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Arquivo anual: 2016
A capitulação (mais uma) do governo Dilma diante dos chantagistas do Congresso

POR FERNANDO BRITO · 25/02/2016 no TIJOLAÇO – Título original: “O governo escolheu ser um molambo?”// O resumo da ópera do acordo – o nome correto é capitulação – entre Dilma Rousseff , a oposição e o chantagista Renan Calheiros, que é quem detém o poder de brecar o impeachment empurrado por Eduardo Cunha: no meu governo, o pré-sal não será entregue; depois, seja o que Deus quiser Não se pode deixar de considerar que, se estivesse havendo um combate, poderia ser explicado que estamos dando um passo atrás para dar outros à frente.
Só que não há um combate, há uma deserção ao combate, com a esperança de que, em algum momento, a máquina irá se apiedar e parar seu processo de esmagamento de qualquer projeto, político e econômico, de afirmação soberana do Brasil.
Não vai, é claro.
Embora, por milagres, até os incréus como eu torçam.
O resultado prático é que o Governo (e o PT, malgrado a reação de muitos de seus integrantes) vai se desmilinguindo, se derretendo ainda mais.
E paralisando a reação do povo brasileiro à entrega de sua Petrobras que, admitem, estava mesmo cheia de irregularidades. Veja se algum governo fez isso com a Exxon ou a Shell, ou a BP, que distribuíram dinheiro e fizeram guerras?
Desde quando – isso nas raríssimas vezes que o fizeram – deixaram que a punição pessoal transbordasse para a empresa, que era o braço de seus interesses?
Ainda não é, infelizmente, o corolário de um processo que desprezou, desde há muito tempo e progressivamente, a ideia de que sem o povo como agente político, a história não caminha adiante.
Desde o início do Governo Dilma – não é justo dizer que tenha se inciado com ela, tem raízes muito anteriores – resolveu-se assumir como verdade o discurso do inimigo.
A faxina, desculpem, não foi ideia de Moro.
Mas isso é lá atrás.
Fiquemos nos últimos dois anos: “não vai sobrar pedra sobre pedra”.
Também não é frase do Moro.
Há dois anos este sujeito avança sobre a República. Hoje, tem a República a seus pés.
E o povo brasileiro, depois de passar meses, anos, tentando descobrir onde estão seus líderes, Lula e aquela a quem ele delegou sua continuidade. Não o culpem pelo fato de que se seduza por guizos falsos.
Aprendi, das profundezas gaúchas do Brizola, a expressão “boi sinuelo”, isto mesmo, aquele que tem um sino ao pescoço e sinaliza ao rebanho os perigos, os riscos e as trilhas. Ou, se domesticadíssimo, ao matadouro.
Sinais, não há coletivo animal ou humano que os dispense. Perguntem aos militares antigos o que é “tocar reunir”
O Governo, o PT, Dilma, Lula parecem ter inventado o toque de “dispersar”, que aliás não existe no conjunto de toques militares, porque às suas forças nunca se dispersa.
É que o povo brasileiro, como naquelas profundezas, sente o cheio de raposas e lobos e muitos, ainda, empacam e procuram o sinuelo.
E não encontram o que o compositor gaúcho Leopoldo Raissier, descreveu: E ao contemplar o agora dos seus campos/O lugar onde seu porte ainda fulgura/O velho taura dá de rédeas no seu eu/E esporeia o futuro com bravura…
Cutucando onças com varas curtas – O ensaio desenvolvimentista no primeiro mandato de Dilma Rousseff (2011-14), por André Singer

Uma filosofia para militantes
Alain Badiou: Você sabe, tem havido uma longa história. Se você pensar a situação no século XIX, você tinha muitos filósofos que eram intelectuais públicos, que tomavam posições públicas sobre muitas questões: contra a tortura e repressão, em apoio dos presos, e muitos outros. Então a ideia de que existe uma relação entre as convicções filosóficas e a ação política tem sido verdade desde o século XIX até hoje.No legado marxista, sempre houve uma relação, mesmo se por vezes dificultosa e contraditória, entre a filosofia dialética – vinda de Hegel e Marx – e a determinação política. E eu penso que esse ponto é especialmente importante hoje, pois no momento presente existe uma fraqueza geral de ideias revolucionárias. E então, quando homens e mulheres se engajam hoje na ação política eles estão em busca de uma orientação.
