Início » Artigos publicados por henrifigueiredo (Página 3)

Arquivo do autor:henrifigueiredo

SERENDIPITIA, por Henri Figueiredo

Nesta manhã de 4 de janeiro de 2019, nasce a coluna “Serendipitia” – que significa “descobertas afortunadas feitas, aparentemente, por acaso”. Ou nem tanto porque, com mais precisão, aqui também será apresentado o resultado de um minucioso “garimpo” nas redes e no conjunto da web. A costura será com tópicos, artigos ou breves ensaios meus sobre política, comportamento e arte – em especial música, literatura, cinema e TV. Sejam bem-vindos.

“Minha mãe achava estudo

a coisa mais fina do mundo.

Não é.

A coisa mais fina do mundo é o sentimento.

Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,

ela falou comigo:

“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.

Arrumou pão e café , deixou o tacho no fogo com água quente.

Não me falou em amor.

Essa palavra de luxo.”

[Ensinamento | Adélia Prado]

O FUTURO JÁ COMEÇOU | “Antonio Gramsci está mais atual do que nunca, a julgar pelo que se ouviu em alguns pontos da Esplanada dos Ministérios na jornada de quarta-feira. Se antes estabelecer uma hegemonia cultural não era um objetivo claro de um grupo político no poder, agora é. Nos governos Lula e Dilma havia muita gente com uma visão leninista da condução da política e de aparelhamento do Estado, mas a unidade estratégica se perdeu em meio a disputas internas e ao surgimento de outras referências para a construção do poder”. Parágrafo de abertura da matéria de CÉSAR FELICIO no jornal VALOR de 4 de janeiro de 2019. Estou, francamente, rindo por dentro e por fora lembrando de quantos vezes fui interrompido nos debates por companheiros que simplesmente puseram Gramsci no lixo em nome de um “empirismo” que lhes conferia uma aura quase heroica quando não divina, ó líderes supremos da Esquerda ignara! Só vós, que exercestes o poder, conheceis o caminho, a verdade e a vida! Se nós não aprendemos com os nossos maiores pensadores, bom… os ideólogos da extrema-direita aprenderam bem.

DO FACEBOOK

Do professor da UnB Luiz Felipe Miguel: “O novo governo é regido pela lógica do inimigo interno. Mais, até, do que o foi a própria ditadura militar. As posses do presidente e dos ministros confirmaram isso. Ser oposição a ele exige entender esse dado. É um governo que constrói qualquer negociação como fragilidade, que recusa qualquer concessão e que não vê outra saída que não seja nosso extermínio”. [4 de janeiro de 2019]

O RISO É O TEMOR DOS TOTALITÁRIOS

Assim como costuma ser pela Cultura (ou pelo combate a ela) que se alcança a hegemonia numa sociedade (obrigado, Gramsci), é ridicularizando as simbologias deste governo protofascista que teremos mais inserção e eco entre os descontentes. De boa, quem acha que vai ser falando do salário mínimo ou das privatizações das refinarias da Petrobras que vamos reverter a simpatia do eleitorado pelo Bolsoasno, não entendeu nada de psicologia das massas. Isso é recurso para conscientização política e formação ideológica – ambas matérias abandonadas pelo PT, infelizmente, desde 2003, em nome do pragmatismo governamental. Então, creio que, simultaneamente a gente reconstrói os espaços de consciência política e de formação ideológica enquanto se detona, brinca, ironiza e escracha os símbolos deles. Todos os símbolos: os religiosos (como a submissão feminina ao macho); os ideológicos (como a aversão aos vermelhos socialistas/comunistas);os bélicos (como a questão do armamento como saída para a insegurança); e os de doutrinação/reprogramação mental (como o Escola Sem Partido). É preciso rir da cara deles, enquanto se organiza a luta da Realpolitik.

Reproduzo abaixo artigo da professora de jornalismo Sylvia Moretzsohn: “Vejo muita gente dizendo que ridicularizar ou ironizar o festival de sandices dos representantes desse governo (a mais recente foi a da ministra do pé de goiaba sobre meninos de azul e meninas de rosa) é cair na armadilha deles, é não perceber a cortina de fumaça que eles promovem para nos distrair, enquanto avançam na destruição de tudo o que foi duramente conquistado ao longo das últimas décadas.

Discordo radicalmente disso. Antes de mais nada, porque não somos tão ingênuos assim para ignorar cortinas de fumaça. Mas sobretudo por outras duas razões: primeiro, porque não estamos desconsiderando a avalanche de ataques contra esses direitos; pelo contrário, cansamos de denunciá-la cotidianamente (e o grave é que é praticamente tudo o que podemos fazer, o que não basta para enfrentar e impedir essa violência. Ou seja: de fato podemos muito pouco, na atual correlação de forças). Segundo, e talvez mais importante: porque essas sandices não são apenas cortina de fumaça, elas fazem parte da campanha ideológica desse pessoal, que continua a investir, agora com mais ênfase ainda do que o fez durante a campanha, na temática moralista que enaltece os valores tradicionais da religião e da família. Isso tem um peso enorme e é parte fundamental da estratégia de discursos e práticas na sedimentação da estupidez dessa massa de gente que elegeu esse governo”.

ALERTA DE SPOILER: ESTE TÓPICO É POLITICAMENTE INCORRETO, CONTÉM IRONIA E LINGUAGEM IMPRÓPRIA PARA MENORES DE 35 ANOS PELAS NOVAS NORMAS DO MINISTÉRIO DA FAMÍLIA | Estamos apenas entrando no quinto dia do novo governo federal e eu já me sinto livre do jugo do socialismo que me forçava a ser politicamente correto! Portanto, Bolsoasno e seus apoiadores de merda, vão tomar no meio do cu de vocês todos! Aqui tem resistência! [Sinto que também regredi muito em boa educação, mas enfim, deve ser isso que chamam de “egrégora” não é mesmo? Principalmente quando a escolha da maioria do eleitorado que votou válido foi por abraçar a estupidez.]

A MÍDIA COMERCIAL (MAL)TRATADA COMO NO REGIME MILITAR

Relato da veterana jornalista Mônica Bergamo da Folha de S.Paulo.

