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QUEM (E O QUE) GARANTE O VOTO?

O que garante o voto? Quem garante o voto? Este artigo vai discutir algumas destas variáveis mas especialmente uma delas: a comunicação de massas – com o foco na comunicação dirigida das redes sociais
POR HENRI FIGUEIREDO*
Ao falarmos das razões de um eleitor ou uma eleitora para confirmar seu voto em determinado candidato ou candidata, seja numa eleição para síndico, para associação de bairro, para vereador(a), prefeito(a) ou para presidente da República, é preciso levar em conta uma série de variáveis quantitativas e qualitativas. A conjuntura política e social importa muito. A economia é decisiva. O grau de conhecimento do eleitorado no candidato ou na candidata tem de ser levado em conta, especialmente numa campanha como a que vivemos, em que a pandemia quebrou (ou, ao menos, atrapalhou) estratégias de aproximação com a população. Por “grau de conhecimento” não refiro apenas ao que se chama, peculiarmente, no Brasil, de “recall”. Este conceito foi retorcido numa simplificação de que se trataria apenas de consecutivas candidaturas – o que daria ao político vantagem (ou rejeição) em relação aos demais concorrentes.
De acordo com o cientista político Benedito Tadeu César, que coordenou o Programa de Pós-Graduação em Ciências Políticas UFRGS, sem dúvida os políticos mais conhecidos e principalmente aqueles que tiveram bom desempenho na eleição anterior têm vantagem em 2020. “Ainda mais porque temos um número muito grande de partidos e de candidatos, o que dificulta para o eleitor gravar todos, e também porque nossa legislação eleitoral, entre outras excrescências, impõe uma disputa individual pelo voto e, ao mesmo tempo, dificulta a divulgação dos novos candidatos”, critica Tadeu César.
Para Tadeu César, as redes, sociais se tornaram um grande instrumento, mas com um poder muito maior de destruição do que de construção de candidaturas. “Claro que, se destrói uma, outra ocupa o lugar, mas é por exclusão e não por construção. Assim, a grande arma nas redes sociais são as fake news. Há outra arma a ser utilizada nas redes, sociais que são os menes. Isso porque um grande definidor do voto é, ao lado da racionalidade e, muitas vezes, bem mais do que ela, a emoção. O eleitor vota por identificação”, explica.
Segundo o cientista político, essa é a grande arma que passou a ser utilizada com maestria pela direita nas redes sociais. A direita, lembra Tadeu César, desenvolveu técnicas de manipulação da emoção pelas redes sociais e, com isso, tem conseguido dirigir o voto de uma imensa massa que se informa mal e que é alvo fácil. “As esquerdas, para terem sucesso nesse tipo de campanha, precisarão aprender a construir propostas com conteúdo e com apelo emocional”, sugere.
OITENTA MILHÕES DE BRASILEIROS SÓ TÊM TV ABERTA
Para Felipe (Piti) Nelsis, que coordenou politicamente, na área da comunicação, oito campanhas eleitorais (seis para prefeitura e duas para o governo do estado), a propaganda eleitoral segue tendo muito peso na definição do eleitorado devido ao fato de que 80 milhões de brasileiros e brasileiras só têm acesso à informação pela TV aberta. “Quais grupos são mais imunes a esta propaganda? Os jovens, que quase abandonaram a TV em qualquer formato e a classe média que assiste fundamentalmente à TV a cabo”, analisa Nelsis.
Felipe Nelsis discorda dos dados que apontam que as pessoas se informam “prioritariamente pelas redes”. “O que aparece em primeiro lugar nas pesquisas é o noticiário (embora seja uma resposta ‘educada’ e não necessariamente verdadeira). A grande novidade é um movimento completamente obscuro, porque fora da nossa capacidade de observação, que é o Whatsapp”, diz. O experiente coordenador de comunicação política eleitoral lembra que ainda existem centenas de milhares de grupos administrados pela tropa bolsonarista que atingem grupos de família, da escola, do trabalho, da igreja etc. “Aí é onde correm as falsas construções legitimadas pelo fato que, de repente, ‘todo mundo está falando do mesmo assunto’ sem identificarmos uma origem – como aconteceria se a fonte fosse um programa eleitoral. Este é nosso desafio gigante”, destaca.
QUEM SOU, O QUE PROPONHO, CONTRA O QUE ME BATO
O jornalista Pedro Osório, que por muitos anos lecionou no Curso de Comunicação da Unisinos, considera que o fato de ser conhecido continua favorecendo significativamente o candidato. “Desde que a sua imagem não seja erodida pela nova, digamos, compreensão sobre a política, estabelecida pelas redes e suas lógicas moralistas e avessas aos políticos. Vimos, na última eleição, candidatos conhecidíssimos derrotados pela referida lógica”, registra. Pedro Osório foi secretário de Comunicação na gestão de Tarso Genro na Prefeitura de Porto Alegre entre 1993 e 1996 – pouco antes, coordenou a comunicação da campanha de Tarso para a Prefeitura, em 92. De 1989 a 1992, na gestão de Olívio Dutra na Prefeitura, foi coordenador de projetos especiais também na área da comunicação.
Na opinião de Pedo Osório, nas campanhas eleitorais, redes e mídias tradicionais (rádio, TV) são complementares, não havendo a prevalência das primeiras. “É certo que Bolsonaro tinha um espaço mínimo no horário eleitoral, mas não esqueçamos que a mídia tradicional tratou de naturalizar o seu modo de ser, enquanto fortalecia e alimentava a ideia do petismo sinônimo de corrupção e roubo. E reproduzia fake news. Veículos de imprensa nacionais, regionais e locais assim procederam. Naturalmente, devemos permanecer muito atentos às redes, pelas suas características e potência. Seja porque podem nos fragilizar, seja porque por meio delas podemos nos defender e avançar propostas, bem como ampliar a indispensável redundância”, analisa.
“Seja por qualquer meio, lembremos que seguem valendo os três pilares de uma campanha eleitoral: quem sou, o que proponho, contra o que me bato. Questões que devem ser respondidas à exaustão, privilegiando uma ou outra de acordo com a conjuntura e o desdobrar da campanha” finaliza Pedro Osório.
IGNORAR O WHATSAPP É SUICÍDIO ELEITORAL
A jornalista e social media Cris Rodrigues, atualmente editora de redes sociais no Brasil de Fato, em São Paulo, considera que as circunstâncias desta eleição tanto favorecem quem já é mais conhecido do eleitorado como também abre espaços para o surgimento de novos nomes que não fazem parte do circuito mais tradicional da política. “Pelo grande acesso às redes sociais e pelo contexto da pandemia, acredito que candidatos menos conhecidos mas que usem bem as redes têm todas as condições de se destacar”, assinala. “Em São Paulo e no Rio de Janeiro, por exemplo, existem vários candidatos que vêm do universo das redes sociais e estão ocupando o espaço na política. Aí eu vejo vantagem naqueles que sabem fazer a disputa nas redes. O político que já é bastante conhecido parte de outro patamar na relação com o eleitorado, mas pode ser alcançando”.
Cris Rodrigues trabalhou nas redes sociais das campanhas Tarso Genro (para governador, em 2014) e de Raul Pont (para prefeito, em 2016), foi também coordenadora de redes sociais no Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, cuidando das redes do Bolsa Família de 2015 até o golpe de 2016. “Esta é uma eleição para se investir muito em redes sociais. Felizes dos candidatos e candidatas que já vinham há mais tempo construindo suas redes. Na minha opinião, quem não trabalhou bem as redes antes da eleição, acredito que agora têm poucas chances”, diz Cris.
A jornalista e social media destaca a comunicação interpessoal feita pelo Whatsapp: “Ignorar as redes, especialmente o Whatsapp, é suicídio eleitoral. Eu diria que as redes sociais podem ser, sim, o vetor de uma campanha eleitoral vitoriosa – se bem usadas. Pode ter campanha vitoriosa sem as redes? Pode, mas acho muito difícil”, arremata.
REDES, RÁDIO, TV E OLHO NO OLHO
Evidentemente, as relações comunitárias e os vínculos históricos na luta sociopolítica são variáveis importantes na conquista do voto: é o que chamamos de “base” de qualquer agente político. No entanto, na maioria dos casos, “a base política” por si só não é suficiente para alçar ou reconduzir um político a um cargo público. Daí a importância da comunicação política de massa, para além do eventual e pontual marketing eleitoral.
É certo que algumas tradições do fazer político permanecem imutáveis e fundamentais na hora da conquista do eleitor e da eleitora: o contato direto, o “olho no olho”, a escuta direta das demandas, críticas e sugestões. A restrição da relação direta com o eleitorado, porém, num ano de pandemia e necessidade de cuidados excepcionais para proteção contra o contágio e a disseminação do coronavírus, interferem drasticamente nas táticas da atual campanha.
Em cidades de médio porte, em que não há segundo turno e nem emissoras de TV, as redes, sem dúvida, cumprem o papel central na massificação da mensagem das candidaturas. Não podem ser consideradas “acessórias” e precisam ter uma ação profissional dirigida, com periodicidade de produção de conteúdo bem definida e, principalmente, uma rede orgânica de militantes e multiplicadores que deem conta de espalhar a mensagem pelas suas bolhas pessoais.
A estrutura criminosa nas redes, mundo afora, construída por nomes como Roger Stone e Steve Bannon, na Grã-Bretanha e nos EUA (e também vitoriosa no Brasil, em 2018) continua operante, principalmente no Whatsapp, e conta com robôs para espalhar desinformação. O mundo vai se dando conta de que a democracia liberal está bastante ameaçada pela manipulação de dados pessoais, disparos dirigidos a parcelas não ideológicas do eleitorado e uso de inteligência artificial para antecipar tendências. Nunca mais faremos (e ganharemos) campanhas, quaisquer que sejam, sem entender o que significa nas redes termos como alcance, engajamento, big data, conversão, trends, impulsionamento etc. Ainda que sejamos amados pelo nosso eleitorado.
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*Henri Figueiredo é jornalista, atua na área de crítica da mídia e de comunicação política. Já atuou em cinco campanhas políticas eleitorais (três de prefeito, uma de governador e uma de vereador); em quatro campanhas sindicais (três na área do Judiciário Federal e uma na dos Metalúrgicos); e em duas campanhas de Movimento Estudantil Universitário – sempre na setor da Comunicação.
PARA SABER MAIS
O FALSO DILEMA DAS REDES | No site OUTRAS PALAVRAS
A PRIVACIDADE (E A DEMOCRACIA) HACKEADA | No site JORNALISTAS LIVRES
HAMILTON MOURÃO, ONYX LORENZONI E ABRAHAM WEINTRAUB SÃO INTIMADOS PELA CÂMARA DE SÃO LEOPOLDO (RS)

