Por um feminismo que ouça Mallu antes
Por um feminismo que ouça Mallu antes
Sabe feminismo? Eu tô com a visão da autora deste artigo sobre feminismo.
7 de abril: Dia Nacional d@s Jornalistas
Hoje este blog completa 2 anos. Nasceu na Rua Conde de Bonfim, na Usina, caminho para o Alto da Boa Vista, no Rio de Janeiro e continua, da Região Metropolitana de Porto Alegre, falando para seus 17 leitores — Verissimo, mais uma que te copio. Quando eu comecei em redação de jornal diário, em 1995, a maioria dos colegas eram homens e de Esquerda. Em 2015, a maioria das redações é formada por mulheres (e isso é bom!) mas houve, pela pressão patronal ou pela ideologia em si mesma, uma guinada para a Direita. Verifiquei, na virada do milênio, uma virada também nos propósitos de quem cursava Jornalismo na Universidade. A busca idealista deu lugar, de maneira geral, à busca pelo “glamour” da telinha. A teoria da comunicação, a ética e sociologia perderam espaço para o treinamento técnico que deixava as peças novas prontas pra entrar direto na engrenagem de moer gente da mídia comercial e de massas.
Em duas décadas na lida profissional do Jornalismo, não acredito em “crises”. O sistema capitalista faz das crises seu modus operandi. Portanto, os passaralhos, como o anunciado pelo Estadão nesta semana, estão na estrutura do negócio. Por anos, consegui conciliar a prática diária do jornalismo com a minha militância cidadã por políticas públicas inclusivas, pela cidadania, pelos Direitos Humanos, por transparência e ética na política. Em duas palavras, pela Esquerda. Conceito tão cinicamente rebaixado pela maioria dos profissionais de comunicação do “mercado” que se iludem chamando o patrão de “colega”.
O Jornalismo que pratiquei e pratico, em mídia impressa, televisão e na imprensa sindical, fez com que eu nunca deixasse portas entreabertas, parafraseando Cecília Meireles. Ou as escancarei ou as bati de vez. Como disse a poeta, “pelos vãos, brechas e fendas, passam apenas semiventos, meias verdades e muita insensatez”.
A internet, cujo aparecimento no Brasil se deu com início efetivo da minha sobrevivência como jornalista, em meados da década de 90, é o grande alento e a grande notícia desses anos de agruras e alturas. A web me arrancou da letargia dos “empregados”, sacudiu o comodismo assalariado travestido de fidelidade “aos projetos” dos outros e impôs o desafio de criar minha própria audiência. As mídias digitais e as redes sociais foram mais revolucionárias do que as teses políticas e as verdades pré-fabricadas. Adiante!
Crítica demolidora à tragédia nacional chamada Grupo Globo
JOSÉ CARLOS DE ASSIS é jornalista e economista, doutor em Engenharia de Produção pela Coppe/UFRJ, autor de mais de 20 livros sobre a Economia Política brasileira, dos quais o último é “A Razão de Deus”. No dia 16 de março de 2015, publicou na Carta Maior um artigo em que eviscera o modus operandi do Departamento de Jornalismo da Rede Globo de Televisão. Para Assis, este é o exato momento político em que se deve dividir o monopólio da Globo para fomentar um novo jornalismo para o Brasil. Há 51 anos, vivemos histeria midiática semelhante. Não havia a TV Globo, mas ao se completar um ano de golpe midiático-civil-militar, em 1965, Roberto Marinho pôde estrear sua TV – que fazia parte do projeto golpista.
A Globo caminha para a quebra. Se isso acontecer será culpa quase exclusiva de seu Departamento de Jornalismo. É que se alguém quiser se aproveitar da situação para comprar a Globo encontrará a seu favor o mais arrogante, mais pretensioso, mais insolente grupo de “formadores de opinião” como nunca se viu antes na história deste país, e com poderes ilimitados. Isso porque os donos são ausentes ou incompetentes, e nada trava a libertinagem televisiva e jornalística que se enfia goela baixo do cidadão daqui e do exterior, todos os dias, num exercício jamais observado de manipulação política pela via da emoção.
Há dois patamares no caminho da Globo para o fracasso. O primeiro é o Jornal Nacional, ligeiramente mais discreto na sua cruzada diária pela desinformação. Conduzido por William Bonner, que lembra um propagandista de sabonete, traz sempre uma mistura bem preparada de fatos e emoção direcionada para a busca de telespectadores a qualquer custo, mesmo quando esse custo significa subverter a verdade. A distorção a favor dos ricos é limitada apenas pelo medo de perder audiência no horário nobre, na medida em que grande parte dela é de famílias pobres beneficiárias dos programas sociais do PT.