———-

“É uma posse diferenciada e todos têm que entender isso.

Com essas palavras, a assessora do Palácio do Planalto que acompanhava jornalistas num ônibus rumo ao Congresso Nacional, na manhã desta terça (1º), procurava acalmar veteranos da profissão (esta colunista entre eles) que não conseguiam, digamos, entender os novos tempos —e o tratamento reservado à imprensa na posse de Jair Bolsonaro na Presidência da República.

Foi, de fato, algo jamais visto depois da redemocratização do país, em que a estreia de um novo governo eleito era sempre uma festa acompanhada de perto, e com quase total liberdade de locomoção, pelos profissionais da imprensa.

O sufoco começou dias antes, no credenciamento.

Os jornalistas foram informados de que não poderiam ter acesso livre, por exemplo, ao salão nobre do Palácio do Planalto, onde o presidente sobe a rampa, dá posse aos seus ministros e recebe cumprimentos de autoridades internacionais.

Na posse de Lula, em 2003, repórteres chegavam a se aglomerar em torno dele e de Fernando Henrique Cardoso, misturando-se entre a equipe recém-empossada e a que deixava o governo.

Um dos repórteres lembrava, no ônibus, que chegou a subir no elevador do Planalto com Lula, furando um esquema nada rigoroso de segurança.

A colunista chegou a entrar em salas privadas com o então vice-presidente dos EUA Joe Biden na posse de Dilma Rousseff, em 2014.

Desta vez, tudo seria diferente. Apenas um jornalista de cada veículo poderia entrar no palácio, e com acesso restrito às autoridades.

Os outros ficariam do lado de fora, na portaria ou num corredor aberto no meio da população. E a assessoria alertava: neste local, era preciso evitar movimentos bruscos. Fotógrafos não deveriam erguer suas máquinas. Qualquer movimento suspeito poderia levar um sniper [atirador de elite] a abater o “alvo”.

Uma jornalista voltou apavorada para a redação. Avisou à chefia que preferia não cobrir a posse. Não queria morrer. Foi convencida do contrário.

Os organizadores da cerimônia também distribuíram orientações por escrito à imprensa: os jornalistas credenciados deveriam chegar ao CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil), no dia 1º, às 7 horas da manhã.

Como é que é?

Era isso mesmo: embora a posse no Congresso estivesse marcada para as 15 horas, os jornalistas teriam que se concentrar desde cedo, embarcar nos ônibus às 8 horas, chegar no Congresso pouco depois e esperar, sem fazer nada, por mais de seis horas, para ver Bolsonaro entrar no parlamento.

Era preciso levar lanche pois não haveria comida. Tudo precisava ser embalado em sacos de plástico transparente.

“Garrafas não são permitidas. Haverá água potável disponível nas áreas de imprensa”, dizia o comunicado.

Os veículos providenciaram kits de sobrevivência para seus profissionais. No caso da Folha, bolachas Club Social, biscoitos Bis, castanhas de caju, barrinhas de cereal, gomas de mascar, um sanduíche de queijo e salame e suco de caixinha.

Na terça (1º), logo cedo, os jornalistas, seguindo as regras, chegaram cedo no CCBB.

Foram todos divididos em grupos, em cercadinhos com grades de ferro: os que iriam para o Congresso sairiam primeiro, depois os do Palácio do Planalto e, por fim, os do Itamaraty.

“Pessoal, vocês vão em 13 ônibus. Às 17 horas, nós traremos vocês de volta”, gritava um assessor que se apresentou como Tiago.

E quem quisesse ficar mais?

“Pessoal, [os seguranças] não vão deixar vocês passarem [nas ruas]. O direito de ir e vir dos jornalistas tá assim!”.

Os repórteres caíram na risada.

Apesar da situação, considerada um tanto surreal, havia motivo para risos. Um deles era a proibição de levar maçã inteira na merenda. Só picada, em pedacinhos.

“Razões de segurança: acham que alguém pode jogar uma delas na cabeça do Bolsonaro. E maçã machuca”, explicava um dos profissionais.

Em fila, todos começaram a embarcar nos ônibus.

“Bem-vindos à rodoviária do CCBB”, dizia o assessor que iria em um dos veículos.

Os alertas eram muitos. “Não tentem subir na Esplanada [dos Ministérios, avenida que leva à Praça dos Três Poderes]. Não tentem passar de uma área à outra. E, mais importante: não tentem pular uma cerca. Não façam isso!”

“A gente tem que avisar. Porque depois alguém toma um tiro…”, completava outra assessora.

“O que nós viramos?”, questionava um veterano jornalista. “Fizemos tudo o que já fizemos para terminar aqui?”

Pouco depois das 8 horas, o comboio de ônibus sai até o Congresso, onde novas surpresas nos esperavam. Ao chegar no parlamento, os repórteres passaram por detectores de metais.

E foram levados ao salão verde da Câmara dos Deputados, na entrada do plenário.

“É surreal!”, reagiu um jornalista ao ver a cena: todas as cadeiras e poltronas do local haviam sido retiradas. Não havia onde sentar. Os profissionais tinham que se acomodar no chão.

Eram centenas de jornalistas, mas só havia um banheiro disponível.

Alguns se dirigiram ao setor do cafezinho. Um segurança logo orientou as copeiras: “Não é para servir nada à imprensa”.

Os profissionais foram convidados a se retirar do local.

Teriam que ficar confinados no salão, separados por um cordão da passarela com tapete vermelho por onde passariam as autoridades.

“É preciso um pouco de dignidade!”, reclamava um repórter.

Um deles conseguiu um banquinho para se sentar. E logo começaram as brincadeiras: era preciso fazer rodízio para que todos pudessem descansar um pouco.

Na mesma situação no Itamaraty, correspondentes internacionais chegaram a se retirar do prédio.

Jornalistas com larga experiência em coberturas de governo prognosticavam: essa postura do governo durará pouco. Até a primeira crise.”

