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Arquivo anual: 2017

“Ficar em silêncio e caminhar são hoje em dia duas formas de resistência política”

“Uma atividade cultural teria de estar encaminhada para que cada um se encontrasse consigo mesmo, se reconhecesse em seu interior e iniciasse um diálogo íntimo sem sair de si, valendo-se dos instrumentos que a cultura deveria pôr ao seu alcance. Contudo, em vez disso, temos uma cultura que é cada vez mais de massas e menos de pessoas, na qual é impossível se reconhecer. Também é importante opor resistência às formas invasivas da cultura que permeiam o silêncio.”

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David Le Breton, sociólogo

David Le Breton (Le Mans, 1953) na última terça-feira, 17 de outubro, em Málaga, durante a entrevista / Foto de Javier Albiñana

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O pensador francês, autor de livros como El silencio e Elogio del caminar, descreve o seu ideário nesta entrevista concedida ao Grupo Joly, antes de pronunciar uma conferência em La Térmica.

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Por Pablo Bujalance
Málaga, 19 de outubro de 2017
[artigo publicado originalmente no ‘Diario de Sevilla’]

Doutor em Sociologia pela Universidade Paris VII e professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Ciências Humanas Marc Bloch, de Estrasburgo, o pensador francês David Le Breton (Le Mans, 1953) encarna como poucos de seus contemporâneos a melhor tradição intelectual de seu país. Na Espanha, publicou com êxito livros como El silencio, Elogio del caminar e Desaparecer de sí: una tentación contemporánea, com os quais aposta em…

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Žižek: A lição da vitória de Corbyn

“Infelizmente, o espaço público esquerdista-liberal está também cada vez mais dominado pelas regras da “cultura de twitter”: saturado de sacadas curtas, réplicas pontuais, comentários sarcásticos ou indignados, mas com cada vez menos espaço para as etapas múltiplas de uma linha de argumentação mais substancial. Reage-se a meros recortes de um texto (uma passagem, uma frase, ou às vezes nem isso). A postura que sustenta essas respostas de cunho de “tweet” agrega um certo farisaísmo dono da verdade, um moralismo politicamente correto e um sarcasmo brutal: assim que qualquer coisa soar problemática, ela é imediatamente detectada provocando uma resposta automática, geralmente um lugar comum do glossário politicamente correto”

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PorSlavoj Žižek.

O inesperado sucesso de Jeremy Corbyn e do Labour Party nas urnas inglesas deixou vermelha de vergonha a sabedoria cínica predominante entre os pretensos especialistas políticos. Até mesmo aqueles que se diziam simpatizar com Corbyn, mas que se esquivavam com a desculpa de que “Sim, eu votaria nele, mas a realidade é que ele é inelegível, o povo está muito manipulado e amedrontado, o momento ainda não é ideal para um lance tão radical.”

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Análise da Música Brasileira – Parte 1

Do autor: “O que eu fiz aqui foi um breve estudo que analisa toda a produção musical brasileira levando em consideração dois aspectos centrais: os acordes utilizados nas composições e o vocabulário presente nas letras. Os indicadores que caracterizam cada um desses aspectos permitirão não apenas perceber as características pertinentes a cada artista e gênero isoladamente, como também encontrar similaridades entre eles, permitindo a criação de agrupamentos talvez inimagináveis. Ao final de tudo, será possível compor um ranking de artistas, de acordo com a complexidade de sua produção musical (não falo em qualidade das músicas pois haveria necessariamente uma conotação subjetiva).”

Avatar de leonardojs1981Um Novato em Ciência de Dados

Veja o gráfico abaixo. É a distribuição dos gêneros musicais brasileiros considerando apenas 2 medidas: a quantidade de acordes distintos utilizados nas composições (eixo horizontal) e a quantidade de palavras distintas utilizadas nas letras (eixo vertical).

bolhas_generosCom apenas essas duas medidas, fica bastante nítido como os alguns gêneros se posicionam de maneira isolada em relação aos outros. Enquanto o Rap/Hip Hop destaca-se ao mesmo tempo pela alta quantidade de palavras e pelo baixo número de acordes, a Bossa Nova tem um alto número de acordes e uma quantidade mediana de palavras. Já a MPB apresenta altos índices em ambas as medidas. Outros gêneros se aglomeram perto da origem do eixo, como o Funk, o Axé Music, o Reggae e o Infantil.

