Tau Golin: o Rio Grande se concretizou no ventre indígena

TAU GOLIN – Foto: UFRGS
“Meios de comunicação que só repetem pastiches e não veem o Rio Grande do Sul como um lugar em que a brasilidade se realizou de fato. É a região mais brasileira porque misturou o Brasil no povoamento das guerras de fronteira mantidas por paulistas, mineiros, baianos, pernambucanos.”
Em extraordinária entrevista concedida ao jornalista Luiz Antônio Araujo, do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, o historiador Tau Golin desmonta, mais uma vez, os mitos da formação do povo gaúcho ao tratar das etnias que se miscigenaram no RS; faz uma elaborada crítica ao patrimonialismo (nos termos de Faoro); discute em altíssimo nível alguns dos problemas do PT e dos movimentos sociais; e considera o redivivo ódio religioso no Brasil como uma volta ao século XVIII. Em resumo, trata de temas bem mais candentes do que cavalos e cavalaria. [Henri Figueiredo]
Alguns trechos:
“Não existiria Rio Grande do Sul sem navegação. Ela forneceu uma plataforma de ocupação, de povoamento e de movimentação na guerra. Do ponto de vista geopolítico, o Rio Grande é uma realização da navegação. Depois da navegação, houve o uso das armas da navegação em terra, que são a artilharia e a infantaria. A cavalaria sempre foi, na história do Rio Grande do Sul, uma arma auxiliar.”
“(…) Os farrapos perderam em função do cavalo. Em 1893, os maragatos nem chegaram a ameaçar o governo do Partido Republicano Rio-grandense (PRR). Usavam cavalos de campo, imprestáveis para a guerra, sem resistência. O cavalo militar é diferente, preparado para a guerra, a começar pela alimentação. Esse cavalo a campo não tem resistência. Precisa de muita peonada para levá-lo para o pasto. Não tem precisão na guerra. Tanto é que a cavalaria maragata geralmente era enfrentada pela Brigada Militar com formações antiquíssimas, como o quadrado romano, que vem da Antiguidade — a diferença era que usavam armas de fogo em vez de flechas e lanças. Na história contemporânea, o cavalo só se presta para patrulhamento de grandes distâncias e para reprimir manifestações públicas de estudantes e operários, numa mentalidade de covardia. Mas com algumas bolitas, pregos e bombinhas, você anula essa força. É uma arma completamente inútil. A cavalaria, contemporaneamente, é a arma dos covardes, dos prevalecidos.”
ZH – Recentemente, um grupo de cidadãos da Metade Sul divulgou um documento em favor da independência da Região Sul. Esse imaginário continua contribuindo para o atraso econômico e político do Rio Grande do Sul?
“Sem dúvida. É o revir. Uso a categoria do revir, que é imaginar o presente e o futuro como uma reprodução do passado. São movimentos sociais sem devir.Isso vai levar a tudo isso que presenciamos: imaginar que são melhores, especiais, que fizeram parte de um passado glorioso. O ícone que abre essa plataforma socialmente imagética é o cavalo. Infelizmente, temos uma cultura no Rio Grande do Sul que tomou todos os setores públicos e que nos impede de ter uma força reformadora. Os funcionários públicos em geral, as pessoas que deveriam cuidar da modernização da infraestrutura, são prisioneiros desse mito de uma idade do latifúndio, baseada no cavalo. As soluções desse pessoal são todas tacanhas.”
ZH – O que seria uma solução não tacanha?
“Recuperar a vocação naval do Estado. Temos grandes rios e lagoas, que nos permitiriam ter, com investimento muito menor do que nas estradas, canais de navegação naturais, com eclusas, e artificiais. É baratíssimo frente às rodovias. Os franceses fizeram isso nos séculos 15 e 16, estabelecendo conexões entre o Mar do Norte e o Mediterrâneo a pá e picareta. O Estado não tem sequer uma secretaria que pense estrategicamente o uso das águas. Esses movimentos ficam chafurdando numa espécie de orgulho narcísico e purgam porque o Brasil e mesmo o governo de Porto Alegre não reconhecem sua grandiosa contribuição às fronteiras, à conquista dos territórios.”
ZH – É uma brasilidade envergonhada?