 

DIZ QUE AMA A PÁTRIA, MAS…

Diz que ama “a Pátria” mas vira a cara pra criança famélica pedindo trocado na rua. Na verdade bolsonarista ama é o pano da bandeira e símbolos como os hinos oficiais – seu amor é só pela simbologia aprendida na doutrinação Moral e Cívica da ditadura, não pelos compatriotas. Por isso, não têm vergonha de bater continência submissa aos EUA. O mais chocante é que têm a orgulhosa ignorância de comparar seu comportamento lambe-botas do Império com a relação altiva que tínhamos com países soberanos como Cuba – que é uma pequena ilha que resiste heroicamente há 60 de bloqueio imperialista. Eles se jactam de serem umas bestas quadradas!

SEM TRÉGUA PARA PROTOFASCISTA | UM BREVE MANIFESTO

Nenhum(a) fascista ou evangélico(a) fundamentalista bolsonarista merece trégua! Combatam, discutam, os destrua com argumentos, fatos e escancarem que são todos e todas cúmplices dos assassinatos políticos, raciais e pelos massacres armados que virão. Façam as listas, não esqueçam seus nomes, printem suas postagens mentirosas e cheias de ódio nas redes sociais. Recolham provas do colaboracionismo com o governo teocrático totalitário do ex-militar terrorista. Conheça o adversário, monitore o inimigo, saiba seus pontos fracos e planeje a revanche. Não se combate os que desprezam a democracia usando palavras de amor e tolerância. Endureça, mantenha a ternura que nos faz humanos, mas prepare-se para a guerra. O mal está disseminado entre familiares, vizinhos, colegas de trabalho. Nem por um minuto pense em aliviar o combate. Resista mas, principalmente, aja. Não permita calado e sem lutar nenhum retrocesso nas liberdades civis. Eles querem nos calar, nos dizimar fisicamente, vão perseguir. Por isso, nenhum bolsonarista merece trégua.

SOM E FÚRIA | Alguns amigos e companheiros de luta ficaram um tanto incomodados com o artigo-manifesto acima, publicado originalmente nas redes sociais na quarta-feira, 2 de janeiro de 2019. Dentro da tradição dialógica e dialética, eles poderiam ter dito que não gostaram, escrito um contraponto, discutido e, quem sabe, desmanchado com as minhas razões. O amigo que fez o comentário mais sintético e elegante, disse que eu acertara na “diretriz” mas pecara “no tom”. Noutras palavras, “é isso mesmo, mas não se diz assim”. Desculpem-me carxs amigxs, hoje eu cito William Shakespeare: “A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, sem sentido algum”.

Ontem vivi um dia de som e fúria. Hoje estou mais ponderado e, por isso, vou apenas fazer a analogia do que vivemos no Brasil da atualidade com a história do sapo na panela. Vocês certamente já ouviram (e os mais cruéis devem ter feito a experiência) que um sapo jogado num panela de água fervendo vai bater e, no mesmo segundo, pular fora daquele ambiente inóspito e mortal. Mas se o sapo for colocado vivo numa panela de água fria e esta panela levada ao fogo, o sapo primeiro vai ficar anestesiado e depois vai ser cozido no caldeirão. O quanto nós, que estamos dentro da vida pública, imersos na construção sindical, em comitês pró-democracia, no ativismo político, na militância partidária, não percebemos que a panela já esquentou e está quase no ponto de fervura? Eu tenho lido, ouvido e prestado atenção em alguns amigos, amigas e conhecidos que são intelectuais e ermitões – estão fora desse circuito sociopolítico há tempos – mas se puseram em alarme. Eu não gosto muito de me sentir “culpado” porque isso carrega também um sentido religioso; prefiro me dizer “responsável”, o que é laico.

Eu comecei a escrever para leitores, leitoras, para uma audiência, enfim, aos 22 anos, no jornal diário de Novo Hamburgo – lá se vão 24 anos ininterruptos de escrita, entrevistas, reportagens, artigos, crônicas e ensaios políticos. Ainda que hoje em dia grande parte dos meus escritos tenham circulação restrita, nunca perdi o gosto (e a necessidade) de me manifestar “urbi et orbi”, ou seja, para as gentes. E tenho um gosto especial pela polêmica; infelizmente, as pessoas desaprenderam de polemizar. Por isso, me agarro aqui à corda salva-vidas que o amigo mais elegante me atirou para me salvar do mar da polêmica, mas não subo no bote. O meu “pecado” teria sido o tom. Ora, vejam, novamente um conceito religioso sobre um artigo que discutia ferozmente o fundamentalismo cristão que quer estabelecer uma teocracia na nossa república. A gente tende, realmente, a usar a terminologia de quem ascendeu ao poder. Espero não começar a desejar bom dia, boa tarde e boa noite com “Louvado Seja!” ou “Glória a Deus”. Isso também já é o sintoma da panela fervente.

Em que pese a minha amarga ironia nesses dias, mais importante do que ser lido é ser, de verdade, criticado – porque aí sim, quando mobilizamos o desejo de contraponto, tivemos algum sucesso em provocar a reflexão. Mesmo que de maneira brusca, como ao dar um safanão na panela fervente. Vamos nos queimar com alguns respingos, é certo. Mas ninguém esperava que saíssemos completamente ilesos desta discussão.

SERIAL WATCHER

Se você gosta de maratonar mas, nessa época, não quer exatamente “fugir da realidade”, a dica é “The Handmaid’s Tale” – O Conto da Aia. Acho que melhor traduzido seria “O Conto da Serva”. Em cinco madrugadas e uma tarde, cheguei ao final dos 23 episódios, divididos nas duas primeiras temporadas – o que me custou grande desgaste emocional.

A distopia é fielmente baseada no romance da canadense Margaret Atwood, de 1985. Um governo teocrático cristão, mulheres servas dos homens, estupros sistemáticos, ritualizados e institucionalizados para que as mulheres cumpram o “destino biológico” de engravidar, enforcamentos públicos de LGBTQ+ (chamados de ‘traidores de gênero’), execuções de intelectuais e a Bíblia no lugar da Constituição. Parece, de fato, o aprofundamento prático das teses defendidas pelos fundamentalistas evangélicos que são a principal base de apoio popular deste governo que assumiu no Brasil de 2019.