É no Jornal da Globo, contudo, que os noticiaristas e comentaristas da Globo saem do armário. Aí a manipulação da opinião pública passa a ser um jogo aberto. Começa com a figura burlesca de William Wack anunciando todas as pragas do Egito sobre o Brasil. Ele tem, como o JN, prazer em noticiar tragédias, coisas que comovem. Mas, com muitos graus de emoção sobre o Jornal Nacional, despeja na audiência, formada sobretudo por gente de classe média que não tem compromisso com horário no dia seguinte, o que essa audiência enviesada quer ouvir na sua sanha lacerdista de apelos hipócritas contra a corrupção.
Mas William Wack é um casca grossa: manipula o noticiário de acordo com suas preferências pessoais, acrescentando ao sabor da notícia deformada esgares de palhaço de circo. Cabe a Sardenberg um papel aparentemente mais sutil, como me observou Jânio de Freitas, o maior jornalista político do Brasil em atividade, já que ele é mais venenoso por divulgar os conceitos da economia política favoráveis aos ricos dentro de uma carcaça insidiosa de neutralidade técnica, como todo bom charlatão. Ele agrada aos poderosos e ao mesmo tempo engana os pouco pobres que resistem a assistir a tevê até de madrugada.
O Jornal da Globo tem, portanto, uma interação intelectual e moral afetiva com ricos e poderosos. Sua eficácia, conforme Marx, está no fato de que a ideologia da sociedade é a ideologia da classe dominante. Quando a classe dominante dispõe inteiramente da mídia, sem concorrência – porque, no campo da ideologia, a quase totalidade dos maiores jornais, revistas e tevês está do lado e de mãos dada com uma direita sórdida e indiferente aos destinos da sociedade -, o campo político fica inteiramente aberto, inclusive para golpes brancos.
Poderia continuar enchendo laudas e laudas de adjetivos contra a dupla do Jornal da Globo e contra outra dupla igualmente perniciosa para a democracia, os comentaristas do jornal Globo Míriam Leitão e Merval Pereira. Este não merece muita tinta, porque é apenas ignorante – na acepção semântica da palavra. Míriam, porém, como Sardenberg, é astuta. Passa a ideia de que sabe economia, quando o que realmente sabe é identificar economistas de direita, como ela, e dar-lhes espaço franco em sua coluna diária e sórdida na Globo News.
O noticiário econômico brasileiro, de jornal e de tevê, está dominado por entrevistas e artigos de economistas de banco. Galbraith, com sua fina ironia, dizia que não se sentia à vontade para acreditar em opiniões econômicas de quem tem interesse próprio em jogo. A rede Globo e os jornalões, assim como as revistas semanais (exceto Carta Capital), apoia seu noticiário econômico em economistas de banco com o maior descaramento. Assim, são os economistas de banco que estão fazendo a cabeça de milhões de brasileiros sobre economia.
Trabalhei anos na editoria econômica do Jornal do Brasil, de que fui subeditor, e jamais entrevistei um economista de banco. Trabalhei anos como repórter econômico da Folha de S. Paulo e jamais entrevistei, para publicação, um único economista de banco. Agora são esses economistas que dominam o noticiário econômico com seus próprios interesses. Acaso é esse tipo de liberdade de expressão e de opinião publicada que interessa ao Brasil? Ou é o momento em que se deve pensar em dividir o monopólio do Globo e fomentar um novo jornal no Rio para o Brasil?
P.S. Não é do meu estilo fazer ataques pessoais. Entretanto, o Sistema Globo foi dividido em três capitanias, uma para cada herdeiro, e as capitanias em sesmarias, cada uma sob o comando de um jornalista no caso do Departamento de Jornalismo. Assim, não adianta falar, quando se trata de formação de ideologia, de um sistema global. É preciso identificar pessoalmente os donos das sesmarias jornalísticas, como procurei fazer. Não fosse tão grande o Sistema Globo, amainaria minhas críticas. Como é grande demais, e eu muito pequeno, pode perfeitamente suportar o choque!