O que informações como a diversidade dos acordes (saiba o que é isso) ou o tamanho do vocabulário utilizado têm a nos dizer sobre…

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CARNAVAL EM PLENO MÊS DE MAIO | Comunidade do samba choca conservadores de São Leopoldo (RS) ao mostrar que a resistência cultural popular acontece durante o ano inteiro

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Por Henri Figueiredo*

Na noite de sábado, 20 de maio, e por toda a madrugada de domingo, 21, uma grande parcela da comunidade conservadora de São Leopoldo (RS) ficou escandalizada: o povo da periferia tomara uma das principais avenidas centrais da cidade para festejar o seu carnaval a um mês das festas juninas. A reação nas redes sociais foi agressiva e misturou xingamentos, racismo explícito, eugenia cultural, imprecações contra o governo municipal, reclamações pelo “ruído” e pela “sujeira” dos que ousaram ocupar o espaço público para celebrar o orgulho e a beleza de ser brasileiro.

A escalada do ódio, da intolerância e da ignorância fascista na sociedade brasileira do século XXI encontra nas redes sociais seu painel mais aterrador. A ameaçadora “legião de imbecis”, nas palavras de Umberto Eco, comenta nas redes sociais pintada para a guerra e pregando o extermínio de “tudo o que não presta”. Essa mesma turba ignara que, apesar de assalariada, pensa e age como os patrões, só saiu às ruas nas últimas décadas para ajudar a dar (mais um) golpe de Estado. São os que preferem a assepsia, as marcas estrangeiras e o ar refrigerado dos shoppings centers – o templo contemporâneo de Mamon, o deus do mercado.

Na bolha em que vivem os conservadores protofascistas, povo pobre e preto (ou quase) tem que é que ficar contido em guetos na periferia – as ruas das “áreas nobres” da cidade seriam para os “cidadãos de bem”. Mesmo que não tenham “bens”, como a maioria. Se o povo, então, resolve fazer festa, aí torna-se intolerável.

RESISTÊNCIA CULTURAL

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Desde 2013, São Leopoldo não via uma noite de carnaval de escolas de samba como a que aconteceu este ano – e aquele foi último ano do plano plurianual do governo anterior do PT (2005-2012), em que se cumpria uma lei municipal de investimento na festa popular e, portanto, havia orçamento para o evento. Durante o governo tucano e peemedebista de 2013-2016, o carnaval foi tratado como uma excentricidade que deveria ser contida e regulada, até ser extinta. Aliás, não só a cultura popular, mas a cultura em si. Sem diálogo, sem investimento e sem vontade política, a Secretaria de Cultura esteve em vias de ser extinta – o que só não ocorreu, em 2015, devido à mobilização da comunidade artística da cidade.

Poucos lembram mas, a partir de 2006, o carnaval de São Leopoldo tinha transmissão ao vivo pela TV Unisinos, em UHF, e ganhou, inclusive, um especial no Futura, canal por assinatura da Fundação Roberto Marinho – que mantinha parceria com a emissora dos jesuítas, hoje já desativada. Nos anos seguintes, a festa foi considerada um dos principais carnavais do interior do Rio Grande do Sul – até perder o apoio do poder público, a partir de 2013. Também por isso, é simbólica a retomada do carnaval leopoldense. Mostra que a resistência cultural popular acontece durante o ano inteiro e não apenas na efeméride entre fevereiro e março. A comunidade carnavalesca vive a cultura do samba, ainda que para os estratos médios (e brancos) a festa esteja vinculada ao primeiro feriadão do calendário.

De acordo com os organizadores, entre 3,5 mil e 5 mil pessoas participaram do carnaval de São Leopoldo, na noite de sábado, 20, e madrugada de domingo, 21 de maio – mesmo debaixo da chuva intensa que começou por volta das 23h30min. Sete escolas de samba, de todas as regiões da cidade, competiram e a campeã foi a Império do Sol, do bairro São Miguel. [Saiba detalhes aqui].  Dada a grave situação financeira do município, a Prefeitura de São Leopoldo não pagou cachês nem fez repasse financeiro ao carnaval. A Associação das Entidades Culturais, Recreativas e Carnavalescas de São Leopoldo (AECRCSL) aprovou um projeto no Ministério da Cultura, através da Lei Rouanet, e captou R$ 55 mil reais em incentivo fiscal e R$ 30 mil em patrocínio direto de duas empresas privadas. A Prefeitura deu suporte na infraestrutura, limpeza e segurança do evento.

A SOMBRA DO ÓDIO E O ORGULHO DE SER IGNORANTE

São Leopoldo carrega o título oficial de “Berço da Colonização Alemã no Brasil”. Quando, em 1824, chegaram as primeiras levas de imigrantes, no entanto, eles foram acolhidos na antiga Feitoria do Linho Cânhamo, uma fazenda portuguesa com mão de obra de negros escravizados – antes ainda a região do Vale do Rio dos Sinos era território das etnias indígenas Kaingang e Guarani. Erram, portanto, os que acreditam que foram os germânicos os primeiros habitantes desta terra e que o “carnaval não é nossa cultura”. Eis a mentalidade de colonizado introjetada na percepção de realidade dos descendentes dos colonizadores.

