vai comprar um ‘‘uisquizinho’’, você está no Uruguai com o Pepe Mujica e vai embora e não volta mais, pede asilo político. Ô Lula, você pode ir na embaixada da Bolívia, você pode ir na embaixada do Uruguai. Ô Lula, vai na embaixada da Rússia. Ô Lula vai na embaixada, de lá você fica falando.”
Eu falei: “eu não tenho mais idade”. Minha idade é de enfrentá-los de olho no olho e eu vou enfrentá-los aceitando, aceitando cumprir o mandado. Eu quero saber quantos dias eles vão pensar que tão me prendendo e quantos mais dias eles me deixarem lá, mais lulas vão nascer neste país e mais gente vai querer brigar neste país, porque a democracia, a democracia não tem limite, não tem hora para a gente brigar. Por isso eu estou fazendo uma coisa muito consciente, mas muito consciente. Eu falei para os companheiros: se dependesse da minha vontade eu não iria, mas eu vou porque eles vão dizer a partir de amanhã que o Lula tá foragido, que o Lula tá escondido. Não! Eu não estou escondido, eu vou lá na barba deles para eles saberem que eu não tenho medo, para eles saberem que eu não vou correr e para eles saberem que eu vou provar minha inocência. Eles têm que saber disso. E façam o que quiserem. Façam o que quiserem.
Eu vou terminar com uma frase que eu peguei em 1982 de uma menina de 10 anos em Catanduva, que eu não sei quem é, e essa frase não tem autor. A frase dizia: “os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a chegada da primavera”. E a nossa luta é em busca da primavera. Eles tem de saber que nós queremos mais casa, mais escola, nós queremos menos mortalidade, nós não queremos repetir a barbaridade que fizeram com a Marielle no Rio de Janeiro. Não queremos repetir a barbaridade que se faz com meninos negros nas periferias desse país. Não queremos mais que volte a desnutrição, a mortalidade por desnutrição neste país. Não queremos mais que um jovem não tenha esperança de entrar numa universidade, porque este país é tão cretino, que ele foi o último país do mundo a ter uma universidade. O último! Todos os países mais pobres tiveram, porque eles não queriam que a juventude brasileira estudasse. E falaram que custava muito fazer escola. É de se perguntar quanto custou não fazer há 50 anos atrás.
Então, eu quero que vocês saibam que eu tenho orgulho, profundo orgulho, de ter sido o único Presidente da República sem ter um diploma universitário, mas sou o Presidente da República que mais fiz universidade na história deste país para mostrar para essa gente que não confunda inteligência com a quantidade de anos na escolaridade. Isso não e inteligência, é conhecimento. Inteligência é quando você sabe tomar decisão. Inteligência é quando você tem lado. Inteligência é quando você não tem medo de discutir com os companheiros aquilo que é prioridade, e a prioridade desse país é garantir que este país volte a ter cidadania. Não vão vender a Petrobras! Vamos fazer uma nova constituinte! Vamos revogar a lei do petróleo que eles tão fazendo! Não vamos deixar vender o BNDES, não vamos deixar vender a Caixa Econômica, não vamos deixar destruir o Banco do Brasil! E vamos fortalecer a agricultura familiar, que é responsável por 70% do alimento que nós comemos neste país.
(…) Então, companheiros, eu vou dizer uma coisa a vocês, vocês vão perceber que eu sairei dessa maior, mais forte, mais verdadeiro e inocente porque eu quero provar que eles cometeram um crime, um crime político de perseguir um homem que tem 50 anos de história política, e por isso eu sou muito grato, eu não tenho como pagar a gratidão, o carinho e o respeito que vocês têm dedicado por mim nesses tantos anos, quero dizer a você, Guilherme e a Manuela, quero dizer a vocês dois, para mim é motivo orgulho pertencer a uma geração que está no final dela vendo nascer dois jovens disputando o direito de ser Presidente da República deste país. Por isso, companheiros, uma grande abraço, pode ficar certo que esse pescoço aqui não baixa minha mãe já fez o pescoço curto para ele não baixar e não vai baixar porque eu vou de cabeça erguida e vou sair de peito estufado de lá porque vou provar a minha inocência. Um abraço, companheiros. Obrigado, mas muito obrigado a todos vocês pelo que vocês me ajudaram.
Um beijo queridos e muito obrigado!
Luiz Inácio Lula da Silva, 7 de abril de 2018