 

ATÉ A PRÓXIMA “SERENDIPITIA”, AINDA SEM DATA DE LANÇAMENTO.

IN TENTO

Que nesse novo ano, eu continue percebendo todas as diferenças das paisagens tomadas da mesma janela – cujo tempo já vai chegando ao fim
Que nesse ano novo, eu seja louco o suficiente para atacar (e devorar) qualquer um que acue a fera
Finda a autocomiseração ressentida que me rebaixa à estatura dos vassalos
Que a energia do dia limpo, claro e quente que emerge abasteça para o combate justo dos que não dobram a espinha e não tem senhores, mestres nem feitores
Que o novo ciclo me empurre a dizer verdades, a arrancar máscaras e não temer censuras
Que se findem as mesuras pra corte e que as metralhadoras verbais estejam prontas para as rajadas – cairão os que merecem: por maduros ou podres. Não os puros – estes têm o dom da boa interpretação de coração leve e mente aberta
Que eu nunca esqueça que flores não vencem canhões – até o poeta sabia e fez disso uma crítica à indecisão dos cordões marchando ilusões
Que, no entanto, enquanto nos armarmos possamos também nos amarmos
E que eu possa ser lido não como perigo… sim como o terror dos hipócritas, como a bigorna que esfacela o martelo dos Torquemadas e como a espada que transpassa a garganta dos injuriosos
E, antes de nada dever a ninguém, acertar as contas comigo mesmo por ter vendido meu tempo de vida a fantoches
Assumir as causas, os casos e os causos. Viver de defender a verdade factual contra as narrativas dos oportunistas e carreiristas
Ser quem sou e pagar o preço
“Nada a temer senão o correr da luta, nada a fazer senão esquecer o medo”

O REI ESTÁ NU!

Acordei de um sonho estranho, como o Milton em San Vicente. Escrevo logo antes da alvorada porque os sonhos às vezes parecem reflexão especular – e as lembranças do meu último ainda não se esfumaram. O que eu disse no sonho, disseram pra mim. O que disseram pra mim, disse eu. Todos no meu sonho sou eu próprio conversando comigo mesmo entre reações químicas neurais numa área que se convencionou chamar de subconsciente. A medida em que passam os minutos já não sei direito se o que lembro era sonho ou um novo constructo psíquico. Afinal tudo é química e não há matéria, só energia se organizando em diferentes camadas e frequências. Mas interrompo por aqui antes de começar elucubrações sobre física quântica e espiritualidade.
Um amigo filósofo me fez, na noite de domingo, uma provocação impertinente – como só os bons amigos são capazes e autorizados: “Você vai agora fazer poética sentida ou política esclarecida?” Eu ri porque a elaboração foi boa mas trata-se de um falso dilema. Se alguma coisa trago ainda dos meus primeiros anos nos bancos universitários – onde os conteúdos eram extremamente generalistas – são boas noções de lógica. Me foi proposto, neste caso, uma falácia lógica, uma falsa dicotomia. Nicolau Maquiavel, por exemplo, anotou que mais vale ser temido que ser amado. Ernesto Guevara, por outro lado, disse que é preciso endurecer-se mas sem, jamais, perder a ternura. O florentino crava uma dicotomia; o argentino propõe uma quebra dela.
A política é, no mais das vezes, um terreno árido em que quem não afirma certezas não tem vez. Cultivar a dúvida pode fazer de ti um intelectual reflexivo, um cientista cético de tudo que não se adequa aos métodos de aferição, mas não faz de ti um “bom político” – este precisa estar investido do cinismo necessário para falar a língua do povo, dizer o que o povo quer ouvir, comunicar-se com as massas com paixão oratória e, sempre, afirmar certezas: de altruísmo desprendido, de que outro mundo é possível, de que os adversários são os vilões e de que o nosso grupo é mais preparado que outros para a transformação social. Mais do que vender esperança, a comunicação política bem-sucedida é a que identifica o que o povo quer ouvir, não o que o povo precisa saber.
Aprendi cedo a importância de Karl Marx na história do pensamento humano – causa de terror nos políticos profissionais que, mesmo sem se dar conta, são discípulos tardios da escola filosófica do cinismo de Antístenes. Em Marx, não basta identificar cientificamente as causas da estratificação social e das desigualdades se você não se organizar e lutar para transformar a realidade. E isso significa, ao fim e ao cabo, revoluções no pensamento, na economia, na cultura e no comportamento humano. Por isso ainda hoje, 170 anos depois de seu mais importante livro, Marx é combatido e demonizado pelos donos do poder e seus lacaios. E o combate às ideias emancipatórias do indivíduo e da sociedade passa pela pasteurização da educação – que nada mais é do que um sistema de programação mental das novas gerações para que se adequem à engrenagem. Como disse Paulo Freire, quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor. E isso ocorre em qualquer modelo societário – inclusive naqueles que se reivindicam “marxistas”, como bem mostraram as distopias de George Orwell, por exemplo.
Perdoem-me a longa digressão sobre filosofia política, logo de mim, um leigo. Hão, contudo, os fatos: a política esclarecida é mais perturbadora, incômoda e intragável do que o rebanho imagina. Ela é iconoclasta, derruba igualmente líderes supremos e mitos. E, no entanto, a política esclarecida diz a verdade com a pureza da criança do conto dinamarquês de Hans Christian Andersen. Um malandro chega ao reino e convence o monarca de que consegue tecer uma roupa que somente os inteligentes conseguem ver. O rei o faz seu novo alfaiate e lhe enche de riquezas como ouro e seda para tecer a nova roupa. O esperto fica com as riquezas e leva semanas tecendo o nada. Ao receber as vestes, o rei (para não passar por estúpido) suspira de admiração pelo trabalho; sua corte (para não contrariar sua majestade) aplaude a genialidade do costureiro; mas uma criança exclama: “O rei está nu!”. Ao que Caetano Veloso comentou, numa canção: “Mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que o rei é mais bonito nu”. Eis a beleza da poética sentida.