“Quem tem assumido essas bandeiras são indivíduos que vieram tardiamente para o Rio Grande do Sul. Esses movimentos querem ser gauchescos e, ao mesmo tempo, ter uma raiz europeia. Têm uma dupla cidadania simbólica. O que não querem ser é brasileiros. Esse gauchismo, em última instância, é um recurso de lesa-pátria, porque impede uma relação afetiva e concreta com a história brasileira. Ele aponta soluções fora da historicidade, como se nós, brasileiros, fôssemos incapazes de construir uma sociedade com um nível de civilidade superior. É por isso que, geralmente, as pessoas que estão com essas plataformas, quando não são militantes, namoram ideias de racismo e de preconceito. Essa cultura imobiliza e, ao mesmo tempo, impede que se crie uma inserção real com o passado brasileiro do Rio Grande do Sul. Possivelmente, o Rio Grande do Sul seja o Estado mais brasileiro que existe. Do ponto de vista da sua ideia de destino e da sua imaginação como sociedade, está muito vinculado ao povoamento por meio da guerra. Todas as guerras foram alimentadas por militares e recrutas buscados, às vezes com convocações não muito democráticas, em todas as regiões do Brasil.”
ZH – Desde sempre?
“Desde o início. O primeiro sujeito a trabalhar com arreios na vila de Rio Grande era um baiano trazido por Silva Tavares. O charque foi trazido por um cearense. Eram companhias de pernambucanos, baianos, mineiros e, fundamentalmente, paulistas. O Rio Grande do Sul é uma ocupação paulista e mameluca. Todas as formas de relação são muito mamelucas. A própria forma de guerrear é mameluca. Depois, vêm regimentos da Europa — de Moura, de Bragança, de Extremoz, dos Açores. Todos esses homens vão ficando como povoadores, porque recebem terras. Todos os exércitos — inclusive catarinenses, porque Santa Catarina, de certa forma, era paulista no período colonial — vão ficando como povoadores.
(…)
Recebiam terras no que chamamos hoje de zona rural e lotes nas vilas que iriam se formar. Mas o número desses indivíduos do sexo feminino era muito pequeno, quase nulo. A única possibilidade desse pessoal se estabelecer como povoador era se casando, se amasiando ou formando famílias com índias — guaranis, caingangues, choclengues, minuano, charruas. (…) (…) O Rio Grande foi um esforço lusitano e brasileiro, que se concretizou regionalmente com base no ventre indígena. Por isso, depois, vieram milhões de migrantes europeus, e mesmo assim os traços indígenas continuam aí até hoje — basta andar pela Metade Sul. Atualmente, há um fenômeno muito impressionante: migrantes no Planalto e no Alto Uruguai com um número muito significativo de mestiçagem com caingangues. Temos uma região que, do ponto de vista antropológico e social, representa o Brasil e o mundo lusitano. Mas não temos consciência disso, porque temos uma historiografia que não insiste nisso e meios de comunicação que só repetem pastiches e não veem o Rio Grande do Sul como um lugar em que a brasilidade se realizou de fato. É a região mais brasileira porque misturou o Brasil no povoamento das guerras de fronteira mantidas por paulistas, mineiros, baianos, pernambucanos. Esse processo durou dois séculos no Rio Grande do Sul. Invariavelmente, os que agenciam esse preconceito, essa ideia de um Rio Grande do Sul especial, estão assassinando mais uma vez os seus avós.”
ZH – Qual é o peso do africano nesse contexto?
“O africano é uma parte fundamental dos exércitos desde sempre. O exército luso-brasileiro que veio para a Guerra Guaranítica de 1752-1753 tinha em torno de 15% a 20% de negros, como escravos, e tinha uma vanguarda de mamelucos de 200 pessoas. A representação dentro do exército lusitano era expressiva. O próprio militar regular invariavelmente era mestiço. Muitos eram oficiais ou suboficiais. A marinharia era majoritariamente negra. Se a gente pegar a Guerra de 1776, a retomada dos fortes e da Vila de Rio Grande, que eram o núcleo principal da posse espanhola, foi feita sem nenhum cavalo. O que se usou para infiltrar os granadeiros atrás dos fortes foi um pelotão de jangadeiros pernambucanos. Criaram um estaleiro de jangadas em Rio Grande e, durante a madrugada, colocaram 200 granadeiros atrás das tropas inimigas. Não se usou nenhum cavalo.”
