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A PAUTA IDENTITÁRIA E O FIM DO PACTO DA MEDIOCRIDADE

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“A pé e de coração leve eu sigo pela estrada aberta,

saudável, livre, o mundo à minha frente,

(…) Daqui em diante não peço mais boa sorte, boa sorte

agora sou eu.

Daqui em diante eu não lamento mais, eu não adio mais,

De nada careço;

acabei com as queixas portas adentro, bibliotecas,

críticas rixentas;

forte e contente vou eu pela estrada aberta.

(…) Ó estrada pública, eu respondo que não receio deixar-te,

embora goste de ti,

tu me expressas melhor do que me expresso eu mesmo,

há de ser para mim mais do que meu poema.

(…) Allons!  Não devemos parar aqui,

por mais doces que sejam estas coisas arrumadas,

por mais conveniente que a habitação pareça,

não podemos permanecer aqui;

por mais abrigado que seja o porto e por mais calmas

as águas,

aqui nós não devemos ancorar;

por mais acolhedora que seja a hospitalidade

à nossa volta,

não nos é permitido desfrutá-la

senão por bem pouco tempo.

Ouvi-me!  Serei honesto convosco:

não ofereço os macios prêmios de sempre,

mas ofereço ásperos prêmios novos.”

 

Trechos do “Canto da Estrada Aberta” de Walt Whitman (1819 – 1892)

Por Henri Figueiredo*

Algumas reflexões sobre como parte da Esquerda lida (ou deveria lidar) com o projeto de poder dos evangélicos neopentecostais

Há um erro estratégico e de método político que persiste em vastas parcelas da Esquerda brasileira e mundial. Um erro que precisa ser denunciado e corrigido, dentro e fora das fileiras militantes, antes que nos engesse e nos leve à repetição de erros táticos e eleitorais. Ainda mais neste momento em que é necessária a formação de uma frente democrática contra o avanço do ultraliberalismo com laivos fascistas – ou, como tem sido chamado, do neofascismo à brasileira. O erro é recorrente e carrega a ultrapassada concepção de que os movimentos classistas de cunho econômico e social são necessariamente prevalentes aos movimentos identitários –como as lutas antirracismo, pela igualdade de gênero e da comunidade LGBT. Outro erro, mais recente, é a relativização do conceito da laicidade do Estado, ou seja, da clara separação entre doutrinas de igrejas da organização da Res publica. Certos elaboradores imaginam que tratar do Estado laico (e do que dele provém)  representa, por si, impeditivo para nos (re)inserirmos nos debates políticos com as crescentes populações evangélicas neopentecostais.

Estrategicamente a luta socialista integrou e ajudou a organizar o Estado laico e as pautas libertárias, feminista e da igualdade racial. Chegando nessa quadra histórica, em que os movimentos identitários ganham volume e, muitas vezes, conduzem a maioria nas manifestações antissistêmicas, (o #EleNão foi o exemplo emblemático, na eleição de 2018), o método dos Politburos modernos já não pode ser de apenas “encaixá-los” na pauta econômica.

UMA EXPERIÊNCIA MUITO PARTICULAR 

Não costumo entrar no debate negacionista da importância das organizações religiosas na política – as considero legítimas na política. Eu, por exemplo, fui um menino proletário que, aos 14 anos já estava no chão de fábrica fazendo trabalho de adulto. Tive, durante os estudos para Crisma numa Igreja Católica progressista, a primeira oportunidade de debater e tomar consciência da realidade em que estava imerso. Foi nas Comunidades Eclesiais de Base (CEB) da Teologia da Libertação. 

“Fé é chamado”, dizia o padre que se tornou mais um amigo do que conselheiro espiritual. Ele exortava o povo a ocupar os espaços da igreja – os únicos lugares na  região que acolhiam sem custo, por exemplo, as festas da juventude proletária e das famílias da comunidade. Eram espaços de encontro, lazer e debate político. E também, é claro, de espiritualidade e da fé – para os que tinham “o chamado” interno.  Se me tornei um militante de Esquerda, antissistêmico, foi devido à acolhida de um padre progressista que abriu espaços de encontro para a juventude proletária. Por isso, eu compreendo o centro do fenômeno das neopentecostais e do seu projeto de poder. Sejamos francos: a capilaridade do grande partido popular que é o PT deve muito à sua inserção nas CEBs e à Teologia da Libertação – hoje, aliás, justamente retirada pelo Papa Francisco da proscrição imposta durante décadas pelo Vaticano. Como se diz há tempos: “se o cachorro entra na igreja é porque ela está aberta”.

O voto da massa popular e trabalhadora no PT, dos primórdios, foi conquistado nesse campo e no campo do sindicalismo combativo e politizante. Se não fossem tais vertentes, o PT seria um partido de quadros intelectuais intramuros universitários – valorosos e centrais na concepção de uma nova Esquerda plural e democrática, mas com base restrita ou quase nula.

Libertários que somos, à Esquerda, defendemos a ampla liberdade de fé e de culto e, igualmente, defendemos a tolerância aos que não têm nenhuma crença religiosa confessional. Ponto. Parágrafo.

DEBATE SIM. MAS NÃO A MIOPIA DE TENTAR CABALAR VOTO CONSERVADOR

De onde vem, então, essa miopia (para não dizer covardia) dos que acreditam que se a Esquerda não se assumir “conservadora nos costumes” não conseguirá mais recuperar as classes B, C e D cooptadas pela onda crescente das igrejas evangélicas neopentecostais? 

Ora, o próprio PT conviveu (e convive) desde sempre com as contradições de parcelas militantes que defendem claramente o aborto legal e seguro, por exemplo, como uma questão de saúde pública e direito das mulheres ao seu corpo, enquanto outras parcelas foram (e são) refratárias com base em sua fé religiosa. 

As tensões internas decorrentes da própria concepção democrática e plural do PT levaram a militância petista a melhor a elaborar suas teses e melhor conduzir suas práticas na sociedade. Neste tema específico, tenho certeza que as feministas ajudaram a problematizar e a situar a questão do aborto para além do dogma religioso; e, por outro lado, os(as) religiosos(as) contribuíram com uma dimensão espiritual e mística que perpassa todas as sociedades do mundo para além do dogma materialista. Eis a beleza da dialética. E a riqueza e a força da pluralidade do PT – um partido sempre em busca de sínteses.

A pauta classista e econômica foi responsável pelas conquistas que os(as) trabalhadores(as) arrancaram a ferro, fogo e sangue do sistema capitalista ao longos dos dois últimos séculos. A pauta identitária é a pauta civilizatória que deve estar no centro do debate e da disputa política contra a barbárie no século XXI. 

Há quem ache ingênuo que possa haver espaço para civilização livre e libertária diante da escravidão de um sistema que mói gente. Mas vale a pena, ou faz sentido, lutar por condição de trabalho, salário e aposentadoria enquanto temos de flexibilizar a luta diante da necropolítica do feminicídio, da homofobia, do racismo e do fundamentalismo religioso? Não bastam os fatos que apontam para o sequestro do aparato do Estado e das instituições por grupos que querem impor à sociedade uma visão de mundo obscura e excludente? 

IDENTITARISMO E REALPOLITIK EM 2019

Escrevo em outubro de 2019. Alguns defendem que o identitarismo e o embate político com certos neopentecostais é falta de proposta política e que o importante é a “vida real”, a realpolitik dos interesses econômicos e financeiros imediatos da população. São, no mais das vezes, os mesmos que não deram (nem vão dar) um pio com a gigantesca fuga de capital do Brasil a partir de 6 de outubro. Em quatro dias, estrangeiros retiraram quase US$ 2 bi do país, “levando a parcial negativa deste ano para R$ 27 bilhões, quase 10% a mais do que os 24,8 bilhões que se evadiram no ano de 2008, com a crise mundial”, segundo informou o jornalista Fernando Brito, no blog Tijolaço. 

A narrativa do establishment geopolítico é que o Brasil afunda na crise financeira devido à guinada ultraconservadora, de desregulação e crime ambiental, de censura às artes, à livre expressão e ao jornalismo independente, de ameaça aos direitos civis e liberdades fundamentais. Tornamo-nos párias no cenário internacional. Narrativas à parte, não estamos vendo o que ocorre debaixo dos nossos narizes com o avanço da agenda ultraconservadora, autocrática e distópica de um governo fascistoide? 

Certeza de que, nessa hora grave, precisamos é nos mostrar palatáveis ao gosto dos fundamentalistas religiosos que têm projeto de poder e ficam melindrados com nossa pauta civilizatória? Ou devemos ir para o embate público com eles? Fico com a última opção. Mas, à diferença deles, eu não quero eliminar o outro, não quero metralhar o diferente, não prego com discurso de ódio. A nossa bandeira é da vida, livre, tolerante, democrática e laica. 

Assim como a agressividade doentia de um psicopata como Olavo de Carvalho é contagiosa no debate público e tendemos, nós que não temos sangue de barata, a responder na mesma moeda, o discurso conservador, falso-moralista, hipócrita e canalha também contagia. 

Como escreveu recentemente a jornalista Cynara Menezes: “A esquerda não pode só pensar em ganhar a eleição. Temos um papel didático com as gerações futuras. Precisamos contribuir para conscientização da população para o que significa ser progressista; antirracista; contra a homofobia; feminista; pró- descriminalização do aborto e pró-descriminalização da maconha. Não podemos abrir mão de debater com a sociedade estes temas. Colocar a população para evoluir, não retroceder junto com ela. Ou agora teremos também que nos curvar à escola sem partido?”.

Seria bom rompermos com o pacto da mediocridade da Realpolitik míope que nivela por baixo projetos de sociedade inconciliáveis em nome de um pragmatismo covarde e inerte. Devemos encarar o trabalho pela mudança na direção dos movimentos que são as vozes e as bandeiras civilizatórias deste século. 