MOURÃO, ONYX E WEINTRAUB | FOTOS: AGÊNCIA BRASIL
Vereador do DEM arrolou vice-presidente, ministro e ex-ministro como testemunhas em Comissão Processante da cassação de seu mandato
Por HENRI FIGUEIREDO*
O vice-presidente da República Hamilton Mourão (PRTB), o ministro da Cidadania Onyx Lorenzoni (DEM) e o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, que atualmente é um dos diretores-executivos do Banco Mundial, em Washington (EUA), foram intimados a depor, como testemunhas, em processo que tramita na Câmara de Vereadores de São Leopoldo, na Região Metropolitana de Porto Alegre.
A situação inusitada se deu a partir do Requerimento 127/2020 proposto pelos vereadores Perci Pereira e David dos Santos (ambos do PP), para a cassação do mandato do colega Marcelo Buz (DEM). Buz é acusado de utilizar-se de uma “licença de interesse particular”, expedida pela Câmara Municipal em janeiro de 2019, para ocupar a presidência do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI) – uma autarquia federal ligada à Casa Civil da Presidência da República, em Brasília (DF). Com a exoneração de Buz do ITI, em junho, ele retornou às sessões virtuais da Câmara de São Leopoldo. Com isso, o vereador Perci Pereira (PP), que era suplente e tinha assumido a vaga em 2019, perdeu a cadeira na Câmara.
Uma das acusações é de que o vereador Marcelo Buz (DEM) teria desrespeitado a Lei Orgânica do Município de São Leopoldo que define que vereadores só podem licenciar-se para ocupar outros cargos políticos em âmbito municipal. O requerimento está em tramitação desde o dia 15 de junho de 2020. A Câmara de Vereadores definiu, por sorteio, a instalação de uma Comissão Processante que é presidida pela vereadora Iara Cardoso (PDT) e composta pelos vereadores Armando Motta (PRB) e Nestor Schwertner (PT) – que é o relator do processo.