MINICONTO FAKEBOOKIANO

Poderia ser café e cigarros, se cigarros houvesse. As coisas findam em torno mas o que nele se consome é volátil: o rosto no espelho se transforma como chama que treme e estala com os gravetos finais. O forte está sob ataque há meses e resiste por inércia – cada ação para evitar a queda acaba acelerando-a. A situação não é lhe estranha, ao contrário – é circular, cíclica, em eterno retorno. Lê com amarga ironia cards com frases de autoajuda que, no feed, servem como lava-mãos. Afinal, sabe há décadas que “os próximos” mantêm distância profilática quando a conta das batalhas chega. O comportamento antes tratado com lisonjas de “coragem”, “destemor” e “entrega” agora já não serve porque a história não é só escrita pelos vencedores mas também pelos burocratas que os cercam. A roda da fortuna gira enquanto o forte arde, estala e desmorona – talvez a ventura seja a próxima estaca. E os vencedores serão outros e os burocratas terão outros senhores. E os escribas cuja narrativa, ontem, era a oficial, hoje se adequam ou viram párias. Na cela dos últimos dias, réstias de luz entram pelos vãos da persiana e, do fosso da escada, chega a hora vespertina em que o sol reflete no concreto e ilumina a pequena biblioteca já não mais tão usada porque, hoje, a preferência é pelas legendas amarelas das séries franqueadas pelo Império. É assim que se acabam os dias? Com os cigarros que disfarçam suspiros, com a cafeína, com o simulacro de vida útil que é possível se ter nas redes. Como a heroína atormentada de Sharp Objects escreve na própria carne, ele corta laços. E sangra pelas madrugadas até os vínculos, todos, estarem derramados, esvaídos, desamarrados. Continuar em frente é deixar pra trás. A única carga é a dos livros e discos, nada mais.

E então, que quereis?

47686536_2080347628670947_392956938846994432_n
[Maiakóvski – 1927]

Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.

Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.

 

Uma edição muito particular da poesia de Renato Russo no álbum “Dois”, de 1986

Renato-Russo-2a

Numa tarde de sábado, entre 1986 e 1987, eu passeava na Redenção, em Porto Alegre, quando encontrei Renato Russo que estava na cidade para uma apresentação no ginásio Gigantinho. Ele me deu autógrafo em que grafou vários ícones e só uma palavra: Força! Assinou “Russo”. Para muitos da minha geração e das gerações seguintes que teimam em não ouvir e não ler o que Russo escreveu na vida (e sobre a vida), eu fiz essa transcrição das letras do álbum “Dois”, de 1986 – que é um marco na minha trajetória e um dos maiores discos da história da música brasileira. Renato Russo tinha, à época, 26 anos. Me dei conta que ouvindo o álbum do fim para o início há ali uma prosa poética ao estilo (perdoem-me os puristas) de Walt Whitman. Percebam como eu considero o Walt Whitman. [Contém ironia]. Só não transcrevi três faixas do álbum – uma delas, o maior sucesso radiofônico; e outra que foi faixa bônus. Uma quarta também ficou de fora por ser apenas instrumental. Fica o desafio para os admiradores (ou mesmo detratores) do Legião identificar quais as que deixei de fora e o motivo – com a dica fica fácil, né? E relembrem o porquê da lírica do profético Russo ser considerada a maior entre os roqueiros da geração dele. P.S.: Outro motivo que me levou a este exercício de edição foi constatar o quanto o filme “Bohemian Rhapsody” tem servido para criar uma nova geração de fãs do Queen e de Freddie Mercury – que foi outro grande. Mas, crianças, vejam só o que temos em casa e muita gente não ouve por puro preconceito estético.

“Quem me dera, ao menos uma vez, ter volta todo o ouro que entreguei a quem me convenceu que era prova de amizade se alguém levasse embora até o que eu não tinha. Quem me dera ao menos uma vez explicar o que ninguém consegue entender, que o que aconteceu ainda está por vir e o futuro não é mais como era antigamente. Quem me dera ao menos uma vez provar que quem tem mais do que precisa ter quase sempre se convence que não tem o o bastante e fala demais por não ter nada a dizer. Quem me dera ao menos uma vez que o mais simples fosse visto como o mais importante. Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.

Nosso dia vai chegar. Teremos nossa vez. Não é pedir demais. Quero justiça. Deve haver algum lugar onde o mais forte não consegue escravizar quem não tem chance. De onde vem a indiferença, temperada a ferro e fogo? Quem guarda os portões da fábrica? O céu já foi azul mas agora é cinza. E o que era verde aqui já não existe mais. Quem me dera acreditar que não acontece nada! De tanto brincar com fogo, que venha o fogo então!

Às vezes parecia que, de tanto acreditar em tudo que achávamos tão certo, teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais. Faríamos floresta do deserto e diamantes de pedaços de vidro. Mas percebo agora que o teu sorriso vem diferente, quase parecendo te ferir. Às vezes parecia que era só improvisar e o mundo então seria um livro aberto. Até chegar o dia em que tentamos ter demais vendendo fácil o que não tinha preço. Eu sei… é tudo sem sentido. Quero ter alguém com quem conversar. Alguém que, depois, não use o que eu disse contra mim. Nada mais vai me ferir, é que eu já me acostumei com a estrada errada que eu segui, com a minha própria lei. Tenho o que ficou. E tenho sorte até demais; como sei que tens também.

Em cima dos telhados, as antenas de TV tocam música urbana. Nas ruas, os mendigos com esparadrapos podres cantam música urbana. Motocicletas querendo atenção às 3 da manhã é só música urbana. Os PMs armados e as tropas de choque vomitam música urbana. E nas escolas as crianças aprendem a repetir a música urbana. Nos bares, os viciados sempre tentam conseguir a música urbana. O vento forte, seco e sujo em cantos de concreto parece música urbana. E a matilha de crianças sujas no meio da rua, música urbana. E nos pontos de ônibus, estão todos ali: música urbana. Os uniformes, os cartazes, cinemas e os lares, favelas, coberturas, quase todos os lugares… e mais uma criança nasceu! Não há mentiras nem verdades aqui, só há música urbana.