(…)
“(…) É preciso imaginar uma República de um ponto de vista radical, com ideias republicanas, laica, mas fundamentalmente presidida pela noção de alteridade. Isso tem de ser equalizado num patamar superior. No Rio Grande do Sul, temos setores da máquina pública e do Estado que só podem ser ocupados por algumas áreas. Temos uma série de departamentos e secretarias que só podem ser ocupados por tradicionalistas. As prefeituras alimentam esse tipo de imaginário latifundiário, da estância, entre coitados e miseráveis a cultura de gente entronizada no lombo de um cavalo. São coisas tão elementares, e isso é levado a uma cultura de massa que estabelece uma perspectiva pouco otimista sobre o Brasil. E temos a grande novidade na sociedade brasileira, que apareceu na penúltima eleição, que é o ódio religioso. O ódio religioso é um componente desesperador para imaginar o futuro brasileiro. São coisas do século 18 ou até do período medieval, e estão conduzindo os destinos de grandes populações.”
(…)
“(…) As conquistas econômicas e sociais precisam ser garantidas por um nível cultural e de uma leitura da sociedade. Outra maldição brasileira é o populismo de direita, de centro e de esquerda. Tivemos avanços na área indígena, mas esse ainda é o setor mais penalizado no Brasil. Os indígenas fazem um esforço extraordinário para assumir a possibilidade de serem sujeitos de sua história. As forças conservadoras não querem reconhecer a história indígena e sua diferença. Talvez o maior crime político do PT tenha sido a ineficiência e a falta de cuidado de suas políticas indígenas. Ficou no assistencialismo e não enfrentou, ao contrário de alguns ministros do Supremo Tribunal. Não só o governo central, mas governos estaduais como o do Rio Grande do Sul. Aqui, o governo se prestou a uma emboscada contra as representações indígenas. Por quê? Porque ainda tem uma ideia da política como luta de classe, onde o militante do partido tem a prerrogativa de estabelecer os destinos da nação. É o refugo menor dessa política do estamento: ocupa o Estado com especialistas, com a cúpula partidária, e assim determina o destino da população como se fosse reflexo da política do partido.”
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Eleição municipal “sui generis”

Por Miguel Dias Pinheiro*
Caminhamos para uma eleição municipal “sui generis” no Brasil, sem que o empresário, banqueiro ou qualquer outro investidor possa contribuir abusivamente para com a classe política. Até de forma fraudulenta, como ficou apurado nos diversos e tenebrosos escândalos econômicos e políticos recentes.
As questões mais afetadas serão, sem dúvida, o marketing político e o financiamento para a campanha, no sentido de evitar que a intervenção privada possa alterar sobremaneira o quadro eleitoral. O marketing, por exemplo, que sempre teve o condão de “camuflar” a real intenção de voto, visando assegurar maior visibilidade para diferenciar um determinado candidato de outro, sofrerá um forte baque. Com a proibição do financiamento por empresas, as dificuldades serão enormes para, inclusive, divulgar e harmonizar a imagem pública.
Sem a participação direta do empresário com um financiamento duvidoso, propaganda política, propaganda eleitoral, publicidade política, publicidade eleitoral, propaganda ideológica de opinião pública ou de imagem pública poderão alterar o processo na hora de “vender” ao eleitor uma “onda eleitoral” fantasiosa, ilusória, que costumeiramente influiu na hora da escolha na urna.
Até a última eleição de 2014, o financiamento por empresas fez uma enorme diferença entre o político, a população e o eleitor. Enfim, o poder econômico com o grande diferencial. O candidato a prefeito, por exemplo, que acreditar apenas na força do dinheiro poderá acabar ficando no vazio e, por certo, malogrando eleitoralmente.
Em tese, se vamos ter ou não a primeira campanha eleitoral sustentada no empirismo dos princípios e na divulgação de valores dos candidatos, só o tempo poderá nos provar. Mas, que teremos uma eleição municipal peculiar, não há a menor dúvida.