DEMOCRACIA PRESSUPÕE CHOQUE DE IDEIAS E PROJETOS DE PODER

Se as nossas alas cristãs na Esquerda, caudatárias da Teologia da Libertação, entenderam alguma vez o grande quadro da geopolítica e a condição humana, não podem admitir que a Teologia da Prosperidade ou do culto ao Deus Mamon prevaleça. Como conviver com quem prega a misoginia, a homofobia, a satanização do adversário e do diferente? Quanto de ingenuidade é preciso para acreditar que grupos fundamentalistas, algum dia, venham a compartilhar poder sem que o conquistemos pela luta? Como conciliar o necessário combate às práticas antidemocráticas e bárbaras com o respeito ao princípio da liberdade religiosa e de culto?

Nesse caldo, a tradição marxista é importante porque dá a liga entre teoria e práxis nos voluntarismos dispersos. Por isso, atacam o que chamam de “marxismo cultural” e, com isso, vão avançando sobre as universidades, sobre o jornalismo, sobre a livre expressão e sobre as liberdades num movimento anti-intelectual e anticientífico. Che Guevara, cuja execução pelos lacaios bolivianos da CIA completa 52 anos, disse que o conhecimento nos faz responsáveis. E, por isso, abri este breve ensaio com uma citação de Walt Whitman, um dos poetas favoritos de Che, que fala da estrada pública, da estrada aberta e do não conformar-se. 

Nesta semana, em entrevista ao Roda Viva, o ministro do STF Gilmar Mendes, à guisa de justificar sua opinião jurídica que muda com o vento, parafraseou um pensador espanhol que fundou a Escola de Madri. Mendes, porém, sem honestidade intelectual, só soberba, não citou a fonte. O amigo jornalista Adriano Marcello Santos marcou em cima e indicou o autor – José Ortega y Gasset, no livro “Meditações do Quixote”: “Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não me salvo a mim”. Salvemo-nos, portanto. 

 

*Henri Figueiredo é jornalista, ativista digital e militante do Partido dos Trabalhadores.

 

 

ATRAVESSANDO A FUMAÇA | Reflexões políticas na madrugada bolsonarista

69394161_2505672279471811_3393107241392406528_nPor Henri Figueiredo*

Quando passar a longa noite bolsonarista repleta de fumaça, ódio e fogo, o povo brasileiro verá a terra arrasada da quebra de direitos como ao da aposentadoria – cujos valores, se não chegavam a ser “justos”, ao menos tiveram aumentos anuais reais nos governos do PT, assim como o salário mínimo teve.

Bolsonaro com suas asneiras, estupidez e incapacidade mental tragicômica é cortina de fumaça perfeita para a pilhagem do Pré-sal pelos EUA; para o desmonte veloz da rede de proteção social afirmada pela Constituição de 88 e pelas políticas públicas criadas de lá pra cá; para a liberação descontrolada do capitalismo mais selvagem e predatório e, agora, sem a proteção de leis e fiscalização trabalhista ou ambiental.

O Brasil é roubado, saqueado, desmontado sob um governo de entreguistas. A prestidigitação dos donos do poder econômico se deu por meio de seus veículos de comunicação de massas – primeiro para convencer os analfabetos políticos a saírem às ruas não apenas contra “o petê” mas contra os seus próprios direitos. Depois, para instrumentalizar, com financiamento empresarial milionário, uma rede de mentiras dirigidas a partir da tecnologia da informação e das redes sociais na Internet.

Nessa conjuntura absolutamente distópica em que vivemos, a Resistência não é apenas por democracia – é também por sanidade física e mental, porque somos inundados de veneno desde a comida até o bombardeio diário do discurso de ódio que nos fazer querer reagir e partir pra guerra civil.

A guerra perfeita para o Império seria a de brasileiros(as) contra seu próprio povo – “matem-se entre vocês”, ri-se Trump emulando como farsa o “Divide et impera” do César romano.

O componente neofascista e, às vezes, abertamente nazista da história me parece que vem justamente das classes médias vinculadas ao patrimonialismo nacional. E de certos setores do Judiciário, em todas as esferas. Minha intuição sempre avisou, por mais subjetivo e arriscado possa isso ser para um jornalista registrar, que nunca foi à toa ou por casualidade que Moro se apresentou nos seus primeiros anos midiáticos de camisa negra – assim como seus colaboradores no serviço judiciário. Ouvi de reconhecido jurista que, nas classes de magistrados e promotores, o Poder Judiciário e o Ministério Público já estão amplamente tomados de fascistas. Vi pessoalmente este fenômeno ser gestado nos anos 90, quando no Movimento Estudantil Universitário. Alguns mestres alimentavam seus pupilos no curso de Direito com obras do integralista Plínio Salgado, por exemplo.

O antropólogo Darcy Ribeiro disse certa vez que “a crise da educação no Brasil não é crise, é projeto”. Também a escalada fascista que tomou de assalto cargos chaves da República é um projeto.

O “LAWFARE” é a guerra em que a lei é usada como arma. Os soldados diletos do lawfare no Brasil são os doutrinados ultraliberais de matriz cristã norte-americana, com cursos nos EUA ou em programas de formação espalhados pela periferia do Império. Especialmente “operadores do Direito”.

Foi o lawfare que deu sustentação ao Golpe de 2016 em Dilma, que perseguiu as principais lideranças de Esquerda e encarcerou Lula para tentar destruir moral e eticamente sua imensa liderança mundial em defesa da classe trabalhadora. Este lawfare vai se transformando em guerra híbrida com o uso da cibernética e da ação de milícias de intimidação física aos divergentes – como nos casos recentes e cada vez mais constantes de ataques a artistas durante espetáculos, volta da censura e da autocensura do jornalismo comercial. A cruel sutileza das patrulhas comportamentais do bolsonarismo é que elas são muitas vezes, sim, “espontâneas”. Noutra época chamaríamos o método de “brainwash”.

Quando passar a cortina de fumaça bolsonarista, para conter a revolta da maioria (que vai acordar da hipnose e do engano jogada de volta à pobreza ou à miséria) será necessária a “pacificação do país” – esse é outro eufemismo clássico da direita mundial para justificar a repressão aberta e o estrangulamento dos direitos e liberdades civis.

Mourão parece ideal para esse papel de “pacificador” repressivo. Toffoli, um traidor talvez mais vil do que Temer, já manifestou publicamente que a própria Constituição deveria ser “desidratada”. Logo ele, presidente do tribunal que, Supremo, deveria ser o guardião da Constituição Democrática.

Outra saída das oligarquias brasileiras, cuja aceitação pelas classes médias vai sendo testada na mídia de massas, é a transição para um regime parlamentarista ou “semi-parlamentarista”, como já li.

Não importa, o plano parece ser transferir o máximo de poder da República para os representantes do Boi (“agro é tudo”, diz o slogan a la “Brasil, ame-o ou deixe-o” dos anos 70); da Bala (porque só com força armada, ao fim e ao cabo, se sustentam golpes contra a vontade popular); e da Bíblia (porque o que seria das almas, se depois da miséria e exploração nesta vida não tivéssemos a garantia da felicidade no Reino dos Céus ou, por outra, se não acreditassem que a prosperidade é a recompensa do Deus Mamom aos fiéis que pagam em dia o dízimo e não contestam “as obras”).

No final, tudo é controle. Ou tentativa.

No meio, a vida corre e, pra ser vívida, precisa ser rebelde.

Diz-se que a ignorância é uma bênção. Pra mim a bênção também é saber junto, questionar junto, investigar junto, andar junto, conhecer e conquistar junto.

Só a vida política me faz aceitar-me como espécie gregária. Não fosse a paixão pela política, seria um eremita – como meu xará Thoreau foi no século XIX, quando escreveu “A Desobediência Civil”. (Ao dizer, antes, “paixão”, de fato ocorreu-me primeiro o sofrimento.)

São reflexões na cortina de fumaça. Etimologicamente, o que pode refletir em meio a essa névoa bolsonarista? Suponho que só o que temos mesmo dentro de nós mesmos e nos mantêm de pé, dia a dia, numa luta que, no fundo, queria ser prazer. Mas fosse só prazer não daria muito sentido à vida. Por isso, tenho lado e tento equilibrar-me no caminho do meio.

*Henri F. é jornalista.
São Leopoldo, 2 de setembro de 2019

UM PANORAMA DO PENSAMENTO CRÍTICO COM AS ESQUERDAS DE VOLTA ÀS RUAS

 

Brasil de Fato

Manifestantes na avenida Presidente Vargas, no Rio, em 15 de maio, no #TsunamiDaEducação #15M / Foto: Pedro Rocha | Brasil de Fato

 

Por Henri Figueiredo | Twitter: @henrifigueiredo

Neste maio de 2019 percebemos não apenas o ressurgimento das manifestações de rua de uma ampla frente de Esquerdas e Centro-Esquerda como, também, de uma produção teórica e analítica afiada. O pensamento crítico resiste, alimenta a rua e dela se alimenta na renovação dos protagonistas, na maneira de (re) organizar os atos públicos de protesto e de como fazer a leitura da conjuntura. Na minha percepção, as melhores análises de conjuntura têm partido de gente da academia: sociólogxs, antropólogxs, historiadores e um(a) ou outro(a) jornalista da contra corrente.

Apresento aqui uma seleção de excertos que compõem um bom panorama dessa produção intelectual entre os dias 11 e 17 de maio de 2019. Ao final, os leitores poderão encontrar os links para a íntegra dos textos e, quando houver, a indicação da conta de Twitter dos autores.

SABRINA FERNANDES¹, SOCIÓLOGA, youtuber do Canal Tese Onze

“Não há prática revolucionária sem teoria revolucionária, como a tradição leninista nos lembra, e essa relação é uma relação dolorosa de reflexão e reorganização contínua. (…) é possível encaminhar a autocrítica como uma norma organizativa e estratégica para esquerda e não como algo derrogatório. A esquerda precisa parar de ter medo de admitir seus erros para que enfim possa celebrar seus acertos de forma mais frequente e reocupar o lugar na história e no campo político que tanto a extrema-direita quanto os liberais do ‘nem esquerda nem direita’ tentam lhe negar”.

