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PSDB e Eduardo Cunha arquiteram golpe em reunião secreta no último sábado no RJ
A jornalista Natuza Nery, que assumiu a coluna Painel, revelou um encontro secreto, ocorrido neste sábado, em que se traçou o roteiro do golpe paraguaio contra a presidente Dilma Rousseff.
Brasil Página 1 - Jornalismo independente, notícia sem manipulação
A jornalista Natuza Nery, que assumiu a coluna Painel, revelou um encontro secreto, ocorrido neste sábado, em que se traçou o roteiro do golpe paraguaio contra a presidente Dilma Rousseff.
O encontro reuniu o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o líder da bancada do PSDB, Carlos Sampaio (PSDB-SP), e o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ).
Nele, os três combinaram o seguinte roteiro: Cunha rejeitará todos os pedidos de impeachment, menos o apresentado por Hélio Bicudo, que será turbinado com uma manifestação do procurador Júlio Marcelo de Oliveira, que atua junto ao Tribunal de Contas da União, alegando que as chamadas ‘pedaladas fiscais’ prosseguiram em 2015.
Assim, Cunha terá um argumento para dizer que aceitará uma denúncia ancorada em fatos do atual mandato, e não do anterior – o encontro secreto confirma que a nota da oposição, pedindo o afastamento de Cunha, não passa de encenação.
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A câmera de McCullin nos leva para o meio dos horrores
“É uma daquelas histórias empolgantes. É um documentário a que se assiste com a respiração acelerada. Para jornalistas, então, é irresistível.”
Robert Capa costumava dizer que se a foto não mostrava qualidade é porque o fotógrafo não tinha chegado perto como deveria. Ele seguiu este princípio por toda a vida. Desembarcou com os aliados na Normandia, esteve na Guerra Civil espanhola,
acompanhou John Steinbeck em uma viagem histórica à então fechada União Soviética, mostrou dramas e celebridades. Chegou sempre tão perto que acabou pisando em uma mina, na Guerra da Indochina, dia 25 de aio de 1954. Tinha apenas 41 anos. O britânico Donald McCullin seguiu esta cartilha ao longo da carreira – e sua vida e obra estão mostrados, com absoluta competência pelos diretores David Morris e Jacqui Morris, no documentário McCullin (para quem tem Netflix, é só buscar pelo nome).
É uma daquelas histórias empolgantes. É um documentário a que se assiste com a respiração acelerada. Para jornalistas, então, é irresistível.
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Cynara Menezes: Ao eleitor do PT, um desagravo
Por Cynara Menezes
Não há ninguém, na atual crise de credibilidade por que passa o governo, que esteja recebendo mais bordoadas de todos os lados do que os eleitores do PT. Não me refiro exatamente à militância ou aos membros do partido, e sim aos cidadãos comuns que apostaram no PT ao longo dos últimos 26 anos, no mínimo, como a legenda capaz de tirar o País do atraso, da miséria, da desigualdade e do colonialismo. O eleitor do PT não tem nada a ver com este circo que se montou nos últimos anos, mas está pagando o pato assim mesmo. O que o eleitor do PT fez além de votar no PT? O nome dele não está em nenhuma investigação, ele não é alvo de delação premiada e não colocou as mãos nos cofres públicos nem para fazer caixa dois, até porque o eleitor é só um carinha que vota. No entanto, é chamado de “ladrão”, de “petralha”, é perseguido em passeatas, é espinafrado nas reuniões de família pelos parentes coxinhas e ridicularizado por velhos amigos nas redes sociais. Volta e meia é acusado de ganhar “pixuleco” do governo e até pão com mortadela para defender o partido, sendo que não é nem sequer filiado a ele.
Qual foi o erro do eleitor do PT? Do que pode ser acusado? De nada. Votou no PT assim como votaria em qualquer outro partido se acreditasse que seria o melhor para o Brasil. A maior qualidade dos eleitores do PT é justamente votar pensando não em si próprio, mas nos outros, em quem necessita mais das ações do Estado. Hoje, aliás, a única coisa que conforta o eleitor do PT é saber que pelo menos a promessa da inclusão foi cumprida. Que gente outrora pobre ascendeu à classe média; que mais negros e oriundos da escola pública entraram na universidade; e que já não tem tanta gente passando fome por aí como antes. Mesmo sabendo exatamente o que estava fazendo quando apertou o número 13 na urna, o eleitor do PT é chamado de “burro” por ter feito esta opção.