Será um teste de fogo, sobretudo para a Justiça Eleitoral e para Receita Federal, que se desdobrarão na investigação ao “caixa 2” e ao “caixa oculto” das campanhas. Em uma democracia digna, o direito de concorrer a um cargo seria possível para todos os cidadãos, uma vez que, presumivelmente, todos teriam meios suficientes de apoio pessoal durante a campanha.
Ao proibir a doação de empresas para campanhas eleitorais, o Supremo Tribunal Federal (STF) levou em consideração que a proibição levará maior igualdade na disputa. “Chegamos a um quadro absolutamente caótico, em que o poder econômico captura de maneira ilícita o poder político”, afirmou o ministro Luiz Fux.
“A influência do poder econômico culmina por transformar o processo eleitoral em jogo político de cartas marcadas, odiosa pantomima que faz do eleitor um fantoche, esboroando a um só tempo a cidadania, a democracia e a soberania popular”, asseverou a ministra Rosa Weber.
“Há uma influência que eu considero contrária à Constituição, é essa influência que desiguala não apenas os candidatos, mas desiguala até dentro dos partidos. Aquele que detém maior soma de recursos, é aquele que tem melhores contatos com empresas e representa esses interesses, e não o interesse de todo o povo, que seria o interesse legitimo”, arrematou a ministra Carmem Lúcia.
Sem dúvida, teremos uma eleição municipal singular no Brasil. Com a proibição do financiamento por empresas, o Brasil seguiu o modelo adotado na França em 1995, instituindo um teto para os gastos de campanha que varia de acordo com o tipo de eleição, visando, portanto, um controle maior sobre as contas da campanha, reduzindo custos e evitando certas práticas e excessos.
Em passado bem recente, a empresa financiava um candidato “na moda” (com chances para vencer) e que estivesse bem alinhado com as “necessidades políticas da empresa”. Isso acabou. Ou pelo menos se tenta acabar na próxima eleição municipal. E nas vindouras, acreditamos.
Em pequena ou larga escala, 118 país proíbem o financiamento por empresa. Em alguns deles, como México, Colômbia, Itália e Espanha, o financiamento público chega a representar mais de 80% dos gastos das campanhas. O objetivo de proibir o financiamento por empresas é contrabalancear – ou até mesmo anular – a influência do poder econômico nas eleições.
Os empresários, sequiosos por tirar proveito nos “conchavos políticos”, ao longo do tempo desvirtuaram a democracia brasileira por influenciar nas eleições. Infelizmente, uma constatação! “Para nós, o financiamento privado é a base da corrupção. Empresas de diversos setores financiam os políticos e depois cobram seus interesses. Isso é totalmente antidemocrático porque o voto da empresa passa a valer mais que o do eleitor”, afirma Paola Estrada, uma das coordenadoras dos movimentos sociais no Brasil.
Uma coisa é certa: será uma campanha eleitoral bem mais barata do que no passado. Porém, muito prejudicial para quem pretende concorrer fora do poder municipal, porque ficarão restringidas as chances na arrecadação da campanha.
*Advogado – Artigo publicado em 26 de dezembro de 2015 no Portal AZ
Luiz Carlos Maciel e Bernie Sanders: almas gêmeas

Quando cheguei ao Rio de Janeiro pela primeira vez, saído da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, me deslumbrei. Porque era só arrebatamento amoroso por uma mulher e, talvez principalmente, porque o Rio foi um caso de amor ao primeiro raio de sol. O amor da mulher foi infinito enquanto durou mas o enlevo pela cidade desafia até hoje a inexorabilidade do verso de Vinicius. Li certa vez uma suposta resposta do Mario Quintana, mais provinciano do que eu (e talvez por isso, como escreveu Tolstoi, universal), definindo o que mais gostava do Rio: “Os túneis. Neles, eu descanso da paisagem”.
Nessa cidade solar, fui perdendo, aos poucos, o cheiro de churrasco – sem me desprender da identidade mas aprendendo, aos poucos, refiná-la. Mesmo o mais simplório dos cariocas guarda nos modos alguma mesura da Corte. Ao contrário da gente fronteiriça acostumada a rangir ao menor sinal de contrariedade. Somos forjados na desconfiança e temos o espírito do sentinela. O Rio me amaciou o coração ao passo que minhas raízes se aprofundavam na distância – talvez para que eu me mantivesse firme nos propósitos. Virei um cariúcho, com um orgulho sereno. (Se é sereno, ainda é orgulho?)