Por Aaron Hess, via International Socialist Review, traduzido por Daniel Alves Teixeira
Entrevista a Alain Badiou de 11 de Dezembro de 2014, pouco antes dos recentes assassinatos nos escritórios do Charlie Hebdo e em um supermercado judeu. Em resposta a esses eventos, e a onda de islamofobia
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Adicção? O problema não é a química. É a gaiola
[Ative a legenda do vídeo no canto inferior direito da tela]
Bruce Alexander e Carl Hart são cientistas cujas linhas de pesquisa ainda são minoritárias dentro da Psicologia e da Neurociência. A medida em que ligamos os pontos, percebemos a conexão entre a indústria farmacêutica, a World Psychiatric Association e a Associação Americana de Psiquiatria (APA, em inglês) e o seu DSM, o ‘Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais’. E percebemos também que essa conexão é útil tanto para incrementar o lucro corporativo quanto para o controle político social pela manutenção do status quo. Ou seja, não interessa discutir Alexander e, muito menos, Hart. É com raciocínio parecido que Allen Frances, diretor da revisão do DSM-IV, denunciou a atuação da indústria farmacêutica na “invenção” de novos distúrbios mentais.
Em janeiro de 2014, Cauê Seignermartin Ameni teve excelente matéria sobre o tema publicada no Outras Palavras. Ameni descreve o experimento de Alexander, também tratado no vídeo que acompanha este post. Também em janeiro de 2015, a Carta Maior traduziu trecho da entrevista de Carl Hart ao site Democracy Now. A revista mensal Scientific American registrou sobre o último livro de Hart, “Um Preço Muito Alto“: “O relato é tão pungente quanto sua reivindicação para que se mude o modo como a sociedade pensa a respeito de raça, drogas e pobreza” – e eis aqui a imbricação necessária para se entender de uma maneira holística a questão.
Henri Figueiredo
Veja ainda este rápido vídeo com Carl Hart.
Jornalista de direita provoca candidata à Presidência do Peru em francês. Veja o que aconteceu
A candidata à Presidência do Peru pela Frente Ampla, Verónika Mendoza, respondeu em quéchua o cumprimento de um jornalista durante entrevista à emissora Fuente Latina, no domingo (7/2). O jornalista e advogado Aldo Mariátegui, conhecido por sua posição de direita, antes de fazer a primeira pergunta à candidata, cumprimentou-a em francês, numa referência irônica à dupla nacionalidade francesa de Verónika. Ela, por sua vez, respondeu em quéchua, idioma indígena de povos da América do Sul e uma das línguas oficiais do Peru, Bolívia e Equador. [via Opera Mundi]
5 técnicas para aumentar o prazer feminino (infalível)
Técnica nº. 1: MÃOS MOLHADAS
Faça sua parceira sentar-se em uma cadeira confortável na cozinha. Certifique-se que ela consegue ver muito bem tudo que você faz. Encha a pia da cozinha com água e adicione algumas gotas de detergente para louça com aroma. Segurando uma esponja macia, submersa suas mãos na água e sinta sua pele ser envolvida pelo líquido até que a esponja esteja bem molhada… Agora, movendo-se devagar e gentilmente, pegue um prato sujo do jantar, coloque-o dentro da pia e esfregue a esponja em toda a superfície do prato. Vá esfregando com movimentos circulares até que o prato esteja limpo. Enxágue o prato com água limpa e coloque-o para secar. Repita com toda a louça do jantar até que sua parceira esteja gemendo de prazer.
As últimas 24 horas de Pompeia
Assustador.