MARCELO BUZ (DEM) ex-presidente do ITI, que reassumiu o cargo de vereador
Tudo isso acontece no município de São Leopoldo, cidade da Região Metropolitana de Porto Alegre que tinha, de acordo com o IBGE, 236 mil habitantes em 2019. E 164 mil eleitores, segundo os dados mais atualizados do TRE-RS. A Câmara Municipal de São Leopoldo tem 13 vagas de vereador(a).
COM OS CORREIOS EM GREVE, INTIMAÇÕES FORAM VIA CARTÓRIO DE NOTAS DO DF
De acordo com a presidente da Comissão Processante, Iara Cardoso (PDT), a intimação do vice-presidente e do ministro da Cidadania se deu via Cartório de Notas de jurisdição do Palácio do Planalto. O amparo legal, segundo Iara, é a utilização do Código de Processo Penal (CPP) de forma subsidiária ao Decreto n. 201/67. “Entretanto, mesmo com o trâmite mais burocrático e lento das intimações pelo rito do CPP, o prazo mais importante da comissão é o prazo final do término dos trabalhos, que não pode ultrapassar o dia de 11 de outubro”, explica a vereadora.
A intimação de Weintraub, por sua vez, se deu de forma eletrônica, pelo e-mail de cada testemunha fornecido pela defesa do vereador Marcelo Buz (DEM), já que ele hoje é um dos diretores-executivos do Banco Mundial e reside em Washington, capital dos EUA.

Vereadora Iara Cardoso (PDT) é a presidente da Comissão Processante
A Comissão Processante ampliou o prazo para oitivas das testemunhas até 17 de setembro. A vereadora Iara Cardoso reforça: “Todas as testemunhas arroladas são da defesa, assim, já foi informado para a defesa, em mais de uma oportunidade, que esse é o prazo derradeiro para a oitiva das testemunhas. Assim, deve haver contrapartida da defesa em conduzir as testemunhas até a sala virtual em que ocorrem as reuniões, ou seja, se as testemunhas arroladas não têm caráter apenas protelatório, a defesa trabalhará no sentido de ouvi-las, como já mostrou interesse. Como as reuniões são virtuais, as testemunhas podem participar de qualquer lugar do Brasil ou do mundo, desde que tenham acesso à internet”.
Após essa data limite de 17 de setembro, abre-se o prazo de cinco dias para o denunciado apresentar suas razões escritas. “Após o recebimento das razões do denunciado a comissão emite parecer final pela procedência ou improcedência da denúncia, solicitando ao Presidente da Câmara que marque a Sessão de Julgamento”, detalha a vereadora que preside a Comissão Processante.
O QUE A DIZ A BANCADA DO PP, AUTORA DO REQUERIMENTO DE CASSAÇÃO
Segundo o suplente de vereador Perci Pereira que, com o atual vereador David Santos, formou a bancada do Partido Progressista (PP) na Câmara Municipal de São Leopoldo até junho, a expectativa é a de que a Comissão Processante atue “para restaurar a legalidade”. Afastado do cargo com o retorno de Marcelo Buz (DEM) a São Leopoldo, Perci Pereira é incisivo: “O ex-presidente do ITI sabe que incorreu em conduta expressamente vedada pela Lei Orgânica e legislação correlata”. De acordo com Perci, “a tentativa dos defensores de Buz é criar ocasião para que a comissão incorra em nulidade, utilizar-se do judiciário e forçar a perda do objeto. Em síntese, o Marcelo Buz conta com a impunidade, sua única aliada”, diz Perci Pereira.

Ex-vereador e suplente PERCI PEREIRA, do PP, que requereu a cassação de Buz
Sobre o fato de o vereador Marcelo Buz ter arrolado testemunhas que são figuras proeminentes da República, Perci Pereira afirma que “não lhe cabe fazer juízo de valor a respeito”. “Apenas vejo que, na ausência de argumento real capaz de enfrentar no âmbito da legalidade a questão, se busca desvirtuar o tema. A lei impõe noventa dias e nada mais para a resolução da controvérsia pela Comissão Processante. Está absolutamente claro que o mandato pertence legalmente a nós. Aguardamos celeridade e justiça na decisão da Câmara de Vereadores’, conclui.
DEFESA DE BUZ AFIRMA QUE PROCESSO É REPLETO DE NULIDADES
A reportagem entrou em contato com o vereador Marcelo Buz (DEM) que, por sua vez, encaminhou o Whataspp de seu advogado Marcelo de La Torres Dias. Em breve nota, Torres Dias registrou: “Processo de cassação eivado de vícios e nulidades. Deverá ser arquivado já na via administrativa, visto não possuir sequer objeto. Caso optem por tentarem cassar o mandato de forma política e sem materialidade jurídica, iremos ao judiciário para assegurar o direito do vereador Marcelo Buz em exercer seu mandato”. O vereador e a defesa preferiram não comentar sobre o arrolamento do vice-presidente Hamilton Mourão, do ministro da Cidadania Onyx Lorenzoni e do ex-ministro da Educação Abraham Weintraub como suas testemunhas no processo.
CONHEÇA A ÍNTEGRA DO REQUERIMENTO E DO PROCESSO DO VEREADOR MARCELO BUZ (DEM), DE SÃO LEOPOLDO, NESTE LINK: https://legis.camarasaoleopoldo.rs.gov.br/?sec=proposicao&id=8056
Fotos dos vereadores e da vereadora: FONTE | SITE DA CÃMARA MUNICIPAL DE SÃO LEOPOLDO
*Henri Figueiredo é jornalista profissional | MtB 12.085
DIA DO JORNALISTA E ANIVERSÁRIO DE 7 ANOS DESTE SITE, BLOG, SÍTIO, JORNAL