Sente o desafio! E provoque o desempate! Desarme a armadilha e desmonte o disfarce. Se afaste do abismo. Faça do bom senso a nova ordem. Não deixe a guera começar. Pense só um pouco: não há nada de novo. Você vive insatisfeito e não confia em ninguém. E não acredita em nada, e agora é só cansaço e falta de vontade. Mas faça do bom-senso a nova ordem.

Todos os dias quando acordo não tenho mais o tempo que passou. Mas tenho muito tempo. Temos todo o tempo do mundo. Todos os dias antes de dormir, lembro-esqueço como foi o dia. Sempre em frente. Não temos tempo a perder. Nosso suor sagrado é bem mais belo que esse sangue amargo. E tão sério e selvagem. Selvagem! Veja o sol dessa manhã tão cinza – a tempestade que chega é da cor dos teus olhos: castanhos. Então me abraça forte e diz mais uma vez que já estamos distantes de tudo. Temos nosso próprio tempo. Não tenho medo do escuro mas deixe as luzes acesas – agora! O que foi escondido é o que se escondeu e o que foi prometido ninguém prometeu. Nem foi tempo perdido: somos tão jovens, tão jovens, tão jovens!

É saudade então e mais uma vez. De você fiz o desenho mais perfeito que se fez. Os traços copiei do que não aconteceu. As cores que escolhi, entre as tintas que inventei, misturei com a promessa que nós dois nunca fizemos de um dia sermos três. Trabalhei você em luz e sombra. E era sempre: “Não foi por mal. Eu juro que nunca quis deixar você tão triste”. Sempre as mesmas desculpas e desculpas nem sempre são sinceras – quase nunca são. Preparei a minha tela com pedaços de lençóis que não chegamos a sujar. A armação fiz com madeira da janela do seu quarto; do portão da sua casa, fiz paleta e cavalete. E com lágrimas que não brincaram com você, destilei óleo de linhaça. Da sua cama arranquei pedaços que talhei em estiletes de tamanhos diferentes. E fiz, então, pincéis com seus cabelos. Fiz carvão do batom que roubei de você e com ele marquei dois pontos de fuga, e rabisquei meu horizonte. Mas, então, por que eu finjo que acredito no que invento? Nada disso aconteceu assim, não foi desse jeito. Ninguém sofreu. É só você que me provoca essa saudade vazia, tentando pintar essas flores com o nome de amor-perfeito e não-te-esqueças-de-mim.

Tenho andado distraído, impaciente e indeciso. E ainda estou confuso, só que agora é diferente: estou tão tranquilo e tão contente. Quantas chances desperdicei quando o que eu mais queria era provar pra todo mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém. Me fiz em mil pedaços pra você juntar e queria sempre achar explicação pra o que eu sentia. Como um anjo caído fiz questão de esquecer que mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira. Mas não sou mais tão criança a ponto de saber tudo. Já não me preocupo se eu não sei por que às vezes o eu vejo quase ninguém vê. E eu sei que você sabe, quase sem querer, que eu vejo (que eu quero) o mesmo que você. Tão correto e tão bonito, o infinito é realmente um dos deuses mais lindos. Sei que às vezes uso palavras repetidas mas quais são as palavras que nunca são ditas? Me disseram que você estava chorando e foi então que percebei como lhe quero tanto.

Aquele gosto amargo do teu corpo ficou na minha boca por mais tempo. De amargo, então salgado ficou doce – assim que o teu cheiro forte e lento fez casa nos meus braços. E ainda leve, forte, cego e tenso fez saber que ainda era muito e muito pouco. Faço nosso o meu segredo mais sincero e desafio o instinto dissonante. A insegurança não me ataca quando erro e o teu momento passa a ser o meu instante. E o teu medo de ter medo de ter medo não faz da minha força confusão. Teu corpo é meu espelho e em ti navego. E eu sei que a tua correnteza não tem direção. Mas, tão certo quanto o erro de ser barco a motor e insistir em usar os remos, é o mal que a água faz quando se afoga – e o salva-vidas não está lá porque não vemos.”

Renato Russo
Legião Urbana
“DOIS” – 1986

“1983” | TRAMA DE SÉRIE POLONESA FICCIONA CRIMES DA DITADURA ARGENTINA

 

1983

Foto: Krzysztof Wiktor

Série distópica da Netflix, produzida na Polônia, tem como plot os sequestros de filhos de militantes de Esquerda durante a ditadura na Argentina. | Primeiro vamos lembrar da história. No início da década de 1980, o mundo tinha o primeiro Papa polonês, Karol Wojtyła (João Paulo II) que foi decisivo, junto com Lech Wałęsa, líder do Sindicato Solidariedade – e com a CIA e a OTAN – para o enfraquecimento da influência soviética e, ao fim da década, para a queda da Cortina de Ferro.

A série original da Netflix ‘1983’ propõe uma “distopia” em que ao invés da “mudança de regime”, o Partido Comunista acaba aumentando a vigilância e o controle sobre a população.

A história se passa em 2003, com muitas voltas no tempo a 1983, e mostra a atividade de um grupo revolucionário formado por filhos de opositores que foram executados. As crianças foram “adotadas” por famílias ligadas ao partido após o extermínio da oposição. O grupo revolucionário se autodenomina Brigada Ligeira e seu modus operandi é recrutar os jovens que tiveram seus pais biológicos mortos para que eles, infiltrados no establishment, promovam atos terroristas, desestabilizem o governo e cometam assassinatos de lideranças do regime, a começar pelos seus pais adotivos.

Vejam como a Indústria Cultural (nos termos conceituais da Escola de Frankfurt) é amoral e pode ser cruel. Quem conhece a história da América Latina sabe bem que o genocídio de 30 mil opositores da ditadura argentina (1976-1983) se deu por um regime fascista que perseguiu diretamente militantes socialistas e comunistas. Ainda que se entenda que (quase) tudo é legítimo em ficção; que, filtrados todos os componentes relativos às diferenças ideológicas entre a história argentina e essa distopia televisiva polonesa, é importante contar sobre os crimes de regimes totalitários; e que, num dos episódios, o personagem que é comandante da polícia política faça textualmente a relação da trama com o que houve na Argentina… ainda que, ainda que, ainda que… me incomoda demais essa mistura, essa confusão, essa pasteurização de fatos históricos em dramaturgia televisiva.