Em 1994, no início dos meus 20 anos, conheci Luiz Carlos Maciel numa loja de discos raros numa galeria do Leblon, onde trabalha entre vinis que serviram pra mim como um intensivo da história da melhor música contemporânea. Vivia, alguns anos antes, história parecida com a narrada no filme “High Fidelity” (2000) de Stephen Frears.
Naquela loja do Leblon, que pertencia a um compositor baiano que também era produtor musical, conheci pessoalmente Luiz Carlos Maciel: até hoje aclamado e reconhecido pelo cognome “guru da contracultura”. A fama o precedia e o precede. Maciel, à época, tinha algum posto importante na Rede Globo, onde dirigia e orientava os roteiristas, me parece.
Com frequência passava na loja e “se quedava” horas entre os discos de jazz e papos fantásticos com o meu gerente sobre arte, e as suas formas de expressão. Eu apenas ouvia, e apre(e)ndia, hipnotizado.
Estive, no Rio, 10 anos de minha vida – 93 a 95 e 2007 a 2014. Uma coisa que a temporada carioca atenuou, mas minhas raízes gaúchas não deixaram de nutrir, foi a reverência escancarada às referências intelectuais e artísticas.
Por isso, faço esse registro. Preciso compartilhar a beleza que é poder, por uma rede social, me comunicar (me conectar) eventualmente com um sujeito que saiu jovem do RS; foi do círculo de Gláuber Rocha, João Ubaldo Ribeiro e Caetano Veloso na Bahia; trabalhou nos principais jornais brasileiros nos anos 60; fundou o Pasquim e dirigiu a redação da Rolling Stone nos anos 70 – e sofreu a perseguição do regime e resistiu!
Gostaria de estar no Rio nestes dias para participar do curso de roteiro que Maciel está promovendo na cidade. Porque o passado não se extingue e o presente está dado!
Valeu, Maciel pelo (até aqui) único comentário no post de Facebook cujo print reproduzo neste texto. Isso é pra quem sabe! E perdoe-me a tietagem explícita e pública. Sacumé, não sei com você, mas eu posso sair da aldeia, mas a província… ah, a província é global.
O apoio de Michael Moore a Bernie Sanders

BERNIE SANDERS, O “SOCIALISTA DEMOCRÁTICO” Foto: Reuters/Rick WILKING
MEU APOIO A BERNIE SANDERS
Meus caros amigos,
Quando eu era criança, eles disseram que não havia nenhuma maneira deste nosso país de maioria protestante eleger um católico como presidente. Em seguida, John Fitzgerald Kennedy foi eleito presidente.
Na década seguinte, disseram que a América não elegeria um presidente do “Sul profundo”(¹). O último a conseguir isso por si mesmo (e não como vice-presidente) foi Zachary Taylor em 1849. E então nós elegemos Jimmy Carter presidente.
Em 1980, eles disseram que os eleitores nunca escolheriam um presidente divorciado que casou novamente. O país tinha modos muito religiosos para isso, disseram. Bem-vindo, presidente Ronald Reagan, 1981-1989.
Eles diziam que você não poderia ser eleito presidente se não tivesse servido nas Forças Armadas. Ninguém conseguia se lembrar de alguém que não servira eleito Comandante-em-chefe. Ou quem tinha confessado fumar (mas não tragar!) drogas ilegais. Presidente Bill Clinton, 1993-2001.
E, por fim, “eles” disseram que não havia maneira de os democratas ganharem se um homem negro fosse o indicado para a Presidência – e um homem negro cujo nome do meio era Hussein! Os Estados Unidos da América seriam ainda muito racistas pra isso. “Não faça isso!”, pessoas se advertiam discretamente entre si.
BOOM!
Você já se perguntou por que os especialistas, a classe política, sempre afirmam que o povo americano “simplesmente não está preparado” para alguma coisa – e eles estão sempre tão errados? Dizem o que dizem para proteger o status quo. Eles não querem distúrbios.
Tentam assustar as pessoas comuns para que elas votem contra o seu melhor julgamento.
Agora, neste ano, “eles” estão alegando que não há como um “socialista democrático” ser eleito presidente Estados Unidos. Essa é a principal afirmação que chega agora da campanha de Hillary Clinton.