 

ELIANE BRUM², JORNALISTA E ESCRITORA, COLUNISTA DO EL PAÍS

Desculpa, mas não há desculpa. Não basta você ficar no sofá tuitando ou feicibucando enquanto os direitos são apagados e o autoritarismo se instala no Brasil. Não dá para terceirizar luta e posição na vida. O problema também é seu. O que está em curso não acaba em quatro anos. O que se destrói hoje levou décadas para ser construído. As consequências são rápidas, algumas imediatas. Destroem primeiro os mais frágeis, depois (quase) todos. E, a não ser que você concorde com o que o presidente contra o Brasil está fazendo em seu nome, é com você ser +um e chamar +um.

(…)

Já escrevi no passado recente que acreditava que as redes sociais eram ruas também. Ruas de bytes era como eu me referia a elas. Percebo que estava equivocada. As redes sociais não são ruas. Para ser rua é preciso corpo. O que se passa nas redes sociais é importante e têm definido nosso cotidiano. O que se passa nas redes sociais têm muitos impactos sobre a vida e sobre a percepção da vida. Já podemos criar uma biblioteca inteira de livros que refletem sobre esse fenômeno. É necessário investigar o que as redes sociais são, em seus múltiplos significados. Tanto quanto saber o que não são. E as redes sociais não são rua.

O que se passa nas redes sociais tem efeitos sobre o corpo de cada um. Mas o corpo de cada um não está lá. Ir para a rua, ocupar as ruas, o imperativo ético deste momento, só é possível com encontro. A rua pressupõe encontro real. Pressupõe se arriscar ao outro. Pressupõe conviver de corpo encarnado. Pressupõe negociação de conflitos para dividir o espaço público. A rua é onde estamos com nossos fluidos, enfiados na nossa própria pele, carregando nossas fragilidades diante do outro sem nenhum botão de curtir ou de raiva para acionar. A rua é onde nos arriscamos a nos refletir no olhar do outro e nos reconhecer num corpo que não é o nosso. Nos reconhecer na humanidade e também na diferença.

(…)

Há várias hipóteses e algumas razões (de não irmos pra rua), uma delas o medo. Da polícia, que em vez de proteger os corpos, destrói os corpos. Outra o medo do contágio, já que o outro foi convertido num inimigo. Mas a melhor hipótese que escutei nestes últimos dias foi proposta pelo jornalista Bruno Torturra, em seu “Boletim do Fim do Mundo”, de 9 de maio. Ele faz uma analogia entre a libido sexual e a libido política. O que faríamos todos, ao despejarmos nossa revolta nas redes sociais, seria uma espécie de masturbação. Não falta material na internet para excitarmos e darmos vazão a essa libido política, como não falta material na internet para darmos vazão à libido sexual 24 horas por dia.

(…) Que o primeiro protesto de rua significativo contra o governo de Bolsonaro tenha partido das universidades, segundo Torturra, é revelador. É no espaço das universidades que os estudantes, e também os professores e funcionários, convivem com seus corpos, entre corpos. Ali há compartilhamento real, há negociação, há debate. Há conversa. E há, principalmente, relação. E, assim, há também movimento. É também por essa razão que Bolsonaro e seu ministro contra a Educação decidiram usar o poder conferido pelo voto para destruir a universidade e, assim, perverter o poder conferido pelo voto ao perverter a própria democracia. Qual é o projeto de educação dessa antipresidência? O mesmo projeto que busca transformar a floresta em pastagem, lavoura de soja transgênica e cratera de mineração. O projeto neoliberal. O um.

É preciso resistir também ao esgotamento da libido política nas redes sociais. Ou, dito de outro modo, é preciso manter seu desejo pulsante para se arriscar ao convívio das ruas. É preciso sair do umbigo de si e alcançar o vasto corpo do outro. É preciso estar junto. Não se dê desculpas. ²

 

ROBERTO DAMATTA³, 82 anos, ANTROPÓLOGO, articulista d’O GLOBO

(…) O coração ideológico da consciência política da minha geração, formada no final dos anos 50, foi o marxismo. Um marxismo lido em traduções de edições russas censuradas. Lembro que essa geração da Guerra Fria — condescendentemente chamada de “geração Coca-Cola” — não falava apenas de “direita” e “esquerda”. Ela ia além, classificando as pessoas como “conscientizadas” e “alienadas”. Os pais eram alienados, as mães — católicas e preocupadas com os pobres — pré-conscientizadas. Fui contaminado por Karl Marx e pelo pouco falado Friedrich Engels quando entrei na faculdade. Quem, aos 20 anos, não tem o direito de se deslumbrar com o Manifesto Comunista e vibrar com o fim da opressão encontrando, de quebra, a chave-mestra da História da Humanidade?

Foi o protomarxismo mais evolucionista do que funcionalista (o Marx do 18 Brumário e o da Questão Judaica) que me levou a perceber o Brasil que gravitava em minha volta. Brasil com o qual, como aprendiz de antropólogo do Museu Nacional, entrei em contato quando vi o seu lado mais fundo e dramático — suas sociedades indígenas que, mesmo com a tal “proteção oficial”, estavam sendo dizimadas enquanto os sertanejos reclamavam de injustiça.

Foi, pois, o altruísmo contido no “comunismo” que me levou a essa identificação com um Brasil a ser transformado. Não abandonei esse comunismo até hoje entrelaçado ao meu amor pelo Brasil.

O que abandonei foi a infantilidade dos radicalismos. Do “esquerdismo” nas suas versões radicais e patologicamente malandras e populistas. Um posicionamento cujo pendor acusatório e condescendente, ressentido e repleto de má-fé (aos nossos, tudo; aos inimigos, o berro, a negação, a mentira e a calúnia!) reproduz o autoritarismo fascistoide do regime militar. A prova do pudim foi (como ocorre em todo lugar) a chegada ao poder, pois nada é mais revelador do que o poder.

(…) O que não pode ocorrer é a tentativa de eliminação suicida da esquerda pela direita. Deveríamos ter aprendido que a democracia tanto como um regime político e, acima de tudo, como um estilo de vida, precisa dos dois lados que nela concordam em discordar. Direitas e esquerdas perfeitas — que deixam saudade! — só ocorrem nas ditaduras que, lamentavelmente, conhecemos bem demais.

 

FERNANDO HORTA4, graduado em História pela UFRGS e com mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília, onde também faz doutorado. ARTICULISTA DO JORNAL GGN

(…) O custo das reformas que o “mercado” quer é altíssimo. A destruição da previdência social brasileira (vendida enganosamente como apenas uma “reforma”), o aprofundamento da destruição de todas as leis de seguridade do trabalho e a implosão do sistema público de educação e saúde do Brasil são muito “bem-vindos” pelo mercado. Como se sabe, o “mercado” não preza nem respeita ninguém. É o lucro pelo lucro e ponto final. A aposta do setor financeiro nacional e internacional era em Temer. Um político velho e velhaco, corrupto fisiológico, apavorado pela possibilidade de passar seus poucos anos de vida preso, e oriundo de um partido que virtualmente dominava o parlamento brasileiro desde o final do regime militar.

Temer, contudo, não esteve à altura do desafio. O estado de desarranjo político que impeachment deixou, mais a obsessão e necessidade do ex-vice em proteger seus telhados de vidro (Eliseu Padilha, Moreira Franco e etc.) foram alvejados de morte com a prisão de Geddel Vieira. Todo este reboliço enfraqueceu o governo e as “reformas” não vieram. Ainda que Temer conseguiu se segurar no poder com a compra de votos e a aprovação das leis que destruíram a CLT. Mas foi só.

Diante do fracasso deste plano e da ascensão da extrema-direita, a aposta foi renovar a dobradinha que tinha dado certo no final dos anos 20 e dos anos 30, na Europa. Um autoritário insano e ignorante “apoiado” por liberais, a privatizarem tudo o que tinha pela frente. Aos que não sabem, Hitler foi um privatizador contumaz nos seus primeiros anos de governo. Ao contrário do que fazia o resto da Europa, o nazista chegou a privatizar serviços básicos de água e esgoto em algumas cidades alemãs. A aposta da época era que o populismo insano de Hitler se dobraria ao capital e a regra do “lucro pelo lucro” mandou os capitalistas seguirem em frente com o apoio ao nazismo.

(…) Bolsonaro será descartado como fralda plástica de bebê. Pesado de “cocô e xixi”. Sem serventia. Ele e os filhos. O mercado, que é o cérebro por trás de tudo, já viu que o custo-capitão é altíssimo. Cada asneira dele ou dos filhos e o PIB cai. Cada insanidade dita em linguagem de latrina pública pelo “guru” de Richmond e investidores se afastam. Ninguém, de qualquer espectro político, atura um indigente mental no comando de um país. Especialmente um país do tamanho do Brasil.

Ocorre que Bolsonaro ainda é necessário até a aprovação das reformas. É ele que precisa ser queimado na pira da opinião pública para que o “mercado” atinja seus objetivos. E a escolha foi mais que perfeita. Nenhum político com alguma inteligência aceitaria este papel. Bolsonaro nunca mais será eleito para nada, seus filhos serão escorraçados e até o exército já se deu conta que pode ser tragado neste buraco negro de impopularidade.

(…) Assim que aprovar as reformas, Bolsonaro cai. Mourão assume com o lustro dos coturnos e o tilintar dos fuzis. O Brasil será “pacificado” da mesma forma que foi com o Duque de Caxias, no século XIX. Quem não se adaptar morre. Fuzilado, se for preciso.

O mercado ficará feliz. O Capitão, não. É exatamente isto que seus filhos, dois milímetros mais inteligentes que o pai, estão preocupados. Duvido que eles consigam entender o que está acontecendo, mas estão ouvindo o “zumbido do mosquito”. Seria interessante eles lerem a biografia de Mussolini, especialmente a parte final dela. Assim saberiam o que acontece com líderes fascistas quando o capital lhes abandona a retaguarda.