A mídia participa e coordena a campanha de difamação do eleitor do PT, ao pintá-lo como um ignorante sem estudo que só vota em quem vota por não saber o que faz, por ser do Norte/Nordeste — ou por receber dinheiro do governo. Foi graças ao preconceito de classe e de origem dos meios de comunicação para com o eleitor do PT que essa concepção de que a esquerda é capaz de vender sua ideologia por alguns caraminguás se disseminou na sociedade brasileira. Perdeu-se o respeito pelo que há de mais sagrado na política: o voto alheio. Ainda que fossem só os beneficiários do Bolsa Família os eleitores do PT, algo matematicamente improvável, este voto seria, ao contrário do que pregam, absolutamente consciente. Não existe voto mais consciente do que o de alguém que não tinha o que comer e que passou a ter comida na mesa: se isto aconteceu por causa de algum governante ou partido, é óbvio que vai querer continuidade.
Avanços sociais
Quem se sente feliz (e não incomodado) ao ver quem nunca estudou estudando, e quem nunca viajou de avião viajando, tampouco pode ser acusado de estar votan do iludido. Está votando porque acredita num determinado projeto de nação. Voto mais consciente, impossível. A situação começa a ficar até mesmo perigosa para o eleitor do PT. Outro dia um cara foi vaiado no avião por estar segurando uma revista considerada “simpática” ao PT. Uma senhora idosa foi chamada de “putinha do Lula” e de “vagabunda” por desafiar uma manifestação anti-Dilma em São Paulo vestida de vermelho.
Quem o cara do avião roubou para ser atacado? E a senhorinha de vermelho, pagou propina a alguma empreiteira? É perfeitamente compreensível a ira da classe média contra a corrupção. O problema é ser uma ira seletiva, contra um só partido, muito embora saibamos que quase todos participaram do butim e que quase todos estão afundados até o pescoço na lamentável forma como são feitas as campanhas políticas no Brasil. A oportunidade que se desenhava, desde o episódio do chamado mensalão, de “limpar” a política, se transformou, porém, numa cruzada para varrer o PT (e a esquerda) do mapa. Se não fosse assim, os pseudoapartidários das manifestações contra o governo também estariam perseguindo eleitores de outros partidos. Melhor ainda: não estariam perseguindo ninguém.
Da esquerda
Não bastassem os ataques da direita e da mídia, o eleitor do PT também sofre com os golpes desferidos pela esquerda. São chamados de “governistas” e acusados de concordar com todos os equívocos da atual administração federal. Alto lá! Votar em alguém não é assinar embaixo de tudo que a pessoa fizer. Votar é indicar um caminho e continuar lutando, pressionando para avançar. Sem pressão, os governos não chegam a lugar algum. Achar que haverá um governante com o qual concordaremos em tudo é uma fantasia. Mas o pior mesmo para o eleitor do PT é ser pisoteado, cuspido, perseguido e xingado, e não
encontrar conforto na própria escolha que fez. Ser esculachado pela mídia, pela esquerda e pela direita não é nada perto da insatisfação crescente
do eleitor do PT com o governo que elegeu. O governo tem se esmerado em agradar aos mercados, aos banqueiros, aos latifundiários, aos empresários
e até ao PMDB, mas o que tem feito para agradar a seus próprios eleitores? O governo parece se esforçar, ao contrário, em desapontar quem votou nele. A tão esperada “guinada à esquerda” do segundo mandato de Dilma não se concretizou. Fala-se em um corte nos ministérios que irá atingir as pastas mais
caras a quem vota tradicionalmente no partido, como as secretarias de Direitos Humanos, das Mulheres e da Igualdade Social. Dilma promete se juntar à defesa do imposto sobre grandes fortunas para acenar a este eleitorado mais fiel, mas este só acredita vendo.