Mas todas as pesquisas mostram Bernie Sanders realmente BATENDO Donald Trump por duas vezes mais votos do que se Hillary Clinton fosse a candidata.
Embora as pesquisas mostrem nacionalmente Hillary batendo Bernie entre os democratas, quando o pesquisador inclui todos os independentes, então Sanders bate Trump com vantagem de 2 por 1 sobre o resultado de Hillary.
A forma como a campanha de Clinton tem atacado Sanders de “socialista” é lamentável – e surda. De acordo com a NBC, 43% dos democratas de Iowa identificam-se mais estreitamente com o socialismo (partilha, ajuda) do que com o capitalismo (ganância, desigualdade). A maioria das pesquisas apontam que os jovens adultos (18-35) em toda a América preferem o socialismo (justiça social) ao capitalismo (egoísmo).
Então, o que é o socialismo democrático? É ter uma verdadeira democracia onde todo mundo tem um lugar à mesa, onde todos têm voz, não apenas os ricos.
O dicionário Merriam-Webster anunciou recentemente que a palavra mais buscada em sua versão on-line em 2015 foi “socialismo”. Se você tiver menos de 49 anos (o maior bloco de eleitores), os dias da Guerra Fria & Commie Pinkos(²) & a Ameaça Vermelha parecem tão estúpidos como o filme “Reefer Madness”.(³)
Se o maior argumento de Hillary a respeito de porque você deve votar nela é “Bernie é um socialista!” ou “Um socialista não pode vencer!”, então ela está perdida.
O New York Times, que admitiu ter criado histórias de armas de destruição em massa no Iraque e nos empurrou para invadir aquele país, já adotou Hillary Clinton – a candidata que votou a favor da Guerra do Iraque. Eu pensei que o Times tinha pedido desculpas e se reformado. O que está havendo?
Bem, o Times gosta que seus candidatos sejam realistas e pragmáticos. E para eles, isso significa Hillary Clinton. Ela não quer acabar com os bancos, não quer trazer de volta a lei Glass-Steagall(4), não quer aumentar o salário mínimo para US$ 15 por hora, não quer o sistema de saúde gratuito como o da Dinamarca. Que é apenas não realista, acho eu.
Claro, houve um tempo em que a mídia dizia que não era “realista” aprovar uma emenda constitucional dando às mulheres o direito de votar. Eles disseram que nunca passaria porque só legisladores homens votariam na emenda no Congresso e nas legislaturas estaduais. Isso, obviamente, significava que nunca passaria. Eles estavam errados.
Disseram uma vez que não era “realista” aprovar uma Lei de Direitos Civis E uma Lei do Direito ao Voto uma depois da outra. A América simplesmente não estava “pronta para isso”. Ambas passaram, em 1964 e 1965.
Há dez anos fomos informados que o casamento gay nunca seria lei do país. Que coisa boa que não demos ouvidos àqueles que nos diziam para sermos “pragmáticos”.
Hillary diz que os planos de Bernie apenas não são “realistas” ou “pragmáticos”. Esta semana, ela afirmou que “um sistema público de saúde nunca, jamais, vai acontecer”.(5) Nunca? Jamais? Uau. Por que não desistir assim?
Hillary também diz que não é prático oferecer universidade gratuita para todos. Você não pode ficar mais prático do que os alemães – e eles são capazes de fazê-lo. Assim como muitos outros países.
Clinton encontrará maneiras de pagar pela guerra e por benefícios fiscais para os ricos. Hillary Clinton foi a favor da guerra no Iraque, foi contra o casamento gay, a favor do Patriot Act(6), a favor do NAFTA , e quer colocar Ed Snowden na prisão. Isso é o bastante para embrulhar sua cabeça, especialmente quando você tem Bernie Sanders como uma alternativa. Ele será o oposto de tudo isso.
Há muitas coisas boas sobre Hillary. Mas é claro que ela está à direita de Obama e vai nos mover para trás, não para frente. Isso seria triste. Muito triste.
Oitenta e um por cento do eleitorado é feminino, de cor ou jovem (18-35). E os republicanos perderam a VASTA maioria de 81% do país. Quem quer que seja o democrata na disputa em novembro próximo vai ganhar. Ninguém deve votar por medo. Você deve votar em quem você acha que melhor representa o que você acredita.