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LINKS PARA A ÍNTEGRA DOS TEXTOS

1 – Leia a entrevista da socióloga Sabrina Fernandes em Carta Capital. 11 de maio de 2019

https://www.cartacapital.com.br/?p=71515 | Twitter de Sabrina Fernandes: @safbf

2 – “ EU + UM + UM + UM+ | A responsabilidade de cada um na luta contra a destruição do Brasil”, artigo da jornalista e escritora Eliane Brum no EL PAÍS em 16 de maio de 2019. Twitter de Eliane Brum : @brumelianebrum

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/05/15/politica/1557921007_146962.html

3 – Artigo Sobre o ‘marxismo cultural’ publicado em 15 de maio n’O Globo.

https://oglobo.globo.com/opiniao/sobre-marxismo-cultural-23665833

4 – “Bolsonaro, o descartável”, artigo do historiador e mestre em Relações Internacionais Fernando Hora.  | Twitter de Horta: @FernandoHortaOf

https://jornalggn.com.br/artigos/bolsonaro-o-descartavel/

Chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, Malês

Marielle Grafitti

É hora de comentar os sambas de enredo das escolas do Grupo Especial do Carnaval do Rio em 2019. Até porque estamos a uma semana dos desfiles competitivos na Passarela do Samba Professor Darcy Ribeiro – vulgarmente conhecida como “Marquês de Sapucaí”, nome da rua onde o espetáculo acontece no bairro da Cidade Nova, ao lado do Estácio, na região central do Rio de Janeiro. (Saiba mais no link https://goo.gl/1zyCXR ). Como tenho feito há alguns anos, comento samba a samba equilibrando a minha percepção mais intuitiva de ouvinte e amante do carnaval com algumas informações que podem ajudar aos leitores a se situar melhor em relação à história recente da festa. Não tenho a pretensão e nem a qualificação necessária para formular críticas mais elaboradas sobre composição, arranjo de bateria e nem sobre o enredo propriamente dito – deixo esta tarefa para os amigos e amigas especialistas e profissionais do carnaval. Reforço, portanto, de que se trata apenas de um prazeroso exercício de um ouvinte que é apaixonado pela música e pelo carnaval. Nesta publicação para o Facebook vou compilar alguns breves comentários. A ordem dos desfiles é a seguinte: DOMINGO, 3 de março: 1) Império Serrano 2) Viradouro 3) Acadêmicos do Grande Rio 4) Salgueiro 5) Beija-flor de Nilópolis 6) Imperatriz Leopoldinense e 7) Unidos da Tijuca. SEGUNDA, 4 de março: 1) São Clemente 2) Unidos de Vila Isabel 3) Portela 4) União da Ilha do Governador 5) Paraíso do Tuiuti 6) Estação Primeira de Mangueira e 7) Mocidade Independente de Padre Miguel. Optei aqui por seguir a mesma ordem do disco oficial da Liesa e que é definida pela classificação das escolas no desfile do ano anterior.

BEIJA-FLOR

A campeã de 2018 vem com um bom samba, levada irresistível, e com o sempre competente Neguinho da Beija-Flor noutra excelente interpretação. Ainda que distante da beleza e da força do samba campeão de 2018, vai fazer bonito. Um dos refrões diz: “Abre a senzala! Abre a senzala! Nesse terreiro o samba é a voz que não cala”. E a última estrofe, de linda melodia, emociona. Assista no link: https://goo.gl/4Mr9Nb

Oh Deusa!
Tem festa no meu coração
Desfilo toda gratidão
Razão do meu cantar
A luz do meu viver
O que seria de mim sem você?

Nascido feito rei menino
Em ninho de amor e humildade
Meu Pai direcionou o meu destino
Voar nas asas da felicidade
E arrisquei um voo nesse lindo azul
Um mundo encantado pude recordar
Em fábulas bordei a fantasia
Ê saudade que mareja o meu olhar
Herdeiro dessa terra me tornei
Cantei nossos recantos, tradições
Sou eu aquele festival de prata
Que na pista arrebata tantos corações

Ôôô Axé que no sangue herdei
No meu quilombo, todo negro é rei

Abre a senzala! Abre a senzala!
Nesse terreiro o samba é a voz que não cala

Cresci, ouvindo acordes entre doces melodias
A bela dama retratada em poesia e o canto de cristal
A simplicidade no amor, aquele beijo na flor
Fez mais um sonho real
Pátria amada da ganância
Eu pedi socorro pelos filhos teus
Algoz da intolerância
Mesmo proibido, fui a voz de Deus
Toda essa grandeza, vem da nossa gente
Que esquece a dor e só quer sambar
É por esse amor
E o meu valor me faz brilhar
Comunidade me ensinou
A ser apaixonado como eu sou
Ontem, hoje, sempre Beija-Flor

 

PARAÍSO DO TUIUTI

O Tuiuti vem com uma boa levada e com um segundo refrão que poderia ser premonitório se o relacionarmos a Brumadinho: “Vendeu-se o Brasil num palanque da praça | E ao homem serviu ferro, lodo e mordaça | Vendeu-se o Brasil do sertão até o mangue | E o homem servil verteu lágrimas de sangue”. Nem de longe, no entanto, se aproxima do emocionante samba de 2018 – que foi potencializado na avenida pela sensibilidade e criatividade do carnavalesco Jack Vasconcelos. Assista no link: https://goo.gl/CWpPFu

O meu bode tem cabelo na venta
O Tuiuti me representa
Meu Paraíso escolheu o Ceará
Vou bodejar lá iá lá iá

Vendeu-se o Brasil num palanque da praça
E ao homem serviu ferro, lodo e mordaça
Vendeu-se o Brasil do sertão até o mangue
E o homem servil verteu lágrimas de sangue

Do nada um bode vindo lá do interior
Destino pobre, nordestino sonhador
Vazou da fome, retirante ao Deus dará
Soprou as chamas do dragão do mar

Passava o dia ruminando poesia
Batendo cascos no calor dos mafuás
Bafo de bode perfumando a boemia
Levou no colo Iracema até o cais
Com luxo não! Chão de capim!
Nasceu muderna Fortaleza pro bichim

Pega na viola, diz um verso pra iô iô
O salvador! O salvador! (da pátria)

Ora meu patrão!
Vida de gado desse povo tão marcado
Não precisa de dotô
Quando clareou o resultado
Tava o bode ali sentado
Aclamado o vencedor

Nem berrar, berrou, sequer assumiu
Isso aqui iô iô é um pouquinho de Brasil

 

ACADÊMICOS DO SALGUEIRO

Forte! Forte! Seguindo sua tradição de cânticos afro, o Salgueiro traz um samba arrebatador numa gira pra Xangô. O primeiro refrão é matador: “Mora na pedreira, é a lei na Terra | Vem de Aruanda pra vencer a guerra | Eis o justiceiro da Nação Nagô |Samba corre gira, gira pra Xangô”. E trata da justiça quando canta “Machado desce e o terreiro treme | Ojuobá! Quem não deve não teme”. A invocação “Olori Xangô eieô | Kabesilé, meu padroeiro | Traz a vitória pro meu Salgueiro “ tem poder. Gostei muito. E a bateria Furiosa é espetacular. Axé!

Assista no link: https://goo.gl/V8Eygr

Olori Xangô eieô
Olori Xangô eieô
Kabesilé, meu padroeiro
Traz a vitória pro meu Salgueiro

Vai trovejar!
Abram caminhos pro grande Obá
É força, é poder, o Aláàfin de Oyó
Oba Ko so! Ao Rei Maior
É pedra quando a justiça pesa
O Alujá carrega a fúria do tambor
No vento, a sedução (Oyá)
O verdadeiro amor (Oraiêiêô)
E no sacrifício de Obà (Obà Xi Obà)
Lá vem Salgueiro!

Mora na pedreira, é a lei na Terra
Vem de Aruanda pra vencer a guerra
Eis o justiceiro da Nação Nagô
Samba corre gira, gira pra Xangô

Rito sagrado, ariaxé
Na igreja ou no candomblé
A bênção, meu Orixá!
É água pra benzer, fogueira pra queimar
Com seu oxê, chama pra purificar
Bahia, meus olhos ainda estão brilhando
Hoje marejados de saudade
Incorporados de felicidade
Fogo no gongá, salve o meu protetor
Canta pra saudar, Opanixé kaô!
Machado desce e o terreiro treme
Ojuobá! Quem não deve não teme

Olori Xangô eieô
Olori Xangô eieô
Kabesilé, meu padroeiro
Traz a vitória pro meu Salgueiro

 

PORTELA

“Lá vem Portela com as bênçãos de Oxalá” cantando a guerreira Clara, filha de Ogum com Iansã. A minha azul e branco de Oswaldo Cruz e Madureira homenageia a grande cantora portelense Clara Nunes – que era da Umbanda, religião nativa que melhor define o sincretismo religioso brasileiro. Faz uma deferência indireta ao mangueirense Paulo César Pinheiro (viúvo de Clara e um dos maiores compositores da música brasileira, autor de “Portela na Avenida” e “Canto das Três Raças”)> “Nos versos de um cantador | O canto das raças a me chamar”. O sincretismo da Portela revela-se, por exemplo, quando canta a “padroeira” (Nossa Senhora Aparecida) e “a avenida em procissão”. Noutro momento, o samba faz referências diretas ao grande Paulo da Portela, ao compositor Natal da Portela, e ao gênio do samba Candeia. É, como a própria letra diz, um samba “saudosista”. Bonita melodia! Faz jus à tradição de respeito que a Portela tem com sua própria história. Eparrei Oyá (Iansã)! P.S.: Também tem uma referência indireta a Paulinho da Viola quando canta: “Mais uma vez deixei levar meu coração”. Assista no link: https://goo.gl/2m23zM

Eparrei Oyá, Eparrei
Sopra o vento, me faz sonhar
Deixa o povo se emocionar
Sua filha voltou, minha mãe