Com tanto tiro, porrada e bomba, o eleitor do PT tem andado cabisbaixo, desenxabido, murcho. Muito menos pelos ataques que sofre por parte de gente cuja opinião não lhe importa a mínima do que pela falta de atenção que tem tido do próprio partido em que se acostumou a votar e que é, no final das contas, o principal responsável pela transformação deste eleitor num pária, num cidadão de terceira classe.
♦ Cynara Menezes é jornalista e editora do blog Socialista Morena (socialistamorena.com.br).
Link original, da Caros Amigos, aqui.
O tempo foge. E eu estou de volta após dias offline.
Amigas, amigos. Depois de 12 dias, estou de volta à rede. Foi um período necessário para cuidar de mim, olhar pra vida, fazer balanços interiores e atender às demandas da minha saúde física e mental. Há tempos não ficava tantos dias fora da rede, porque na rede está o meu trabalho. O trabalho, entretanto, não é a única medida da vida, ainda que nos esforcemos para reduzir a experiência de estar vivo à capacidade de produção, de cumprimento de prazos, de atendimento de serviços e de gerar renda. Agradeço aos quem se importaram, se preocuparam e quiseram saber o que havia: agora está tudo bem. Agradeço também aos indiferentes: vocês me dão uma noção mais exata da minha real importância neste mundo, sem ressentimentos. Quem lida com opinião e interpretação dos fatos, muitas vezes não percebe que o Ego fica mais realista que o rei. Um grande abraço virtual a tod@s e vamos em frente.
Para quem tem tempo, coração e alma sugiro um texto do crítico de cinema Pablo Villaça:
“A vida é como uma viagem de avião: sempre amei a decolagem, considerei o voo em si entediante e temi o pouso depois de ler que era a parte mais perigosa da jornada – e o paralelo é claro, já que a parte inicial de nossa passagem por este planeta é excitante e repleta de descobertas à medida em que vemos o mundo a partir de uma nova perspectiva que, com o tempo, se torna monótona e cansativa até culminar num desfecho que traz a possibilidade cada vez maior de uma destruição iminente e súbita.
A diferença é que, aqui, sou o único piloto e o único passageiro – e o compartimento de bagagens traz apenas malas e malas de memórias que insistem em corroer a fuselagem do avião, garantindo a impossibilidade de um pouso doce.”
A íntegra aqui.
Maringoni: É legal à beça colorir as fotos do Facebook
Vale muito, mesmo, a leitura. Grande artigo do Maringoni.
Por Gilberto Maringoni.
É legal à beça colorir as fotos do Facebook! Estamos comemorando uma decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos.
É medida progressista legalizar a união entre pessoas, qualquer que seja a maneira de se amar.
Não é uma vitória do imperialismo e nem de um governo que massacra países e povos, assim como a conquista dos direitos civis, nos EUA dos anos 1960 também não foi.
As vitórias contra o racismo e a homofobia são vitórias da Humanidade.
A decisão da Suprema Corte dos EUA tem dimensões planetárias, pela posição hegemônica do país no mundo.
A luta pela jornada de oito horas teve seu ponto de virada nas jornadas de Chicago, nos anos 1880. A luta pelos direitos das mulheres tem no país um palco importante.
A música americana – em especial o blues, o jazz e o rock – são ritmos nascidos nas comunidades negras…
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DO SER AO PÓ, É SÓ CARBONO. SOLENE, TERRENO, IMENSO. PERENE, PEQUENO, HUMANO
Em 1993, eu tinha 20 anos e chegava pela primeira vez Rio de Janeiro, amando a mulher e a cidade, a cidade e a mulher que foi o combustível para aquela viagem. Naquele ano, aconteceu de eu conhecer muita gente boa da música, do teatro, de televisão. Aqui eu vou falar de uns poucos e essenciais. Aconteceu também de eu fazer a assistência de produção do lançamento de um disco chamado “Olho de Peixe”, de um cantor e compositor pernambucano que já vivia há anos no Rio: Lenine. O disco era um parceria com um cara que estava celebrado como o reinventor do pandeiro na música brasileira: Marco Suzano. Eu já conhecia o Suzano das apresentações do grupo Religare. Conhecer Lenine foi uma das grandes descobertas artísticas da minha vida. Não sou crítico musical, nem literário, nem me especializei nestes anos de jornalismo na área artística. Então vou ser breve, simples. A arte pra mim sempre foi pra fruir. “Olho de Peixe” me abriu caminhos tanto quanto “Velhos Tempos”, do beat Gary Snyder; ou como “Contato”, do Sagan; como Transa, do Caetano (que é, inclusive, do ano em que nasci…). Pano rápido.