Os regimes da Cortina de Ferro eram, de fato, totalitários. No entanto, me perturba a transfusão de um episódio monstruoso como o que houve com as famílias de militantes de Esquerda da Argentina para um negativo sociopolítico ficcional polonês, onde tudo se dá ao contrário. Na ficção polonesa, os vilões são os “comunistas”, os filhos sequestrados são de famílias anticomunistas, católicas e democratas.

Há documentários importantes sobre os crimes da ditadura argentina. Para citar apenas dois recentes: “500” e “Hijos”. Me dói, como latino-americano, que tudo esteja tão invertido nesta ficção. Mais uma vez tento filtrar essa crítica imaginando que a correlação faça algum sentido para o povo polonês, que sofreu com os russos, com os nazistas, depois sob o tal “socialismo real” e com a ingerência de Moscou.

Feitas todas as ressalvas, há alguns aspectos interessantes que merecem registro. Primeiro, é claro, o fato de se ouvir polonês na TV – qual foi a última vez que você ouviu essa língua no cinema ou na TV, se é que já ouviu? O outro ponto a se destacar é que a série é bem escrita, com boas atuações e fotografia excelente. E, apesar de aparente contradição, a narrativa é batida e vem da clássica escola norte-americana: detetive de meia idade atormentado e fracassado começa a investigar um suposto suicídio e vai descobrindo que a “estória” é mais complexa.

E a história é ainda bem mais complexa que a série ‘1983’.

A FUGA DISSOCIATIVA DO “NÃO PREOCUPAR-SE”, por Henri Figueiredo

jim carrey

O ator canadense Jim Carrey no documentário “Jim & Andy – The Great Beyond”

“O que as pessoas querem? O que eles querem?”, atormentava-se em determinado momento da carreira o ator canadense Jim Carrey. Até que numa madrugada acordou de um sono profundo e sentou na cama: “Eles querem não se preocupar!”.

Um Jim maduro, elaboradíssimo, articulado e sereno é quem encontramos no documentário “Jim & Andy: The Great Beyond” dirigido por Chris Smith. O filme segue o ator Jim Carrey enquanto se prepara para reviver Andy Kaufman no filme de 1999, Man on the Moon, dirigido por Milos Forman. O lançamento foi no dia 17 de novembro de 2017, na Netflix. Mais de um ano depois, assisti ao documentário e, mais do que conhecer Andy Kaufman, reencontrei Jim Carrey – a quem comecei a prestar atenção, em 1998, com o filme “The Truman Show”. Fiquei fã assumido de Jim Carrey em 2004 com um filme que já nasceu clássico: Eternal Sunshine of the Spotless Mind (Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças), dirigido por Michel Gondry e com roteiro escrito por Charlie Kaufman.

Essa introdução é para registrar que o documentário “Jim & Andy” merece ser visto. Se você é artista cênico precisa vê-lo: o processo criativo (quase de ‘incorporação espiritual’) de Jim Carrey é perturbador.

No entanto, o insight de Jim Carrey, com o qual abri este breve comentário, é sobre o que realmente eu vou escrever.

Ninguém quer se preocupar. E, no entanto, nos preocupamos. Vivemos na gangorra do egoísmo e do altruísmo. Às vezes, a gangorra emperra num dos lados e negligenciamos o outro aspecto da nossa persona social.

Uma saída rápida de sucesso, de aceitação social, como diz Jim, no documentário, “é fingir que se é aquele que não se preocupa e que não preocupa os outros”. Pura representação. Mas “o público” adora parar de se preocupar, precisa escapes, precisa dessa “fuga dissociativa” da realidade.

As redes sociais, em especial quando se trabalha nelas – para além do mero entretenimento –, revela de maneira crua essa tendência à fuga dissociativa da realidade. Um texto conjuntural (pessoal ou impessoal) tanto mais terá interação quanto mais “leve” for. Problematizações, análises que não se concluem nem dão respostas fáceis, o cultivo da dúvida e não das certezas, tudo isso “pré-ocupa”. E, portanto, tem um público restrito.

Jogos, divinações, brincadeiras, passatempos “desopilam” – que vem, exatamente, de ‘deixar fluir do fígado a bile negra que causaria a melancolia’. O que acontece se não conseguirmos mais conectar e lidar com nada denso?

Em seu ensaio “Tudo o que é sólido desmancha no ar”, Marshall Berman – além, é claro, da referência direta a Marx e Engels – anota: “Tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade sua posição social e suas relações recíprocas”.

Se eu faço, portanto, das redes sociais um megafone cibernético para as minhas aflições estou sendo leviano, sincero, egoísta ou corajoso? Se, das redes, eu busco apenas os “likes” – a droga do século –, a popularidade, a influência “leve” dos passatempos e curiosidades de almanaque, estou sendo sincero, egoísta, corajoso ou leviano?

Tudo o que é sólido se ressignifica nas redes.

E a sociedade do espetáculo, como no Show de Truman, nos exige tamanha (e acrítica) entrega que vão se formando as fissuras e as lacunas no que realmente somos. Mas o que realmente somos? Uma mente com lembranças? Um brilho eterno? Uma faísca, um reflexo num átimo de pó?

O DIA EM QUE CONHECI OLAVO DE CARVALHO ou “OLAVO, DEFINA UM TRIÂNGULO”

Não lembro ao certo o ano, nem vou me dar ao trabalho de pesquisar porque o fato se deu, com certeza, entre 1996 e 1999 – ou seja, numa era pré-Wikipedia e outros utilitários cibernéticos contemporâneos. Foi durante um painel com autores promovido pela então gigantesca e prestigiada Feira do Livro de Porto Alegre – hoje muito combalida. O evento aconteceu no Clube do Comércio – prédio histórico localizado na Praça da Alfândega. Por essa época, Olavo tinha lançado “O imbecil coletivo: atualidades inculturais brasileiras”; era colunista em alguns dos principais jornais do Brasil e Porto Alegre o aguardava, acreditem, como uma celebridade emergente.