Breve nota sobre o encontro com Flávio Koutzii e Raul Pont
Na enluarada noite de 5 de março, mais de 200 pessoas, a maioria militantes do PT, estiveram reunidas com os ex-deputados Flávio Koutzii e Raul Pont no Sindicato dos Bancários de Porto Alegre. O tema muito apropriamente sugerido para o debate era “Em defesa da democracia, contra a tentativa de golpe”. A transmissão online do evento teve outros 600 e tantos acessos em suas duas horas de duração. Admito que cheguei aolocal imaginando que encontraria nos participantes o mesmo espírito de unidade e foco parecidos com os que tivemos durante a última eleição, há menos de seis meses, quando os rancores e as mágoas inter-correntes foram deixados em segundo plano em nome da luta maior: reconquistar o governo federal e garantir a continuidade de mais mudanças. A ordem era, até outubro, “Muda Mais”.
Diante do bombardeio midiático sem trégua que o governo federal, em geral, e o PT, em particular, vêm sofrendo e diante da campanha de ódio que recrudesceu também no último semestre, acreditei que o tema proposto [“Em defesa da democracia, contra a tentativa de golpe”] pudesse ao menos alinhar desejos, condutas e intervenções. O vídeo cujo link está no primeiro comentário deste post é onde o tema do debate foi melhor discutido. Evidentemente, Koutzii e Raul, da mesa, tocaram en passant no assunto. A tônica do encontro, contudo, foi a crítica interna aos métodos do partido, de sua tendência majoritária e de suas principais lideranças – na ativa ou não. Ou seja, mais um exercício coletivo da velha vocação autofágica e fratricida. É evidente que o acirrado debate interno, o direito de corrente, a crítica do partido ao governo engrandecem o PT – construído na luta e na disputa constante.
Por outro lado, nos falta foco em momentos cruciais. Somos golpeados na cabeça pela mídia, pelos rentistas, pela direita partidária, pelo conservadorismo de cunho religioso-fundamentalista e, enquanto isso, olhamos para o próprio umbigo. E brigamos com ele num comportamento autista. O que não tinha visto durante a campanha, constatei com tristeza ontem: agressividade desmedida e locuções centrífugas ao tema do debate; capacidade inigualável de colar rótulos na testa de qualquer um que divirja de suas ideias, afinal, “se eu não entendo as razões ou tenho preguiça para o debate, é melhor classificar logo o outro como ‘inimigo'”; a crítica pontual substituída pela bronca generalizada.
Foi uma reunião importantíssima e revelou uma demanda reprimida, uma militância sequiosa do debate e precisando de catarse. Por isso, foi positivo, muito positivo. Afinal, é proibido calar catarses.
Bial, em 1996 e no Reino Unido, sobre a regulação da mídia: “This is democracy…”
Tomei uma decisão já tem meia dúzia de anos mas só agora, em 2015, estou conseguindo cumprir de boa: não publicar nenhum comentário e não entrar em nenhuma polêmica sobre o BBB. Portanto, não é sobre o reality show que quero falar ao mencionar Bial. É que a piada dos inteligentes Marcius Melhem e Marcelo Adnet com ele, na última quinta-feira na estreia do Tá no Ar (a melhor produção de humor da TV brasileira desde o TV Pirata, na minha opinião), pareceu o momento mais fraco da nova temporada. Explico: virou chavão rirem do Pedro Bial devido aos discursos que faz para o BBB, em especial para os dias de eliminação de participantes – o senso comum o considera “incompreensível”. Tenho pena do senso comum. Nos anos em que eu acompanhei o BBB, os discursos do Bial foram bons momentos do programa – vez ou outra rivalizando com as charges (ou crônicas) eletrônicas do Maurício Ricardo, outro talento que a Globo fagocitou, como fez com o Adnet mais recentemente.
Bial é um poeta. Ou um perseguidor da poesia, como ele se autodefine no livro “Crônicas de Repórter” [Ed. Objetiva, 1996]. Comprei este livro à época do lançamento porque já considerava Pedro Bial o melhor texto da TV brasileira. A questão não era concordar ou discordar do funcionário da Globo mas conhecer histórias de um “colega” que tinha estado oito anos como correspondente internacional da quarta maior rede de televisão do mundo.
Hoje, tirei este volume da prateleira ainda incomodado com a pasteurização do texto televisivo e, pior, com a normalidade com que criticam quem escreve bem ou de forma lírica na TV. [Na música, acontece o mesmo com Djavan, um grande poeta que virou piada pelo suposto hermetismo de suas letras.] Bial, como Djavan, não é indecifrável nem hermético – é apenas letrado.
E esta não é uma defesa, até porque os poetas (e as estrelas da Globo) não carecem disto. Eu quero é reproduzir um pequeno trecho da página 31 de “Crônicas de Repórter”, de 19 anos atrás, em que Bial comenta sobre a regulação da mídia no Reino Unido. Para os mais jovens, em especial militantes partidários e ativistas de esquerda, Pedro Bial pode encarnar “O MAL”. Afinal, além de participar do Instituto Millenium [equivalente em 2015 ao que foram o Ibad e o Ipes, em 1964], ele também cometeu a biografia laudatória daquele crápula chamado Roberto Marinho.