7 de abril — OS EXTREMOS, À ESQUERDA E À DIREITA, NOS DETESTAM E TENTAM CONTROLAR. Os pragmáticos da política adoram o nosso trabalho quando são oposição mas criam obstáculos para o mesmo trabalho quando estão no poder. Os conservadores têm ojeriza porque a profissão teve origem liberal – ainda que hoje a imensa maioria dos profissionais seja assalariada. As polícias, o exército e as forças de repressão estatal, em geral, nos desprezam e nos temem, ao mesmo tempo, numa dicotomia esquizofrênica. Traficante de favela e corrupto do colarinho branco sempre que podem executam sumariamente. A maioria dentre nós, na mídia comercial do Brasil, chama o patrão de “colega”.
Vou “chupar”, como dizíamos nas redações dos anos 90, um trecho inteiro do grande escritor, psicanalista e teólogo Rubem Alves (1933–2014) para dizer algo duro. Diz Alves: “Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece”, observou Nietzsche. É o meu caso. Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo. Albert Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora em que a coragem chega: “Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos”. Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem. Vou dizer aquilo sobre o que me calei:”
Digo eu, há uma casta que cresceu de maneira acelerada entre 2000 e 2020 que considera que “ser jornalista” é “ser jornalista diplomado” e que se acha superior ao trabalho do ilustrador, do fotógrafo e do cinegrafista (todos também legalmente da “categoria”); que despreza o radialista; que odeia o ‘precário’; que reproduz um corporativismo míope e de um elitismo podre; que escreve mal, apura mal, interpreta mal, investiga mal, mas – se estiver em cargos públicos nos concursos feitos principalmente pela Esquerda – ganham tanto quanto qualquer experiente editor da mídia comercial tendo a mamata de um terço da carga horária e um quinto da cobrança de entrega. Ah, sim! Temos também os jornalistas-barnabés. Evidente que as relações de trabalho aviltantes devem ser combatidas. Mas também acho escandaloso que se cale para os privilégios dessas castas incrustadas no aparato do Estado, em todas as esferas, produzindo qualquer coisa entre as Relações Públicas, o Marketing Político e a Publicidade e Propaganda. Menos Jornalismo.
Cada vez mais as universidades preparam para operar sem pensar e nem pensar em questionar ‘o mercado’. Ainda assim, nossos sindicatos e federação (que são grandes associações de assessores de imprensa, muito mais do que de ‘profissionais de campo’) continuam numa guerra fratricida e corporativista pela ‘obrigatoriedade do diploma’ como se expurgo fosse o mesmo que panaceia.
Você sabe por que se comemora o Dia do Jornalista em 7 de abril?
A versão mais consistente para a escolha desta data como Dia do Jornalista remonta ao período do Império: a data é comemorada em 7 de abril em homenagem a João Batista Líbero Badaró, médico e jornalista que morreu assassinado por inimigos políticos, em São Paulo, em 22 de novembro de 1830; essa morte gerou o movimento que levou à abdicação de D. Pedro I, no dia 7 de abril de 1831. Por causa disso, a data foi escolhida para marcar a fundação da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), por Gustavo de Lacerda, em 1908. E a própria ABI foi quem a instituiu como Dia do Jornalista nas comemorações de um século da abdicação de D. Pedro I, em 1931.
É emblemático que, no Brasil, o Dia do Jornalista seja o dia da renúncia (ou seja, da queda) do nosso primeiro governante como país ‘independente’. Noutras palavras: o golpismo parece mesmo que está no DNA do jornalismo do Brasil. SQN!
Lembro agora Claudio Abramo, Nando d´Ávila, Eliane Brum, Vladimir Herzog, Adelmo Genro Filho, Vito Giannotti, Cynara Menezes, Katia Marko, João Maneco, Evania Reichert, José Otávio (Dedé) Ferlauto e tantos outros, amigos, amigas, ou distantes, que me inspiraram e inspiram na profissão – aqui fisicamente presentes ou presentes em espírito no ofício.
Apesar de tudo, aos meus colegas, FELIZ DIA D@ JORNALISTA!
Henri Figueiredo
OS SAMBAS-ENREDO DO RIO EM 2020

PRONTO! Chegou a hora de comentarmos os sambas de enredo do Rio de Janeiro em 2020. Desta vez, bem em cima do laço, como diria minha saudosa avó, mas tá valendo. A vida anda dura, rapaziada. Mas já desanuviou, viu?! Agora só cortinas de fumaça vindas de Brasília, mas a gente fuma, traga e samba que não tem tempo ruim para quem é da cultura popular. No domingo começam os desfiles competitivos do Grupo Especial na Passarela do Samba Professor Darcy Ribeiro – vulgarmente conhecida como “Marquês de Sapucaí”, nome da rua onde o espetáculo acontece no bairro da Cidade Nova, ao lado do Estácio, na região central do Rio de Janeiro. (Saiba mais no link https://goo.gl/1zyCXR ). Como tenho feito há alguns anos, comento samba a samba equilibrando a minha percepção mais intuitiva de ouvinte e amante do carnaval com algumas informações que podem ajudar aos leitores a se situar melhor em relação à história recente da festa. Não tenho a pretensão e nem a qualificação necessária para formular críticas mais elaboradas sobre composição, arranjo de bateria e nem sobre o enredo propriamente dito – deixo esta tarefa para os amigos e amigas especialistas e profissionais do Carnaval. Reforço, portanto, de que se trata apenas de um prazeroso exercício de um ouvinte que é apaixonado pela música e pelo carnaval. Nesta publicação para o Facebook vou compilar alguns breves comentários. [E como estou atrasado, as últimas linhas todas foram copia-cola de um texto meu mesmo do ano passado – me autoplagiei! Rá! Segura essa Joice Hasselmann.]
A ordem dos desfiles é a seguinte: DOMINGO, 23 de fevereiro: 1) Estácio de Sá 2) Viradouro 3) Mangueira 4) Paraíso do Tuiuti 5) Grande Rio 6) União da Ilha e 7) Portela. SEGUNDA, 24 de fevereiro: 1) São Clemente 2) Vila Isabel 3) Salgueiro 4) Unidos da Tijuca 5) Mocidade e 6) Beija-Flor.
Contudo, todavia, porém, eu sempre opto por seguir nos meus comentários a ordem dos sambas no álbum oficial da Liesa, disponível no Spotify.
MANGUEIRA

Depois do carnaval campeão de 2019, a Estação Primeira de Mangueira escolheu na quadra, para 2020, o samba de dois dos autores do samba inesquecível do ano passado sobre as “Marias, Mahins, Marielles, Malês”: o casal Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo. Ele, aliás, teve seu samba “Madureira sobe o Pelô”, para a Portela em 2012, eleito o “Samba da Década”. Quem acompanha este site, sabe que eu cravei o óbvio no ano passado: o samba de 2019 era o mais belo e já nascia clássico antes de ser testado na avenida. Ganhou. Claro que a expectativa sobe depois de um carnaval fantástico como a Mangueira fez em 2019. Acompanhei desde a disputa na quadra o samba deste ano e, confesso, fiquei um tanto decepcionado com a gravação no disco oficial da Liesa. Parece que a bateria perdeu “peso”. O tema #JesusDaGente rendeu um samba de novo muito posicionado politicamente e crítico, com sói acontecer com a poesia de Manu da Cuíca. Sofreu algumas alterações para dar mais fluidez ao canto. Eu gostava da versão original mais sincopada mas também mais difícil de cantar – motivo pelo qual perdeu alguns versos. A escola precisa respirar enquanto canta e desfila. Sobre a letra em si, é chover no molhado falar da qualidade da compositora. Destaco a levada funk num determinado momento: “Favela, pega a visão | Não tem futuro sem partilha | Nem Messias de arma na mão”. Mais claro, impossível. Salve a comunidade da Mangueira, o carnavalesco Leandro Vieira, Manu e Máximo! Olha que máximo: https://www.youtube.com/watch?v=8p0qxZre1cE
Mangueira
Samba que o samba é uma reza
Se alguém por acaso despreza
Teme a força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também
Eu sou da Estação Primeira de Nazaré
Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher
Moleque pelintra do Buraco Quente
Meu nome é Jesus da Gente
Nasci de peito aberto, de punho cerrado
Meu pai carpinteiro desempregado
Minha mãe é Maria das Dores Brasil
Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira
Me encontro no amor que não encontra fronteira
Procura por mim nas fileiras contra a opressão
E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão
Eu tô que tô dependurado
Em cordéis e corcovados
Mas será que todo povo entendeu o meu recado?
Porque de novo cravejaram o meu corpo
Os profetas da intolerância
Sem saber que a esperança
Brilha mais que a escuridão
Favela, pega a visão
Não tem futuro sem partilha
Nem Messias de arma na mão
Favela, pega a visão
Eu faço fé na minha gente
Que é semente do seu chão
Do céu deu pra ouvir
O desabafo sincopado da cidade
Quarei tambor, da cruz fiz esplendor
E ressurgi no cordão da liberdade
UNIDOS DO VIRADOURO