Eles querem assustá-lo com a ideia de que vamos perder com Sanders. Os fatos, as pesquisas, gritam exatamente o oposto: nós temos uma chance melhor com Bernie!
Trump é alto e assustador – e os liberais se assustam fácil. Mas liberais também gostam de fatos. Aqui está um: menos de 19% dos EUA são caras brancos acima de 35 anos. Então acalme-se!
Finalmente, confira este gráfico – ele diz tudo. (Nota: Hillary agora mudou sua posição e é contra TPP – Trans-Pacific Partnership.)

Eu apoiei pela primeira vez Bernie Sanders a um cargo público em 1990, quando ele, como prefeito de Burlington, me pediu para ir até um comício na sua corrida eleitoral para se tornar congressista de Vermont. Eu acho que muitos não estavam dispostos a discursar por um declarado socialista democrático naquele momento.
Provavelmente alguém de seu escritório de campanha cheio de hippies disse: “Eu aposto que Michael Moore vai topar”. Eles estavam certos. Fiz o meu melhor para explicar por que precisávamos Bernie Sanders no Congresso dos EUA. Ele ganhou e eu tenho sido um defensor seu desde então – e ele nunca me deu razão para não continuar com esse apoio. Sinceramente, pensei que nunca escreveria começando com as palavras: “Por favor, vote no senador Bernie Sanders para ser o nosso próximo Presidente dos Estados Unidos da América”.
Eu não pediria isso para vocês se não achasse que nós real e verdadeiramente precisamos dele. E nós precisamos. Talvez mais do que imaginamos.
Atenciosamente,
Michael Moore
Tradução: Henri Figueiredo – Vem comigo no Facebook e no Twitter.
NOTAS DO TRADUTOR
1) Deep South. Extremo Sul ou Sul Profundo.
2) Pinko é uma gíria cunhada em 1925 nos Estados Unidos para descrever uma pessoa considerada simpatizante do comunismo, embora não necessariamente um membro do Partido Comunista. Tem conotação pejorativa e serve para descrever qualquer um percebido como esquerdista ou socialista.
3) “Reefer Madness”, também conhecido como “Tell Your Children”, é um filme-propaganda de 1936 feito para exibição nas escolas contra o uso da maconha e relacionando-a com loucura e violência. Foi dirigido por Louis J. Gasnier.
4) A lei Glass-Steagall, ou ato Glass Steagall de 1933, estabeleceu a Federal Deposit Insurance Corporation, ou agência garantidora de créditos. A lei foi promulgada pela administração de Franklin D. Roosevelt para, basicamente, evitar um colapso financeiro sistêmico (como aquele ocorrido em 1929) e foi fundamental para o New Deal. Em novembro de 1999 foi revogada devido ao lobby do setor financeiro junto ao Congresso dos EUA. O documentário vencedor do Oscar “Inside Job” mostra como a derrubada da lei Glass-Steagall ajudou na grande crise do sistema em 2008. O cancelamento da Glass-Stegall removeu a separação que antes existia entre os bancos comerciais e os de inversão (que, fundamentalmente, especulam com ativos mobiliários de natureza não-exigível).
5) A frase original é “(…) single payer health care will NEVER, EVER, happen.” – O pagamento único de saúde (Single payer healthcare) é um sistema em que o governo, ao invés de as seguradoras privadas, paga por todos os custos de saúde. Sistemas de pagamento único podem contratar os serviços de saúde de organizações privadas (como é o caso no Canadá) ou podem ter e empregar recursos de saúde e pessoal (como é o caso no Reino Unido). O termo “pagador único” descreve apenas o mecanismo de financiamento referente aos cuidados de saúde financiado por um único organismo público a partir de um único fundo.
6) USA PATRIOT Act, a “Lei Patriótica” ou “Ato Patriota” é o decreto assinado por George W. Bush logo depois do 11 de Setembro de 2001, em 26 de outubro de 2001. Permite, entre outras medidas, que órgãos de segurança e de inteligência dos EUA interceptem ligações telefônicas e e-mails de organizações e pessoas supostamente envolvidas com o terrorismo, sem necessidade de qualquer autorização da Justiça, sejam elas estrangeiras ou americanas. Após várias prorrogações durante o governo de George Bush, em 27 de julho de 2011, o presidente Barack Obama sancionou a extensão do USA PATRIOT Act contrariando sua promessa de campanha.