Em 1993 também abracei o bloco Simpatia É Quase Amor que, apesar de sair em Ipanema, ensaiava no Jardim Botânico (ou seria Horto?) no mesmo pavilhão que o bloco Suvaco do Cristo. Num ensaio do Suvaco, conheci um adolescente chamado João – um querido! Amável, inteligente que só e, claro, sensível pacas. Filho de Lenine. Pano rápido (again).
Março de 2009, eu de pé numa lateral do Circo Voador, na Lapa, assistia à apresentação de “Labiata” quando se aproximou, buscando um melhor ângulo do palco, o João Cavalcanti, do Casuarina. Nem sei como começamos a trocar ideia sobre os números musicais . Até que eu admiti que a música que mais me pegava no Labiata era “É fogo”… ainda que gostasse muito de “Martelo Bigorna” e “O Céu É Muito” e de quase todo o disco. Naquela conversa descobri que João tinha se graduado em jornalismo… que coisa! Fade in.
Fade out. 2015. Porto Alegre. Vou ver Lenine e o seu “Carbono” no dia 3 de julho, no Opinião. Toda a narrativa anterior foi só pra dizer que a música que mais “me pegou” neste disco é a primeira parceria gravada de Lenine e de seu filho João: “A Causa e o Pó”.
A dureza real de quem é pedra
Que a volúpia do atrito lapida
Esse brilho tenaz que quase cega
É ventura do ventre da ferida
Quem dirá, migalha de sol
Que o brilho é teu apogeu,
Se ofuscado no caldo das estrelas
O brilho se perdeu?
Sou de estrelas a causa e o pó
Sou de estrelas e só
Do ser ao pó, é só
Carbono
Solene, terreno, imenso
Perene, pequeno, humano
Natureza tão solida de tinta
Que o frágil atrito transporta
Esse risco voraz te faz faminta
E a rasura te move em linha torta
O contraste será troféu
Que teu risco alinhavou
Ou vestida mortalha das estrelas
A VIDA E O DIREITO: BREVE MANUAL DE INSTRUÇÕES
Luis Roberto Barroso*
I. Introdução
Eu poderia gastar um longo tempo descrevendo todos os sentimentos bons que vieram ao meu espírito ao ser escolhido patrono de uma turma extraordinária como a de vocês. Mas nós somos – vocês e eu – militantes da revolução da brevidade. Acreditamos na utopia de que em algum lugar do futuro juristas falarão menos, escreverão menos e não serão tão apaixonados pela própria voz.
Por isso, em lugar de muitas palavras, basta que vejam o brilho dos meus olhos e sintam a emoção genuína da minha voz. E ninguém terá dúvida da felicidade imensa que me proporcionaram. Celebramos esta noite, nessa despedida provisória, o pacto que unirá nossas vidas para sempre, selado pelos valores que compartilhamos.
É lugar comum dizer-se que a vida vem sem manual de instruções. Porém, não resisti à tentação – mais que isso, à ilimitada pretensão – de sanar essa omissão. Relevem a insensatez. Ela é fruto do meu afeto. Por certo, ninguém vive a vida dos outros. Cada um descobre, ao longo do caminho, as suas próprias verdades. Vai aqui, ainda assim, no curto espaço de tempo que me impus, um guia breve com ideias essenciais ligadas à vida e ao Direito.