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Durante uma breve manifestação na abertura dos desfiles, o prefeito de São Leopoldo Ary Vanazzi (PT) comentou que o público que ele encontrou nas arquibancadas era o povo dos bairros periféricos da cidade – bastava uma passar de olhos para perceber a predominância de negros e miscigenados. “A cidade é de todos e de todas as raças”, disse o prefeito. Quando as manifestações de ódio começaram a pipocar nas redes sociais, o secretário de Cultura, Ismael Mendonça, contextualizou: “Temos que entender que o pessoal precisa se manifestar nas suas bolhas ideológicas na internet; nós nos manifestamos nas ruas, como nessa festa”.

A radicalidade das manifestações de ódio, nas redes, contudo, se estendeu como uma sombra virtual sobre São Leopoldo. “E os PM que deveriam estar nas ruas cuidando da segurança da cidade. Estão aí participando da bagaça”, registrou uma internauta no Facebook oficial da Prefeitura de São Leopoldo. Se não houvesse segurança, com certeza, a reclamação seria essa. Um dos clichês dos comentaristas de internet é: “Não tenho nada contra, MAS…” Encontram-se às dezenas comentários com essa construção primária entre os que odeiam o carnaval, os negros, os gays, os sindicalistas, a Esquerda, o PT, ou seja, “tudo o que não presta”. Aliás, outro internauta comentou que estavam distribuindo “pão com mortadela” na festa – a direita hidrófoba não é nada original nas suas observações.

Outros, tentando parecer mais elaborados, sem perceber que estavam reproduzindo uma grande bobagem, criticavam o investimento no carnaval ao passo em que saúde, segurança e educação estão precárias. Esta é, inclusive, uma das maiores falácias dos adversários da cultura – de que o investimento na área retiraria verbas de outros setores essenciais do atendimento à população. Não basta explicar as leis orçamentárias; não basta noticiar que a Prefeitura não transferiu verba (ainda que isso seja lei municipal); não basta ser transparente. Não basta informar, é preciso entender que os comentaristas de redes sociais têm orgulho da própria ignorância. Nenhum argumento, por melhor que seja, pode aplacar o rancor, a frustração, a solidão, a tristeza e a náusea dos que vomitam seus preconceitos nas redes sociais.

Na página de Facebook do Jornal VS, o principal jornal comercial da cidade, um comentário de um cidadão com sobrenome alemão dizia: “Não foi usado dinheiro público, mas e aquele monte de policial e guardas municipais que estavam lá ao invés de estar nos bairros fazendo a segurança??? Quem vai pagar??? E os garis que tiveram que limpar o chiqueiro que fica pra traz??? Quem paga??? Bela porcaria!!! Somos uma cidade colonizada por alemães nossa cultura não é carnaval!!! Além de tudo somos gaúchos não cariocas!!!”. Além da ênfase exagerada na pontuação, este comentário escancara a mentalidade burguesa xenófoba – o povo da festa (e, inclusive, os moradores do entorno da festa, no Centro) não mereceria segurança pública, já que “os policiais deveriam estar nos bairros”. “Quem vai pagar” é o discurso clássico dos que gostam de privatizar a segurança pública e acham que a Brigada Militar e a Guarda Civil só devem vigiar seu próprio patrimônio. “Os garis que tiveram que limpar o chiqueiro” mostra a visão que o tal cidadão tem do povo pobre: porcos. E, finaliza, com uma pérola da xenofobia arcaica: “Somos uma cidade colonizada por alemães nossa cultura não é carnaval!”. Quase consegui vê-lo gritando, entre perdigotos, um “Sieg Heil”, braço estendido, mão rígida, rosto crispado. A turma dos bolsominions aplaude de pé tamanha babaquice.

NA AVENIDA: ALEGRIA, TOLERÂNCIA E CONSCIÊNCIA POLÍTICA

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Na mistura de raças que aconteceu na avenida Dom João Becker, entre sábado e domingo, grande parte debaixo de chuva, os surdos das baterias ritmavam como o grande coração do povo trabalhador. Os intérpretes das sete escolas cantaram a tolerância e a miscigenação, mas também a luta contra as injustiças. Entre a honra das porta-bandeiras e dos mestres-salas e a sensualidade das passistas, alas mostraram a alegria de ser do Brasil e as mazelas de ser brasileiro; denunciaram a violência contra mulher; e exigiram demarcação de terras indígenas. Mesmo debaixo de um temporal intenso, a certa altura da madrugada, os sambistas enfrentaram o asfalto alagado e o frio para desfilar o melhor do povo – a beleza da resistência cultural genuína diante da epidemia das mentes colonizadas.

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*Henri Figueiredo é leopoldense nato e tem sangue índio, italiano e português (e, por isso, provavelmente também tem genes africanos).

FOTOS: CHARLES DIAS | DECOM | PMSL