Assim como no ano passado, a Viradouro vem com um samba que atende bem ao enredo mas sem nenhuma polêmica ou posicionamento mais crítico à conjuntura. “Viradouro de alma lavada” é o tema. Gostei, levemente, mais do samba do ano passado. Mas a melodia deste samba é boa e o arranjo no disco é muito bom. Gostoso de ouvir, bom de sambar. Importante apontar que sofreu várias alterações do original até a versão que vai pra avenida. Veja: https://www.youtube.com/watch?v=xBqTqZQEznc
Oh mãe ensaboa
Mãe ensaboa pra depois quarar
Ora yê yê o oxum! Seu dourado tem axé
Faz o seu quilombo no Abaeté
Quem lava a alma desta gente veste ouro
É Viradouro! É Viradouro!
Levanta preta que o Sol tá na janela
Leva a gamela pro xaréu do pescador
A alforria se conquista com o ganho
E o balaio é do tamanho do suor do seu amor
Mainha, esses velhos areais
Onde nossos ancestrais
Acordavam as manhãs
Pra luta
Sentem cheiro de angelim
E a doçura de quindim
Na bica de Itapuã
Camará ganhou a cidade
O erê herdou liberdade
Canto das Marias, baixa do dendê
Chama a freguesia pro batuquejê
São elas dos anjos e das marés
Crioulas do balangandã, ô iaiá
Ciranda de roda na beira do mar
Aguadeira que benze e vai pro terreiro sambar
Nas escadas de fé
É a voz da mulher!
Xangô ilumina a caminhada
A falange está formada
Um coral cheio de amor
Kaô! O axé vem da Bahia
Nesta negra cantoria
Que Maria ensinou
Oh mãe ensaboa
Mãe ensaboa pra depois quarar
UNIDOS DE VILA ISABEL

A Vila traz um samba digno neste ano. Bem melhor do que o samba “Pai João” lamentável do ano passado. A Vila Isabel, escola de Noel, em 1988 apresentou aquele que é, na minha opinião, o maior samba-enredo de todos os tempos: “Kizomba – A Festa da Raça”, do grande e saudoso Luiz Carlos da Vila. Neste ano, a Vila conta a história da cidade de Brasília como uma lenda indígena, referencia os demais povos brasileiros que povoaram a região depois dos indígenas e, claro, de novo não entra em polêmica política. Um desperdício do enredo, na minha modesta opinião. Mas, vá lá Vila! Assista: https://www.youtube.com/watch?v=JVvPLi3OCLY
Brasília joia rara prometida
Que a Nossa Senhora de Aparecida
Estenda seu manto
Pro povo seguir
Sou da Vila não tem jeito, fazer samba é meu papel
Fiz do chão do Boulevard, meu céu
‘Paira no ar’ o azul da beleza
Gigante pela própria natureza
Sou eu!
Índio filho da mata
Dono do ouro e da prata
Que a terra mãe produziu
Sou eu!
Mais um Silva pau de arara
Sou barro marajoara
Me chamo Brasil
Aquele que desperta a cunhatã
Pra ouvir Jaçanã sussurrar ao destino
O curumim, o piá e o mano
Que o vento minuano também chama de menino
Do Tapajós
Desemboquei no Velho Chico
Da negra Xica, solo rico das Gerais
E desaguei em fevereiro
No meu Rio de Janeiro terra de mil carnavais
Ô viola!
A sina de Preto Velho
É luta de quilombola, é pranto é caridade
Ô fandango!
Candango não perde a fé
Carrega filho e mulher
Pra erguer nova
Cidade
Quando a cacimba esvazia
Seca a água da moringa
Sertanejo em romaria é mais forte que mandinga
Assim nasceu a flor do cerrado
Quando um cacique inspirado
Olhou pro futuro
E mandou construir
Brasília joia rara prometida
Que a Nossa Senhora de Aparecida
Estenda seu manto
Pro povo seguir
Sou da Vila não tem jeito, fazer samba é meu papel
Fiz do chão do Boulevard, meu céu
‘Paira no ar’ o azul da beleza
Gigante pela própria natureza
PORTELA

Guajupiá é, segundo a mitologia tupi-guarani, o paraíso para onde vão os espíritos dos mortos. Salve Oswaldo Cruz e Madureira! Fôssemos nós dar ouvidos a certos militontos, neste Carnaval a minha Portela estaria “cancelada” (a palavra da moda). E chegamos ao primeiro samba do disco que conseguiu conjugar de maneira excepcional letra e arranjo de bateria. Lindo! Ainda que a plêiade de expressões tupi deixem o samba difícil de cantar para o público em geral, que melodia e que levada! E mesmo quando a letra tentou me frustar (“Nossa aldeia é sem partido ou facção”) em seguida me ganhou com o verso: “Não tem bispo nem se curva a capitão!”. Eitcha, que a Portela nos últimos anos assumiu o tacape da Resistência, assim como a Mangueira, diga-se. E, de boas, eu queria La Negrini em alguma das alas da Portela. De índia, claro. Obrigado, de nada. Índio pede paz mas é de guerra! Pode se emocionar no clipe: https://www.youtube.com/watch?v=BEMYuC6nl2I
Índio é Tupinambá
Índio tem alma guerreira
Hoje meu Guajupiá é Madureira
Voa águia na floresta
Salve o samba, salve ela
Índio é dono desse chão
Índio é filho da Portela
Clamei aos céus
A chama da maldade apagou
E num dilúvio a terra ele banhou
Lavando as mazelas com perdão
Fim da escuridão
Já não existe a ira de Monã
No ventre há vida, novo amanhã
Irim Magé já pode ser feliz
Transforma a dor na alegria de poder mudar o mundo
Mairamuãna tem a chave do futuro
Pra nossa tribo lutar e cantar
Aue, aue a voz da mata, oke, oke aro
Se Guanabara é resistência
O índio é arco, é flecha, é essência
Ao proteger karioka
Reúno a maloca na beira da rede
Cauim pra festejar… purificar
Borduna, tacape e ajaré
Índio pede paz mas é de guerra
Nossa aldeia é sem partido ou facção
Não tem bispo, nem se curva a capitão
Quando a vida nos ensina
Não devemos mais errar
Com a ira de Monã
Aprendi a respeitar a natureza, o bem viver
Pro imenso azul do céu
Nunca mais escurecer (bis)
Índio é Tupinambá
Índio tem alma guerreira
Hoje meu Guajupiá é Madureira
Voa águia na floresta
Salve o samba, salve ela
Índio é dono desse chão
Índio é filho da Portela
ACADÊMICOS DO SALGUEIRO