II. A regra nº 1
No nosso primeiro dia de aula eu lhes narrei o multicitado “caso do arremesso de anão”. Como se lembrarão, em uma localidade próxima a Paris, uma casa noturna realizava um evento, um torneio no qual os participantes procuravam atirar um anão, um deficiente físico de baixa altura, à maior distância possível. O vencedor levava o grande prêmio da noite. Compreensivelmente horrorizado com a prática, o Prefeito Municipal interditou a atividade.
Após recursos, idas e vindas, o Conselho de Estado francês confirmou a proibição. Na ocasião, dizia-lhes eu, o Conselho afirmou que se aquele pobre homem abria mão de sua dignidade humana, deixando-se arremessar como se fora um objeto e não um sujeito de direitos, cabia ao Estado intervir para restabelecer a sua dignidade perdida. Em meio ao assentimento geral, eu observava que a história não havia terminado ainda.
E em seguida, contava que o anão recorrera em todas as instâncias possíveis, chegando até mesmo à Comissão de Direitos Humanos da ONU, procurando reverter a proibição. Sustentava ele que não se sentia – o trocadilho é inevitável – diminuído com aquela prática. Pelo contrário.
Pela primeira vez em toda a sua vida ele se sentia realizado. Tinha um emprego, amigos, ganhava salário e gorjetas, e nunca fora tão feliz. A decisão do Conselho o obrigava a voltar para o mundo onde vivia esquecido e invisível.
Após eu narrar a segunda parte da história, todos nos sentíamos divididos em relação a qual seria a solução correta. E ali, naquele primeiro encontro, nós estabelecemos que para quem escolhia viver no mundo do Direito esta era a regra nº 1: nunca forme uma opinião sem antes ouvir os dois lados.
III. A regra nº 2
Nós vivemos em um mundo complexo e plural. Como bem ilustra o nosso exemplo anterior, cada um é feliz à sua maneira. A vida pode ser vista de múltiplos pontos de observação. Narro-lhes uma história que li recentemente e que considero uma boa alegoria. Dois amigos estão sentados em um bar no Alaska, tomando uma cerveja. Começam, como previsível, conversando sobre mulheres. Depois falam de esportes diversos. E na medida em que a cerveja acumulava, passam a falar sobre religião. Um deles é ateu. O outro é um homem religioso. Passam a discutir sobre a existência de Deus. O ateu fala: “Não é que eu nunca tenha tentado acreditar, não. Eu tentei. Ainda recentemente. Eu havia me perdido em uma tempestade de neve em um lugar ermo, comecei a congelar, percebi que ia morrer ali. Aí, me ajoelhei no chão e disse, bem alto: Deus, se você existe, me tire dessa situação, salve a minha vida”. Diante de tal depoimento, o religioso disse: “Bom, mas você foi salvo, você está aqui, deveria ter passado a acreditar”. E o ateu responde: “Nada disso! Deus não deu nem sinal. A sorte que eu tive é que vinha passando um casal de esquimós. Eles me resgataram, me aqueceram e me mostraram o caminho de volta. É a eles que eu devo a minha vida”. Note-se que não há aqui qualquer dúvida quanto aos fatos, apenas sobre como interpretá-los.
Quem está certo? Onde está a verdade? Na frase feliz da escritora Anais Nin, “nós não vemos as coisas como elas são, nós as vemos como nós somos”. Para viver uma vida boa, uma vida completa, cada um deve procurar o bem, o correto e o justo. Mas sem presunção ou arrogância. Sem desconsiderar o outro.
Aqui a nossa regra nº 2: a verdade não tem dono.
IV. A regra nº 3
Uma vez, um sultão poderoso sonhou que havia perdido todos os dentes. Intrigado, mandou chamar um sábio que o ajudasse a interpretar o sonho. O sábio fez um ar sombrio e exclamou: “Uma desgraça, Majestade. Os dentes perdidos significam que Vossa Alteza irá assistir a morte de todos os seus parentes”. Extremamente contrariado, o Sultão mandou aplicar cem chibatadas no sábio agourento. Em seguida, mandou chamar outro sábio. Este, ao ouvir o sonho, falou com voz excitada: “Vejo uma grande felicidade, Majestade. Vossa Alteza irá viver mais do que todos os seus parentes”. Exultante com a revelação, o Sultão mandou pagar ao sábio cem moedas de ouro. Um cortesão que assistira a ambas as cenas vira-se para o segundo sábio e lhe diz: “Não consigo entender. Sua resposta foi exatamente igual à do primeiro sábio. O outro foi castigado e você foi premiado”. Ao que o segundo sábio respondeu: “a diferença não está no que eu falei, mas em como falei”.