Baseado nas informações de pesquisadores, o estúdio Zero One Animation editou para o Museu Melbourne uma animação em 3D sobre as últimas 24 horas de Pompeia, a cidade italiana destruída pelo Vesúvio.
Vejam como ficou:
Tau Golin: o Rio Grande se concretizou no ventre indígena

TAU GOLIN – Foto: UFRGS
“Meios de comunicação que só repetem pastiches e não veem o Rio Grande do Sul como um lugar em que a brasilidade se realizou de fato. É a região mais brasileira porque misturou o Brasil no povoamento das guerras de fronteira mantidas por paulistas, mineiros, baianos, pernambucanos.”
Em extraordinária entrevista concedida ao jornalista Luiz Antônio Araujo, do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, o historiador Tau Golin desmonta, mais uma vez, os mitos da formação do povo gaúcho ao tratar das etnias que se miscigenaram no RS; faz uma elaborada crítica ao patrimonialismo (nos termos de Faoro); discute em altíssimo nível alguns dos problemas do PT e dos movimentos sociais; e considera o redivivo ódio religioso no Brasil como uma volta ao século XVIII. Em resumo, trata de temas bem mais candentes do que cavalos e cavalaria. [Henri Figueiredo]
Alguns trechos:
“Não existiria Rio Grande do Sul sem navegação. Ela forneceu uma plataforma de ocupação, de povoamento e de movimentação na guerra. Do ponto de vista geopolítico, o Rio Grande é uma realização da navegação. Depois da navegação, houve o uso das armas da navegação em terra, que são a artilharia e a infantaria. A cavalaria sempre foi, na história do Rio Grande do Sul, uma arma auxiliar.”
“(…) Os farrapos perderam em função do cavalo. Em 1893, os maragatos nem chegaram a ameaçar o governo do Partido Republicano Rio-grandense (PRR). Usavam cavalos de campo, imprestáveis para a guerra, sem resistência. O cavalo militar é diferente, preparado para a guerra, a começar pela alimentação. Esse cavalo a campo não tem resistência. Precisa de muita peonada para levá-lo para o pasto. Não tem precisão na guerra. Tanto é que a cavalaria maragata geralmente era enfrentada pela Brigada Militar com formações antiquíssimas, como o quadrado romano, que vem da Antiguidade — a diferença era que usavam armas de fogo em vez de flechas e lanças. Na história contemporânea, o cavalo só se presta para patrulhamento de grandes distâncias e para reprimir manifestações públicas de estudantes e operários, numa mentalidade de covardia. Mas com algumas bolitas, pregos e bombinhas, você anula essa força. É uma arma completamente inútil. A cavalaria, contemporaneamente, é a arma dos covardes, dos prevalecidos.”
ZH – Recentemente, um grupo de cidadãos da Metade Sul divulgou um documento em favor da independência da Região Sul. Esse imaginário continua contribuindo para o atraso econômico e político do Rio Grande do Sul?
“Sem dúvida. É o revir. Uso a categoria do revir, que é imaginar o presente e o futuro como uma reprodução do passado. São movimentos sociais sem devir.Isso vai levar a tudo isso que presenciamos: imaginar que são melhores, especiais, que fizeram parte de um passado glorioso. O ícone que abre essa plataforma socialmente imagética é o cavalo. Infelizmente, temos uma cultura no Rio Grande do Sul que tomou todos os setores públicos e que nos impede de ter uma força reformadora. Os funcionários públicos em geral, as pessoas que deveriam cuidar da modernização da infraestrutura, são prisioneiros desse mito de uma idade do latifúndio, baseada no cavalo. As soluções desse pessoal são todas tacanhas.”
ZH – O que seria uma solução não tacanha?