Axé, sou eu
Mestiça, morena de Angola, sou eu
No palco, no meio da rua, sou eu
Mineira, faceira, sereia a cantar, deixa serenar
Que o mar de Oswaldo Cruz a Madureira
Mareia, a brasilidade do meu lugar
Nos versos de um cantador
O canto das raças a me chamar
De pé descalço no templo do samba estou
É rosa, é renda, pra Águia se enfeitar
Folia, furdunço, ijexá
Na festa de Ogum Beira-mar
É ponto firmado pros meus orixás

Eparrei Oyá, Eparrei
Sopra o vento, me faz sonhar
Deixa o povo se emocionar
Sua filha voltou, minha mãe

Pra ver a Portela tão querida
E ficar feliz da vida
Quando a Velha Guarda passar
A negritude aguerrida em procissão
Mais uma vez deixei levar meu coração
A Paulo, meu professor
Natal, nosso guardião
Candeia que ilumina o meu caminhar
Voltei à Avenida saudosista
Pro Azul e Branco modernista eternizar
Voltei, fiz um pedido à Padroeira
Nas cinzas desta quarta-feira, comemorar

Nossas estrelas no céu estão em festa
Lá vem Portela com as bênçãos de Oxalá
No canto de um sabiá
Sambando até de manhã
Sou Clara Guerreira, a filha de Ogum com Iansã

 

MANGUEIRA

E chegamos ao mais lindo samba-enredo do Carnaval de 2019. Obra-prima. Além de citar, com grandeza, Leci Brandão e Jamelão e mostrar que sabe bem do seu tamanho e significado no Brasil (“São verde-rosa as multidões”), a Mangueira traz um samba que é a um só tempo afetivo (Meu dengo, a Mangueira chegou) e contundente na denúncia da injustiça social brasileira. É de Esquerda e mais: humanista, antirracista, feminista. Por dois momentos é claríssima a referência à resistência contra a ditadura civil-militar: 1) “Mangueira, tira a poeira dos porões” e 2) “Salve os Caboclos de Julho | Quem foi de aço nos anos de chumbo”. Pelo que vi dos ensaios técnicos, deve ter paradona da bateria para a Mangueira e as arquibancadas cantarem, a capella: “Brasil, chegou a vez | De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, Malês”. Poeticamente, o samba da Mangueira é um dos mais bonitos da história dos samba de enredo. A estrutura poética desse samba é inigualável. É um clássico que me emociona tanto quanto “Kizomba, a festa da raça” da Vila, em 1988. Assista no link: https://goo.gl/e4m6kZ

Saiba mais sobre o samba aqui: https://goo.gl/95PbS7

Mangueira, tira a poeira dos porões

Ô, abre alas pros teus heróis de barracões

Dos Brasis que se faz um país de Lecis, Jamelões

São verde e rosa as multidões

Brasil, meu nego

Deixa eu te contar

A história que a história não conta

O avesso do mesmo lugar

Na luta é que a gente se encontra

Brasil, meu dengo

A Mangueira chegou

Com versos que o livro apagou

Desde 1500

Tem mais invasão do que descobrimento

Tem sangue retinto pisado

Atrás do herói emoldurado

Mulheres, tamoios, mulatos

Eu quero um país que não está no retrato

Brasil, o teu nome é Dandara

E a tua cara é de Cariri

Não veio do céu

Nem das mãos de Isabel

A liberdade é um dragão no mar de Aracati

Salve os Caboclos de Julho

Quem foi de aço nos anos de chumbo

Brasil, chegou a vez

De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, Malês

 

MOCIDADE INDEPENDENTE DE PADRE MIGUEL

Bonito samba e que interpretação do Wander Pires! Fiquei com aquela sensação de que a performance do cantor é metade da beleza desse samba-enredo. E a belíssima abertura de Elza Soares já nos coloca numa situação de atenção reverencial ao que virá. A bateria me autoriza a dizer, numa palavra: sonzera. Tá na minha playlist. Aliás, a Mocidade vem com sambas-enredo muito bons nos últimos anos. Assista no link: https://goo.gl/mByZiY

“Padre Miguel, o teu guri já não caminha tão depressa

Mas nunca é tarde pra sonhar

Vamos lá

A hora é essa!”

Senhor da razão, a luz que me guia
Nos trilhos da vida escolhi amar
Estrela maior, paixão que inebria
Eu conto o tempo pra te ver passar

Olha lá, menino tempo
Tenho tanto pra contar
Era eu, guri pequeno
Pés descalços, meu lugar
Quando um toco de verso (ôôô)
Semeou a poesia (ê láiá)

Eu colhi a flor da idade
Vi na minha Mocidade
O raiar de um novo dia

Baila no vento, deixa o tempo marcar
Nas viradas dessa vida
Vou seguir meu caminhar
Ah! Quem me dera o ponteiro voltar
E reencontrar o mestre na avenida

Desmedido coração
No contratempo dessa ilusão
Ora machuca, ora cura dor
Do meu destino, compositor
Tempo que faz a vida virar saudade
Guarda minha identidade
Independente relicário da memória
Padre Miguel, o teu guri já não caminha tão depressa
Mas nunca é tarde pra sonhar
Vamos lá, a hora é essa!

 

UNIDOS DA TIJUCA

Tenho uma relação afetiva com a comunidade do Borel – morei mais de três na Conde de Bonfim próximo ao morro. A Tijuca traz uma belíssima melodia. E como é uma escola de samba exxxperta, alinha com os católicos nesta guerra santa que virou o Carnaval do Rio de Janeiro sob o comando da Prefeitura nas mãos de um “bispo” evangélico neopentecostal que persegue a cultura afro. Tem um refrão que me lembra muito o lindo samba da Beija-flor em 2018 mas no refrão seguinte a Tijuca lacra: “Só existe um caminho… (por favor!) | Cada um faz seu destino (meu senhor!) | As migalhas do poder que o diabo amassou | Estão dentro de você”. Eu gostei muito. Assista ao vídeo do Pavão no link: https://goo.gl/KMLdg4

Hoje a Tijuca pede em oração
Veste a fantasia pra fazer o bem
Multiplica o sagrado pão
Amém (amém)

Meu filho
Como é lindo o amanhecer
Reflete o sol, a criação
Um bom dia a renascer
Pelos olhos do Pavão
Sou a fé na vida
Esperança da massa
Aquele que na dor te abraça
Sou eu, a verdade pra quem pede luz
Carregando a sua cruz
O alimento em comunhão
Princípio da salvação

Ouço chamar Meu nome
Ouço um clamor de prece
Choro ao te ver com fome
Sou o cordeiro que a alma fortalece

Só existe um caminho (por favor)
Cada um faz seu destino (meu senhor)
As migalhas do poder que o diabo amassou
Estão dentro de você
As mãos unidas vem pedindo o perdão
Gente sofrida com a paz no coração

Dividem o pouco que tem pra comer

Ó meu pai o seu amor é a receita
Iluminai, que não me falte o pão na mesa
Derrame igualdade, prosperidade
As bênçãos do céu
Se Deus é por nós, escute a voz
Que vem do meu Borel

 

IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE

A Imperatriz apela para o refrão de uma marchinha de Carnaval clássica e traz um samba divertido e crítico – bem ao estilo, de novo, das marchinhas que são crônicas sociais. Aliás, acho que é o samba mais cinicamente divertido desse Carnaval. Sacaneia a política, o capitalismo e o jogo de interesses mas também se auto-sacaneia desde a primeira estrofe – e, consigo, todo o mundo do carnaval carioca. Apesar de dizer que tem “pixulé” também zoa o “pato mergulhado no dinheiro”. Não tenho como não aplaudir passagens como essa, por exemplo: “Troca-troca ê na beira da praia | Um espelho por cocar, o negócio é um pecado | Ouro no mercado negro, negro é ouro no mercado | Tempos modernos, onde vidas valem menos | Boas ações não representam dividendos” || Salve, Imperatriz! Assista no link: https://goo.gl/hJQdgH

Me dá, me dá, me dá, me dá um dinheiro aí
Gostei da comissão, me dá meu faz-me rir
Pra investir no sonho e vestir a fantasia
Quero renda na baiana, nota10 na bateria

A tentação seduziu a poesia
Da volta todo dia é a oferta e a demanda
Pecado capital da humanidade
Senhor da desigualdade
Sempre diz quem é que manda
O arqueiro ergueu, aquela gente oprimida e sem paz
Perdeu meu bem, pobre fortuna, nobres ideais
Midas com o seu dedo de ouro
Condenou a própria filha a viver numa prisão
Prata, pixulé, papel moeda e o homem escorrega
Mete o pé na ambição

Troca-troca ê na beira da praia
Troca-troca ê na beira da praia
Um espelho por cocar, o negócio é um pecado
Ouro no mercado negro, negro é ouro no mercado

Tempos modernos, onde vidas valem menos
Boas ações não representam dividendos
A roda gira pro mais forte, poucos tem a sorte
De virar o jogo que o destino fez
Tem pato mergulhado no dinheiro
E o povo brasileiro nada por migalhas outra vez
Se é pra poupar
O porquinho pode até ser virtual
Hashtag no infinito, com cascalho
Eu to bonito no espaço sideral
Imperatriz, sentimento não tem preço, tem valor
Eu não vendo e não empresto
O meu eterno amor

 

UNIDOS DE VILA ISABEL

Poxa, Vila… que samba ruim. A Vila Isabel, escola de Noel, em 1988 apresentou aquele que é, na minha irrelevante opinião, o maior samba-enredo de todos os tempos: “Kizomba – A Festa da Raça”, do grande e saudoso Luiz Carlos da Vila. Neste ano, o samba merece o troféu “Pai João 2019”, ou “Pai Tomás” – o que vocês preferirem. Confundiram tradição com rendição. “Viva a princesa” e “meu sangue azul” é o cacete, Vila. E você que chegou até aqui achando que só iria ler elogios e comentários laudatórios, né? Então segura que vem mais crítica. Assista aqui: https://goo.gl/8ZJsfL