Pois assim é. Na vida, não basta ter razão: é preciso saber levar. É possível embrulhar os nossos pontos de vista em papel áspero e com espinhos, revelando indiferença aos sentimentos alheios. Mas, sem qualquer sacrifício do seu conteúdo, é possível, também, embalá-los em papel suave, que revele consideração pelo outro.
Esta a nossa regra nº 3: o modo como se fala faz toda a diferença.
V. A regra nº 4
Nós vivemos tempos difíceis. É impossível esconder a sensação de que há espaços na vida brasileira em que o mal venceu. Domínios em que não parecem fazer sentido noções como patriotismo, idealismo ou respeito ao próximo. Mas a história da humanidade demonstra o contrário. O processo civilizatório segue o seu curso como um rio subterrâneo, impulsionado pela energia positiva que vem desde o início dos tempos. Uma história que nos trouxe de um mundo primitivo de aspereza e brutalidade à era dos direitos humanos. É o bem que vence no final. Se não acabou bem, é porque não chegou ao fim. O fato de acontecerem tantas coisas tristes e erradas não nos dispensa de procurarmos agir com integridade e correção. Estes não são valores instrumentais, mas fins em si mesmos. São requisitos para uma vida boa. Portanto, independentemente do que estiver acontecendo à sua volta, faça o melhor papel que puder. A virtude não precisa de plateia, de aplauso ou de reconhecimento. A virtude é a sua própria recompensa.
Eis a nossa regra nº 4: seja bom e correto mesmo quando ninguém estiver olhando.
VI. A regra nº 5
Em uma de suas fábulas, Esopo conta a história de um galo que após intensa disputa derrotou o oponente, tornando-se o rei do galinheiro. O galo vencido, dignamente, preparou-se para deixar o terreiro. O vencedor, vaidoso, subiu ao ponto mais alto do telhado e pôs-se a cantar aos ventos a sua vitória. Chamou a atenção de uma águia, que arrebatou-o em vôo rasante, pondo fim ao seu triunfo e à sua vida. E, assim, o galo aparentemente vencido reinou discretamente, por muito tempo. A moral dessa história, como próprio das fábulas, é bem simples: devemos ser altivos na derrota e humildes na vitória. Humildade não significa pedir licença para viver a própria vida, mas tão-somente abster-se de se exibir e de ostentar. Ao lado da humildade, há outra virtude que eleva o espírito e traz felicidade: é a gratidão. Mas atenção, a gratidão é presa fácil do tempo: tem memória curta (Benjamin Constant) e envelhece depressa (Aristóteles). Portanto, nessa matéria, sejam rápidos no gatilho. Agradecer, de coração, enriquece quem oferece e quem recebe.
Em quase todos os meus discursos de formatura, desde que a vida começou a me oferecer este presente, eu incluo a passagem que se segue, e que é pertinente aqui. “As coisas não caem do céu. É preciso ir buscá-las. Correr atrás, mergulhar fundo, voar alto. Muitas vezes, será necessário voltar ao ponto de partida e começar tudo de novo. As coisas, eu repito, não caem do céu. Mas quando, após haverem empenhado cérebro, nervos e coração, chegarem à vitória final, saboreiem o sucesso gota a gota. Sem medo, sem culpa e em paz. É uma delícia. Sem esquecer, no entanto, que ninguém é bom demais. Que ninguém é bom sozinho. E que, no fundo no fundo, por paradoxal que pareça, as coisas caem mesmo é do céu, e é preciso agradecer”.
Esta a nossa regra nº 5: ninguém é bom demais, ninguém é bom sozinho e é preciso agradecer.