“Recuperar a vocação naval do Estado. Temos grandes rios e lagoas, que nos permitiriam ter, com investimento muito menor do que nas estradas, canais de navegação naturais, com eclusas, e artificiais. É baratíssimo frente às rodovias. Os franceses fizeram isso nos séculos 15 e 16, estabelecendo conexões entre o Mar do Norte e o Mediterrâneo a pá e picareta. O Estado não tem sequer uma secretaria que pense estrategicamente o uso das águas. Esses movimentos ficam chafurdando numa espécie de orgulho narcísico e purgam porque o Brasil e mesmo o governo de Porto Alegre não reconhecem sua grandiosa contribuição às fronteiras, à conquista dos territórios.”
ZH – É uma brasilidade envergonhada?
“Quem tem assumido essas bandeiras são indivíduos que vieram tardiamente para o Rio Grande do Sul. Esses movimentos querem ser gauchescos e, ao mesmo tempo, ter uma raiz europeia. Têm uma dupla cidadania simbólica. O que não querem ser é brasileiros. Esse gauchismo, em última instância, é um recurso de lesa-pátria, porque impede uma relação afetiva e concreta com a história brasileira. Ele aponta soluções fora da historicidade, como se nós, brasileiros, fôssemos incapazes de construir uma sociedade com um nível de civilidade superior. É por isso que, geralmente, as pessoas que estão com essas plataformas, quando não são militantes, namoram ideias de racismo e de preconceito. Essa cultura imobiliza e, ao mesmo tempo, impede que se crie uma inserção real com o passado brasileiro do Rio Grande do Sul. Possivelmente, o Rio Grande do Sul seja o Estado mais brasileiro que existe. Do ponto de vista da sua ideia de destino e da sua imaginação como sociedade, está muito vinculado ao povoamento por meio da guerra. Todas as guerras foram alimentadas por militares e recrutas buscados, às vezes com convocações não muito democráticas, em todas as regiões do Brasil.”
ZH – Desde sempre?
“Desde o início. O primeiro sujeito a trabalhar com arreios na vila de Rio Grande era um baiano trazido por Silva Tavares. O charque foi trazido por um cearense. Eram companhias de pernambucanos, baianos, mineiros e, fundamentalmente, paulistas. O Rio Grande do Sul é uma ocupação paulista e mameluca. Todas as formas de relação são muito mamelucas. A própria forma de guerrear é mameluca. Depois, vêm regimentos da Europa — de Moura, de Bragança, de Extremoz, dos Açores. Todos esses homens vão ficando como povoadores, porque recebem terras. Todos os exércitos — inclusive catarinenses, porque Santa Catarina, de certa forma, era paulista no período colonial — vão ficando como povoadores.
(…)
Recebiam terras no que chamamos hoje de zona rural e lotes nas vilas que iriam se formar. Mas o número desses indivíduos do sexo feminino era muito pequeno, quase nulo. A única possibilidade desse pessoal se estabelecer como povoador era se casando, se amasiando ou formando famílias com índias — guaranis, caingangues, choclengues, minuano, charruas. (…) (…) O Rio Grande foi um esforço lusitano e brasileiro, que se concretizou regionalmente com base no ventre indígena. Por isso, depois, vieram milhões de migrantes europeus, e mesmo assim os traços indígenas continuam aí até hoje — basta andar pela Metade Sul. Atualmente, há um fenômeno muito impressionante: migrantes no Planalto e no Alto Uruguai com um número muito significativo de mestiçagem com caingangues. Temos uma região que, do ponto de vista antropológico e social, representa o Brasil e o mundo lusitano. Mas não temos consciência disso, porque temos uma historiografia que não insiste nisso e meios de comunicação que só repetem pastiches e não veem o Rio Grande do Sul como um lugar em que a brasilidade se realizou de fato. É a região mais brasileira porque misturou o Brasil no povoamento das guerras de fronteira mantidas por paulistas, mineiros, baianos, pernambucanos. Esse processo durou dois séculos no Rio Grande do Sul. Invariavelmente, os que agenciam esse preconceito, essa ideia de um Rio Grande do Sul especial, estão assassinando mais uma vez os seus avós.”
ZH – Qual é o peso do africano nesse contexto?