Para mim, na década de 90, Bial além de ser um bom repórter de TV, tinha o “qualificativo” de ser filho de imigrantes alemães comunistas – que chegaram no Brasil fugindo do Partido Nazista. Só que uma coisa era ler o trecho abaixo escrito sobre o Reino Unido em meados dos anos 90 e, outra, é lê-lo agora. Parece coisa de ativista pela democratização da mídia no Brasil. Lá vai:
Ah! E como as concessões das emissoras privadas são renováveis a cada seis anos, a ITV, a Televisão Independente daqui, também levou uma bronca pública.
Desta vez, foi por causa de uma entrevista conduzida por seu mais ilustre âncora, o negro Trevor Mac’Donald, com o primeiro-ministro John Major. A autoridade independente de televisão, que fiscaliza as programações, acusou Mac’Donald de ter sido frouxo e subserviente a Major e afirmou que a ITV ofereceu horário político gratuito ao Partido Conservador.
Já imaginaram isso no Brasil? Um órgão de fiscalização mantido pelo Estado, advertindo uma emissora de tevê por causa da conduta pouco firme de seu repórter diante da máxima autoridade do país?
This is democracy…”
Que ironia, não é mesmo? Hoje não apenas “imaginamos” como lutamos por uma “autoridade independente de televisão” que “advirta” quem faz proselitismo político-ideológico em concessão pública de rádio e de TV. Já o Bial… bem, além do BBB, é do Instituto Millenium – que prega exatamente o contrário. Na moral.
A CINZA DAS HORAS
Desencanto
Eu faço versos como quem chora
De desalento… de desencanto…
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente…
Tristeza esparsa… remorso vão…
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
– Eu faço versos como quem morre.
Teresópolis, 1912
MANUEL BANDEIRA
Programação Carnaval 2015
Um grande guia do carnaval do Rio. Trabalho árduo, suado e de quem conhece por dentro a dinâmica dos melhores blocos.

Ta aí o que você queria… Mais uma vez preparei uma programação pegada para o meu/nosso carnaval com algumas dicas…
Tinha até escrito dicas de segurança, vestuário e fantasia, mas devido a problemas com o wordpress eu perdi tudo e não estou afim de escrever outra vez.
E, mais uma vez, uma programação pop-cult-locurage-bacaninha, que modestamente este folião prepara.
No último ano fizemos uma inovação, colocando uma programação com várias alternativas, que se manteve.
Seguem as dicas:
SEXTA/TARDE:
SAMBA*: Carmelitas/Almirante Alexandrino (em frente ao CEAT em direção ao cristo) – 15h as 19h – Sta. Tereza. Bloco tradicional quediminuiu com a mudança de local da concentração. O ideal é ficar entre o Carro principal e o carro de apoio da frente. Subir pelo Cosme Velho!
NÃO IR: Bloco dos Aposentados – Tipo Bloco de tiazona e do Vovô.
SEXTA/NOITE:
SAMBA: Bloco Rival sem Rival/Rua Alvaro Alvim em frente ao Rival na cinelândia…
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Dilma, a democracia e o Estado: alguns silêncios
A jornalista Conceição Oliveira republicou no seu blog Maria Frô, da Revista Fórum e eu, aqui, republico outra vez o texto do professor Piero Eyben. Tomo a liberdade de copiar a introdução de Maria Frô ao texto e os grifos também são dela.
“Republico um texto acadêmico,do professor Piero Eyben. Texto reflexivo que merece ser lido com calma, paciência. Sei que em tempos de rede textos densos estão fadados a serem desprezados. Mas aqueles que dedicarem algum tempo à leitura e reflexão tendem a ganhar com isso.
Piero Eyben é poeta, tradutor e professor adjunto2 de Teoria da Literatura da Universidade de Brasília (UnB). Coordenador do grupo de pesquisa Escritura, Linguagem e Pensamento. Editor-chefe da revista de literaturaO mutum – revista de literatura e pensamento. Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Literatura (TEL/UnB), Brasília, Distrito Federal, Brasil. Seu email: pieroeyben@gmail.com.
PS. O negrito no texto original são meus.”