[A principal fonte da maioria das notas foi a Wikipedia em inglês. Todas passaram por edição e checagem em ao menos uma segunda fonte.]
LEIA O TEXTO ORIGINAL “My endorsement of Bernie Sanders“. O documentarista Michael Moore, vencedor do Oscar por “Tiros em Columbine” (2002), divulgou esta carta dirigida aos eleitores norte-americanos na noite de 1º de fevereiro de 2016, durante o Caucus de Iowa – primeira eleição das Primárias à Presidência dos EUA. A apuração final indicou que Hillary teve 49,8% contra 49,6% de Sanders – diferença, portanto, de apenas 0,2%.
MOZART NA SELVA

A gigante do comércio eletrônico Amazon, seguindo os passos da Netflix na produção e transmissão de séries em streaming, lançou todos os 10 episódios da 2ª temporada de Mozart in the jungle no dia 30 de dezembro de 2015. Em 10 de janeiro, a produção ganhou o Globo de Ouro de “Melhor série de comédia ou musical” e o protagonista Gael García Bernal foi o vencedor como melhor ator. Assisti à 1ª temporada – que é de dezembro de 2014 – numa maratona leve e divertidíssima: cada episódio não passa de 30 minutos e, em que pese o revezamento de diretores, o roteiro de Roman Coppola é construído quase como num filme de 5 horas de duração. O universo da música clássica em Nova York é retratado tendo como base a autobiografia da oboísta Blair Tindall (hoje com 55 anos) Mozart in the Jungle: Sex, Drugs, and Classical Music. A mídia especializada informa que a série virou a sensação no meio musical norte-americano, em especial no erudito.
Bernal interpreta o jovem maestro mexicano Rodrigo de Souza, que desde os 12 anos construiu uma carreira internacional como regente-prodígio – tendo passado por várias orquestras em capitais como Buenos Aires e Oslo, por exemplo. Chegando na Big Apple para ocupar o lugar de um veterano (e ególatra) regente na fictícia New York Symphony, o sedutor Rodrigo vai aos poucos vencendo as resistências iniciais com um tremendo carisma e, principalmente, com uma enorme entrega à missão de “viver a música, viver a arte”.
Tirando alguma caracterização inverossímil para qualquer sul-americano, como o personagem andar muitas vezes com a cuia de mate e a garrafa térmica embaixo do braço – o que até poderia ser justificado pelo fato de o maestro Rodrigo ter vivido em BsAs – todas as vezes em que ele pede para a assistente americana lhe preparar o chimarrão (!) soa mais do que forçado. [Nada parecido, porém, como o choque cultural que foi para os colombianos de Antioquia ver Pablo Escobar ser interpretado por um brasileiro de Salvador, na série Narcos – da concorrente Netflix.]
O personagem Rodrigo é baseado no regente venezuelano Gustavo Dudamel, hoje com 35 anos. Não bastasse a geleia geral que os norte-americanos fazem da cultura latino-americana, como se fôssemos homogêneos, aos 20 minutos do 2º episódio da 1ª temporada há uma cena emblemática: Rodrigo (jovem maestro mexicano, repetindo, que viveu na Argentina e na Europa) passeia despreocupado por ruas e parques de Manhattan e a trilha é “Pra não parar de sambar”, do paulista Aleh Ferreira, músico de MPB que, pelo jeito, está com moral em Nova York. A sequência, no entanto, funciona. Acreditem.
Além do humor elegante, a série brinca com os esteriótipos dos músicos eruditos, despe-os das vestes formais e os mostra mundanos como todos nós. A aura aristocrática do universo clássico ganha fortes cores eróticas e psicotrópicas e a trama cria identidade com a massa consumidora da cultura pop. Uma boa série, para se divertir enquanto ouvimos falar de Mozart, Bach, Chopin, Debussy, Stravinsky, Mahler e Sibelius. Não fosse por nenhum dos outros motivos, ao menos por esse último ela já valeria a pena.
*Henri Figueiredo