“O africano é uma parte fundamental dos exércitos desde sempre. O exército luso-brasileiro que veio para a Guerra Guaranítica de 1752-1753 tinha em torno de 15% a 20% de negros, como escravos, e tinha uma vanguarda de mamelucos de 200 pessoas. A representação dentro do exército lusitano era expressiva. O próprio militar regular invariavelmente era mestiço. Muitos eram oficiais ou suboficiais. A marinharia era majoritariamente negra. Se a gente pegar a Guerra de 1776, a retomada dos fortes e da Vila de Rio Grande, que eram o núcleo principal da posse espanhola, foi feita sem nenhum cavalo. O que se usou para infiltrar os granadeiros atrás dos fortes foi um pelotão de jangadeiros pernambucanos. Criaram um estaleiro de jangadas em Rio Grande e, durante a madrugada, colocaram 200 granadeiros atrás das tropas inimigas. Não se usou nenhum cavalo.”
(…)
“(…) É preciso imaginar uma República de um ponto de vista radical, com ideias republicanas, laica, mas fundamentalmente presidida pela noção de alteridade. Isso tem de ser equalizado num patamar superior. No Rio Grande do Sul, temos setores da máquina pública e do Estado que só podem ser ocupados por algumas áreas. Temos uma série de departamentos e secretarias que só podem ser ocupados por tradicionalistas. As prefeituras alimentam esse tipo de imaginário latifundiário, da estância, entre coitados e miseráveis a cultura de gente entronizada no lombo de um cavalo. São coisas tão elementares, e isso é levado a uma cultura de massa que estabelece uma perspectiva pouco otimista sobre o Brasil. E temos a grande novidade na sociedade brasileira, que apareceu na penúltima eleição, que é o ódio religioso. O ódio religioso é um componente desesperador para imaginar o futuro brasileiro. São coisas do século 18 ou até do período medieval, e estão conduzindo os destinos de grandes populações.”
(…)
“(…) As conquistas econômicas e sociais precisam ser garantidas por um nível cultural e de uma leitura da sociedade. Outra maldição brasileira é o populismo de direita, de centro e de esquerda. Tivemos avanços na área indígena, mas esse ainda é o setor mais penalizado no Brasil. Os indígenas fazem um esforço extraordinário para assumir a possibilidade de serem sujeitos de sua história. As forças conservadoras não querem reconhecer a história indígena e sua diferença. Talvez o maior crime político do PT tenha sido a ineficiência e a falta de cuidado de suas políticas indígenas. Ficou no assistencialismo e não enfrentou, ao contrário de alguns ministros do Supremo Tribunal. Não só o governo central, mas governos estaduais como o do Rio Grande do Sul. Aqui, o governo se prestou a uma emboscada contra as representações indígenas. Por quê? Porque ainda tem uma ideia da política como luta de classe, onde o militante do partido tem a prerrogativa de estabelecer os destinos da nação. É o refugo menor dessa política do estamento: ocupa o Estado com especialistas, com a cúpula partidária, e assim determina o destino da população como se fosse reflexo da política do partido.”
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Eleição municipal “sui generis”

Por Miguel Dias Pinheiro*
Caminhamos para uma eleição municipal “sui generis” no Brasil, sem que o empresário, banqueiro ou qualquer outro investidor possa contribuir abusivamente para com a classe política. Até de forma fraudulenta, como ficou apurado nos diversos e tenebrosos escândalos econômicos e políticos recentes.
As questões mais afetadas serão, sem dúvida, o marketing político e o financiamento para a campanha, no sentido de evitar que a intervenção privada possa alterar sobremaneira o quadro eleitoral. O marketing, por exemplo, que sempre teve o condão de “camuflar” a real intenção de voto, visando assegurar maior visibilidade para diferenciar um determinado candidato de outro, sofrerá um forte baque. Com a proibição do financiamento por empresas, as dificuldades serão enormes para, inclusive, divulgar e harmonizar a imagem pública.