Viva a princesa!
E o tambor que se não cala
É o canto do povo mais fiel
Ecoa meu samba no alto da serra
Na passarela com os herdeiros de Isabel

Vila
Te empresto meu nome
Fonte de tanta nobreza
Por Deus e todos os santos
Honre a tua grandeza
E subindo pertinho do céu
A névoa formava um véu
Lembrei de meu pai, minha fortaleza
Esculpida em pedras
Pedros e coroados
Com os seus guardiões
Protetores de raro esplendor
Luar do imperador

Meu olhar lacrimejou
Em águas tão cristalinas
Uma cidade divina
Bordada em nobre metal
A joia imperial

Petrópolis nasce com ar de Versalhes
Adorna a imensidão
A luz assentou o dormente
Fez incandescente a imigração
No Baile de Cristal o tom foi redentor
Em noite imortal
Floresceu um novo dia
Liberdade enfim raiou
Não vi a sorte voar ao sabor do cassino
“Segundo o dom” que teceu o destino
Meu sangue azul no branco desse pavilhão
O morro desce em prova de amor
Encontro da gratidão

 

UNIÃO DA ILHA DO GOVERNADOR

O Ceará tá com tudo este ano com Tuiuti e União da Ilha cantando o estado. Mas, “vixi Maria”, União da Ilha, que samba mais engessado no enredo, né? Parece que seguiu o briefing da diretoria. E só. Pena. Assista aqui: https://goo.gl/cpJUog

Vixi Maria! A ilha a cantar
Traçando em meus versos a minha alegria
Menina rendeira me ensina a bordar
No céu emoção, no chão simpatia

O Sol
Onde aquece a inspiração é luz
Meu sonho
É vida, vento, brisa à beira mar
Ouvindo poesias de Raquel
Suspiro nas histórias de Alencar
E hoje desfolhando meu cordel
Das lendas que ouvi no Ceará
É doce, é fogo, sabor e prazer
Aroma no ar, plantar e colher
Eu moldei no barro
As recordações que vivi com você

Violeiro toca moda à luz do luar
Sanfoneiro puxa o fole e
Convida a dançar
Vou pedir a Padim Ciço
Abençoe nosso povo
Essa fé a nos guiar

Chão rachado, meu sertão
Peço a Deus pra alumiar
Terra seca que não seca a esperança
Arretada vocação de te amar
O sal da terra segue o meu destino
Sangue nordestino sempre a me orgulhar
A natureza cantada em meus versos
Traduz a beleza desse meu lugar
Linda morena vestiu-se de amor
Teceu a vida com fios dourados
Eu de chapéu de couro e gibão
Enfeitei o meu coração
E a moda desfilou ao seu lado

 

SÃO CLEMENTE

São Clemente, sua louca! Adorei a crítica mas, fala sério, você mesmo é uma das responsáveis por este estado de coisas, não é mesmo, nega? Pra algum desavisado, parece que a São Clemente é um baluarte da tradição do melhor samba do Rio. Será mesmo? Eu gostei do samba, mas pra mim soa muito estranho saber que é a São Clemente que está criticando um estado de coisas no mundo do samba e do carnaval com o qual (quase) sempre compactuou. Assista aqui: https://goo.gl/JQCgmZ

“Que saudade da Praça Onze e dos grandes carnavais

Antigo reduto de bambas

Onde todos curtiam

O verdadeiro samba”

Vejam só
O jeito que o samba ficou (e sambou)
Nosso povão ficou fora da jogada
Nem lugar na arquibancada
Ele tem mais pra ficar
Abram espaço nesta pista
E por favor não insistam
Em saber quem vem aí
O mestre-sala foi parar em outra escola
Carregado por cartolas
Do poder de quem dá mais
E o puxador vendeu seu passe novamente
Quem diria, minha gente
Vejam o que o dinheiro faz

É fantástico
Virou Hollywood isso aqui (isso aqui)
Luzes, câmeras e som
Mil artistas na Sapucaí

Mas o show tem que continuar
E muita gente ainda pode faturar
“Rambo-sitores”, mente artificial
Hoje o samba é dirigido com sabor comercial
Carnavalescos e destaques vaidosos
Dirigentes poderosos criam tanta confusão

E o samba vai perdendo a tradição (bis)

Que saudade
Da Praça Onze e dos grandes carnavais

Antigo reduto de bambas (bis)
Onde todos curtiram o verdadeiro samba

 

ACADÊMICOS DO GRANDE RIO

O segundo melhor samba do ano, depois do da Mangueira. Aplaudo de pé este samba sensacional da Grande Rio, nos seus 30 anos! Parabéns aos compositores e à bateria Invocada! Carrega uma melodia tocante e é um samba que atinge a pleura, uma pancada, um sacode na alma: “Atire a primeira pedra aquele que não erra | Quem nunca se arrependeu do que fez? | Na vida, todo mundo escorrega | Melhor se machucar só uma vez”. Obrigado, Grande Rio por um dos samba mais contemporâneos dos últimos tempos. E é sempre bom lembrar: “Quem nunca sorriu da desgraça alheia? | Quem nunca chorou de barriga cheia?”. Uma beleza de samba-enredo! E eu registrei: “ E a cisma de atender o celular | Pra curtir, compartilhar | Zombar do perigo largar o amigo | Perder o pudor”. E como não compreender e simpatizar com os versos: “Quem aí tá podendo julgar? | Não consegue ouvir outra voz | Cada um foi pensando em si | Olha o que fizemos de nós | Então, pegue seu filho nas mãos | Educar é um desafio | Se errei, peço perdão | Renasce a Grande Rio”. Tá perdoada, Grande Rio! Vai e arrasa! Assista no link: https://goo.gl/v2vUTn

Tá errado, não importa quem errou
O pecado e o pecador sempre estão do mesmo lado
Tá errado, sem lição, nem professor
O espinho fere a flor, o amor é maculado
No jeitinho que impera nessas bandas
É mais fácil o mau caminho pra jogar no tabuleiro
Na verdade do espelho, quando a razão desanda
Vai seguindo em desalinho, mesmo com sinal vermelho

Atire a primeira pedra aquele que não erra
Quem nunca se arrependeu do que fez?
Na vida, todo mundo escorrega
Melhor se machucar só uma vez

Atire a primeira pedra aquele que não erra
Quem nunca se arrependeu do que fez?
Na vida, todo mundo escorrega
Melhor se machucar só uma vez

(Cardume de garrafas pelo mar)
Cardume de garrafas pelo mar
Nem tarrafa nem puçá alimentam o pescador
E a cisma de atender o celular
Pra curtir, compartilhar
Zombar do perigo largar o amigo
Perder o pudor
Quem aí tá podendo julgar?
Não consegue ouvir outra voz
Cada um foi pensando em si
Olha o que fizemos de nós
Então, pegue seu filho nas mãos
Educar é um desafio
Se errei, peço perdão
Renasce a Grande Rio

Quem nunca sorriu da desgraça alheia?
Quem nunca chorou de barriga cheia?
Eu sou Caxias de tantos carnavais
Falam de mim, eu falo de paz

Tá errado, não importa quem errou
O pecado e o pecador sempre estão do mesmo lado
Tá errado, sem lição, nem professor
O espinho fere a flor, o amor é maculado
No jeitinho que impera nessas bandas
É mais fácil o mau caminho pra jogar no tabuleiro
Na verdade do espelho, quando a razão desanda
Vai seguindo em desalinho, mesmo com sinal vermelho

Atire a primeira pedra aquele que não erra
Quem nunca se arrependeu do que fez?
Na vida, todo mundo escorrega
Melhor se machucar só uma vez

Cardume de garrafas pelo mar
Nem tarrafa nem puçá alimentam o pescador
E a cisma de atender o celular
Pra curtir, compartilhar
Zombar do perigo largar o amigo
Perder o pudor
Quem aí tá podendo julgar?
Não consegue ouvir outra voz
Cada um foi pensando em si
Olha o que fizemos de nós
Então, pegue seu filho nas mãos
Educar é um desafio
Se errei, peço perdão
Renasce a Grande Rio
Quem nunca sorriu da desgraça alheia?
Quem nunca chorou de barriga cheia?
Eu sou Caxias de tantos carnavais
Falam de mim, eu falo de paz
Falam de mim, eu falo de paz
Falam de mim, eu falo de paz

 

IMPÉRIO SERRANO

Como amante do samba, e portelense. tenho um imenso carinho pelo Império Serrano. Por isso, vou também respeitar a opção da escola em levar para a avenida o samba clássico “O que é o que é”, do grande Gonzaguinha, lançado em 1982. O samba foi anunciado em abril de 2018 e certamente já larga como o mais conhecido de todo o Grupo Especial. Eu gosto muito Gonzaguinha e este samba, é claro, marca a vida de muita gente Brasil a fora. Vai fundo, Império. Principalmente pelo que significa hoje e sempre cantar: “Eu só sei que confio na moça | E na moça eu ponho a força da fé | Somos nós que fazemos a vida | Como der, ou puder, ou quiser”. Sucesso!

Assista aqui: https://goo.gl/AUM6xN

Viver e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz

Ah meu Deus!
Eu sei, eu sei
Que a vida devia ser
Bem melhor e será
Mas isso não impede
Que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita

E a vida
E a vida o que é?
Diga lá, meu irmão
Ela é a batida de um coração
Ela é uma doce ilusão
Êh! Ôh!

E a vida
Ela é maravilha ou é sofrimento?
Ela é alegria ou lamento?
O que é? O que é? Meu irmão

Há quem fale que a vida da gente
É um nada no mundo
É uma gota, é um tempo
Que nem dá um segundo

Há quem fale que é um divino mistério profundo
É o sopro do criador
Numa atitude repleta de amor

Você diz que é luta e prazer
Ele diz que a vida é viver
Ela diz que melhor é morrer
Pois amada não é
E o verbo é sofrer

Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida
Como der, ou puder, ou quiser

Sempre desejada
Por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte
Só saúde e sorte

E a pergunta roda
E a cabeça agita
Eu fico com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita
E é bonita

 

UNIDOS DO VIRADOURO

Foi o primeiro samba-enredo que eu ouvi do Grupo Especial de 2019. E recebi como uma mensagem pessoal. “Quem me viu chorar, vai me ver sorrir | Pode acreditar, o amor está aqui”. Bonito samba, Viradouro! Justo com o enredo, mas não engessado nele. Vira Viradouro!