O Salgueiro vai cantar a vida e obra de Benjamin de Oliveira, o primeiro palhaço negro do Brasil. E é tão estranho não ouvir um samba afro no Salgueiro, vou te contar! Com toda a reverência possível à bateria Furiosa, inclusive na gravação do álbum da Liesa, foco deste texto, este não é um mau samba, mas é o pior dos últimos anos do Salgueiro. Depois do magnífico e inesquecível “Ópera dos Malandros”, de 2016, e do excelente “Xangô”, de 2019, esperava muito mais do Salgueiro. Assista aqui: https://www.youtube.com/watch?v=0CqyvGyaUJo
Na corda bamba da vida me criei
Mas qual o negro não sonhou com liberdade?
Tantas vezes perdido, me encontrei
Do meu trapézio saltei num voo pra felicidade
Quando num breque, mambembe moleque
Beijo o picadeiro da ilusão
Um novo norte, lançado à sorte carnaval 2020
Na “companhia” do luar…
Feito sambista…
Alma de artista que vai onde o povo está
E vou estar com o peito repleto de amor
Eis a lição desse nobre palhaço
Quando cair, no talento, saber levantar
Fazer sorrir quando a tinta insiste em manchar
O rosto retinto exposto
Reflete no espelho
Na cara da gente um nariz vermelho
Num circo sem lona, sem rumo, sem par…
Mas se todo show tem que continuar
Bravo!
Há esperança entre sinais e trampolins
E a certeza que milhões de Benjamins
Estão no palco sob as luzes da ribalta
Salta menino!
A luta me fez majestade
Na pele, o tom da coragem
Pro que está por vir…
Sorrir e resistir!
Olha nos aí de novo
Pra sambar no picadeiro
Arma o circo, chama o povo, Salgueiro!
Aqui o negro não sai de cartaz
Se entregar, jamais!
MOCIDADE INDEPENDENTE DE PADRE MIGUEL

“É hora de acender no peito a inspiração”. “Elza Deusa Soares” por si só já é um enredo grandioso. E que samba, senhoras e senhores! Que samba! O primeiro do álbum que te faz arredar os móveis da sala, saca? Uma das autoras é a (ex? coxinha) Sandra de Sá. “Brasil, enfrenta o mal que te consome!” É contagiante pela letra, pelo arranjo de bateria, pela interpretação sempre matadora do Wander Pires. E um dos refrões é chiclete: “Laroyê ê Mojubá | Liberdade | Abre os caminhos pra Elza passar | Salve a Mocidade! | Essa nega tem poder”. Salve a Mocidade! “Sei que é preciso lutar com as armas de uma canção!”. Um samba de RESISTÊNCIA, como não poderia deixar de ser ao falar da Elza. Olha que lindo o clipe: https://www.youtube.com/watch?v=4IwkkhwsYAc
Laroyê ê Mojubá
Liberdade
Abre os caminhos pra Elza passar
Salve a Mocidade!
Essa nega tem poder
É luz que clareia
É samba que corre na veia
Lá vai, menina
Lata d’água na cabeça
Esqueça a dor
Que esse mundo é todo seu
Onde a água santa foi saliva
Pra curar toda ferida
Que a história escreveu
É sua voz que amordaça a opressão
Que embala o irmão
Para a preta não chorar
Se a vida é uma aquarela
Vi em ti a cor mais bela
Pelos palcos a brilhar
É hora de acender
No peito a inspiração
Sei que é preciso lutar
Com as armas de uma canção
A gente tem que acordar
Da “lama” nasce o amor
Quebrar as agulhas
Que vestem a dor
Brasil
Esquece o mal que te consome
Que os filhos do Planeta Fome
Não percam a esperança
Em seu cantar
Ó nega!
Sou eu que te falo em nome daquela
Da batida mais quente
O som da favela
A resistência em nosso chão
Se acaso você chegar
Com a mensagem do bem
O mundo vai despertar
Deusa da Vila Vintém
Eis a estrela
Meu povo esperou tanto pra revê-la
Laroyê ê Mojubá
Liberdade!
Abre os caminhos pra Elza passar
Salve a Mocidade!
Essa nega tem poder
É luz que clareia
É samba que corre na veia
UNIDOS DA TIJUCA
Como sempre lembro, eu tenho relação afetiva com a comunidade do Borel. Morei no pé do Morro, na Usina, por quatro anos – no auge de Paulo Barros como carnavalesco campeão pelo Pavão e que agora está de volta. No ano passado, a Tijuca veio com um samba melodicamente muito bonito e politicamente muito exxxperto, alinhando com os católicos na guerra santa que virou a política carioca dominada pelos neopentecostais do bispo-prefeito. O samba de 2020 foi encomendado, sem disputa, aos pesos-pesados Jorge Aragão, Dudu Nobre, Totonho, André Diniz e Fadico. É, talvez, o mais emotivo deste ano, poético, lírico, cantando o Borel. “Todo mundo sonha um dia ter o seu cantinho na cidade”. Dignidade não é luxo nem favor, canta a Tijuca. E eu canto junto! Veja: https://www.youtube.com/watch?v=6LJUHNImNX4
O sonho nasce em minha alma
Vai tomando o peito e ganhando jeito
Se eternizando, traduzido em forma
O mais imperfeito, perfeição se torna
Lá no meu quintal, eu vou fazer um bangalô
Já foi tapera feita em palha e sapê
E uma capela que a candeia aluminou
A lua cheia…
Vem, é lindo o anoitecer
Vai, eu morro de saudade
Tomo mundo um dia sonha ter
Seu cantinho na cidade
Como é linda a vista lá do meu Borel
Luzes na colina, meu arranha-céu
Linhas do arquiteto, a vida é construção
Curva-se o concreto, brilha a inspiração
Lágrima desce o morro
Serra que corta a mata
Mata, a pureza no olhar
O Rio pede socorro
É terra que o homem maltrata
E meu clamor abraça o Redentor
Pra construir um amanhã melhor
O povo é o alicerce da esperança
O verde beija o mar, a brisa vai soprar
O medo de amar a vida
Paz e alegria vão renascer
Tijuca, faz esse meu sonho acontecer
A minha felicidade mora nesse lugar
Eu sou favela
O samba no compasso é mutirão de amor
Dignidade não é luxo nem favor
PARAÍSO DO TUIUTI