Sem a participação direta do empresário com um financiamento duvidoso, propaganda política, propaganda eleitoral, publicidade política, publicidade eleitoral, propaganda ideológica de opinião pública ou de imagem pública poderão alterar o processo na hora de “vender” ao eleitor uma “onda eleitoral” fantasiosa, ilusória, que costumeiramente influiu na hora da escolha na urna.
Até a última eleição de 2014, o financiamento por empresas fez uma enorme diferença entre o político, a população e o eleitor. Enfim, o poder econômico com o grande diferencial. O candidato a prefeito, por exemplo, que acreditar apenas na força do dinheiro poderá acabar ficando no vazio e, por certo, malogrando eleitoralmente.
Em tese, se vamos ter ou não a primeira campanha eleitoral sustentada no empirismo dos princípios e na divulgação de valores dos candidatos, só o tempo poderá nos provar. Mas, que teremos uma eleição municipal peculiar, não há a menor dúvida.
Será um teste de fogo, sobretudo para a Justiça Eleitoral e para Receita Federal, que se desdobrarão na investigação ao “caixa 2” e ao “caixa oculto” das campanhas. Em uma democracia digna, o direito de concorrer a um cargo seria possível para todos os cidadãos, uma vez que, presumivelmente, todos teriam meios suficientes de apoio pessoal durante a campanha.
Ao proibir a doação de empresas para campanhas eleitorais, o Supremo Tribunal Federal (STF) levou em consideração que a proibição levará maior igualdade na disputa. “Chegamos a um quadro absolutamente caótico, em que o poder econômico captura de maneira ilícita o poder político”, afirmou o ministro Luiz Fux.
“A influência do poder econômico culmina por transformar o processo eleitoral em jogo político de cartas marcadas, odiosa pantomima que faz do eleitor um fantoche, esboroando a um só tempo a cidadania, a democracia e a soberania popular”, asseverou a ministra Rosa Weber.
“Há uma influência que eu considero contrária à Constituição, é essa influência que desiguala não apenas os candidatos, mas desiguala até dentro dos partidos. Aquele que detém maior soma de recursos, é aquele que tem melhores contatos com empresas e representa esses interesses, e não o interesse de todo o povo, que seria o interesse legitimo”, arrematou a ministra Carmem Lúcia.
Sem dúvida, teremos uma eleição municipal singular no Brasil. Com a proibição do financiamento por empresas, o Brasil seguiu o modelo adotado na França em 1995, instituindo um teto para os gastos de campanha que varia de acordo com o tipo de eleição, visando, portanto, um controle maior sobre as contas da campanha, reduzindo custos e evitando certas práticas e excessos.
Em passado bem recente, a empresa financiava um candidato “na moda” (com chances para vencer) e que estivesse bem alinhado com as “necessidades políticas da empresa”. Isso acabou. Ou pelo menos se tenta acabar na próxima eleição municipal. E nas vindouras, acreditamos.
Em pequena ou larga escala, 118 país proíbem o financiamento por empresa. Em alguns deles, como México, Colômbia, Itália e Espanha, o financiamento público chega a representar mais de 80% dos gastos das campanhas. O objetivo de proibir o financiamento por empresas é contrabalancear – ou até mesmo anular – a influência do poder econômico nas eleições.
Os empresários, sequiosos por tirar proveito nos “conchavos políticos”, ao longo do tempo desvirtuaram a democracia brasileira por influenciar nas eleições. Infelizmente, uma constatação! “Para nós, o financiamento privado é a base da corrupção. Empresas de diversos setores financiam os políticos e depois cobram seus interesses. Isso é totalmente antidemocrático porque o voto da empresa passa a valer mais que o do eleitor”, afirma Paola Estrada, uma das coordenadoras dos movimentos sociais no Brasil.
Uma coisa é certa: será uma campanha eleitoral bem mais barata do que no passado. Porém, muito prejudicial para quem pretende concorrer fora do poder municipal, porque ficarão restringidas as chances na arrecadação da campanha.
*Advogado – Artigo publicado em 26 de dezembro de 2015 no Portal AZ