VII. Conclusão
Eis então as cláusulas do nosso pacto, nosso pequeno manual de instruções:
1. Nunca forme uma opinião sem ouvir os dois lados;
2. A verdade não tem dono;
3. O modo como se fala faz toda a diferença;
4. Seja bom e correto mesmo quando ninguém estiver olhando;
5. Ninguém é bom demais, ninguém é bom sozinho e é preciso agradecer.
Aqui nos despedimos. Quando meu filho caçula tinha 15 anos e foi passar um semestre em um colégio interno fora, como parte do seu aprendizado de vida, eu dei a ele alguns conselhos. Pai gosta de dar conselho. E como vocês são meus filhos espirituais, peço licença aos pais de vocês para repassá-los textualmente, a cada um, com toda a energia positiva do meu afeto:
(i) Fique vivo;
(ii) Fique inteiro;
(iii) Seja bom-caráter;
(iv) Seja educado; e
(v) Aproveite a vida, com alegria e leveza.
Vão em paz. Sejam abençoados. Façam o mundo melhor. E lembrem-se da advertência inspirada de Disraeli: “A vida é muito curta para ser pequena”.
*Ministro do Supremo Tribunal Federal.
O ministro Luis Roberto Barroso foi patrono da turma que se formou na Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), quando proferiu este discurso, em abril de 2015. Na segunda-feira, 20 de abril, o site de informações jurídicas Migalha publicou no Facebook o texto que, em dois dias, se tornou viral com mais de 47 mil likes.
Por um feminismo que ouça Mallu antes
Sabe feminismo? Eu tô com a visão da autora deste artigo sobre feminismo.
7 de abril: Dia Nacional d@s Jornalistas
Hoje este blog completa 2 anos. Nasceu na Rua Conde de Bonfim, na Usina, caminho para o Alto da Boa Vista, no Rio de Janeiro e continua, da Região Metropolitana de Porto Alegre, falando para seus 17 leitores — Verissimo, mais uma que te copio. Quando eu comecei em redação de jornal diário, em 1995, a maioria dos colegas eram homens e de Esquerda. Em 2015, a maioria das redações é formada por mulheres (e isso é bom!) mas houve, pela pressão patronal ou pela ideologia em si mesma, uma guinada para a Direita. Verifiquei, na virada do milênio, uma virada também nos propósitos de quem cursava Jornalismo na Universidade. A busca idealista deu lugar, de maneira geral, à busca pelo “glamour” da telinha. A teoria da comunicação, a ética e sociologia perderam espaço para o treinamento técnico que deixava as peças novas prontas pra entrar direto na engrenagem de moer gente da mídia comercial e de massas.
Em duas décadas na lida profissional do Jornalismo, não acredito em “crises”. O sistema capitalista faz das crises seu modus operandi. Portanto, os passaralhos, como o anunciado pelo Estadão nesta semana, estão na estrutura do negócio. Por anos, consegui conciliar a prática diária do jornalismo com a minha militância cidadã por políticas públicas inclusivas, pela cidadania, pelos Direitos Humanos, por transparência e ética na política. Em duas palavras, pela Esquerda. Conceito tão cinicamente rebaixado pela maioria dos profissionais de comunicação do “mercado” que se iludem chamando o patrão de “colega”.
O Jornalismo que pratiquei e pratico, em mídia impressa, televisão e na imprensa sindical, fez com que eu nunca deixasse portas entreabertas, parafraseando Cecília Meireles. Ou as escancarei ou as bati de vez. Como disse a poeta, “pelos vãos, brechas e fendas, passam apenas semiventos, meias verdades e muita insensatez”.
A internet, cujo aparecimento no Brasil se deu com início efetivo da minha sobrevivência como jornalista, em meados da década de 90, é o grande alento e a grande notícia desses anos de agruras e alturas. A web me arrancou da letargia dos “empregados”, sacudiu o comodismo assalariado travestido de fidelidade “aos projetos” dos outros e impôs o desafio de criar minha própria audiência. As mídias digitais e as redes sociais foram mais revolucionárias do que as teses políticas e as verdades pré-fabricadas. Adiante!