Me interessava pelo estilo provocador de Olavo como articulista,a la Paulo Francis (aquele sujeito das trevas). Assim como o próprio Francis, Olavo fazia questão de usar como marketing pessoal o fato (fato?) de ter sido um militante comunista na juventude, ligado ao PCB. Eu, como a plêiade de jovens leitores que eram meus amigos à época, ou como a turba de jovens leitores que depois de ler Olavo acreditam terem visto “a luz” hoje em dia, não ligava muito para método científico, formação política clássica ou mesmo o pensamento crítico. Ou seja, ingênuo era uma presa fácil para o charlatão.

Tive a sorte de estar, naquela tarde, na agradável companhia do saudoso amigo José Otávio Ferlauto, o conhecido jornalista ‘das antiga’ Dedé Ferlauto – este sim, um intelectual. Dedé se animou com a ideia de assistir ao painel de Olavo, mas por motivos diferentes do meu interesse de espectador adestrado pela mídia local.

Após ouvirmos cerca de uma hora e meia de asneiras e platitudes do Olavo de Carvalho – e de assisti-lo ser grosseiro com os demais componentes da mesa, numa mistura de soberba, messianismo e histrionismo, Dedé ergueu o braço e o interpelou, da plateia: “Olavo, por favor, defina um triângulo”. Nem Olavo de Carvalho, nem a plateia entendeu direito. – Como é? Pode repetir. “Apenas eu gostaria de ouvir você definindo o que é um triângulo”, confirmou Dedé Ferlauto, diante de rostos atônitos e de um Olavo de Carvalho estupefato. Olavo gaguejou, depois resmungou, maneou com cabeça para a plateia numa tentativa de ridicularizar o interlocutor (conseguiu alguns risinhos cúmplices de seu fã clube) e, tentando encerrar, disse: – Desculpe, não entendi qual é o ponto. Alguém mais… “O ponto”, continuou Dedé, “é que você critica a imbecilidade mas não conseguiu definir rapidamente um mero triângulo”.

Diante do evidente desconforto no local, Dedé levanta e sai da sala com aquele sorriso sacana de quem tinha feito o renomado “filósofo” cair numa armadilha de koan. Esta lição eu nunca esqueci: diga o que disser, tudo que o vem de Olavo de Carvalho é elaborado, pensado, empacotado e vendido sob medida para convencer.

Olavo não é um filósofo, é apenas um propagandista da extrema-direita. Quem o enfrenta e o instiga a pensar “fora de caixa” só encontra nele ressentimento, reação sarcástica, violência verbal ou terminologia chula. De raciocínio lento e com baixa capacidade cognitiva, Olavo de Carvalho é um guru que não consegue “definir um triângulo” – um simples polígono de três lados – se o triângulo não estiver no seu script.

Que o caminho seja iluminado

Henri e Hellen

Todas as cartas de amor são ridículas, escreveu Álvaro de Campos.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.”

Aí Luis Fernando Verissimo disse (e não é falsa atribuição porque conheço a citação há quase trinta anos, antes da popularização da internet no Brasil): “Mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, é a que não tem medo do ridículo”.

Continuo assim: foram 2.318 dias, o que dá 331 semanas (e 1 dia), ou 6 anos, quatro meses e 5 dias que eu e Hellen escolhemos ser um casal – não, nunca contei os dias: este site ajudou. A partir deste 15 de outubro, passamos a viver em casas diferentes e, assim, jogamos luz no recôndito ao anunciar ao círculo de amigos e amigas a nossa “separação” – essa senhora tão vetusta quanto anúncios de tal natureza. Mas ao inverso do “comunicado à sociedade” de noivados e bodas, publicado nos jornais do passado (que, por acaso, continuam a circular até hoje), é na internet que publico este ridículo e, portanto, amoroso aviso. Como na cultura mexicana, desejo una buena muerte a esta fase de nossas vidas para que dela a gente se reinvente pelo caminho. E que o caminho seja iluminado.

Herbert Vianna, na saudade irremediável de Lucy, escreveu: “Se eu não te amasse tanto assim | Talvez perdesse os sonhos | Dentro de mim | E vivesse na escuridão | Se eu não te amasse tanto assim | Talvez não visse flores | Por onde eu vim | Dentro do meu coração | Hoje eu sei, eu te amei | No vento de um temporal | Mas fui mais, muito além | Do tempo do vendaval”.

Gilberto Gil escreveu para Sandra: “O amor da gente é como um grão | Uma semente de ilusão | Tem que morrer pra germinar | Plantar nalgum lugar | Ressuscitar no chão | Nossa semeadura | Quem poderá fazer aquele amor morrer | Nossa caminhadura | Dura caminhada | Pela noite escura (…) | Não pense na separação | Não despedace o coração | O verdadeiro amor é vão | Estende-se infinito | Imenso monolito | Nossa arquitetura”.

Hellen Miranda foi o desafogo, o ardor, o desafio e a dor aplacada de ter me dado, por sem quem é, as coordenadas pra eu retomar o rumo quando estava à deriva. Depois, tornou-se em mim a felicidade da madurez na escolha adulta de construir um lar. Agora é família – daquela natureza linda dos amores e amizades que não se fazem, e sim se reconhecem. Sendo família, é para sempre. Sendo escolha, é o orgulho de lhe ter tido como companheira e de merecer estar do lado dela noutras caminhaduras no futuro.

Seja feliz, meu amor, minha amiga. Se merecemos a zombaria por sermos ridículos, também merecemos cada lágrima de despedida, cada riso nervoso mas também de alívio e expectativa pelo que nos espera ali adiante. Cada arfada que oxigena e cura, cada lufada de novos ares, cada hálito desejado que nos fará daqui a pouco relembrar e reviver o quanto é bom ser querido e querer livremente.

Sem cinismos nem abandonos. Não precisamos de clemência, explicações nem indulgências. Sempre admitimos: fomos culpados, sim. Amar continua sendo subversivo quando acontece na pele, na carne e na alma – fora da sacralização das palavras rituais. É preciso morrer pra germinar. Ou, como disse Adélia Prado no final de um poema chamado “Leitura”:

“Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.”