Dilma, a democracia e o Estado: alguns silêncios
Por Piero Eyben, em seu blog
09/02/2015
Nos últimos dias, aliás, desde as eleições presidenciais que tivemos no ano passado, reina entre os brasileiros midiatizados a sensação, colocada pelos “honestíssimos” jornalistas da Folha de SP, da Globo, da Editora Abril, do UOL, do PSDB e por aí vai, a onda desesperada para a retirada da Presidente da República e a cobrança sobre seus eleitores de uma postura (contrária, sempre) diante de escândalos igualmente midiatizados e bombasticamente preparados. As acusações são de todo nível. As cobranças ainda piores. Até o momento, no entanto, nada que atinja a presidenta nada que atinja o processo eleitoral nada que atinja a escolha da maioria dos brasileiros que votaram na realidade transformada do país. O nível dessa transformação pode e deve ser questionado, claro. Aliás, é de fundamental importância questioná-lo uma vez que a desigualdade ainda permanece, o anseio por mais e novos direitos nunca foram tão urgentes, ainda há fome e miséria no país, o índice “governabilidade” ainda é uma prática desastrosa no seio do governo (vide Kátia Abreu, Joaquim Levy, George Hilton, e ainda, a derrota na Câmara dos Deputados para um PMDB cada vez mais retrógado, dos mais obscuros recônditos da política suja e preconceituosa, personificado pelo agora Presidente da Casa). O índice de transformação também deve ser pensado de modo positivo dado o avanço em diferentes áreas em que as políticas sociais puderam fazer diferença, com todos os programas de Assistência Social e Distribuição de Renda, na geração de Empregos (que, aliás, é um dos índices aporéticos do Governo que tem a menor taxa de desemprego da história e ainda sim é apontado como em estado tendente à recessão, com a necessidade de medidas impopulares e cortes criados por essa tal governabilidade que tanto maltratada a ideologia de formação de um Estado com necessidades evidentes), na consolidação dos processos educacionais (que ainda não atingiram os números esperados, mas que o nível de investimento auxiliou nesses 12 anos uma transformação em curso, na formação docente, na distribuição de vagas nas Instituições de Ensino Federais, na procura por diversidade sócio-étnico-racial para uma esperada reviravolta nos saberes praticados por aqui).
Até hoje estive, como muitos eleitores de Dilma, em silêncio não porque tenha me arrependido ou me envergonhado de meu voto, como querem muitos. Estive calado por dois motivos: (1) não tenho tempo MESMO para essas picuinhas criadas por factoides de jornalecos ou de “políticos” apolíticos; (2) deixar que o barco siga o seu curso na história. Bem, penso que a hora não permite mais simplesmente se manter calado. O silêncio guarda aquilo que é a própria democracia – naquilo inclusive que ela tem de mais doentio: sua autodestruição. O direito democrático é um direito literário, como dizia Derrida, de tudo dizer e de nada dizer. Ali onde a possibilidade de se calar é ainda uma possibilidade é que se instala o perigo do silêncio, do silenciamento, da opressão, da calúnia também. O poder democrático é um poder SEM, um poder negativo em que a não-restrição ao dizer implica a possibilidade de tudo dizer, inclusive o apoio ao que não é democrático, inclusive apontar para uma não-democracia, para o não reconhecimento da democracia. Como diz ainda Derrida, a democracia como tal simplesmente é impossível, ela está sempre por vir. O que temos aí é uma espécie de “democracia calculada”, de um espectro democrático que, no entanto, politiza pouco e emburrece muito. Temos aí uma democracia do direito, uma democracia de soberania e de poder que, no fundo, é sempre anti-democrática, autoritária e que, como diz Walter Benjamin, representa apenas uma “degenerescência do direito, da violência, da autoridade e do poder do direito”. Não posso me privar de frequentar o impossível da democracia, naquilo que ela tem de porvir, naquilo que ela manifesta enquanto reenvio infinito à ideia de liberdade, aos princípios de uma tomada de decisão na tentativa não violenta diante do outro – de todo e qualquer outro.