Quem não lembra do clássico samba do Tuiuti de 2018, do mestre Moacyr Luz, que cantava: “Meu Deus, meus Deus, se eu chorar não leve a mal; pela luz do candeeiro liberte o cativeiro social. (…) Não sou escravo de nenhum senhor, meu paraíso é meu bastião, meu Tuiuti, o quilombo da favela é sentinela da libertação”. A escola foi a justa vice-campeã com este samba, mas considerada a “campeã moral” com este samba belíssimo e um desfile arrebatador. No ano passado, o Tuiuti fez um samba que referenciou o crime ambiental de Brumadinho. Neste ano de 2020, a escola que tem relação forte com o padroeiro do Rio, São Sebastião (Oxóssi no sincretismo carioca), começa com o grito de “A luta continua, meu povo!” e brinca com a referência também a Dom Sebastião, o mítico rei de Portugal que se deu origem a um movimento messiânico. De novo, Moacyr Luz está entre os autores e a sua levada é inconfundível. É um samba bom de dançar e, me parece, tem tudo pra levantar a avenida. Peca, no meu entendimento, por estar apenas bem amarrado no enredo que relaciona os dois ‘Sebastiões’. Sei lá, me acostumei nos últimos anos com sambas politicamente bem posicionados do Tuiuti. O clipe oficial da Liesa: https://www.youtube.com/watch?v=705oh8I7XtM
Todo 20 de janeiro
Nos altares e terreiros
Pelos campos de batalha
Uma vela pro divino
O imperador menino
Um Sebastião não falha
Nas marés, o desejado
Infiéis pra todo lado
Enfrentou a lua cheia
No deserto, um grão de areia
Dom Sebastião vagueia
Sem futuro, nem passado… (laiá laiá)
Renasce sob nós, um caboclo encantado
Na Praia dos Lençóis, é o touro coroado
Vestiu bumba-meu-boi
Até mudou o fado
No couro do tambor foi batizado
Poeira, ê! poeira!
Pedra bonita pôs o santo no altar
Sangrou a terra, onde a paz chorou a guerra
Mas ele vai voltar!
Rio, do peito flechado
Dos apaixonados
Rio-batuqueiro
Oxóssi, orixá das coisas belas
Guardião dessa aquarela
Salve o Rio de Janeiro!
Orfeus tocam liras na favela
A cidade das mazelas
Pede ao santo proteção
Grito o teu nome no cruzeiro
Ó padroeiro! Toda minha devoção!
No Morro do Tuiuti
No alto do Terreirão
O cortejo vai subir
Pra saudar Sebastião
ACADÊMICOS DO GRANDE RIO

“Eu respeito seu amém, você respeita o meu axé!” canta a Grande Rio que vem, de novo, vem com bom samba afro! Axé! Num ano em que o Salgueiro abdicou dessa tradição, a Grande Rio, do “Quilombo Caxias”, retoma uma tradição que também é sua, cantando as religiões de matriz africana e Oxóssi (que, aliás, é o meu santo de cabeça – já me disseram em terreiros). Em 2019, eu já tinha gostado muito do fortíssimo samba-afro da escola, cantando Xangô: foi um dos mais bonitos do ano. Agora “os ogans batuqueiros pedem paz” e eu adorei esse samba! Carnaval não é carnaval sem escola cantando abertamente e com orgulho o candomblé. Assistam: https://www.youtube.com/watch?v=E6KMBblODV0
É pedra preta!
Quem risca ponto nesta casa de caboclo
Chama flecheiro, lírio e arranca toco
Seu “serra negra” na jurema, juremá
Pedra preta!
O assentamento fica ao pé do dendezeiro
Na capa de Exu, caminho inteiro
Em cada encruzilhada um alguidar
Era homem, era bicho flor
Bicho homem pena de pavão
A visão que parecia dor
Avisando salvador, João!
No camutuê Jubiabá
Lá na roça a gameleira
“Da Goméia” dava o que falar
Na curimba feiticeira
Okê! Okê Oxóssi é caçador
Okê! Arô! Odé!
Na paz de zambi, ele é mutalambo!
O alaketo, guardião do agueré
É isso, dendê e catiço
O rito mestiço que sai da Bahia
E leva meu pai mandingueiro
Baixar no terreiro quilombo caxias
Malandro, vedete, herói, faraó
Um saravá pra folia
Bailam os seus pés
E pelo ar o bejoim
Giram presidentes, penitentes, yabás
Curva-se a rainha
E os ogans batuqueiros pedem paz
Salve o candomblé, eparrei Oyá
Grande Rio é Tata Londirá
Pelo amor de Deus, pelo amor que há na fé
Eu respeito seu amém
(Você respeita meu axé)
UNIÃO DA ILHA DO GOVERNADOR

Eu não consigo falar da União da Ilha sem lembrar o samba-enredo clássico “É Hoje”, de 1982. “É hoje o dia da alegria, e a tristeza nem pode pensar em chegar. Diga espelho meu, se há na avenida alguém mais feliz que eu”. Não tem quem não conheça, mesmo que não goste de Carnaval. Neste ano de 2020, a Ilha vem com um samba bem melhor do que o do ano passado – uma das decepções de 2019. O samba deste ano tem passagens bonitas mas não passa de razoável, eu diria. O clipe está aqui: https://www.youtube.com/watch?v=-M5SCuZH1Xk
Senhor… Eu sou a Ilha
E no meu ventre essa verdade que impera
Que é invisível entre becos e vielas
De quem desperta pra viver a mesma ilusão
E vai trabalhar
Antes do sol levantar de novo
A voz do rancor não cala meu povo não
Sou mãe dignidade é meu destino
Rogo em prece meus meninos
Ao longe alguém ouviu
Meus filhos são filhos dessa mãe gentil
Inocentes culpados, são todos irmãos
Esse nó na garganta vou desabafar
O chumbo trocado, o lenço na mão
Nessa terra de deus dará…
Eu sei o seu discurso oportunista
É a ganância, hipocrisia
O seu abraço é minha dor (seu doutor)
Eu sei que todo mal que vem do homem
Traz a miséria e causa fome
Será justiça de quem esperou
O morro desce o asfalto e dessa vez
Esquece a tristeza agora..
É hoje, o dia da comunidade
Um novo amanhã, num canto de liberdade
A nossa riqueza é ser feliz
Por todos os cantos do país
Na paz da criança o amor da mulher
De gente humilde que pede com fé
BEIJA-FLOR DE NILÓPOLIS