Assista no link: https://goo.gl/z12UqR

Quem me viu chorar, vai me ver sorrir
Pode acreditar, o amor está aqui
Viraviradouro iluminou
O brilho no olhar voltou

Se tem magia, encanto no ar
Eu vou viajar ouvindo histórias
De um livro secreto, mistérios sem fim
Vovó desperta a infância em mim
Em cada verso sou mais um menino
Que muda a sorte e sela o destino
Lançado o feitiço pra vida virar
Pro bem ou pro mal é carnaval
E na fantasia a minha alegria é um sonho real

No reino da ilusão o amor seduz o vilão
Num conto de fadas, a felicidade
Invade o meu coração pra cantar
Deixando a tristeza do lado de lá

E quem ousou desafiar a ira divina
Vagou no mar
Cego pela sede da ambição
Carregando a sina dessa maldição
Seres da sombria madrugada
O medo caminhou na escuridão
Mas a coragem que me faz lutar
É a esperança, razão de sonhar
Imaginar e renascer no sol de cada amanhecer
Das cinzas voltar
Nas cinzas vencer

Quem me viu chorar, vai me ver sorrir
Pode acreditar, o amor está aqui
Viraviradouro iluminou
O brilho no olhar voltou

Para conhecer os autores dos sambas acesse: http://liesa.globo.com/2019/por/03-carnaval/sambasenredo/sambasenredo.html

SERENDIPITIA, por Henri Figueiredo

Nesta manhã de 4 de janeiro de 2019, nasce a coluna “Serendipitia” – que significa “descobertas afortunadas feitas, aparentemente, por acaso”. Ou nem tanto porque, com mais precisão, aqui também será apresentado o resultado de um minucioso “garimpo” nas redes e no conjunto da web. A costura será com tópicos, artigos ou breves ensaios meus sobre política, comportamento e arte – em especial música, literatura, cinema e TV. Sejam bem-vindos.

“Minha mãe achava estudo

a coisa mais fina do mundo.

Não é.

A coisa mais fina do mundo é o sentimento.

Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,

ela falou comigo:

“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.

Arrumou pão e café , deixou o tacho no fogo com água quente.

Não me falou em amor.

Essa palavra de luxo.”

[Ensinamento | Adélia Prado]

O FUTURO JÁ COMEÇOU | “Antonio Gramsci está mais atual do que nunca, a julgar pelo que se ouviu em alguns pontos da Esplanada dos Ministérios na jornada de quarta-feira. Se antes estabelecer uma hegemonia cultural não era um objetivo claro de um grupo político no poder, agora é. Nos governos Lula e Dilma havia muita gente com uma visão leninista da condução da política e de aparelhamento do Estado, mas a unidade estratégica se perdeu em meio a disputas internas e ao surgimento de outras referências para a construção do poder”. Parágrafo de abertura da matéria de CÉSAR FELICIO no jornal VALOR de 4 de janeiro de 2019. Estou, francamente, rindo por dentro e por fora lembrando de quantos vezes fui interrompido nos debates por companheiros que simplesmente puseram Gramsci no lixo em nome de um “empirismo” que lhes conferia uma aura quase heroica quando não divina, ó líderes supremos da Esquerda ignara! Só vós, que exercestes o poder, conheceis o caminho, a verdade e a vida! Se nós não aprendemos com os nossos maiores pensadores, bom… os ideólogos da extrema-direita aprenderam bem.

DO FACEBOOK

Do professor da UnB Luiz Felipe Miguel: “O novo governo é regido pela lógica do inimigo interno. Mais, até, do que o foi a própria ditadura militar. As posses do presidente e dos ministros confirmaram isso. Ser oposição a ele exige entender esse dado. É um governo que constrói qualquer negociação como fragilidade, que recusa qualquer concessão e que não vê outra saída que não seja nosso extermínio”. [4 de janeiro de 2019]

O RISO É O TEMOR DOS TOTALITÁRIOS

Assim como costuma ser pela Cultura (ou pelo combate a ela) que se alcança a hegemonia numa sociedade (obrigado, Gramsci), é ridicularizando as simbologias deste governo protofascista que teremos mais inserção e eco entre os descontentes. De boa, quem acha que vai ser falando do salário mínimo ou das privatizações das refinarias da Petrobras que vamos reverter a simpatia do eleitorado pelo Bolsoasno, não entendeu nada de psicologia das massas. Isso é recurso para conscientização política e formação ideológica – ambas matérias abandonadas pelo PT, infelizmente, desde 2003, em nome do pragmatismo governamental. Então, creio que, simultaneamente a gente reconstrói os espaços de consciência política e de formação ideológica enquanto se detona, brinca, ironiza e escracha os símbolos deles. Todos os símbolos: os religiosos (como a submissão feminina ao macho); os ideológicos (como a aversão aos vermelhos socialistas/comunistas);os bélicos (como a questão do armamento como saída para a insegurança); e os de doutrinação/reprogramação mental (como o Escola Sem Partido). É preciso rir da cara deles, enquanto se organiza a luta da Realpolitik.

Reproduzo abaixo artigo da professora de jornalismo Sylvia Moretzsohn: “Vejo muita gente dizendo que ridicularizar ou ironizar o festival de sandices dos representantes desse governo (a mais recente foi a da ministra do pé de goiaba sobre meninos de azul e meninas de rosa) é cair na armadilha deles, é não perceber a cortina de fumaça que eles promovem para nos distrair, enquanto avançam na destruição de tudo o que foi duramente conquistado ao longo das últimas décadas.

Discordo radicalmente disso. Antes de mais nada, porque não somos tão ingênuos assim para ignorar cortinas de fumaça. Mas sobretudo por outras duas razões: primeiro, porque não estamos desconsiderando a avalanche de ataques contra esses direitos; pelo contrário, cansamos de denunciá-la cotidianamente (e o grave é que é praticamente tudo o que podemos fazer, o que não basta para enfrentar e impedir essa violência. Ou seja: de fato podemos muito pouco, na atual correlação de forças). Segundo, e talvez mais importante: porque essas sandices não são apenas cortina de fumaça, elas fazem parte da campanha ideológica desse pessoal, que continua a investir, agora com mais ênfase ainda do que o fez durante a campanha, na temática moralista que enaltece os valores tradicionais da religião e da família. Isso tem um peso enorme e é parte fundamental da estratégia de discursos e práticas na sedimentação da estupidez dessa massa de gente que elegeu esse governo”.

ALERTA DE SPOILER: ESTE TÓPICO É POLITICAMENTE INCORRETO, CONTÉM IRONIA E LINGUAGEM IMPRÓPRIA PARA MENORES DE 35 ANOS PELAS NOVAS NORMAS DO MINISTÉRIO DA FAMÍLIA | Estamos apenas entrando no quinto dia do novo governo federal e eu já me sinto livre do jugo do socialismo que me forçava a ser politicamente correto! Portanto, Bolsoasno e seus apoiadores de merda, vão tomar no meio do cu de vocês todos! Aqui tem resistência! [Sinto que também regredi muito em boa educação, mas enfim, deve ser isso que chamam de “egrégora” não é mesmo? Principalmente quando a escolha da maioria do eleitorado que votou válido foi por abraçar a estupidez.]

A MÍDIA COMERCIAL (MAL)TRATADA COMO NO REGIME MILITAR

Relato da veterana jornalista Mônica Bergamo da Folha de S.Paulo.

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“É uma posse diferenciada e todos têm que entender isso.

Com essas palavras, a assessora do Palácio do Planalto que acompanhava jornalistas num ônibus rumo ao Congresso Nacional, na manhã desta terça (1º), procurava acalmar veteranos da profissão (esta colunista entre eles) que não conseguiam, digamos, entender os novos tempos —e o tratamento reservado à imprensa na posse de Jair Bolsonaro na Presidência da República.

Foi, de fato, algo jamais visto depois da redemocratização do país, em que a estreia de um novo governo eleito era sempre uma festa acompanhada de perto, e com quase total liberdade de locomoção, pelos profissionais da imprensa.

O sufoco começou dias antes, no credenciamento.

Os jornalistas foram informados de que não poderiam ter acesso livre, por exemplo, ao salão nobre do Palácio do Planalto, onde o presidente sobe a rampa, dá posse aos seus ministros e recebe cumprimentos de autoridades internacionais.

Na posse de Lula, em 2003, repórteres chegavam a se aglomerar em torno dele e de Fernando Henrique Cardoso, misturando-se entre a equipe recém-empossada e a que deixava o governo.

Um dos repórteres lembrava, no ônibus, que chegou a subir no elevador do Planalto com Lula, furando um esquema nada rigoroso de segurança.

A colunista chegou a entrar em salas privadas com o então vice-presidente dos EUA Joe Biden na posse de Dilma Rousseff, em 2014.

Desta vez, tudo seria diferente. Apenas um jornalista de cada veículo poderia entrar no palácio, e com acesso restrito às autoridades.

Os outros ficariam do lado de fora, na portaria ou num corredor aberto no meio da população. E a assessoria alertava: neste local, era preciso evitar movimentos bruscos. Fotógrafos não deveriam erguer suas máquinas. Qualquer movimento suspeito poderia levar um sniper [atirador de elite] a abater o “alvo”.

Uma jornalista voltou apavorada para a redação. Avisou à chefia que preferia não cobrir a posse. Não queria morrer. Foi convencida do contrário.

Os organizadores da cerimônia também distribuíram orientações por escrito à imprensa: os jornalistas credenciados deveriam chegar ao CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil), no dia 1º, às 7 horas da manhã.

Como é que é?