O princípio regulador do Estado democrático tem na voz do povo, instituída por meio de eleições, no princípio representativo, portanto, sua força. Dupla força: de um lado, a força do povo contra os abusos do estado, da soberania, das classes; de outro, a força contrária, coercitiva, maledicente, imposta na razão do mais forte, nas simbologias dos opressores. Dupla violência, duplo direito. O sistema representativo mostra-se sempre limitado e limitador, sempre ao lado de interesses imediatos e mediados por formas espúrias daquilo que se costumou erroneamente chamar de política. Essa mediação nos é dada pelas fontes de “saber” de massa, que exercem real poder violento de Estado, da forma que sirva aos modos legados por grandes corporações, por 2 ou 3 % da população que controla o dinheiro. Essa regulação do sentido do Estado é extremamente perigosa e perversa, uma vez que, sob o pretexto de informar, vendem produtos. E o produto à venda no momento – ao menos para aqueles que citei mais acima – é a Petrobras. Importam pouco os dados e os vestígios que encontrará a Polícia Federal, a imprensa já deu sua sentença, que será repetida por cada casa, nos corredores dos supermercados, nos elevadores, nas conversas das “boas famílias brasileiras”. Não interessa que a lista de políticos que receberam propina ou se enriqueceram seja majoritariamente de partidos da OPOSIÇÃO ao Governo. Não interessa que o modo de operação ridículo da petroleira tenha começado no governo de Fernando Henrique Cardoso. Haverá sempre um diretor de “cinema” para ser contratado e realizar uma minissérie – com um excelente texto, diga-se de passagem – para simplesmente associar as formas de governo atuais com a de um sociopata ficcional ou com os costumes da “família” sendo degradados por relações que são consideradas demoníacas, assombrosas e dignas de punição moral. Eh, que o século XIX ainda nem passou por aqui! Tudo isso sob a égide da autoridade absoluta do direito democrático de tudo dizer, de tudo poder dizer, sem responsabilização.
Desde as eleições, venho defendendo que as formas de justiça social não deveriam mais se basear no ideal de igualdade. Esse é um conceito fraco, inócuo e ingênuo para dizer de uma real subversão que seria necessária para responder às demandas contemporâneas, às trevas do contemporâneo. A guinada mais à esquerda que o Partido dos Trabalhadores precisaria fazer talvez não consiga realizar. Virar-se ainda mais para os chamados “grupos de minorias”, que não são nem mesmo a minoria. Não cultuando a igualdade entre os cidadãos – outra figura fraca do direito – mas a real prática de justiça. No horizonte de uma promessa, a necessidade imperiosa de hoje é aquela do “é preciso”, da inclusão imperativa de um fazer acontecer o acontecimento. É preciso encerrar, de modo paradoxal porque nada encerra, a abertura ao outro. É preciso implicar uma desistência do sujeito, do indivíduo indivisível, do indivíduo concebido como o cerne do cidadão. O cidadão deveria ser lido como uma espécie de generalidade da divisibilidade infinita, contudo, ele é tido apenas como aquele que responde por sua individualidade diante e perante um Tribunal, às leis, ao poder instituído e às dinâmicas de repressão que ele mesmo aceita. A condição do indivíduo é ser calculado por aquilo que ele tem de especial, único e próprio. A incondição da justiça (e talvez da verdadeira cidadania) seria justo o oposto, uma incalculabilidade diante do que é preciso ser feito diante e para e por outro. É essa a guinada que, de modo amplo, poderia conter os direitos novos para uma justiça por vir. E isso talvez estivesse no horizonte do PT – do PT de seus militantes, claro, de sua cartilha, de sua história, de seu governo federal vitorioso. E isso nunca estará no horizonte de um PSDB, de um DEM, de um PMDB, de um PV etc.
Nossa vadiagem democrática, para usar uma expressão de Bush desconstruída por Derrida, talvez leve-nos àquilo que a democracia talvez não queira de forma consciente, mas que pratica no modo inconsequente. A aclamação meio ridícula pelo impeachment da presidenta – vindo dos meios mais estúpidos de uma falsa indignação, de uma suposta revolta (on line, alguns dizem inclusive) – representa o modo quase jocoso com que lidamos com assuntos sérios e como nos desviamos simplesmente dos problemas fundamentais do país. É mais sério pedir o impedimento do Poder Executivo do que, por exemplo: (1) combater os absurdos da Polícia Militar, com sua desfaçatez assassina e com os modos mais cruéis do extermínio que vem ocorrendo no Brasil; (2) responsabilizar o Estado de São Paulo por uma total falta de planejamento hídrico e florestal, por seus usos abusivos de recursos naturais; (3) discutir de modo sério as questões de abusos morais e sexuais e a violência doméstica cometidas contra mulheres; (4) compreender e nos esforçar verdadeiramente para o combate à fome e miséria; (5) combater cotidianamente essa falsa moral anti-corrupção, uma vez que no mais das vezes os maiores corruptos estão bem diante de nossos olhos, nas relações de convivência, de trabalho, de troca de capitais, no velho “jeito” que se dá nas coisas sempre para tomar ou tirar vantagem; (6) montar uma verdadeira política de assentamento e distribuição de terras, para produção agrícola que não dependa necessariamente dessa indústria do Agronegócio e, sobretudo, para a transformação cultural de assentados e trabalhadores; (7) resolver o problema de moradia que assola as principais cidades brasileiras; (8) desenvolver uma real política cultural em que cada centavo investido represente não aquilo que querem as Grandes Corporações da Indústria de Entretenimento, mas a Cultura Nacional de um modo justo; (9) garantir educação pública e de qualidade gratuitamente para todos os brasileiros em todos os níveis; (10) produzir tecnologia e saber que se converta em benefício social para o país; (11) uma reforma política que proíba de fato toda campanha suja? E poderia continuar listando ações calculáveis para uma democracia mais plena, para um Estado menos violento.