REINA FIRME NA ENCRUZILHADA | É impressionante com a Beija-Flor vive uma safra de sambas magníficos. Eles não erram no samba, ainda que seja comum o desfile destruir com as propostas dos poetas na avenida. Assim com o a Mocidade, a Beija-Flor neste ano traz a saudação afro a Exu: “Laroyê ê Mojubá” e vem com o MELHOR conjunto de lírica + arranjo de bateria + interpretação, de novo com o Neguinho da Beija-Flor. Eu que fui Mangueira e sou Portela, tenho uma bronca histórica com a escola de Nilópolis – sempre muito ligada à Globo e ao establishment do show business do Carnaval. Mas como aqui a análise é do samba-enredo, tenho de fazer justiça: de fato, este samba é uma pedrada! Arreda tudo e aumento o som: “Segura o povo que o povo é dono da rua! Ô corre, gira, que a rua é do Beija-Flor!”. Irresistível! De todos do álbum, é o que mais me dá prazer em deixar em looping no Spotify. Ouçam! E assistam: https://www.youtube.com/watch?v=WmkGK_51cfU
Preceito!
Minha fé pra seguir nessa estrada
Odara ê! Reina firme na encruzilhada
Abram os caminhos do meu Beija-Flor
Por rotas já trilhadas no passado
O tempo de tormentas que esse mar levou
Revelam este novo eldorado
Nas trilhas da vida… desbravador!
Destino traçado… vencedor!
Nos becos da solidão
Moleque de pé no chão
E nessas andanças eu sigo teus passos
São tantas promessas de um peregrino
É crer no milagre, sagrados valores
Em tantos altares, em tantos andores
A vela que acende a dor que se apaga
A mão que afaga se torna corrente
Nilopolitano em romaria
A fé me guia! A fé me guia!
Em meus devaneios
Entre o real e a imaginação
Saudade persiste,
Insiste em passear no coração
Feito um poema a beira-mar
Canto pra te ver passar
Me vejo em teu caminho
Nessa imensidão azul do teu amor
E às vezes, perdido
Eu me encontro em tuas asas, Beija-Flor
Por mais que existam barreiras
Eu vim pra vencer no teu ninho
É bom lembrar, eu não estou sozinho
Ê laroyê ina Mojubá
Adakê Exu ôôô
Segura o povo que o povo é o dono da rua
Ô corre gira que a rua é do Beija-Flor
SÃO CLEMENTE

Não é fake news: a São Clemente tá com um grande samba-enredo! E que bom! Enfim! Eitcha que demorou, São Clemente. Um samba pra cima, pra frente, alegre, bem escrito. O autor é o genial humorista Marcelo Adnet – um puta acerto da escola. Acredita, São Clemente! Tomara que, de fato, a maré vire! E obrigado por chamar de burro o asno que toma as decisões no mais alto posto de comando do país e obrigado também por este samba descolado, moderno, o mais irreverente do ano. Fazia anos que a São Clemente não me toca e agora me tocou fundo.
Aqui o vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=eIabwNo0ysw
Meu povo chegou ôô!
A maré vai virar, laiá!
Na ginga, pra frente, lá vem São Clemente
Sem medo de acreditar!
O sino toca na capela e anuncia
Nossa Senhora começou a confusão!
Quem vai ficar com a imagem de Maria?
O burro vai tomar a decisão
Mas o jogo estava armado
Era o conto do vigário
Nessa terra fértil de enredo
Se aprende desde cedo
Todo papo que se planta dá
Dom João deu uma volta em Napoleão,
Fez da colônia dos malandros capital
Trambique, patrimônio nacional
Tem laranja!
“Na minha mão, uma é três e três é dez!”
É o bilhete premiado vendido na rua
Malandro passando terreno na lua!
Hoje, o vigário de gravata
Abençoa a mamata,
Lobo em pele de cordeiro
“Trago em três dias seu amor”
“La garantia soy yo!”
“Só trabalho com dinheiro”
Chamou o VAR, tá grampeado,
Vazou, deu sururu,
Tem marajá puxando férias em Bangu!
Balança na rede
Abre a janela, aperta o coração
O filtro é fantasia da beleza
Na virtual roleta da desilusão
Brasil, compartilhou, viralizou, nem viu!
E o país inteiro assim sambou
“Caiu na fake news!”
Meu povo chegou ôô!
A maré vai virar, laiá!
Na ginga, pra frente, lá vem São Clemente
Sem medo de acreditar!
ESTÁCIO DE SÁ

A escola do Morro de São Carlos, onde nasceram Gonzaguinha e Luiz Melodia, é a mais antiga do Carnaval do Rio. A primeira escola a entrar na avenida, no domingo do Grupo Especial, vem com o enredo “Pedra”, desenvolvido pela campeoníssima carnavalesca Rosa Magalhães. O samba é bom mas me parece engessado no enredo – sabe quando é difícil identificar algo mais do que apenas o desenvolvimento da sinopse? Boa sorte à Estácio, pela história, pela tradição, pela raiz.
Veja o clipe: https://www.youtube.com/watch?v=g1davdVUA4o
O poder que emana do alto da pedreira
Tem alma justiceira e garra de leão
Senhor não deixa um filho seu sozinho
Tirando pedras do meu caminho
Vai São Carlos
À força dos ancestrais
Pedra fundamental do samba
Batalhas e rituais
Paredes que contam histórias
Na sede pela vitória
Sagrada, talhada, encravada no chão
Conduz meu pavilhão
Ê roda pra lá, Ê roda pra cá
Brilha na estrada seguindo o caminho do mar
Diamantes e amores, sedução e fantasia
A riqueza dos senhores dos escravos alforria
No verso duro a inspiração
Da serra do meu pai e meu avô
O trem que leva a produção
Das minas a tinta do grande escritor
Vem peneirar, peneirar
O garimpo traz o ouro a cobiça dos mortais
Peneirar, peneirar
Devastando a natureza no Pará dos Carajás
Da lua, de Jorge, eu vejo o planeta azul chorar
Atire a pedra quem não tem espelho
Quero meu rubi vermelho
Pra minha Estácio de Sá