Era isso mesmo: embora a posse no Congresso estivesse marcada para as 15 horas, os jornalistas teriam que se concentrar desde cedo, embarcar nos ônibus às 8 horas, chegar no Congresso pouco depois e esperar, sem fazer nada, por mais de seis horas, para ver Bolsonaro entrar no parlamento.

Era preciso levar lanche pois não haveria comida. Tudo precisava ser embalado em sacos de plástico transparente.

“Garrafas não são permitidas. Haverá água potável disponível nas áreas de imprensa”, dizia o comunicado.

Os veículos providenciaram kits de sobrevivência para seus profissionais. No caso da Folha, bolachas Club Social, biscoitos Bis, castanhas de caju, barrinhas de cereal, gomas de mascar, um sanduíche de queijo e salame e suco de caixinha.

Na terça (1º), logo cedo, os jornalistas, seguindo as regras, chegaram cedo no CCBB.

Foram todos divididos em grupos, em cercadinhos com grades de ferro: os que iriam para o Congresso sairiam primeiro, depois os do Palácio do Planalto e, por fim, os do Itamaraty.

“Pessoal, vocês vão em 13 ônibus. Às 17 horas, nós traremos vocês de volta”, gritava um assessor que se apresentou como Tiago.

E quem quisesse ficar mais?

“Pessoal, [os seguranças] não vão deixar vocês passarem [nas ruas]. O direito de ir e vir dos jornalistas tá assim!”.

Os repórteres caíram na risada.

Apesar da situação, considerada um tanto surreal, havia motivo para risos. Um deles era a proibição de levar maçã inteira na merenda. Só picada, em pedacinhos.

“Razões de segurança: acham que alguém pode jogar uma delas na cabeça do Bolsonaro. E maçã machuca”, explicava um dos profissionais.

Em fila, todos começaram a embarcar nos ônibus.

“Bem-vindos à rodoviária do CCBB”, dizia o assessor que iria em um dos veículos.

Os alertas eram muitos. “Não tentem subir na Esplanada [dos Ministérios, avenida que leva à Praça dos Três Poderes]. Não tentem passar de uma área à outra. E, mais importante: não tentem pular uma cerca. Não façam isso!”

“A gente tem que avisar. Porque depois alguém toma um tiro…”, completava outra assessora.

“O que nós viramos?”, questionava um veterano jornalista. “Fizemos tudo o que já fizemos para terminar aqui?”

Pouco depois das 8 horas, o comboio de ônibus sai até o Congresso, onde novas surpresas nos esperavam. Ao chegar no parlamento, os repórteres passaram por detectores de metais.

E foram levados ao salão verde da Câmara dos Deputados, na entrada do plenário.

“É surreal!”, reagiu um jornalista ao ver a cena: todas as cadeiras e poltronas do local haviam sido retiradas. Não havia onde sentar. Os profissionais tinham que se acomodar no chão.

Eram centenas de jornalistas, mas só havia um banheiro disponível.

Alguns se dirigiram ao setor do cafezinho. Um segurança logo orientou as copeiras: “Não é para servir nada à imprensa”.

Os profissionais foram convidados a se retirar do local.

Teriam que ficar confinados no salão, separados por um cordão da passarela com tapete vermelho por onde passariam as autoridades.

“É preciso um pouco de dignidade!”, reclamava um repórter.

Um deles conseguiu um banquinho para se sentar. E logo começaram as brincadeiras: era preciso fazer rodízio para que todos pudessem descansar um pouco.

Na mesma situação no Itamaraty, correspondentes internacionais chegaram a se retirar do prédio.

Jornalistas com larga experiência em coberturas de governo prognosticavam: essa postura do governo durará pouco. Até a primeira crise.”

 

DIZ QUE AMA A PÁTRIA, MAS…

Diz que ama “a Pátria” mas vira a cara pra criança famélica pedindo trocado na rua. Na verdade bolsonarista ama é o pano da bandeira e símbolos como os hinos oficiais – seu amor é só pela simbologia aprendida na doutrinação Moral e Cívica da ditadura, não pelos compatriotas. Por isso, não têm vergonha de bater continência submissa aos EUA. O mais chocante é que têm a orgulhosa ignorância de comparar seu comportamento lambe-botas do Império com a relação altiva que tínhamos com países soberanos como Cuba – que é uma pequena ilha que resiste heroicamente há 60 de bloqueio imperialista. Eles se jactam de serem umas bestas quadradas!

SEM TRÉGUA PARA PROTOFASCISTA | UM BREVE MANIFESTO

Nenhum(a) fascista ou evangélico(a) fundamentalista bolsonarista merece trégua! Combatam, discutam, os destrua com argumentos, fatos e escancarem que são todos e todas cúmplices dos assassinatos políticos, raciais e pelos massacres armados que virão. Façam as listas, não esqueçam seus nomes, printem suas postagens mentirosas e cheias de ódio nas redes sociais. Recolham provas do colaboracionismo com o governo teocrático totalitário do ex-militar terrorista. Conheça o adversário, monitore o inimigo, saiba seus pontos fracos e planeje a revanche. Não se combate os que desprezam a democracia usando palavras de amor e tolerância. Endureça, mantenha a ternura que nos faz humanos, mas prepare-se para a guerra. O mal está disseminado entre familiares, vizinhos, colegas de trabalho. Nem por um minuto pense em aliviar o combate. Resista mas, principalmente, aja. Não permita calado e sem lutar nenhum retrocesso nas liberdades civis. Eles querem nos calar, nos dizimar fisicamente, vão perseguir. Por isso, nenhum bolsonarista merece trégua.

SOM E FÚRIA | Alguns amigos e companheiros de luta ficaram um tanto incomodados com o artigo-manifesto acima, publicado originalmente nas redes sociais na quarta-feira, 2 de janeiro de 2019. Dentro da tradição dialógica e dialética, eles poderiam ter dito que não gostaram, escrito um contraponto, discutido e, quem sabe, desmanchado com as minhas razões. O amigo que fez o comentário mais sintético e elegante, disse que eu acertara na “diretriz” mas pecara “no tom”. Noutras palavras, “é isso mesmo, mas não se diz assim”. Desculpem-me carxs amigxs, hoje eu cito William Shakespeare: “A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, sem sentido algum”.

Ontem vivi um dia de som e fúria. Hoje estou mais ponderado e, por isso, vou apenas fazer a analogia do que vivemos no Brasil da atualidade com a história do sapo na panela. Vocês certamente já ouviram (e os mais cruéis devem ter feito a experiência) que um sapo jogado num panela de água fervendo vai bater e, no mesmo segundo, pular fora daquele ambiente inóspito e mortal. Mas se o sapo for colocado vivo numa panela de água fria e esta panela levada ao fogo, o sapo primeiro vai ficar anestesiado e depois vai ser cozido no caldeirão. O quanto nós, que estamos dentro da vida pública, imersos na construção sindical, em comitês pró-democracia, no ativismo político, na militância partidária, não percebemos que a panela já esquentou e está quase no ponto de fervura? Eu tenho lido, ouvido e prestado atenção em alguns amigos, amigas e conhecidos que são intelectuais e ermitões – estão fora desse circuito sociopolítico há tempos – mas se puseram em alarme. Eu não gosto muito de me sentir “culpado” porque isso carrega também um sentido religioso; prefiro me dizer “responsável”, o que é laico.

Eu comecei a escrever para leitores, leitoras, para uma audiência, enfim, aos 22 anos, no jornal diário de Novo Hamburgo – lá se vão 24 anos ininterruptos de escrita, entrevistas, reportagens, artigos, crônicas e ensaios políticos. Ainda que hoje em dia grande parte dos meus escritos tenham circulação restrita, nunca perdi o gosto (e a necessidade) de me manifestar “urbi et orbi”, ou seja, para as gentes. E tenho um gosto especial pela polêmica; infelizmente, as pessoas desaprenderam de polemizar. Por isso, me agarro aqui à corda salva-vidas que o amigo mais elegante me atirou para me salvar do mar da polêmica, mas não subo no bote. O meu “pecado” teria sido o tom. Ora, vejam, novamente um conceito religioso sobre um artigo que discutia ferozmente o fundamentalismo cristão que quer estabelecer uma teocracia na nossa república. A gente tende, realmente, a usar a terminologia de quem ascendeu ao poder. Espero não começar a desejar bom dia, boa tarde e boa noite com “Louvado Seja!” ou “Glória a Deus”. Isso também já é o sintoma da panela fervente.

Em que pese a minha amarga ironia nesses dias, mais importante do que ser lido é ser, de verdade, criticado – porque aí sim, quando mobilizamos o desejo de contraponto, tivemos algum sucesso em provocar a reflexão. Mesmo que de maneira brusca, como ao dar um safanão na panela fervente. Vamos nos queimar com alguns respingos, é certo. Mas ninguém esperava que saíssemos completamente ilesos desta discussão.

SERIAL WATCHER

Se você gosta de maratonar mas, nessa época, não quer exatamente “fugir da realidade”, a dica é “The Handmaid’s Tale” – O Conto da Aia. Acho que melhor traduzido seria “O Conto da Serva”. Em cinco madrugadas e uma tarde, cheguei ao final dos 23 episódios, divididos nas duas primeiras temporadas – o que me custou grande desgaste emocional.

A distopia é fielmente baseada no romance da canadense Margaret Atwood, de 1985. Um governo teocrático cristão, mulheres servas dos homens, estupros sistemáticos, ritualizados e institucionalizados para que as mulheres cumpram o “destino biológico” de engravidar, enforcamentos públicos de LGBTQ+ (chamados de ‘traidores de gênero’), execuções de intelectuais e a Bíblia no lugar da Constituição. Parece, de fato, o aprofundamento prático das teses defendidas pelos fundamentalistas evangélicos que são a principal base de apoio popular deste governo que assumiu no Brasil de 2019.

 

ATÉ A PRÓXIMA “SERENDIPITIA”, AINDA SEM DATA DE LANÇAMENTO.