O Estado democrático é um estado formado pela voz do povo e no regime representativo que nos encontramos essa voz é transferida. Essa transferência é quase sempre problemática, tendo em vista que os representantes são oligarquicamente formados, que eles gostam de exercer o poder do Estado como um estado-de-exceção. No entanto, a voz pode ser retomada com a participação pública no debate. Retomar a voz não significa simplesmente pedir o impedimento da presidência, por interesses cada vez mais espúrios, mas fazer com que o Legislativo aja de acordo com nossa voz… Hoje, dia 09 de fevereiro, ouvimos o presidente da câmara dizer que Aborto, Direitos dos Homossexuais e Regulação da Mídia não serão votados no período de sua condução da casa. Ninguém esperava menos, ninguém esperava nada. Mas dizê-lo é dizer o que a autoimunidade democrática produz: poder autoritário sobre assuntos que sempre são tabus e necessários para que se mantenham silenciados. Dizer não a essas votações é dizer não a uma agenda que busca não apenas o direito constituído, mas a justiça. Fica a pergunta mais relevante no momento – que nada tem a ver com a postura de Dilma: Qual é a agenda do país? Se é aquela das bancadas ultraconservadoras do Congresso Nacional, então não vivemos mais uma democracia, a estamos enterrando. Não é a pá de cal, como noticiada pelos meios de comunicação como sendo de José Dirceu, sobre o PT, mas é a pá de cal sobre nós todos. Criminalizar o Partido é talvez mais fácil do que assumir a responsabilidade pela morte de cada homossexual que será agredido e morto por esse tipo de “política”, por cada mulher pobre que terá de fazer um aborto clandestino por essa forma de “moral”, por cada calúnia irresponsável dita e cultuada como séria por essa apresentação do “correto”, do “democrático”, do “livre”.
Vivemos hoje um Estado de Direito Democrático que criou para si um terrorismo autoimune. Destrutivo e vadio, o estado das coisas tem se tornado aquele da moral superfaturada por meios de comunicação que não se preocupam com o mínimo de informação. Jornais, canais, sites, revistas que já deviam estar extintas não por aquilo que elas fazem simplesmente, mas PORQUE elas o fazem. Ser leitor-espectador disso e ainda querer ser intelectualizado é uma contradição de termos. O pior, nessa autoimunidade, é que o próprio Partido dos Trabalhadores começa a temer, a própria presidenta, ao que parece, irá ceder à mídia. Destrutivo por ser massacrante e repetitivo. Parcimonioso e paquidérmico, o modo com que essas informações bombardeiam nossas timelines, nossos tuítes, nossa cabeça é porco e falastrão, como o bom corrupto (aparentemente bom, belo, homem, branco, bem-sucedido, Eduardos Cunhas, aqueles que muitas vezes se querem reconhecer nele…). Nesse terror – talvez o maior de todos seja o estranho “Jornal da Globo” – tudo o que eles mais querem é uma queda monumental de cada direito conquistado, de cada gesto em direção ao outro. Sem motivo? Não, a manutenção de certo controle social é fundamental para o bom andamento dos negócios de vendas. Quando uma rede de TV como essa é obrigada a dar a notícia da vitória de Dilma, o repórter engasga e o povo aos gritos durante o discurso após o resultado é de libertação sobre toda enganação que vem sofrendo cotidianamente. Como essa emissora não poderia então fazer senão o terror? Degolem essa mulher porque ela não pode representar algo maior do que o padrão “William Bonner”, do que o modo do gerentão de edição que ele é (aliás, a imagem de Dilma como gerentona é ou não é a mais odiada pela mídia e, agora, por uma parcela da população?). O ponto é: em um Estado de Direito Democrático o que não há é justamente a democracia em ação, há o direito em se manter democrático de acordo com determinados padrões que não são os de Dilma (quero dizer, mulher, bem-sucedida, militante, ex-presa política, filiada a um Partido com pretensões de esquerda, autônoma, mãe de uma filha, divorciada, gerente do país e do Governo, autoritária). Essa mulher é quem estão caçando para que possamos nos manter sob a égide do país entregue senão a uma corrupção infindável e impronunciada nas cortes (que ainda ali se exerce um poder absolutista abscôndito) a um entreguismo internacional e liberal da forma mais escancarada e imoral.
A autoimunidade é também uma autoimundice do mundo. Necessidade em se criar um mundo e dar a ele um sentido, vivemos o mundo em negativo, o i-mundo do mundo. É imundo tudo o que é próprio ao mundo, tudo o que dele é mais limpo, mais aparentemente límpido e correto. Essa imundice é o espectro de uma democracia que poderia vir a ser. Democracia em que é imundo calar-se. Democracia que pede atenção a cada desvio de conduta sob o pretexto de correção e aperfeiçoamento da vivência democrática, como se houvesse uma única e possível vivência democrática que não fosse um conviver.Dizem de tudo do já mitificado Lula (da doença aos xingamentos que perduram por mais de 30 anos!!!). Dizem de tudo do silêncio de Dilma. O silêncio de Dilma representa também ele nosso silêncio. Seu silêncio deu a ela uma queda de popularidade – como se isso representasse um aval para o impedimento, como se uma pesquisa de popularidade fizesse com que se pudesse simplesmente abrir uma longa discussão na “agenda” do Congresso sobre esse assunto. O silêncio de Dilma é a sua aporia. Agamêmnon, o chefe do aqueus na Guerra de Troia, teve de viver uma aporia para zarpar: matar em sacrifício sua filha Ifigênia para acalmar os deuses (sobretudo Ártemis e sua corça sagrada) ou não matá-la e ser morto para que os aqueus pudessem eles mesmos (em sua sede quase “democrática”) matá-la para acalmar os deuses. Não que Agamêmnon, apesar de toda prepotência narrada, o tenha feito para se salvar, para salvar a própria pele na pele de Ifigênia. Ele o faz como responsabilidade diante do Estado, diante das crenças. Ele a mata como Abraão teria matado Isaac se não fosse a mão do anjo. Ele a mata respondendo a uma responsabilidade radical, ao outro totalmente outro. Ele o faz para zarpar. O restante dos motivos a mim são espúrios: guerra, riqueza, glória imperecível. O silêncio de Dilma, que deve ser rompido daqui a pouco, representa o infigurável da democracia: ela não tem o direito (democrático) de se calar. O que esperar? Que simplesmente ela rompa o silêncio, como o fez quando das manifestações de junho de 2013 e ninguém a ouviu? Que exerça de modo programático uma gestão carismática para responder à grande mídia? A resposta que está no horizonte desse imundo mundo é que seu silêncio reflita – é bom o silêncio para a reflexão, para a meditação – novas e poderosas ações sociais, de investimentos públicos contínuos nas áreas que alteram verdadeiramente a vida das pessoas, de aproximação com a militância e, com isso, a forçar que a “agenda” do Congresso não seja aquela conservadora de Eduardo Cunha. O silêncio de Dilma é uma aporia porque ela falará por nós ou esse “nós” (em que não estou incluído) quererá falar por ela.
Brasília, 09 de fevereiro de 2015.
Elite brasileira usa a Copa do Mundo para mostrar seu desconforto em ser brasileira
Um texto sensacional que reúne muito das minhas próprias opiniões sobre nosso momento. Leiam!
A Brazilian Operating in This Area
(First of all, thanks for reading and commenting on my previous post. It is already the most popular of this blog’s short history. I was requested to translate it into Portuguese and at first I refused it. Not only I am working loads, but I wanted to avoid the bigotry that usually comes along with enthusiasts of the two main political parties here. And I wanted to avoid denial by that big chunk of the elite which is disengaged with Brazil. But I was convinced to use some of my time in this because someone else could translate and include words I didn’t write. I want Brazilians who don’t speak English to have an original source. This blog is meant to be a bridge between Brazil and foreigners, almost all posts are and will be in English, but I can make exceptions when I want.)
“Abaixo este Brasil atrasado.” É…
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O QUE ESTAVA TOCANDO NA RÁDIO… no ano em que você nasceu
é o primeiro post que eu republico no meu blog, mas realmente é ótimo. Aproveitem.
Trata-se de um juke box que recupera 60 anos de músicas e que permite ouvir as melodias do ano de seu nascimento ou de qualquer outro ano entre 1940 e 1999. É só clicar:





